Entre laços e Chuteiras, a Paixão pelo Futebol – Educação Física ampliando horizontes

Jogar futebol tem sido desde sempre e a qualquer tempo um assunto dos meninos. As meninas em geral são apenas torcedoras. Mas o EGJ Santa Clara quebrou a barreira do preconceito em um projeto que colocou um grupo de meninos e meninas, entre 10 e 11 anos, para correr atrás da bola. As crianças pesquisaram sobre a história do futebol, leram crônicas, noticiário esportivo e jogaram bastante. Conheça aqui detalhes da


“Carlos Alberto” –1997 – acrílico e óleo sobre tela – 1,50 x 2,00 m – Rubens Gerchman

experiência que ampliou os horizontes de alunos e professores

Futebol parecia um bom tema. Mas eu estava confusa no início, pois não sabia por onde começar um projeto que tratasse desse assunto, no qual vários conteúdos poderiam estar presentes. Resolvi conversar com o grupo e conhecer um pouco mais do que a turma já sabia e o que não sabia sobre o futebol. Propus, na aula de educação física, um jogo: pedi que cada equipe (havia duas) levantasse o que lembrava quando pensava em futebol.

Depois discutimos sobre o que o futebol representava para cada um. Dessa primeira conversa elencamos alguns dos assuntos que estudaríamos juntos:

  • Violência no futebol;
  • A torcida e os gritos de guerra;
  • Capacidades físicas envolvidas no futebol e as alterações do corpo pela prática do futebol;
  • Diferenças entre o jogo de futebol e o futebol como esporte;
  • Fundamentos do futebol.

Para abordar esses assuntos organizei momentos de leitura de livros sobre futebol, apreciação sobre futebol a partir de vídeos e até uma visita ao São Paulo Futebol Clube. Além disso, trabalhamos na criação de hino e símbolo para o EGJ; e efetuamos jogos que atendessem às necessidades de adaptação do esporte quanto ao número de participantes, espaço físico e diferença de nível de habilidade; exercícios de alongamento e aquecimento para a prática do futebol.

Como professora de educação física aproveitei esse projeto dentro de meu eixo específico de trabalho, pois penso que através do futebol podemos entender alguns conceitos de fisiologia e praticar atividades físicas, desenvolver competências afetivas e sociais respeitando seus colegas, desenvolver habilidades motoras – como correr, andar, chutar, receber, rolar, de forma combinada – criar e respeitar as regras dos jogos.

Jogo de bola: meninos X meninas
Havia um objetivo, em especial, que me preocupou mais: desenvolver estratégias para superar os estereótipos de gênero relacionados ao futebol, pois sabia que as meninas, em geral, não gostam de futebol. Essa hipótese se confirmou na minha turma. As opiniões das meninas eram as mais diversificadas.

– Gosto muito de futebol, mas de assistir, jogar na quadra, não – afirmou Grazielle em um dos primeiros textos que eu pedi.
– Acho que futebol é chato. Não sei como os meninos gostam tanto! – completou Beatriz.
– O futebol é chato porque não é muito organizado, nem muito interessante – concordou Talita.
– Eu não gosto de futebol, porque dão muitas caneladas nas meninas … – confessou Aryane.
– Eu gosto de futebol, só que não gosto de jogar. O futebol é um esporte muito cansativo e precisa saber de muitas coisas. Além disso, tem muita briga – completou Vanessa.

Como já havia suspeitado, muitas das meninas não gostavam de futebol. Apenas duas trouxeram uma resposta mais positiva:

– Para jogar futebol vocês têm que ter agilidade, força, vontade e não ficar brigando. Eu adoro futebol, mas eu nunca fui ao estádio – disse Roberta.

– Queria dizer que o futebol é muito importante e para você ser um profissional tem que ter muita agilidade e prática. Gosto muito de futebol e sempre jogo – afirmou Carolina.

Grupo criando perguntas para a gincana

Aos poucos fomos descobrindo qual o motivo desse desinteresse. Algumas meninas contaram que suas mães ensinaram que futebol era só para menino. Mas os meninos tinham uma outra hipótese: para eles, as meninas não gostam porque não sabem jogar e se aprendessem, com certeza, gostariam.

Propusemos esse desafio às meninas. Na maioria das aulas, propunha nos últimos 10 minutos um jogo de futebol misto. Meu objetivo era observar a atuação conjunta de meninos e meninas.

