A Pandemia Coronavirus, o isolamento social e seus reflexos para a Educação Infantil

Renovar-se é preciso!                                                                                               

Cisele Ortiz
Longe de defender a educação domiciliar e a educação a distância para as crianças da Educação infantil, gostaria neste momento de pensar, junto com vocês, algumas situações que sempre me inquietaram e que talvez o momento nos ajude a aprofundar as reflexões e, quem sabe, avançar em algumas posturas e proposições.

Este é o primeiro de uma série de três textos sobre Educação Infantil, Família, Cuidados e Cultura. Espero que eles possam contribuir para o debate sobre questões que nos afetam no atual contexto.

Educação Infantil e Família.
A primeira questão que surge é o quanto ao longo de sua história, a escola afastou a família de seu cotidiano, assumindo um saber de especialista e uma proposição antagônica ao ambiente doméstico, não reconhecendo que as crianças crescem, desenvolvem-se e aprendem em ambos os ambientes, a partir de diferentes conhecimentos, propostas e afetos.  As famílias sabem muitas coisas e nunca foram reconhecidas em seu saber e em sua cultura, como significativos para as crianças e para adentrar a escola.  Esse afastamento gerou muitas consequências como a falta de empatia e de comunicação real e significativa entre estas duas instituições responsáveis pelas crianças.

Mesmo as crianças ficando 10 horas na escola, a família é sempre a depositária do que é entendido de como “fracasso” escolar, como aquela que sempre “está devendo”, ou de “falhas” em sua educação de forma mais ampla.

Tenho percebido que, na vontade de ajudar as famílias, as escolas, e em especial as secretarias de educação, não abriram canais efetivos de comunicação que envolvam a escuta dos familiares e das crianças em suas necessidades, suas dificuldades, suas dúvidas. Em parte por não acreditarem no potencial de enriquecimento coletivo que podem oferecer umas às outras pelas próprias soluções que dão a seu dia a dia.

A ideia que vejo continua na lógica de “ensinar” a família, a cuidar, a brincar e a interagir com seus filhos, sendo que elas fazem isso desde que “sonharam” ter uma criança por isso precisam ser compreendidas em seus modos de cuidar e de educar seus filhos.

Alguns me dizem, “ah, mas as famílias só querem saber quando as aulas vão voltar, ou como receber o auxilio alimentação, ou como se inscrever no Cadastro Único”. Vejo que estas questões são tão legítimas como outras e podem ser a porta de entrada de uma relação, que não vai ficar só aí. Se formos capazes de informar as famílias e auxiliá-las nessas questões, estaremos abrindo um canal de comunicação, valorizando a confiança que as famílias depositam nas escolas e que pode avançar na direção de conhecer a criança, seu potencial, seu modo de ser e estar no mundo. Interagindo entre seus pares, irmãos, pais, mães, avós ou outros responsáveis com os quais as crianças convivem também podem aprender outras formas de exercer seus papéis na educação dos pequenos e compartilhar dúvidas, dificuldades na interação, compartilhando soluções em comum.

Além disso, vejo como positivo as famílias quererem compartilhar relatos escritos, fotos, vídeos das gracinhas de seus bebês, para que os valorizemos também ao elogiarmos e assim afirmarmos o papel e o valor de pais como pais.

Outros me dizem que nem tudo são flores, pois algumas famílias são violentas e abusam das crianças ou as maltratam [1]. Sabemos sim que isto é verdade e que os índices são altos e que isso pode acontecer em famílias de diferentes níveis sociais, mas também sei que uma das formas de revertemos os níveis de violência é apostar numa educação de qualidade para todos com equidade e efetividade.

Além disso, a escola, enquanto equipamento público faz parte da rede de proteção social, sempre fez, não só nesse momento, mas também quando no seu funcionamento normal.  Ou seja, sempre fica uma questão: quanto a escola se abre para atuar em conjunto com os outros atores e equipamentos públicos que estão em seu mesmo distrito para promover a inclusão, a equidade e a ajuda necessária às famílias, não só em momentos de crise como o que estamos vivendo agora?

Fala-se tanto em parcerias, atuação em rede, na intersetorialidade, construção de conhecimentos em colaboração, isto começa na creche e segue por toda a escolaridade da criança, nos diferentes desafios de cada faixa etária. Por isso, neste momento, é importante abrir ou fortalecer os canais de comunicação já existentes com as famílias.

Cada um desses atores tem seu papel, não é uma inversão, a proposta é que cada um fale de seu lugar, como pai, mãe ou professor e aproveitar a janela de oportunidade que se abre nessa interlocução para que produza algo novo e original na relação.

[1] Mais dados e informações nesta reportagem relativamente recente: https://veja.abril.com.br/brasil/brasil-registra-diariamente-233-agressoes-a-criancas-e-adolescentes/

Imagem: Fita de Moebius
http://cadaumveaquiloquesabe.blogspot.com/2011/02/7-de-fevereiro-superficies-nao.html

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