Viva a banda e a Carmen Miranda !!

Por meio da brincadeira e da música popular crianças de 3 anos conhecem um jeito de ser brasileiro
Clara - 3 anos

Clara – 3 anos

Ao planejar as primeiras atividades de início do ano, procurei um assunto que pudesse interessar às crianças de 3 anos e que fugisse um pouco dos temas tradicionais para a faixa etária. Como o carnaval estava próximo, lembrei-me das marchinhas carnavalescas de antigamente, a que dificilmente as crianças têm acesso nos dias de hoje. Apostei que os pequenos se envolveriam com o ritmo alegre, as letras divertidas e a possibilidade de cantar e dançar. A escolha das músicas possibilitou o contato com informações interessantes da época em que foram compostas e divulgadas.

Foi nas décadas de 30 e 40 que surgiram os aparelhos com válvulas e o rádio brasileiro ganhou personalidade popular e urbana com sambas e reclames (anúncios comerciais). Surgiu também o cinema falado, que sincronizava as gravações de um disco aos lábios dos atores. Artistas cantavam e dançavam para o público nas salas de cinema. O cinema sonoro levava às telas artistas e ritmos populares. Era a época dos grandes carnavais de rua: desfiles, cordões, corsos, entrudos, confetes e serpentinas; fantasias de arlequim, pierrô e colombina. Era a vez do samba e da marchinha. O carnaval seria, a partir de então, pano de fundo freqüente dos filmes. Abriu-se a era dos filmes carnavalescos, com números musicais protagonizados por astros do disco e do rádio. Foi um período de ouro para a produção musical brasileira.

Com essas informações, tive a certeza de ter à mão material rico e farto, o que garantiria maiores fontes de conhecimento e diversão para as crianças. Apresentei-lhes, nos primeiros dias de aula, algumas marchinhas de Braguinha. Foi um sucesso! Iniciar o ano com canções singelas, alegres, de rimas fáceis para decorar e brincar, favoreceu uma boa integração entre as crianças do grupo, comigo e com a escola. Mas o interesse pelas canções foi grande e se manteve, mesmo depois do carnaval. Então pensei: por que não aproveitar o entusiasmo e desenvolver um projeto de maior fôlego que estivesse ligado à música popular brasileira?

As cores, o canto e os movimentos de Carmen Miranda
Para as crianças de 3 anos, um importante objetivo do trabalho com a música é a ampliação de repertório. E eu, como professora do grupo, queria que tivessem oportunidade de conhecer um pouco da diversidade musical e cultural brasileira, ao entrar em contato com intérpretes importantes da MPB. Era uma forma de apresentar-lhes um pouco do nosso país. Por outro lado, sabendo que crianças pequenas estabelecem uma ligação muito forte com imagens e com movimentos, a escolha do intérprete a ser trabalhado não poderia ser outra: Carmen Miranda. Que outro personagem da nossa música une tão bem som, cor e movimento?

Foi assim que Carmen Miranda reviveu naquela sala, com seus balangandãs, turbantes com frutas tropicais, vestidos brilhantes e coloridos, com sua dança especial e, principalmente, com muita música. Embora Carmen Miranda tenha sido usada, até hoje, como uma espécie de símbolo do Brasil, sabemos que há uma boa dose de estereotipia na caracterização da imagem da cantora. Mesmo assim, ela é parte de nosso patrimônio cultural e artístico, ainda que muitos a considerem americanizada. Na verdade, os anos em que morou e atuou no cinema americano deixaram sua marca, mas não se pode negar o papel de destaque que possui na história da música brasileira.

O que é que a baiana tem?, um de seus maiores sucessos, foi composto por Dorival Caymmi, que se inspirou nas lembranças de sua infância. Carmen Miranda, ao cantá-lo, vestia fantasias lembrando as vendedoras ambulantes, com tabuleiros de frutas e quitutes das ruas do Rio e de Salvador. Usava torso de seda, pano da costa, bata rendada, saia engomada, brincos, pulseiras e correntes, fixando a imagem de uma “baiana estilizada”, no exterior. Foi a primeira grande estrela que representou o País para o mundo, divulgando, principalmente a música popular brasileira. E as crianças poderiam aprender tudo isso por meio de conversas, observando as imagens da época, assistindo a trechos de filmes e documentários, desenhando, cantando e dançando, sempre interagindo ludicamente com os conhecimentos, pois sabemos que, nessa fase da vida, brincar é fundamental.

Carolina - 3 anos

Carolina – 3 anos

Diferentes representações de Carmen Miranda
Em nossa primeira conversa, contei quem era a cantora, seu nome, o que gostava de usar. Falamos sobre as frutas que usava em sua cabeça, o modo como mexia as mãos e dançava ao mesmo tempo e ouvimos, em seguida, a música, “Alô, Alô…”. As crianças apreciaram tanto que pediram para ouvi-la mais de uma vez. O mais interessante foi observá-las cantando a canção, mesmo sem conhecer totalmente a letra. Foram muitas as conversas sobre a história da cantora e atriz, seu modo de vestir, de cantar e dançar. Interessadas e envolvidas, as crianças começaram a familiarizar-se com ela:

– Ela já morreu, Fê?
– Ela gostava de usar bananas na cabeça.

Nessas rodas, conversávamos também sobre sua vida. Ficaram sabendo que havia nascido em Portugal e vindo morar no Brasil ainda bebê, na cidade do Rio de Janeiro. Havia trabalhado em uma loja de chapéus, cantado na rádio e se apresentado com os músicos do Bando da Lua. Tiveram a oportunidade de conhecer seu lado de atriz e assistiram a muitos trechos de filmes onde atuava. Além disso observaram as fotos e imagens das inúmeras reportagens das quais foi alvo. As crianças foram se apropriando de muitas informações que as aproximavam cada vez mais da artista. Olhando as fotos, comentavam:

– Posso ver aquela foto que ela tá no quarto dela?
– Ela usava muitos colares e pulseiras…
– E brincos também, né?
– Aqui, ela tava lendo jornal na piscina da casa dela.