Às vezes eu presenciava brigas e desorganização do jogo: as meninas ficaram apáticas e os meninos nunca passavam a bola para elas. Já esperava isso, mas sabia que ao longo das aulas esse comportamento iria se modificar, à medida que eu pudesse intervir e que as crianças fossem ganhando experiência e aprendendo novos jeitos de lidar com a bola.

Uma interface com a língua portuguesa
Além das questões de gênero, a educação física passa, tradicionalmente, pelo preconceito de achar que nesse eixo de conhecimento só se trata do corpo, nunca das competências intelectuais, como se houvesse uma cisão de fato. Isso não aconteceu em minha experiência.

Apesar de ser uma especialista da área de educação física, reconhecia que a leitura e escrita eram importantes para ampliar os conhecimentos sobre os jogos, o corpo etc. Por isso, conversei com Flávia, a professora da sala, para que ela pudesse ajudá-los na realização dos trabalhos escritos a partir dos assuntos que surgiam durante minhas aulas de educação física.

Um dos primeiros assuntos que surgiram foi a violência que todos viam nos jogos de futebol, tanto das torcidas organizadas como dos jogadores em campo, em virtude das derrotas e dos comportamentos agressivos.

Aproveitando a oportunidade, propusemos à turma que escrevesse recados que foram enviados aos jogadores e às torcidas: Os hinos das torcidas e os gritos de guerra também eram motivos para praticar a escrita.

Nessa ocasião, nos dedicamos a escrever os gritos de guerra que conhecíamos e propus que criassem outros:

“A, a, a o Corinthians vai ganhar.
E, e, e o Palmeiras vai perder
I, i, i eu vou morrer de rir
O, o, o eu vou morrer de dó
U, u, u cambada de urubu.”

“É canja, é canja,
é canja de galinha,
arranja outro time para jogar na nossa linha!”

“Pelé” – 1997 – acrílico e óleo sobre tela – 1,50 x 1,50 m – Rubens Gerchman

Combinamos também uma atividade permanente: a turma foi dividida em pequenos grupos e cada um teria de trazer de casa matérias recentes sobre futebol, de revistas ou jornais. Deveriam ler em grupo, na sala, escolher a mais interessante e resumir para que colocássemos no mural. O meu objetivo era estimular a leitura e a interpretação de texto, fazendo com que os alunos pesquisassem e lessem mais sobre futebol.

Conhecendo o próprio corpo
Muitos jovens não tinham idéia do que era alongamento e aquecimento e nem para que serviam. Expliquei rapidamente e logo fomos para a quadra tentar entender melhor. Através de exercícios específicos pude lhes mostrar qual a diferença entre os dois.

O alongamento é feito antes do aquecimento e serve para preparar sua musculatura para a atividade, porém pode ser considerado também um aquecimento. O aquecimento nada mais é do que fazer com que a temperatura interna do corpo aumente. Como parte do aquecimento fizemos exercícios de deslocamento com trocas de direções, saltitos e trotes.

Os alunos perceberam quais foram as alterações que ocorreram em seu corpo devido ao aquecimento: suor, cansaço, rosto vermelho e aumento dos batimentos cardíacos.

Aquecimento

Também falavam sobre habilidades e capacidades físicas envolvidas no futebol: velocidade, agilidade e resistência. Através de brincadeiras puderam perceber qual a diferença entre cada uma.

Fizemos exercícios de velocidade onde um fugia e todos pegavam, apostamos corridas, fizemos exercícios de deslocamento com mudança brusca de direção para trabalhar a agilidade e, por fim, um circuito com quatro estações, permanecendo em cada uma por 2 minutos com o objetivo de estimular a resistência.

Este último, com certeza, foi o que mais cansou e do qual mais reclamaram. Mas aproveitamos o cansaço para discutir sobre freqüência cardíaca. Todos puderam perceber que podiam sentir os batimentos como se estivessem “pulando de seu peito”. Conversamos sobre essas sensações, ampliando os conhecimentos dos jovens sobre o próprio corpo.

