Entre! As portas estão abertas

A experiência de uma creche situada no Jardim Shangri-lá, zona sul de São Paulo, mostra o quanto os projetos são capazes de ultrapassar os muros da creche e abrir as portas para as famílias

A comunidade se beneficia da biblioteca

O hábito da leitura faz o homem interagir com seu mundo. Entramos em contato com as idéias de outras pessoas e confrontamos nossas próprias idéias, estabelecemos relações sobre temas variados, criticando, concordando ou não com o autor.

Ao ler certos artigos, livros e outros textos, nos admiramos com tanta riqueza e sabedoria de seus autores e nos sentimos instigados a compreender suas idéias. Reconhecemos a importância e o papel da leitura em nossas vidas e entendemos que ela também deve estar presente no cotidiano das crianças desde muito cedo.

Por isso desenvolvemos em nossa creche projetos e atividades permanentes ligados à leitura e narrativa de histórias, a construção de coletâneas de cantigas e brincadeiras tradicionais, a leitura de notícias de jornais e outras oportunidades de contato com o mundo da escrita.


Das boas intenções ao cotidiano da creche

Em todas as salas da creche temos uma pequena biblioteca, organizada como um canto de leitura onde as crianças podem passar alguns momentos. Criamos um ambiente agradável e aconchegante, garantimos a todas elas a oportunidade de escolher livros que desejam folhear ou “ler” com os colegas, mantendo um contato permanente com diversos portadores e tipos de textos: livros de histórias, revistas, jornais, receitas, enciclopédia, dicionário etc.

Além desses cuidados com o espaço, também planejamos atividades específicas. Todos os dias as professoras lêem para as crianças. Utilizamos o momento da leitura compartilhada como estratégia para favorecer a aproximação das crianças com o mundo letrado, ainda que não saibam ler convencionalmente.

Nas turmas de 4 anos o dia começa cedo nos cantinhos diversificados e o da leitura é bastante concorrido. As crianças pedem constantemente para lermos uma história ou outra e conversam animadamente sobre suas idéias, o que sabem, o que gostam, o que pensam:

– Eu li isto quando estava pesquisando sobre o jacaré – disse Beatriz, de 4 anos.

– Eu vi isso no Gato Zap – completa Ewerton, relacionando o que aprendeu na creche com o que viu em casa, na televisão.

– Eu não vi, eu li – responde Beatriz, reforçando ao colega a importância da fonte que a informou.

Com as crianças de 3 anos desenvolvemos projetos de reconto para apoiar a construção de narrativas, marco importante no desenvolvimento da linguagem nessa fase da vida. Mas a aproximação dos textos começa muito antes, com a presença de livros nas salas das crianças de 1 a 2 anos, que compõem o conjunto de objetos que se oferece aos pequenos.

As educadoras Fabiana Santos, Rosemeire Dórea e Maria Elianês Silva relatam com entusiasmo o resultado da mediação que elas criam, por meio dos livros, para favorecer o desenvolvimento da linguagem: por meio das observações nas atividades de leitura, percebemos o gosto que os bebês do berçário têm em ouvir histórias – contam elas.

Eles reagem expressando seus sentimentos por meio de balbucios, gestos corporais, sorrisos etc. Encantados com o que observam e ouvem, tentam imitar e responder, construindo um repertório que lhes permite iniciar uma forma de comunicação por meio de sons e gestos.

A permanência dessa atividade no cotidiano da creche ajuda as crianças na construção do hábito. Cristina Araújo dos Santos, educadora da turma de 3 a 4 anos, conta como se dedica a esse ritual diariamente: no momento de leitura com as crianças pego o livro escolhido, apresento a capa, falo o nome do autor e quem o ilustrou. Mostro as ilustrações. É sempre um momento agradável e prazeroso.

Tenho várias experiências para relatar porque estou trabalhando com o reconto: as crianças levam livros para casa e sempre trazem novidades para contar aos colegas do grupo. Numa dessas conversas, Larissa, 4 anos, contou para sua educadora o que aconteceu quando levou o livro para a casa: “Eu pedi para minha mãe e minha avó fazer a roda, sentar e fazer silêncio, e elas começaram a rir. Depois ficaram quietas na roda, e contei a história do livro ‘Quem será que fez a coisa’? para elas. Quando terminou, bateram palmas.”

