Uma mão lava a outra

Todo mundo sabe, mas nem todo mundo faz: é inegável a importância de lavar as mãos como medida que promove saúde, porém, esse hábito nem sempre está incorporado ao dia-a-dia de educadores, diretores e crianças que freqüentam creches e pré-escolas. Veja nesta matéria como as instituições estão se organizando para formar hábitos de higiene entre crianças e adultos.

crianças lavando as mãos

Lavar as mãos deve ser um hábito nas instituições de ensino

Pesquisas1 demonstram que o nível de contaminação nas mãos das crianças coincide com o alto nível de contaminação nas mãos dos adultos que cuidam delas. Para combater esse mal, existe uma medida bastante eficiente: a lavagem correta das mãos. Por isso, é fundamental que as instituições educativas incluam este cuidado em seu cotidiano. Procedimentos adequados ao lavar as mãos de crianças e também de adultos é prática fundamental na prevenção de doenças respiratórias, diarréias, verminoses, hepatite A e outras doenças freqüentes na faixa etária atendida pelas creches e pré-escolas. Mas é preciso diferenciar os procedimentos utilizados por adultos (que requerem uma técnica mais precisa) da ação educativa que ajuda na construção de atitudes e procedimentos de higiene das mãos pelas próprias crianças.

1American Public Health Association / American Academy of Pediatrics, Pediatrics, 1994. Dec; 94 (6Pt2) p. 1008.

Como lavar as mãos, um ritual passo a passo

Lavando as mãos

Torneiras e pias precisam ser higienizadas com frequência

  1. Cuidados com o ambiente – As torneiras e pias onde crianças e adultos lavam as mãos precisam ser higienizadas com freqüência, pois sabe-se que, depois da contaminação das mãos, são os locais com maior incidência de proliferação de bactérias. Uma pesquisa recente em creche nos Estados Unidos comprovou que mãos, torneiras, pias, mesas e brinquedos são as superfícies mais contaminadas por cistos de giárdia*, um protozoário que causa verminose de fácil propagação em ambientes coletivos.
  2. Condições materiais – Para fazer uma boa lavagem de mãos é necessário ter: • água corrente; • sabão líquido ou sabonete; • toalhas descartáveis ou individualizadas.
  3. Ensaboamento – Esfregar rapidamente as mãos sob a água não resolve. É preciso molhar, ensaboar, friccionar toda a superfície das mãos, entre os dedos, seguindo até os pulsos, remover detritos depositados sob as unhas. Em seguida, lavar também a torneira, não esquecendo de enxaguá-la em água corrente. Dessa forma, você evita sujar novamente as mãos ao fechar a torneira.
  4. Secagem – Não adianta lavar bem as mãos e secá-las em uma única toalha utilizada pelo grupo todo de crianças e adultos. É importante secar bem as mãos em toda sua superfície, de preferência com toalha descartável de papel, ou secar bem em fluxo de ar quente. A toalha de pano, embora pareça mais econômica, pode ser uma fonte de nova contaminação, botando todo o trabalho anterior a perder. Para usarmos toalhas de pano, é preciso garantir sua individualidade, o que requer que crianças e adultos possam guardá-las em local arejado, evitando que fiquem úmidas.

*A giárdia provoca a giardíase, uma das causas de diarréias e de problemas de curva de crescimento em crianças.

Quando lavar as mãos

Adultos

  • quando chegam à instituição de educação;
  • antes de preparar ou servir alimentos;
  • depois de trocar fraldas, ajudar a criança a limpar-se após o uso do sanitário, ou quando elas próprias vão ao banheiro;
  • após limpar a coriza e demais secreções das crianças*;
  • antes e depois de dar uma medicação;
  • antes e depois de cuidar de um machucado;
  • ao manipular penicos, chupetas, bicos, mamadeiras etc.

Crianças

  • quando vêm da rua e chegam à creche ou pré-escola;
  • antes e depois das refeições;
  • antes de atividades de culinária;
  • antes de alimentar-se;
  • depois de usar o sanitário;
  • depois de brincar com areia, tinta etc.;
  • após limpar o nariz;
  • o adulto precisa lavar as mãos do bebês depois de trocar suas fraldas porque eles costumam tocar os genitais – locais que ainda não foram limpos dos resíduos de cocô e xixi – , depois se coçam, levam as mãos à boca, tocam brinquedos, chupeta, mamadeiras deles e de outros bebês, proliferando a contaminação.

*São consideradas secreções humanas saliva, secreção nasal, pulmonar, vômito, fezes, urina, secreção de ferimentos, sangue, lesões de pele.

Desenho de Júlia

“Uma Lava outra, lava uma Lava outra, lava uma Mão Lava outra, lava uma Mão Lava outra, lava uma Depois de brincar no chão de areia
A tarde inteira
Antes de comer, beber, lamber,
Pegar na mamadeira
Lava uma Lava outra, lava uma
Lava outra, lava uma
A doença vai embora junto com a Sujeira
Verme, bactéria, manda embora
Embaixo da torneira
Água uma Água outra, água uma
Água outra, água uma
Na Segunda, Terça, Quarta, Quinta-feira e Sexta-feira
Na beira da pia, tanque, bica,
Bacia, banheira
Lava uma
Mão
Mão
Mão
Mão
Água uma
Lava outra, lava uma
Lava outra, lava uma”

 
(Lavar as Mãos, Arnaldo Antunes, trilha sonora do programa Castelo Rá-Tim-Bum,
TV Cultura)

 