Uma visita a um estádio de futebol
Organizamos uma visita ao estádio do São Paulo Futebol Clube, e foi uma experiência fantástica! Andamos por todos os lugares: por volta do campo, as entradas dos jogadores na saída dos vestiários, o banco onde ficam os reservas e o banco da Federação, andamos sobre o símbolo do São Paulo cravado no gramado, fomos até as arquibancadas e cadeiras cativas, vimos onde fica cada torcida, equipe de rádio e TV, camarotes.

Visita ao SPFC

Por fim conhecemos o Memorial onde estão expostos todos os títulos, troféus, taças e flâmulas que o São Paulo já ganhou, além dos craques que passaram pelo time e os atletas que ganharam títulos pelo clube.

Nino, responsável pela apresentação do estádio, respondeu a muitas das perguntas da turma, tais como:
Quanto custa um ingresso; Quem decide que uniforme usar; Como sabemos quem manda no jogo; Quem escolhe as crianças para acompanhar os jogadores em campo; Onde moram os jogadores amadores?
Qual foi o título mais importante? Qual é o maior estádio particular do mundo? Onde é a concentração e o centro de treinamento? O que é patrocínio e como é negociado? Como surgiu a bola de futebol? Como foi criado o uniforme do SPFC? Como nasceu o futebol no Brasil?

E a turma toda atenta não parava de perguntar mais e mais.

Uma frase do Nino nos chamou a atenção: “A Volkswagen produz carro e nós, aqui no São Paulo, produzimos jogadores”.

Ele explicou como acontecem as peneiras, que são os testes dos quais os meninos participam com o objetivo de realizar seu sonho de ser jogador de futebol. Depois dessas peneiras os técnicos escolhem os melhores, que recebem moradia, comida, estudo e treino.

“Jogadores, vocês não podem brigar. Se alguém lhe empurrar não brigue, chame o juiz e peça falta” (William)

Quando cada um desses meninos se desenvolve, melhorando fisicamente e se tornando um forte jogador, ele é vendido, muitas vezes para times estrangeiros.

Discutimos em grupo sobre tudo o que acontece e o que é necessário para que aconteça o “evento” chamado futebol, desde os jogadores (uniformes, treino, salários), campo (cuidados e manutenção, placas de propagandas distribuídas pelo gramado, placar), times adversários (qual uniforme usar, onde ficam antes do jogo, por onde vão ao campo), torcidas (onde ficam, quanto custa o ingresso, por onde entram), rádio e TV (onde ficam, pagam ou não para ficar lá), até toda a parte de segurança tanto dos jogadores como dos juízes e torcedores.

Depois dessa visita a turma toda começou a se interessar ainda mais pelo assunto, o que exigiu que nós, professores, nos organizássemos para prosseguir com nossos treinos e estudos.

Torcedores, não brinquem no estádio com fogos, atacando um no outro. Isso pode causar mortes. (Adriana)

Futebol, tema de cinema
As duas turmas do EGJ foram visitar o estádio em dias diferentes e, no dia em que uma saiu para a visita, a outra turma assistiu ao filme Boleiros. O filme conta a história de ex-jogadores e ex-técnicos que estão em uma mesa de bar relembrando quando ainda participavam do futebol profissional.

Uns se deram bem financeiramente, outros não. O filme também procura mostrar que a carreira de jogador de futebol não é feita somente de coisas boas e que é difícil lidar com as frustrações ou sucessos do passado.

Outro filme foi Uma aventura de Zico. Os alunos fizeram uma apreciação do filme. Carolina contouque o filme conta a história de uma menina que foi sorteada para jogar futebol com o Zico e se disfarçou de menino para conseguir chegar até o fim. Essa história teve grande repercussão entre as meninas do grupo.

A turma também assistiu Futebol: programa 1, tendo como tarefa escrever uma síntese que serviria para relembrarmos a história na hora da discussão:

“Esse filme conta sobre meninos que fazem de tudo para realizar seu grande sonho: jogar futebol.

Esses meninos estavam trabalhando e deixaram sua cidade e sua família para estar num campo de futebol que fosse de verdade, não igual àqueles de seus bairros onde jogavam. Mais de 1000 pessoas foram fazer suas inscrições para realizar seu grande sonho. Um deles era o Fabrício (15 anos), o outro era o Edílson (15 anos) e o outro era o Geosmar (16 anos).