É importante dizer que para isso acontecer é necessário que nós, educadoras, estejamos sempre lendo e tornando esse momento lúdico e agradável para que as crianças sintam prazer em ouvir histórias, afirmam Glauce Lea de Souza e Esilaine Silva, educadoras da turma de 3 a 4 anos.

Contar histórias para os amigos faz parte das atividades diárias

O trabalho que chega às famílias
As crianças sempre se envolveram com muito gosto nas propostas de leitura. E com o tempo isso também aconteceu com seus pais. Edna Maria de Souza, mãe de uma criança do grupo de 3 anos, conta orgulhosa: Ketlyn ainda não sabe ler, mas presta muita atenção quando estamos lendo e conta histórias que as educadoras lêem para ela na creche.

Depoimentos como os de Edna tornaram-se cada vez mais freqüentes. Escutávamos inúmeras vezes diálogos informais de familiares, com brilho nos olhos, trazendo notícias sobre as histórias ou cantigas que as crianças contaram em casa. Essas pessoas se queixavam pelo fato de que não puderam ter uma chance dessas na vida e expressavam o desejo de ter a mesma oportunidade.

Sabemos que são poucos os privilegiados que têm acesso à leitura. Então nos perguntamos: por que não fazer da creche uma comunidade de leitores? Nosso desejo era democratizar o acesso à leitura e ao conhecimento, sabendo que isso deve servir à construção de um mundo melhor.

A idéia de construir uma biblioteca para nossa comunidade foi levada pela direção e coordenação da creche como resposta ao desafio lançado pela formadora Ana Benê nos encontros que tínhamos no Instituto Avisa Lá, como parte das atividades do Programa Capacitar Extensão. Ela pediu que elaborássemos um projeto institucional para dar realidade àquele desejo. Daí surgiu a idéia de montarmos em nossa creche uma sala de leitura com livros, revistas, jornais e outros portadores de textos, aberta a toda comunidade.

Junto às ações de construção e organização do espaço físico para a sala de leitura, pensamos também em ações que integrassem funcionários, crianças e comunidade em torno de um mesmo objetivo.

Compartilhar sonhos na comunidade
Um dos primeiros passos foi procurar apoio para obtenção de um acervo.Aos livros que já possuíamos na creche, somamos muitos outros que conseguimos por meio de uma campanha, pedindo ajuda para:

  • Fundo Social de Solidariedade – Governo do Estado de São Paulo;
  • Grupo Intercáritas da Comunidade de São Pancrácio, colaborador da creche;
  • Outros benfeitores que conheciam nosso trabalho.

Além disso, também compramos muitos exemplares novos e usados com os recursos provenientes dos bazares que promovemos na creche. Enquanto esperávamos, ansiosos, a constituição do acervo, cuidamos do espaço que acolheria o que passou a ser a nossa pequena biblioteca. A sala foi montada por toda a equipe de funcionários, famílias e crianças.

Mesmo sendo um espaço adaptado, o único disponível na creche, consideramos que deveria ser claro, com estantes para separar os livros e organizá-los por tipologias de textos (gêneros, temas e autores). Também providenciamos mesas e cadeiras para estudo e pesquisa, montamos um canto com tapete e almofadas e um espaço para reunião de pequenos grupos.

Contamos com a participação e colaboração das famílias desde o início. Quando souberam que pretendíamos montar uma biblioteca, pais, mães, irmãos e avós das crianças passaram a nos procurar. Contribuíram desde a elaboração da idéia até a hora de fazer as divisórias, pintar as paredes, montar as estantes, limpar e decorar o ambiente.

Os funcionários também tiveram grande participação levando a sério o compromisso que assumimos com as famílias.Devemos a eles a separação e catalogação dos livros, que foi feita com as crianças das turmas maiores.

A escolha de bons livros e a preparação de ambientes, como esta cabaninha, são cuidados que os educadores atendem em seus planejamentos

Um espaço alternativo para todos
A biblioteca funciona de segunda a sexta-feira, em período integral, para pesquisa e empréstimo de livros para os funcionários e crianças. Das 8h às 11h e das14h às 17h é aberta à comunidade somente para pesquisa. Segundas e sextas-feiras, no mesmo horário, é possível retirar livros.

