Em Português bem escrito

Trabalhando a revisão de textos bem escritos, em grupos e individualmente, auxiliamos as crianças a aprender ortografia e pontuação desde a 1ª série

Neste artigo está o resultado de um semestre de trabalho intenso na 1ª série. Para entendê-lo em toda sua magnitude é preciso contar um pouco dos bastidores deste contexto de trabalho. As crianças dessa classe convivem com as práticas sociais de leitura e escrita desde as séries anteriores. A escola entende que a leitura tem um papel fundamental para o desenvolvimento da capacidade de produzir textos escritos. Através da leitura, as crianças entram em contato com toda a complexidade da linguagem escrita, com as diferentes funções comunicativas dos textos, ampliam o repertório textual e a condição de produzir os próprios textos, entre outras possibilidades. Quando as crianças ainda não sabem ler, é a professora quem realiza as leituras.

Com todo esse investimento, conseguimos fazer com que as crianças iniciem o ano já alfabéticas e com bastante familiaridade com os contos de fada. No entanto, para reescrevê-los, não basta apenas ter familiaridade com esse tipo de texto, é preciso conhecer melhor as regras que organizam este tipo particular de discurso. Podemos pensar que os contos de fada são a cena completa e a professora propõe diferentes focos de análise para partes dessa cena. Em diversos momentos, as crianças dedicavam seu esforço intelectual e atenção para alguma das partes: a linguagem escrita, a descrição dos personagens, os organizadores textuais, a grafia correta das palavras etc. Considerando as necessidades de aprendizagem do grupo, este projeto foi a escolha certa e precisa.As reescritas resultantes são uma amostra da competência escritora desses pequenos estudantes.

O projeto de reescrita de contos
A elaboração de fitas gravadas de recontos (uma para cada criança e outras para circularem pela escola) e o livro de reescritas para ser colocado na biblioteca da escola foram produtos finais de um projeto complexo de leitura, escrita e oralidade com duração de um ano inteiro. A etapa mais significativa do projeto aconteceu mesmo no segundo semestre do ano, com as revisões sistemáticas, em duplas, de textos que já haviam escrito e reescrito e com a reescrita individual. Para essas revisões, as crianças tiveram que coordenar tudo aquilo que já tinham aprendido sobre contos de fada e sobre a gramática da legibilidade (veja abaixo). Mesmo em se tratando da escrita de histórias conhecidas, não foi fácil para elas, pois tinham que pensar na linguagem mais adequada, encadear as idéias, fazer todas as revisões, tendo em vista a ortografia e a pontuação, passar a limpo, fazer as ilustrações… enfim,muito trabalho!

O que se descobre em uma segunda revisão
No início do semestre, revisamos as reescritas em duplas e percebemos que as crianças ainda poderiam aprimorá-las, pois conseguiriam fazer melhores descrições dos personagens, dos lugares e das paisagens. Afinal, no primeiro semestre havíamos realizado um trabalho sistemático de textos bem escritos1 e correções coletivas, o que ampliou ainda mais o repertório de contos que as crianças possuíam. Arregaçamos as mangas e iniciamos um novo jeito de fazer as revisões: os textos já reescritos passaram a ser digitados por mim e cabia às crianças se concentrarem nas melhorias das descrições e utilizarem o recurso do asterisco numerado para complementá-las. Esse recurso foi introduzido numa atividade de correção coletiva. Nela, enfatizamos a necessidade de utilizar recursos que facilitassem e operacionalizassem tanto a correção quanto a leitura para verificar se o texto estava bom. Chamamos esse procedimento de revisão da linguagem.