Chegou o grande dia. Eles tiveram que passar por grandes dificuldades e pelas três peneiras. O sonho dos três se realizou, Fabrício foi para o time do São Cristóvão e os outros dois foram para o Grêmio e conseguiram realizar o sonho de ser jogador profissional. Para jogar futebol tem que batalhar muito e jogar muito também.” Ariane Silva Deolindo, 10 anos

Não só o cinema, a literatura também fala sobre o futebol. Durante os meses do projeto, Flávia, professora de classe, leu para a turma diversos livros que contavam algumas histórias envolvendo o futebol.

Através dessas histórias pudemos sensibilizar os alunos para questões como discriminação, estereótipos de gênero e conteúdos abordados nesses livros. As crianças fizeram resenhas e indicações de leitura.

Diferenças do futebol como jogo e como esporte
Enquanto as crianças liam sobre futebol, eu continuava, nas aulas de educação física, promovendo jogos e brincadeiras. O próximo passo do projeto era pesquisar os jogos adaptados. Segundo definição da turma, trata-se de um jogoque podemos criar ou mudar as regras de acordo com o número de jogadores, espaço físico e nível de habilidade.

Os jogos adaptados são futebol jogo e guardam diferenças com o futebol esporte:

FUTEBOL ESPORTE

  • Se joga no gramado ou no salão
  • As regras são determinadas e fixas
  • Sempre há um juiz
  • Não existe a regra: o próximo, mas jogadores reservas que podem substituir outros

FUTEBOL JOGO

  • Pode ser jogado no campo, na praia, no parque, na rua ou em quadra.
  • Podemos mudar ou criar regras novas. São flexíveis
  • Nem sempre há um juiz
  • Pode ter próximo (rodízio de jogadores ou de times), assim todo mundo pode jogar

Dentre todos os jogos que as crianças conheciam ou que jogavam com seus amigos na rua, na escola, em parques ou praias, escolhemos seis: Rebatida, Bobinho, Gol a gol, 3 dentro e fora, Pênalti, Cruzamento e Golzinho.

Meninos no jogo adaptado: cruzamento

A cada aula realizamos dois jogos, e posso dizer que desta vez aprendi muito com os alunos, pois na verdade eu só conhecia o Bobinho. Pedi a eles que registrassem esses jogos, explicando-os detalhadamente.

A cada aula um grupo de crianças trazia seu jogo e o ensinava, para que pudéssemos jogar todos juntos. Deu certo, pois os alunos que já conheciam ensinavam aos outros.

Em virtude do pequeno número de participantes em cada jogo, todos puderam participar em forma de rodízio ou em subgrupos espalhados pela quadra. As meninas participaram muito e algumas já estavam preferindo jogar com os meninos.

Criação de jogos adaptados
A seguir, propus que as crianças criassem alguns jogos ou brincadeiras de futebol, levando em consideração número de participantes, espaço físico e nível de habilidade, conforme tinham definido anteriormente.

Elas apresentaram, respectivamente, as seguintes possibilidades:

Jogo dos passes
Número de participantes: todo mundo.
Regras: O objetivo do jogo é executar 10 passes sem deixar que alguém do time adversário intercepte a bola; O jogo termina quando alguma equipe fizer 5 pontos.

Jogo dos 3
Número de participantes: pode-se jogar 3 contra 3 e mais um no gol.
Regras: Para chutar ao gol deve-se fazer 3 passes; Não tem lateral nem escanteio; O jogo termina quando chegar ao 3º gol.

Jogo de futebol menino contra menina
Número de participantes: 7 meninas X 5 meninos
Regras: O gol de menina vale 2; Meninos não podem chutar forte; Se as meninas chutarem na trave é pênalti; Os meninos só podem chutar ao gol de fora da área; O jogo termina quando a equipe das meninas fizer 1 gol ou a dos meninos 1 gol.

Analisando o que os alunos criaram, podemos concluir que eles entenderam o que foi proposto. Essa atividade foi interessante pois, além de jogar, os alunos foram estimulados a criar e adaptar regras de acordo com as diferentes situações.

Além disso, trabalharam em grupo e colocaram em prática todos esses jogos que inventaram.

Manual do futebol: a avaliação do grupo
No fim do ano, como forma de avaliação e sistematização de tudo o que aprendemos, propus a confecção de um manual, Aprenda a jogar futebol com a turma C. As crianças tiveram de definir o fundamento e criar exercícios ou jogos para seu desenvolvimento.