Ouvíamos as canções Alô, Alô, Taí…, Tic tac do meu coração, No tabuleiro da baiana tem…, O que é que a baiana tem?. O grupo não resistia. Alguns dançavam e sorriam, outros dançavam mais discretamente e observavam a reação dos colegas. Com mãos dadas, dançavam juntos. O figurino Carmen Miranda dava início ao nosso show: colares, pulseiras, panos, lenços, frutas, instrumentos. A grande maioria do grupo queria colocar as frutas na cabeça:

– Eu quero colocar as frutas na cabeça.
– Fê, põe a música da Carmen?
– Eu quero cantar Carmen Miranda.

Outros escolhiam alguns instrumentos para tocar e brincar de músicos.

– Eu vou ser o músico do Bando da Lua.

Ação e movimento compunham o imaginário Carmen Miranda. Ela estava cada vez mais presente, viva em nosso dia-a-dia. Familiarizadas com a cantora, com suas canções e características, as crianças evocavam sentimentos, emoções e significados em um cenário lúdico. Brincar funciona como um cenário no qual as crianças tornam-se capazes não só de imitar a vida, como também de transformála. (…) Quando utilizam a linguagem do faz-de-conta, as crianças enriquecem sua identidade, porque podem experimentar outras formas de ser e pensar, ampliando suas concepções sobre as coisas e pessoas ao desempenhar vários papéis sociais ou personagens.1

Relacionar-se com Carmen Miranda, conhecê-la, apreciá-la, estimar sua voz, suas canções, favoreceu a expressão nas mais diferentes linguagens, além da musical, da corporal e da simbólica. As crianças naturalmente desenvolveram muito a oralidade. Não se limitavam a pedir, ouvir e reconhecer canções. Com ousadia, tocavam os instrumentos e cantavam sem cerimônia. Da mesma forma, os novos conhecimentos apareciam influenciando o desenho e as produções plásticas:

– Vou desenhar os colares da Carmen…
– Eu fiz as frutas.Aqui em cima da cabeça dela!

Trechos de filmes e documentários como aliados do conhecimento
A participação dos pais, que emprestaram fitas de vídeo com cenas de filmes antigos e documentários, foi decisiva para o sucesso do projeto.O assunto provou ter interesse também para a família. Foi muito apreciado pelas crianças o documentário sobre a Tropicália, por exemplo, no qual Caetano Veloso fala de Carmen Miranda, de sua voz, de seu jeito exuberante de ser. As crianças ficaram encantadas quando puderam vê-la cantando The lady in the tutti-frutti hat com um turbante de frutas tropicais na cabeça. Pediram que eu retomasse muitas vezes a pequena parte do vídeo onde ela aparecia. Assistiram também ao trecho do filme Entre a loura e a morena, em que Carmen Miranda, entre muitas bananas, desce de um carro com a ajuda dos músicos do Bando da Lua:

Olha! Tá aparecendo a barriga dela!

Foram muitas as reações: os olhos brilhavam ao observar a artista dançando; e, sem perceberem, sentadas no chão, balançavam o corpo; olhavam e sorriam, encantadas com a cena; prestavam atenção em todos os movimentos de Carmen Miranda. Diferentes trechos de filmes, como Copacabana, em que aparece cantando Tico-tico no fubá, Banana da Terra, O que é que a baiana tem?, etc., foram apresentados para as crianças. Aurora Miranda, irmã de Carmen, também foi admirada por todos do grupo ao assistirem ao filme Você já foi à Bahia?. Outros personagens ligados à cantora passaram a ser conhecidos pelas crianças.

– Vai aparecer a Carmen Miranda?
– Não nesse filme. Quem vai aparecer é a irmã dela, a Aurora Miranda, cantando Os quindim de Yayá.
– Eu vi esse filme. Eu peguei na locadora. Lembra que eu te contei, Fê?
– Olha! O Zé Carioca!
– E o Pato Donald também…
– Eu que trouxe esse filme.

Carmen Miranda de certa forma traduz em parte a imagem positiva de ser brasileiro. A alegria, a cor, o movimento e a música fazem parte de um Brasil que gostamos de reconhecer como nosso. Ao cantar suas canções, conhecer e admirar essa artista, com certeza aprendemos muito sobre ela, mas também sobre nós mesmos!

(Maria Fernanda Velloso Vignola de Carvalho, professora do grupo 3 da Escola Logos, em 2002)

1Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil – volume 2: Formação Social e Pessoal – Aprendizagem – Brincar. Brasília: MEC/SEF, 1998, págs. 22 – 23.

Carolina, Isabel e Clara brincam de Carmen Miranda.

Carolina, Isabel e Clara brincam de Carmen Miranda.

 

Ficha técnica

Fernanda, tel.: (11) 3021-2169
e-mail: [email protected]

Para saber Mais

Bibliografia

  • Carmen Miranda foi a Washington. Ana Rita Mendonça. Ed. Record, Rio de Janeiro, 1999. Televendas: (11) 3331-6166

Filmes

  • Aconteceu em Havana – 1941
  • Copacabana – 1947

CDs

  • Carmen Miranda, vols. 1,2,3,4 e 5. Gravadora: EMI
  • A nossa Carmen Miranda – Gravadora EMI


Na Internet

  • www.sec.rj.gov.br/webmuseu/carmen.htm
  • www.samba-choro.com.br/artistas/carmenmiranda
  • www.mpbnet.com.br/musicos/carmen.miranda

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #15 de julho de 2003. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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