Carrinho de criação

Tornar acessíveis os materiais usados nos trabalhos de artes visuais depende do interesse, da disposição e da criatividade dos profissionais de educação

Há três anos, a Assessoria e Coordenação Pedagógica da Educação Infantil, do município de Uberlândia (MG), em parceria com o Instituto Avisa Lá, em São Paulo (SP), desenvolve a formação continuada do Programa Formar em Rede1. Uma ação constante em nossa rotina de trabalho é a coordenação pedagógica nas unidades escolares, com o propósito de dar continuidade à formação de diretores e de professores. Em nosso município, o grande investimento é potencializado na formação continuada de profissionais. Nos últimos anos, oferecemos os seguintes cursos: Brincar, Leitura em Voz Alta pelo Professor e Artes Visuais. Com isso, temos vivenciado grandes experiências!

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Fotos: Mary Angeli Oliveira Andrade

A organização dos espaços é algo que difere, embora haja traços comuns entre as escolas. Aprendemos que cada profissional tem seu próprio estilo. Como formadora, observo estratégias diversas e diferentes maneiras de os educadores imprimirem a própria estética durante o desenvolvimento de seus trabalhos. Este relato refere-se à minha observação como uma das formadoras do programa, durante uma visita ao vernissage dos alunos da EMEI do Bairro Jardim Brasília, que atende crianças de 4 e 5 anos.

Mais repertório teórico
Como formadora de uma rede de ensino, a pesquisa, a leitura e os estudos fazem parte do meu dia a dia. Em uma de minhas buscas para ampliar o meu repertório, li o texto Arte, infância e formação de professores indicado pela pesquisadora Ana Angélica Albano Moreira2, que faz referência à concepção que os educadores têm de infância e Arte, bem como sobre a possibilidade, por meio de um trabalho de formação, da prática artística dialogar com a leitura de textos teóricos e literários, imagens e poemas. O texto é sobre a importância da arte na educação de crianças pequenas e a busca de professores por técnicas e receitas que auxiliem no planejamento de atividades, esquecendo que a escola é o espaço de produção de conhecimento. É importante destacar aqui que os professores precisam entender a arte como forma de comunicação que serve para dizer o que as palavras não dizem. Concordo com a afirmativa de Ana Angélica Albano de que o modo como os professores trabalham com as crianças é determinante se comparado aos recursos materiais.

Novo olhar artístico
Com a leitura da reportagem sobre a iniciativa de um professor que havia desenvolvido uma maneira criativa de estimular os moradores de seu pequeno município a ler, fazendo uso de um carrinho de supermercado para deslocar os livros até as residências, percebi que poderia adaptar a sugestão à nossa realidade. No primeiro momento, a utilização seria para complementar a prática pedagógica no que diz respeito a novas ações que vinham sendo estudadas em nossos encontros de formação. Como uma das formadoras da escola onde atuo, senti necessidade, após nossos encontros no Centro de estudos3, de encontrar caminhos voltados para o contato dos pequenos com variados suportes e diferentes riscantes e, assim, proporcionar-lhes experimentações, pesquisas e explorações do próprio potencial de criação.

Fui entendendo que precisávamos desenvolver novos olhares e novas propostas para o conteúdo de Artes Visuais. Por meio de observações, que também fizeram parte do meu processo formativo, percebi que era preciso despertar nos profissionais envolvidos o interesse sobre o conteúdo desenvolvido durante a formação de 2009 em nosso município. Vale destacar que esse foco foi trabalhado exaustivamente. Começamos, então, a procurar alguém que pudesse doar um carrinho à nossa escola. Dias depois, lá estava ele. Surgiu, então, a ideia de transformá-lo em um suporte de artes ambulante.

Durante os diálogos promovidos nos módulos referentes ao mês de junho do Programa Formar em Rede, buscamos desenvolver melhor nossa percepção sobre o tema. Em uma de nossas pautas de encontro no Centro de Estudos, foi citado o seguinte texto:

Pescadores de vida
Diego não conhecia o mar: O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para descobrir o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai alcançaram aquelas alturas na areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: Me ajuda a olhar!”4

A partir daí, entendemos que o professor deve estimular o aluno a olhar diferenciadamente a Arte, despertando emoções, instigando curiosidades, incentivando a criatividade e oferecendo recursos diversos para a criação. Com a professora Anaara da Silva Calixto Alves, do 1º período (crianças de 4 anos), que adotou a ideia imediatamente, ornamentamos o carrinho. Como havia na sala excelentes produções sobre as obras do artista brasileiro Romero Brito5, decidimos decorar o carrinho com elas. Assim, a professora Anaara e a turma deram continuidade à proposta.

A inserção do carrinho na instituição se deu de modo natural e, ao mesmo tempo, inovador. Essa ideia instigante despertou bem-querer nos demais profissionais. As crianças das outras turmas, encantadas com a nova estratégia, também contribuíram para que o carrinho se tornasse um instrumento muito utilizado na rotina escolar. Atualmente, ele facilita o trabalho artístico em geral, pois é facilmente transportado para as salas ou para os espaços externos da unidade. Contém em seu interior vários materiais: tintas, pincéis, cordões, lãs, cola, gizes de cera, lápis de cor, esponjas, tesouras, entre outros. Ele se tornou uma excelente ferramenta de criação. É nossa oficina ambulante, e nela proporcionamos aos pequenos momentos de criatividade.