Trechos do manual:
Controle de bola: Conseguir andar ou correr com a bola sem deixar que ela saia de perto. Se você não tem controle de bola as pessoas tiram a bola de você facilmente.

Exercícios que ajudam a ganhar domínio da bola:

  • Ziguezague ao redor de cones conduzindo a bola; (Patrick)
  • Andar pela quadra conduzindo a bola; (João)
  • Andar conduzindo a bola até o meio da quadra, depois chutar ao gol; (Patrick)
  • Em trios, fazer rodízio, andando e conduzindo a bola. (Patrick)

Passe: É um toque. Passar a bola para o companheiro do time. O passe é importante, porque não dá para jogar sozinho, é importante passar a bola para o seu companheiro. Para se conseguir realizar um bom passe é preciso prestar atenção, olhar para a bola e para os companheiros, ter controle de bola e boa pontaria.

Exercícios para trabalhar o passe:

 

  • Bobinho: 5 pessoas por grupo;
  • Em quartetos, um passa a bola para o outro;
  • Jogo dos 5 passes: fazer 5 passes consecutivos sem deixar que os jogadores do time adversário peguem a bola;
  • Jogo 4 X 4 : jogo tradicional de futebol, porém, para chutar a bola ao gol, é necessário fazer 3 passes ou mais. O jogo termina quando alguma equipe fizer 3 gols.

Chute: Bater o pé na bola, com força. Movimento que você faz para mandar a bola longe. Lançar a bola de algum lugar para o gol.

Tipos de chute:

  • trivela
  • três dedos
  • peito de pé
  • calcanhar
  • chapa
  • bico

Exercícios para desenvolver o chute:

  • Gol a gol: fazer duas filas, uma ao ladode cada gol. Cada um tem direito a um chute.
  • Jogo de pênalti: um de cada vez chutando a bola ao gol, executando todos os tipos de chute.
  • Em trios, fazer passes e quando chegar perto do gol realizar um chute.
  • Formam-se 5 filas com 4 participantes, de frente para o gol, mais ou menos na linha da área. Um de cada vez deve chutar a bola ao gol.

Conclusão
Acredito que os jogos desenvolvidos durante o projeto serviram como um grande estímulo para as meninas, principalmente, pois não os conheciam e nunca tinham jogado, como conta Fernanda:

“Eu achei interessante aprender todos esses jogos. Quando eu ainda não tinha entrado no Santa Clara eu não entendia muito sobre futebol. Mas agora eu sei”.

Notei que ao longo do trabalho houve grande participação das meninas, tanto nas discussões sobre o tema como nos jogos propriamente ditos. Elas se interessavam mais pelo futebol, principalmente quando jogavam com os meninos, que foram aprendendo a respeitá-las e a valorizá-las, provando que esse não é só um assunto para homens.

Meninas no jogo adaptado: pênalti

Foram muito bons a participação e o entusiasmo das meninas. Isso me deixa satisfeita principalmente porque consegui passar a mensagem de que o importante é participar de novas experiências.

Acredito ter alcançado os objetivos propostos, pois as crianças puderam ampliar conhecimentos, discutir, criar, brincar muito em grupo, respeitar os colegas e lidar com os preconceitos ligados ao gênero. Por meio desse projeto pudemos explorar o jogo em si e também aprender a pesquisar, ler e escrever, mostrando que a educação física pode e deve ultrapassar o

(Mara Guimarães Coelho, professora de educação física do EGJ Santa Clara)

Bordados de Antônia Diniz Dumont, Ângela, Martha, Marilu e Sávia Dumont sobre desenhos de Demóstenes Vargas

Para saber Mais

O projeto

Eixos predominantes: Educação Física e Língua Portuguesa
Faixa etária: 10 a 11 anos

Objetivo compartilhado com o grupo: Estudar e treinar futebol para escrever um manual com dicas sobre o jogo, para meninos e meninas.

Objetivos didáticos:

  • Desenvolver habilidades físicas e competências para armar jogadas segundo os fundamentos do futebol como esporte e suas variações adaptadas, diminuindo as diferenças entre gêneros.
  • Ampliar conhecimentos sobre futebol por meio da leitura de textos sobre o assunto: crônicas, noticiário esportivo etc.
  • Sistematizar conhecimentos adquiridos por meio da escrita para informar outras pessoas.