Constatamos que o espaço foi muito bem aceito por todos os envolvidos. Como foi pensado e construído por esta equipe e pela comunidade, todos se sentem donos do projeto. A procura por empréstimo de livros está sendo constante.
Vera Lucia Godói, educadora do Minigrupo, é uma das usuárias da biblioteca: isso vem auxiliando muito no meu trabalho de educadora e na minha própria formação – diz ela. Aproveito melhor meu tempo de estudo, a biblioteca é um recurso valioso para pesquisar, emprestar livros interessantes para ler com as crianças e também para minhas leituras pessoais.

A biblioteca será de grande importância para mim, que sou mãe – diz Luciana Martins dos Santos –, pois muitas vezes meus filhos pedem para contar história e eu não posso porque não tenho livros em casa. Com a biblioteca na creche poderei retirar livros para eles e para mim também. A biblioteca chegou numa boa hora porque meu filho mais velho está sempre precisando fazer pesquisa e não tem aonde ir, agora poderá pesquisar aqui na creche.

Implantar a biblioteca na creche foi muito importante para nós, porque por meio dela não só as crianças, mas também os adultos serão incentivados a ler, terão a oportunidade de cultivar o gosto pela leitura emprestando os livros da creche. Essa biblioteca representa para cada um de nós, membros da creche e da comunidade, um grande avanço – diz Ana Maria Veloso, educadora do Minigrupo. Hoje, todos têm acesso ao mundo da informação e da imaginação. Agora vai depender de cada educador continuar incentivando as crianças e suas famílias a usufruírem, da melhor maneira possível, a riqueza deste espaço.

A conquista do presente, o olhar para o futuro
Como membros de uma entidade social, alimentamos a pretensão de ajudar a construir uma sociedade melhor. Mas para isso a instituição precisa também renascer a cada dia, no exercício contínuo de sua existência. Uma sociedade democrática exige ações para além da creche, e isso não é feito sem a parceria da comunidade.

O trabalho em equipe conjuga esforços, favorecendo intercâmbio de experiências para o crescimento comum. A implantação de nossa pequena biblioteca é apenas o início. Não paramos por aí. Os desafios da sala de leitura para o ano de 2004 são:

  • Ampliar o acervo, pedindo livros para algumas escolas particulares que desenvolvam trabalho social;
  • Conseguir recursos para manter um profissional que atue diretamente na biblioteca, para auxiliar a comunidade de leitores;
  • Melhorar a infra-estrutura, ampliando os espaços para atender mais gente de modo mais confortável.

O ato de ler exige esforço mental e físico, daí a tendência de abandonar no meio do caminho esses hábitos. Caberá à equipe dessa instituição incentivar a cada dia o gosto pela leitura, garantindo o acesso aos livros, oferecendo a oportunidade de sentir prazer com uma boa leitura, colaborando para maior informação e conhecimento de todos os envolvidos.

(Benedita Machado de Mello, Coordenadora pedagógica da Creche do Jardim Shangri-lá.)

Pais, irmãos e vizinhos ajudam a construir a biblioteca

Para saber mais

Projeto Institucional: Resgatando a cidadania através do ato de ler, para melhor posicionar-se na sociedade.

Objetivos:

  • Formar uma comunidade de leitores e com isso ampliar a cidadania em cada ser humano desse grupo, seja ele criança ou adulto.
  • Construir competências essenciais para auxiliar as crianças e adultos no desenvolvimento da linguagem oral, ampliando seu universo discursivo por meio da leitura e escrita.

Objetivo Compartilhado (produto final)

  1. Organizar a Biblioteca Circulante da creche.
  2. Desenvolver atividades na biblioteca, com a participação dos pais, educadores e crianças.