Interessante notar que as descrições se enriqueceram da mesma maneira que os novos recursos de revisão passaram a ser utilizados com facilidade pelas crianças, porque, ao se debruçarem sobre as reescritas já digitadas,  conseguiam organizar melhor a própria revisão, visualizando mais seus erros.  E, a cada semana, melhoravam as reescritas e os detalhes da linguagem, como vemos nos exemplos a seguir:

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Revisões semanais utilizando o recurso do asterisco

 

Concomitantemente às reescritas com preocupação em relação à linguagem e ao estilo, mantivemos um trabalho semanal voltado para ortografia e pontuação. A última revisão das reescritas em duplas foi “trocada”, ou seja, acreditando na compreensão das crianças sobre algumas regras ortográficas e de pontuação, requisitamos que essas revisões fossem feitas por duplas diferentes. Com essa proposta, também permitimos que um leitor diferente, além dos próprios autores e da professora, lesse a história, dando seu parecer e podendo até interferir no texto.

O desafio do trabalho individual
Depois do intenso trabalho em duplas chegamos ao grande desafio: a reescrita individual para compor o livro.A primeira dúvida de algumas crianças foi a escolha da história. Dentre tantas possibilidades, qual escolher? Outras foram certeiras, optando pelo seu conto favorito e iniciando a escrita do roteiro2:

O mesmo processo de escrita e revisão que já tínhamos feito em duplas passou a ser adotado com as reescritas individuais. Como as crianças já tinham adquirido intimidade com esse jeito de revisar, isto é, a revisão a partir do texto digitado, para em seguida usar os asteriscos e efetuar as modificações, logo que viam na nossa rotina o momento destinado para reescrita, me cobravam sem pestanejar:

— Debora, você já digitou a minha reescrita, né?

Percebemos que a motivação para as reescritas individuais foi bem grande, apesar de o desafio também ter aumentado. Sempre procuramos enfatizar que escrever não é fácil e o “frio na barriga” frente ao papel vazio é comum a todos os escritores. Assim, acreditamos que as crianças se sentiram cada vez mais autoras de suas histórias e versões, o que era um dos grandes objetivos deste projeto.

A orientação da professora
Também introduzimos um novo recurso para agilizar as revisões e tornar as crianças mais autônomas nesse momento: passamos a escrever bilhetinhos, mostrando em que elas deveriam pensar melhor, ora com sugestões, ora com indicação de revisão ortográfica ou de pontuação, com cores e grifos diferenciados. Assim, o nosso livro foi se constituindo, e a etapa final do trabalho foi passar os textos a limpo, em letra cursiva e com um capricho todo especial.

O trabalho com ortografia e pontuação
Nosso trabalho com ortografia e pontuação sempre teve como ponto de partida o texto. Assim, acreditamos que, quando uma criança escreve um texto que tem um propósito comunicativo e social bem definidos, ela busca fazer essa comunicação da melhor maneira possível. Por esse motivo, o trabalho com a gramática da legibilidade (ortografia e pontuação) deve estar totalmente ligado ao texto. Este, por sua vez, não pode fugir do contexto, ou seja, o empenho das crianças passa a ser potencializado quando há um sentido no que está sendo feito. Dessa maneira, as normas do código lingüístico que as crianças utilizam socialmente devem ajudá-las nessa tarefa. Cabe à escola colaborar para a compreensão dessas regras. Portanto, concordamos com Morais3, quando afirma:

Incorporar a norma ortográfica é conseqüentemente um longo processo para quem se apropriou da escrita alfabética.(…) Enfatizo que o ensino sistemático de ortografia não se pode transformar em “freio” às oportunidades de a criança apropriar-se da linguagem escrita pela leitura e composição de textos reais. (grifo do autor) Assim, desenvolvemos um trabalho a partir de diferentes situações didáticas em que as crianças eram levadas a refletir sobre a escrita das palavras. Sabemos, através de pesquisas, que as crianças sabem falar sobre o quê e como escrevem e até mesmo compreendem as bases das dificuldades ortográficas que podem ser de regularidades (precisam de alguma regra) ou de ir regularidades (não possuem regras e é preciso memorizá-las ou buscar em diferentes recursos, como dicionário ou lista de palavras) da nossa língua. No entanto, na produção escrita, as crianças preocupam-se com a linguagem e com a adequação do texto ao seu gênero e se “esquecem”, num primeiro momento, da escrita correta de algumas palavras. Portanto, é prioritariamente nas revisões que a ortografia pode ser focada. Daí, se a criança possuir recursos para enfrentar as dúvidas que aparecem nesta situação, seu texto ganha uma qualidade maior e passa a existir e ser compreendido socialmente. Nestas “discussões ortográficas”, procuramos prover os recursos citados acima, que vão desde o uso correto do dicionário até a compreensão das listas de palavras e criação de suas regras.4