Comentários das crianças sobre o carrinho

“Quando o carrinho chega, é bom porque sei que a gente vai pintar.”
Ketlen, 5 anos.

“O carrinho parece uma carretinha. Tem pincel, bucha, tinta, brilho.”
Davi, 4 anos.

“Gosto quando o carrinho chega. A tia leva com um tantão de coisa pra gente e aí a gente trabalha.”
Maísa, 4 anos.

“No carrinho, tem pincel. Quando acaba o trabalhinho, a gente enxuga e limpa o pincel na toalha que tem nele.”
Gabriel, 4 anos.

“Eu pintei um passarinho de azul e peguei a tinta no carrinho. Dona Maricota (boneca de papel reciclado) toma conta do carrinho (ideia surgida em outra sala de 1º período).”
Samuel, 5 anos

(Mary Angeli Oliveira Andrade, formadora local do Programa Formar em Rede, em Uberlândia-MG)

1O Programa Formar em Rede é uma iniciativa conjunta dos Institutos Avisa Lá e Razão Social e conta com o apoio tecnológico da IBM. Nasceu do desejo de contribuir com o atendimento prestado às crianças pequenas por meio de ações formativas, dirigidas a diretores, coordenadores e educadores de Educação Infantil, que auxiliem a criança a construir conhecimento de modo criativo e inteligente.

2Licenciada em Artes Visuais. É professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (FEUNICAMP) desde 1997 e pesquisadora do Grupo do Laboratório de Estudos sobre Arte, Corpo e Educação (Laborarte) da FEUNICAMP, ambos em Campinas – SP.

3Centro Municipal de Estudos e Projetos Educacionais Julieta Diniz (CEMEPE) é um espaço de aprimoramento teórico-prático que promove formação continuada aos educadores da rede de ensino da cidade de Uberlândia (MG).

4A função da Arte/1, em O Livro dos abraços, de Eduardo Galeano. Coleção L&PM Pocket, Ed. LPM: Porto Alegre. Tel.: (51) 3225-5777

5Romero Britto (1963) é pintor e escultor brasileiro, radicado em Miami (EUA). É conhecido como artista pop brasileiro.

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A proposta foi ampliada…

Para finalizar, segue o relato da professora Anaara sobre a experiência: O carrinho de Artes facilitou muito o trabalho com pintura e desenho na sala, pois antes ficava tudo dentro de caixas dificultando a organização dos materiais com a turma, uma vez que na escola não existe uma sala própria (ateliê). O trabalho com Arte dentro da escola já acontecia, mas o estudo sobre Artes Visuais, do Programa Formar em Rede, permitiu que valorizássemos ainda mais as produções infantis, além de atentarmos ao nosso próprio percurso criador. Até mesmo a criança, que não conseguia criar a partir de desenhos ou pinturas, com a inserção do carrinho, foi seduzida por ele no que tange à curiosidade, criatividade e apreciação da própria criação. A partir dessa ideia, pretendemos adotar outros temas em outros carrinhos.

Ficha técnica

Programa: Formar em Rede (www.formaremrede.org.br)
Coordenadora: Beatriz Gouveia
E-mail: [email protected]
Consultora: Clélia Cortez
E-mail: [email protected]
Responsabilidade técnica: Instituto Avisa Lá
Parceiro: Instituto Razão Social
Desenvolvimento: Secretaria de Educação de Uberlândia – Minas Gerais
Endereço: Av. Anselmo Alves dos Santos, 600 – Santa Mônica. CEP: 38408-900 – Tel.: (34) 3239-2626
Site: http://www.uberlandia.mg.gov.br/secretaria.php?id=13
Formadoras locais: Celia Maria do Nascimento Tavares, Lídia Lemos Dias Cabral, Luziely de Fátima Borges Miranda e Mary Angeli Oliveira Andrade.

EMEI do Bairro Jardim Brasília
Diretora: Vânia Rodrigues da Silva
E-mail: [email protected]
Coordenadora pedagógica: Mary Angeli Oliveira Andrade
E-mail: [email protected]
Professora: Anaara da Silva Calixto Alves
E-mail: [email protected]

Para saber mais

Livros

  • Arte, infância e formação de professores: autoria e transgressão, de Luciana Esmeralda Ostetto e Maria Isabel Leite. Coleção Ágere. Ed. Papirus. Tel.: (19) 3272-4500. E-mail: [email protected] Site: http://www.papirus.com.br
  • O espaço do desenho: a educação do educador, de Ana Angélica Albano Moreira, Coleção Espaço 04. Ed. Loyola. Tel.: (11) 2063-4275. Site: http://www.loyola.com.br

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #43 de agosto de 2010. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF através de nossa loja virtual – https://loja.avisala.org.br

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