Competências visadas do Gerente e Coordenador

  1. Socializar a idéia do projeto para os interessados (educadores, crianças e famílias).
  2. Realizar reuniões específicas apresentando às famílias a proposta de trabalho da creche em relação às práticas sociais de leitura.
  3. Socializar as expectativas e os objetivos esperados com esse projeto, em momentos distintos, com os educadores e famílias.
  4. Nas reuniões de formação e supervisão, estimular e assegurar momentos prazerosos de leitura, com o objetivo de mobilizar a participação ativa e efetiva no projeto.
  5. Oferecer encontros específicos que venham a estimular e despertar a importância do ambiente alfabetizador e de letramento.
  6. Trabalhar de forma agradável para seduzir cada pessoa envolvida, despertando cada vez mais o desejo pela leitura, não importando o gênero literário escolhido pelo leitor.
  7. Fazer com que as pessoas tenham consciência da importância do letramento para a vivência mais digna na sociedade atual.
  8. Levar as pessoas que se envolverem neste projeto a adquirir o hábito da pesquisa, buscando aperfeiçoar a cada dia o seu repertório, oral e escrito.
  9. Despertar interesse para que as famílias e educadores sintam necessidade de participar de eventos culturais.
  10. Organizar situações para que as educadoras e as famílias possam compreender a comunidade como fonte de conhecimento e cultura. Reconhecer a mesma como fonte de informação e buscar, por meio da pesquisa, ampliar seu repertório cultural.
  11. Fazer com que haja articulação desse projeto institucional com os demais projetos que estão sendo desenvolvidos na creche, principalmente o projeto de letramento e ambiente alfabetizador.

Conteúdos

  • Concepção sobre o desenvolvimento da linguagem oral e escrita:

– Significado do ambiente alfabetizador.

– Importância do trabalho com letramento.

  • Repertório literário:

– Apresentação dos vários portadores: livros, revistas, jornais e outros.

– Ampliação cultural da equipe de trabalho, das crianças e das famílias.

– Práticas de leitura e escrita.

– Espaço físico e recursos materiais.

Expectativas de aprendizagem

  1.  Ao final do ano, espera-se que os participantes tenham desenvolvido o gosto pela leitura e se sintam enriquecidos e capazes de continuar buscando conhecimentos através do ato de ler.
  2. Que todos que se envolveram neste projeto tenham esse espaço como fonte de leituras e pesquisas.
  3. Sistematização da rotina, para controle dos recursos, e saber garantir a participação da família, educadores e crianças na biblioteca.
  4. Que o gosto pela leitura transpareça na vida cotidiana.

Instrumentos de Avaliação:

  • Avaliação inicial

– Levantar a situação de leitura dos envolvidos.

– Definir as metas e os objetivos, avaliando os recursos do espaço e estruturação do projeto.

  • Avaliação Processual

– Pesquisar e planejar os momentos de leitura, levantar os gêneros que estão sendo mais procurados pelo pessoal da creche e pelas famílias.

– Propor momentos de encontro para valorização da leitura no espaço interno e externo da creche.

– Utilizar diferentes instrumentos de trabalho durante o processo de avaliação: observação, registros em diários e relatórios, fotografias e filmagens em vídeo de atividades desenvolvidas nos vários grupos, crianças, educadores e famílias.

  • Avaliação final:

– Avaliar a participação ativa dos envolvidos.

– Montagem de um portfólio detalhando os passos dados pelo projeto.

Bibliografia

  • A importância do ato de ler. Paulo Freire. Ed.Cortez.Tel.: (11) 4864-0111. Site:www.cortezeditora.com.br.
  • Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, vol. 3. Linguagem oral e Escrita. MEC / SEF, Brasília. Site:www.mec.gov.br.
  • Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário. Delia Lerner. Artmed.Tel.: 0800 – 703 3444. Site:www.artmed.com.br.
  • Programa de Formação de Alfabetizadores – PROFA – MEC 2001 – Unidade II – M2U6T4 – Versão preliminar do texto de apoio para a unidade 6:Aprender a Linguagem que se escreve. Bia Gouveia e Débora Rana. Site:www.mec.gov.br. e-mail: [email protected]
  • Comunidade de Leitores: Idéias para quem quer ensinar a gostar de ler. Luciana de Oliveira Camargo. Revista avisa lá, no 07. Tel.: (11) 3032-5411.
  • Apresentando a Cultura e o Mundo. Luciana Silva de Almeida. Revista avisa lá, no 10.

Ficha Técnica

Capacitar 8 – Extensão. Iniciativa: Instituto C&A de Desenvolvimento Social. Responsabilidade técnica: Instituto Avisa Lá e Centro Comunitário Jardim Autódromo – Creche Jardim Shangri-lá. Rua Gastão Penalva, 136, Jd. Shangri-lá. CEP: 04852-080.Tel.: (11) 5528-0116.

Equipe: Nair Bortoleti (gerente), Benedita Machado de Mello (coordenadora pedagógica),Ana B. G. Brentano (formadora do Instituto Avisa Lá).


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #17 de janeiro de 2004. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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