Roteiro de reescrita individual com os aspectos principais da história

Roteiro de reescrita individual com os aspectos principais da história. A dupla Isabela e Natasha revisa o texto dos colegas Pedro e Vanessa

 

 

As situações que propúnhamos partiam, portanto, das reescritas e passavam a enfatizar uma determinada dificuldade ortográfica. Por exemplo, o uso do S. Fizemos um ditado com foco5 nas palavras que davam margem a essa discussão. Num outro dia, colocamos em listas os diferentes usos do S, e essa lista foi crescendo, à medida que novas palavras aumentavam o repertório das crianças. Um terceiro momento foi a escrita de um cartaz com as regras que norteavam a grafia correta daquelas palavras para que o grupo pudesse consultar quando preciso. Procedimentos semelhantes foram feitos com outras dificuldades ortográficas por regularidade, como foi o caso do uso do AN-AM-ÃO-Ã. Nesse caso, porém, a reflexão foi mais aprofundada, pois se tratava também de uma discussão acerca dos aspectos ligados à categoria gramatical – verbos que, no passado, erminam em AM e, no futuro, terminam em ÃO.

A pontuação foi trabalhada de uma maneira similar ao trabalho feito com a ortografia, pois partíamos de um determinado texto, com uso social muito claro e conhecido pelas crianças, e buscávamos pontuá-lo da maneira mais apropriada. É preciso deixar claro que a pontuação também diz respeito a normas de uso social, visando otimizar a comunicação, do ponto de vista de quem lê. Portanto, assim como a ortografia, a pontuação é determinada pela cultura na qual é utilizada.

Assim, promovemos situações em que o uso social da pontuação se tornasse o foco de estudo e discussão para as crianças. Fizemos algumas atividades, além daquelas de revisão das reescritas, com textos conhecidos: utilizamos adivinhas e piadas. Nessas situações didáticas, as crianças discutiam em duplas a melhor maneira de se pontuar uma piada, para que ficasse mais divertida. Num segundo momento, montamos uma discussão em grupo, com as piadas na lousa, pontuadas de maneiras diferentes pelas duplas. Cada dupla justificava por que tinha usado determinados sinais. Falamos das maneiras mais apropriadas de utilizá-los: pontos de interrogação, final, exclamação, reticências, letra maiúscula etc.

Professora: Por que tem o ponto de interrogação aqui?
Criança: Porque ele tá perguntando uma pergunta.
C: É uma piada.
P: E precisa de uma pergunta?
C: Sim…
P: Por que vocês usaram os dois pontos depois da resposta?
C: Porque é como se fosse a resposta depois. Como nos nossos desafios, que têm dois pontos também.
P: Então vocês acham que, assim, fica com mais cara de piada?
C: Sim.
P: Como é que se conta uma piada: a gente fala a pergunta e já dá a resposta?
C: Não, a gente pára.
C: A gente pergunta, depois espera a pessoa responder.6

Enfim, foi interessante observar que o trabalho com ortografia e pontuação aconteceu paralelamente ao projeto e, dessa maneira, foram complementares. O grande objetivo era que as crianças escrevessem sem medo, com um sentido social, e utilizassem, com autonomia, alguns recursos para aprimorar suas escritas. E, graças ao empenho de cada uma, conseguimos!

