A Pandemia Coronavirus, o isolamento social e seus reflexos para a Educação Infantil – 2

O cuidado na escola e na família

Cisele Ortiz

No texto anterior desta série abordei a relação Escola/Família. Pensar nessa dupla remete à questão dos cuidados, vamos a eles.

Uma questão que me atravessa neste momento de isolamento social é que possamos falar finalmente sobre cuidados. Uma das 10 competências gerais da BNCC refere-se ao autocuidado e autoconhecimento [1]. Quando começamos a aprender a nos cuidar?  É possível realizar uma educação sem cuidado?

Todos os especialistas, de várias áreas de conhecimento, afirmam que os bebês desenvolvem uma relação especial com quem cuida deles. Os cuidados que as crianças recebem dos adultos as ajudam a construir sua personalidade, a estabelecer relações afetivas, de confiança nas pessoas e no mundo.  Apaziguar os bebês, dar-lhes colo quando choram, conversar com eles são cuidados iniciais de nossas vidas, porém, mesmo adultos,  quando  passamos por situações difíceis , recuperamos estes gestos,  em nosso inconsciente para poder nos autoconsolar .

Os cuidados físicos para com os bebês e as crianças pequenas, passam por diferentes momentos na jornada da EI: o acolhimento cotidiano na hora da entrada (a voz, o olhar, o colo  ou o abaixar-se se para receber a criança, com foco nela, nas suas reações  ), os momentos de alimentação, a troca de fraldas, de roupas, o banho, o aconchego no sono , são referências fundamentais para  a criança aprender a cuidar de si mesma. Conforme a criança cresce e se desenvolve, podendo ser incentivada pelo adulto e orientada por ele, poderá se servir na hora do almoço, trocar sua própria roupa, lavar as mãos com propriedade, escovar os dentes, acomodar-se para repousar, usar o banheiro e saber se limpar, limpar seu nariz, cuidar dos ambientes que usa , seja a sala, o refeitório, o banheiro ou o quintal.

Cuidar também é tratar, o bom trato, paciente, terno, gentil  e que valoriza o que acontece entre o adulto e a criança na relação de cuidado, como uma colaboração, uma narrativa única entre duas pessoas, oferece às crianças a oportunidade de consciência de si, de autorregulação, individualidade necessária na convivência com as outras crianças.

Os cuidados físicos e psíquicos , na linha de que não se separa corpo e mente , serão educativos se promoverem de fato o desenvolvimento da criança, por meio do diálogo, do tempo necessário de que a criança precisa para observar, pensar e agir; da valorização de suas demandas e das respostas que tem das diferentes situações cotidianas de seu entorno e da uma parceria genuína entre adultos e crianças.

As situações de cuidados podem ser nesse momento um mote tanto para a formação de professores, como para o diálogo profundo entre escola e família, identificando os diferentes modos de cuidar-educar da casa e da escola, mas ambos fundamentais para a vida coletiva e para a construção de conhecimentos das crianças.

[1] Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo- se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas.

Imagem: Fita de Moebius
http://cadaumveaquiloquesabe.blogspot.com/2011/02/7-de-fevereiro-superficies-nao.html

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