Conteúdos

1. Da educação física

  • Procedimentos: Saber preparar-se por meio de alongamento e aquecimento; Fazer passes. Dar diferentes tipos de chute; Manter o domínio da bola; Armar jogadas contando com a participação de todos os jogadores.
  • Conceitos: Noções de biologia e fisiologia para compreender o que acontece com o corpo quando realizamos exercícios esportivos.
  • Atitudes: Respeitar as diferenças entre gêneros; reconhecer diferentes potencialidades e valorizar a participação de todos no grupo.

2. Da língua portuguesa

  • Procedimentos: Fazer resumos e sínteses de notícias de esporte lidas no jornal; Registrar conhecimentos adquiridos (informações, regras de jogo etc.) ao longo do projeto para usar na produção final; Elaborar resenhas de filmes e livros sobre o assunto para informar outros leitores; Editar um manual com dicas para treinar futebol.
  • Conceitos: Características de um manual: estrutura e conteúdo.
  • Atitudes: Valorizar a escrita do próprio texto e de outros, sentir-se encorajado a continuar escrevendo apesar das dificuldades.

Etapas de trabalho

  1. Conhecer o que as crianças sabem sobre futebol e saber como as meninas se posicionam com relação a isso quando conversam sobre o assunto, torcem ou jogam.
  2. Organizar aulas de futebol contando com momentos para o treino coletivo de meninos e meninas.
  3. Ampliar os conhecimentos do grupo, levando-o para conhecer o Memorial do São Paulo Futebol Clube. Realizar pesquisas no local aproveitando as informações oferecidas pelo monitor do passeio.
  4. Aprofundar os conhecimentos sobre futebol assistindo a filmes e documentários sobre o assunto.
  5. Discutir aspectos ligados ao futebol que aparecem de forma transversal em vários livros da literatura juvenil.
  6. Aprofundar noções ligadas ao conhecimento do próprio corpo durante os exercícios ajudando a criança a perceber seu corpo e entender como ele funciona e por que sente tais coisas.
  7. Trabalhar com jogos e brincadeiras que ajudam a diferenciar as variações dos jogos de futebol e a definir o futebol como esporte.
  8. 8 Pesquisar variações de jogos e brincar com eles.
  9. Estudar procedimentos e estratégias importantes para o jogo de futebol e pedir que as crianças criem exercícios para desenvolver alguns deles.
  10. Propor a sistematização de todos os conhecimentos adquiridos até o momento e organizar a turma em subgrupos com tarefas de edição do manual com dicas de futebol.
  11. Distribuir o manual no EGJ.

Ficha técnica:

Iniciativa: Instituto Pão de Açúcar de Desenvolvimento Humano; Instituto Avisa lá e EGJ Santa Clara, tel.: (11) 3625-1335. Equipe: Isabel Porto Filgueiras (coordenadora de Educação Física ), Mara Guimarães Coelho e Flávia de Carvalho Coelho (respectivamente professoras de Educação Física e Língua Portuguesa).

Bibliografia

  • Parâmetros Curriculares Nacionais. MEC.
  • Pedagogia do Futebol. João Batista Freire. Ed. Midiograf. Tel.: (21) 234-6105
  • Dossiê Futebol. Revista da USP, no 22.
  • O futebol: histórias e regras. O. Duarte. Ed. Makron. Tel.: (11) 3611-0770
  • Histórias do Futebol. João Saldanha. Ed. Revan.Tel.: (21) 2502-7495
  • À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. Nelson Rodrigues. Ed. Cia. das Letras. Tel.: (11) 3846-0814
  • A pátria em chuteiras: novas crônicas do futebol. Nelson Rodrigues. Ed. Cia. das Letras.Tel.: (11) 3846-0814
  • Lembranças, opiniões, reflexões sobre futebol.Tostão. Ed. Cia. das Letras. Tel.: (11) 3846-0814 Site:www.futebol.com.br

Filmes

  • Uma aventura de Zico
  • Boleiros
  • Futebol – programa 1

Dicas de leitura

A história do futebol

O futebol chegou ao Brasil em 1894, trazido por Charles Miller, nascido no Brás, de pai inglês e mãe brasileira. Miller passou 10 anos na Inglaterra estudando. Na sua volta trouxe as regras do jogo, duas bolas de couro e uniformes para organizar os primeiros jogos na várzea do Carmo, No Brás, entre ingleses e brasileiros da Companhia do Gás, do London Bank e da São Paulo Railway.