Como desenvolver o hábito de higiene

A abordagem com os adultos

A história da medicina revela que a humanidade levou muito tempo para relacionar higiene das mãos e disseminação de doenças. Até hoje os hospitais lutam para implantar bons procedimentos ligados à lavagem das mãos – o que demonstra que ainda há desconhecimento sobre o assunto até mesmo em meios especializados. Portanto, a informação é o primeiro passo. Seria interessante que a instituição promovesse uma reunião destinada à reflexão sobre doenças mais freqüentes, durante a qual todos os profissionais da creche ou pré-escola investigassem como as pessoas se contaminam. É preciso que todos conheçam as formas de transmissão e que possam falar sobre suas crenças e medos. Esta formação deve ter como objetivo desmistificar os cuidados com a saúde, como, por exemplo, achar que o adulto pega doenças ao tocar a criança ou que a criança pega doenças quando engatinha no chão. Essa reflexão ajuda a construir conhecimentos e cuidados mais efetivos, com base em pesquisas científicas. Nossa experiência tem mostrado, no entanto, que não basta saber teoricamente sobre a importância de lavar as mãos para torná-la uma prática efetiva. Além da informação, o educador precisa contar com condições de operacionalização e com estratégias para implementação e manutenção deste hábito para realmente incorporá-lo no cotidiano. Rever constantemente este procedimento com aqueles que já fazem parte da equipe da creche/pré-escola e praticá-lo todos os dias, adequadamente, antes de começar o trabalho com as crianças, também contribui para a formação do hábito.

A abordagem com as crianças

Aprende-se a lavar as mãos lavando, diante de uma necessidade
real. Portanto, é totalmente inadequado fazer exercícios de simulação, pedir às crianças que pintem desenhos sobre o tema, ou “dar aulas” longe da água e do sabão. Quando as crianças podem fazê-lo no cotidiano, nas situações reais, aprendem com facilidade e aproveitam para se divertir enquanto lavam as mãos.
Assim, usar o sabonete, enxaguar e enxugar constituem-se em atividades importantes de autocuidado que devem ser ensinadas e oferecidas às crianças desde muito cedo. Vale lembrar a importância dos modelos para as crianças pequenas: elas se habituam facilmente a lavar as mãos quando os adultos que freqüentam as instituições de educação dão o exemplo e consideram esta atividade como parte do trabalho.

Direto da prática:

Formação dos educadores para os cuidados com a higiene

“Na creche/pré-escola da Capela do Socorro criamos um momento de reflexão quinzenal com educadores e profissionais de enfermagem, que foi batizado Conversando com os Educadores. Isso foi possível graças à parceria com a Universidade Santo Amaro, por meio da qual alunos de graduação de enfermagem e profissionais de educação refletem sobre os cuidados com as crianças, visando à promoção do crescimento e desenvolvimento saudável, um dos objetivos da educação infantil.
Em nossa última ‘conversa’ trabalhamos com um tema escolhido pelos educadores: diarréia. Abordamos a importância e a técnica de higiene das mãos utilizando uma estratégia que possibilitou a todos a revisão deste procedimento. Cinco pessoas da equipe, entre educadores, equipe de limpeza e cozinha, tiveram seus olhos vendados e, sob as palmas das mãos, colocamos um pouco de guache. Pedimos, então, que lavassem as mãos com esta substância. Depois tiramos a venda, e foi possível visualizar as falhas evidenciadas pela ausência de tinta entre os dedos, no pulso, sob as unhas. Também pudemos observar que, ao abrir a torneira e usar a pia, esta ficava suja de tinta, podendo posteriormente voltar a sujar as mãos que haviam sido enxaguadas. Cientes das falhas, foi possível rever os procedimentos que deveriam ser incorporados à prática cotidiana.”

(Damaris Maranhão, consultora, professora de enfermagem e trabalha em projetos de formação do professor)

 

Dicas de uma creche que conseguiu desenvolver o hábito de forma adequada

“Lavar as mãos várias vezes e com cuidado passou a fazer parte da rotina das crianças e adultos. Todas as pias têm sabonete acondicionado em uma redinha de nylon comprida, dessas que vêm com limões na feira, pendurada em uma torneira, de forma que fique exposto à água corrente. As crianças secam as mãos em toalhas individuais que levam para lavar em casa, sempre que necessário. A creche empresta uma toalhinha individual para quem esqueceu de trazer a sua. Elas gostam muito de lavar as mãos, até mesmo no berçário. A partir dos dois anos, as educadoras ficam junto, ensinam e ajudam quando necessário. O objetivo é conseguir que as crianças aprendam e gostem de lavar bem as mãos.
Com os adultos foi mais difícil construir o hábito de lavar as mãos a cada troca de fraldas e após limpar secreções das crianças. Fizemos cursos na área de saúde que ajudaram a equipe a se conscientizar. Como diretora, procurei criar condições, uma rotina que favorecesse essa prática, e procuro sempre observar se todos estão fazendo o que é necessário.
Hoje as educadoras não se descuidam, por isso diminuíram muito as diarréias e as doenças respiratórias.”

(Irene Longhi, diretora da creche Casa do Saber – Osasco)

Para saber mais

  • American Public Health Association. American Academy of Pediatrics National Health and Safety Guidelines for ChildCare Programs: featured standards and implementation. Pediatrics, 1994. Dec; 94( 6Pt2).
  • Cuidados com a saúde das crianças que freqüentam creches /pré-escolas – higiene pessoal e ambiental. Damaris G. Maranhão, Manual de procedimentos do Instituto CESP Criança.
  • Processo saúde-doença na perspectiva dos educadores. Damaris G. Maranhão, Caderno de Saúde Pública da Faculdade Nacional de Saúde Pública. Rio de Janeiro.
  • Infections acquired in day care centers. In Mayhall. Hospital Epidemiology and Infections Control. Solomon & Cordell Baltimore. Williams e Wilkins, 1996.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #4 de agosto de 2000. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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