(Débora Samori, professora da 1ª série da See-Saw Panamby Bilingual School)

1Situação didática em que é feita uma revisão coletiva de texto e, em vez dos erros, são enfatizados e discutidos os acertos que o autor “provocou”, do ponto de vista da linguagem.
2Etapa primeira, em que as crianças escrevem as partes importantes da história, que não podem ser esquecidas.
3MORAIS, Artur Gomes de. Ortografia: ensinar e aprender. 4ª. Ed. Ática: São Paulo, 2002.
4Trecho do meu diário – setembro.
5Situação de aprendizagem sugerida por Morais, op. cit.
6Transcrição de parte da discussão sobre pontuação – outubro.

 

Regras escritas pelas crianças em seus cadernos

Regras escritas pelas crianças em seus cadernos

 

Gramática da legibilidade

Mas o que vem a ser essa “gramática da legibilidade”? Em primeiro lugar é importante notar que a expressão é uma metáfora, que o termo gramática aqui é utilizado por analogia e não no sentido estrito. Parkes descreve-a como:“um conjunto de procedimentos de escrita cujo objetivo é instruir a leitura”. E como a pontuação instrui, orienta o leitor? Ela o faz dividindo o texto em unidades de processamento de leitura.
(Telma Weisz. Pontuação: a gramática da legibilidade. PROFA – MEC)

Para saber mais

O projeto
Objetivo didático: Trabalhar com a reescrita de contos de fada, promovendo situações de revisão da linguagem escrita, ortografia e pontuação.

Objetivo compartilhado com as crianças: Produzir um livro de reescritas de contos de fada e uma fita cassete com as histórias recontadas pelo grupo para doar à biblioteca da escola.

Conteúdos / Gostaríamos que os alunos aprendessem a:

  • aproximar-se da linguagem escrita desse gênero (contos de fadas);
  • adquirir fluência nos recontos;
  • de reescritas coletivas, em duplas e individuais, com entusiasmo e prazer, respeitando a opinião e participação dos colegas;
  • reescrever contos, considerando a estrutura específica desse gênero lingüístico;
  • compreender o propósito comunicativo da ortografia e da pontuação, utilizando com certa autonomia seus recursos (listas de palavras e de regras elaboradas pelas crianças, dicionário);
  • revisar seus próprios textos (coletiva e individualmente), utilizando recursos estabelecidos com todo o grupo (asteriscos numerados, bilhetes de revisão e destaque de palavras por cores);
  • confeccionar ilustrações para cada conto; refletir sobre a importância de cada etapa da escrita de um livro (sumário, prefácio, apresentação, paginação etc.).

Etapas de Trabalho:

  • Escrita de listas de contos de fada conhecidos.
  • Seleção dos contos preferidos pela classe.
  • Situações de revisão de textos bem escritos.
  • Recontos em grupos e, posteriormente, individuais.
  • Gravação da fita de recontos (distribuição e divulgação pela escola).
  • Reescritas coletivas com revisões.
  • Reescritas em duplas.
  • Discussões sobre a importância das ilustrações.
  • Confecção de ilustrações.
  • Reescritas individuais (com roteiro sobre as partes importantes da história).

    Reescritas comentadas pela professora, prontas para serem passadas a limpo

    Reescritas comentadas pela professora, prontas para serem passadas a limpo

Ficha técnica

Débora Samori, sob a coordenação de Beatriz Gouveia.
See-Saw/Panamby Bilingual School, Rua Visconde de Nácar, 86.
Real Parque – CEP 05685-010 – São Paulo – SP. Tel.: (11) 3758-2241
e-mail: [email protected]
[email protected],
site: www.see-saw.com.br

Bibliografia

  • Além da Alfabetização – Ana Teberosky e Liliana Tolchinsky – organizadoras. Editora Ática, São Paulo, 1997.
  • O Ensino da Linguagem Escrita – Myriam Nemirovsky. Editora Artmed, Porto Alegre, 2002.
  • Ortografia: ensinar e aprender – Artur Gomes de Morais. Editora Ática, São Paulo, 2000.
  • Ler e Escrever – entrando no mundo da escrita – Anne-Marie Chartier, Christiane Glesse e Jean Hébrard. Editora Artmed, Porto Alegre, 1996.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #16 de outubro de 2003. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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