O jogo foi logo adotado pelas escolas inglesas e americanas de orientação moderna, que admitiam exercícios físicos. A ginástica era considerada por muitos prejudicial à saúde. Até o final dos anos 20, football era esporte de elite, praticado em clubes elegantes como o Paulistano, em São Paulo, e Fluminense, no Rio de Janeiro.

Os campeonatos estaduais e o próprio selecionado brasileiro eram formados por esses clubes. Pobres não participavam. Em 1921, o Presidente da República Epitácio Pessoa se opôs à inclusão de “cidadão de cor” na seleção. Afastados das disputas oficiais e dos clubes de elite, o povo praticava football nos campos de várzea e terrenos baldios.

Desde o começo do século, operários imigrantes já formavam times no fim de semana.As crianças foram vencendo a resistência dos pais e as “peladas” acabaram revelando que o divertido era saudável.

Antes de entrar nos times, o povo conquistou seu lugar na torcida. Em 1919, 30.000 pessoas assistiram no Estádio do Fluminense à vitória do selecionado brasileiro, comandada por Friedenreich, sobre os uruguaios, o que o sagrou campeão sul-americano pela primeira vez.

Na década de 30, o football se firmou como futebol e se constituiu em um esporte de massa. Em 1932, uma equipe brasileira com muitos negros, entre os quais, Leônidas da Silva, o Diamante Negro, venceu a seleção uruguaia, classificada em primeiro lugar da 1a Copa do Mundo em 1930, por 2 X 1 em pleno Estádio Centenário, em Montevidéu.

(Texto exposto na entrada do Memorial do SPFC)

A bola e o goleiro – Jorge Amado

Conheça a surpreendente história de Fura-Redes, a bola que se apaixona, imaginem por quem…por um goleiro, que teve a sorte mudada por esse amor. Famoso por sua péssima defesa, o Cerca-Frango, como era conhecido, acabou virando herói nacional, aclamado como o imbatível Tranca-Gol, tudo por causa da paixão de uma bola: bastava ela enxergar o goleiro e pronto, passava por entre pernas dos jogadores, rodopiava e fazia os trajetos mais inacreditáveis para chegar redonda e macia nas mãos de seu herói.

Divirta-se com os detalhes desse romance nas páginas de A Bola e O Goleiro, texto de Jorge Amado. E para completar a boa dica, aproveite as belíssimas ilustrações das bordadeiras da família Dumont, a quem, aliás, devemos a capa desta edição. Distribuidora Record. Tel.: (21) 585-2000

Dicas de leitura das Criancas

O GRANDE DIA. P. Secco.
A história fala sobre um menino que se chama Rodrigo. Ele está na 6a série do ensino fundamental e hoje para ele é um dia muito especial, pois seus colegas iam disputar o fim do campeonato e o Rodrigo não pode correr. Ele gostava muito de jogos e a única coisa que ele tinha prática era com xadrez e dama. Ninguém tinha paciência para jogar com ele. No final de tudo isso Rodrigo acabou participando do time, mas não jogando bola, sendo técnico do time.
(Adriana Santos)

NOSSA RUA TEM UM PROBLEMA. Ricardo Azevedo. Ed. Ática. • Tel.: (11) 3346-3000
Este livro está falando sobre uma menina que se chamava Clarabel e que tudo que acontecia ela escrevia no seu diário. Ela não gostava das brincadeiras dos meninos (…) (Ariane Silva Deolindo)

OS GÊMEOS CORINTHIANOS. Ana Flora. Ed. Ática. Tel.: (11) 3346-3000
(…) Quando chegou domingo eles foram assistir o jogo com o pai deles e o Nico ficou querendo fazer xixi. Mas o jogo já ia começar e o pai dele não deixou. No começo do 2º tempo ele foi ao banheiro, e quando saiu ele quis um autógrafo de um jogador. O pai dele já estava preocupado, ele anunciou no microfone e o Nico entrou no estádio e começou a jogar. Ele jogou tão bem que o técnico o contratou. (Aline Cristina de S. Castelari)


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #11 de julho de 2002. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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