Entre as sombras e as luzes : um contraste que diverte e ensina

Desde muito pequenas, as crianças se encantam com a luz e prestam muita atenção às sombras e seus movimentos. Neste artigo, vocês terão a oportunidade de conhecer um trabalho sobre luzes e sombras, conferindo como crianças de 9 meses a 2 anos de idade aprenderam e brincaram com esses elementos e seus contrastes
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Jean Morette – Contes de Grimm

Luzes e sombras têm realmente sua poesia. Oscilantes, mais ou menos intensas, elas brincam, sugerem formas, movimentos e até mesmo sensações. Há muito, esse contraste tem sido utilizado para encantar, sentir e fazer sonhar, como acontece no Teatro de Sombras. Não à toa, portanto, crianças são atraídas pelo jogo das luzes e das sombras. Quem trabalha com bebês e crianças bem pequenas sabe como uma fonte de luz pode chamar-lhes a atenção, e como o simples “acende e apaga” se transforma numa divertida brincadeira.

Crianças um pouco mais velhas gostam de brincar com sua própria sombra, tentando alcançá-la como em um jogo, entretendo-se também com os movimentos que fazem e as formas que produzem, a depender da hora do dia e da posição do Sol. Há tempos também sabemos que aquilo que encanta e atrai as crianças pode ser um bom tema para a elaboração de projetos nas escolas e creches.

Além da diversão, os assuntos abordados devem trazer informações, levantar questões e possibilitar a expressão das hipóteses das crianças. Em São Paulo, a formadora Clélia; a coordenadora pedagógica Delzuita; as professoras Ana, Rita, Vera, Nadires e Vera Lúcia, do Centro Comunitário e Creche Sinhazinha Meirelles, realizaram uma interessante seqüência de atividades com luzes e sombras, em que crianças bem pequenas (entre 9 meses a 1 ano e meio) puderam observar os contrastes, brincar com os resultados derivados da experiência, adquirindo mais repertório para suas brincadeiras e explorando o espaço físico da creche a partir do jogo entre claro e escuro.

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Produzindo sombras com o corpo

Aprendendo com os bebês
A minha função como formadora de professores de Educação Infantil1 é ajudar a equipe das instituições onde atuamos a renovar sua prática de forma planejada e refletida. Para isto tenho uma atuação direta com as crianças durante oito idas em um semestre e um acompanhamento da equipe local.

Desenvolvemos em conjunto um projeto ou uma seqüência de atividades para potencializar as aprendizagens infantis. No meu primeiro dia na creche Sinhazinha, dediquei-me a observar e conhecer as professoras e as crianças. Com bebês é difícil abordar um único aspecto para trabalhar, uma vez que são diversos os interesses e necessidades.

O espaço físico do berçário da creche estava bem organizado, havia móbiles à altura das crianças, um cuidado com as cores, almofadas aconchegantes, caixas grandes que ajudam o equilíbrio dos que estão começando a andar, enfim, diversas interferências apropriadas. Contudo, senti falta do que o professor Miguel A. Zabalza chama de um ambiente de aprendizagem. Segundo ele, a palavra espaço “refere-se ao espaço físico, ou seja, aos locais para a atividade caracterizados pelos objetos, pelos materiais didáticos, pelo mobiliário e pela decoração. Já o termo ambiente refere-se ao conjunto do espaço físico e das relações que se estabelecem no mesmo (os afetos, as relações interpessoais entre crianças e adultos, entre crianças e sociedade em seu conjunto)…”.

Refleti, portanto, que o trabalho do semestre, além de uma seqüência
de atividades que seria desenvolvida, deveria também possibilitar mudanças para transformar o ambiente em um verdadeiro espaço de aprendizagem, promovendo maior interação entre adultos e crianças. Para isso, era importante pensar algumas questões com as educadoras: O que é dialogar com alguém que ainda não responde verbalmente? Por que isso é importante? Quais são as intervenções mais adequadas? Como podemos observar o resultado de nossas ações com os bebês? Como contemplar a diversidade física e de interesses?

Quando conversei com as educadoras e com a coordenadora pedagógica Delzuita sobre o trabalho deste semestre, coloquei estas indagações e me senti amparada por elas diante disso tudo. Rita e Ana me relataram o que realizavam com os bebês e me pareceram muito interessadas em aprender mais. Propus uma seqüência de brincadeiras com luz e sombra para esse grupo que foi prontamente aceita. Sugeri a filmagem dos encontros e ofereci a possibilidade de assistir a vídeos de trabalhos interessantes com bebês. Senti que ficaram animadas.
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Por que trabalhar com luzes e sombras
As crianças estão sempre nos fazendo perguntas sobre o que vêem, tocam, cheiram, experimentam. Mesmo tão pequenas e às vezes sem verbalizar com palavras toda sua curiosidade, nos demonstram por meio de gestos e ações como são capazes de pensar sobre o universo que as cerca.

Segundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil – RCNEI, “quanto menores forem as crianças, mais as suas representações e noções sobre o mundo estão associadas diretamente aos objetos concretos da realidade conhecida, observada, sentida e vivenciada. O crescente domínio e uso da linguagem, assim como a capacidade de interação, possibilitam, todavia, que seu contato com o mundo se amplie, sendo cada vez mais mediado por representações e por significados construídos culturalmente”.

Por meio de brincadeiras as crianças constroem e reconstroem noções que as ajudam na compreensão do mundo, favorecendo com isso o levantamento e o confronto de hipóteses e a aproximação com os conhecimentos socialmente construídos por meio da interação com os outros, com os objetos e diversos fenômenos da natureza e os produzidos pelo homem.

O trabalho teve como intenção oferecer às crianças experiências diversas por meio de brincadeiras com o tema luz e sombra, tais como: teatro de sombras, coreografia atrás de um lençol iluminado apenas com a luz de um abajur, brincadeiras com o corpo e as mãos com a luz de um retroprojetor e/ou lanternas, o incentivo à criação de sombras a partir de figuras, e tantas outras.

Com base nessas atividades, as crianças puderam prestar atenção a respeito das diversas fontes de luz, como, por exemplo, a luz do Sol ou as artificiais, como lanternas, abajures e retroprojetores. Segundo ainda o RCNEI, crianças expostas às atividades de luzes e sombras “poderão também observar quais são os materiais que permitem ou não a passagem de luz e selecioná-los em função da atividade que desejam realizar: se querem ver as sombras projetadas, deverão escolher materiais ou superfícies que não permitem a passagem de luz, como panos grossos; se querem modificar a cor da luz, poderão escolher tecidos e papéis translúcidos e coloridos, etc. As crianças poderão observar como se faz a sombra crescer ou diminuir na parede e observar como isso também ocorre em função da posição do sol durante o dia”.

Considerando que as crianças ainda são bem pequenas, além dessas atividades centradas no tema luz e sombra, desenvolvemos outras, paralelamente, que contemplavam o ritmo, o movimento e uma grande diversidade de interesses. O entusiasmo das educadoras pela seqüência fez toda a diferença para o sucesso da proposta, como pudemos observar em relato das educadoras (veja texto abaixo).

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No retroprojetor uma peça do brinquedo Lego

O teatro de sombras e os bebês
Sempre chego bem antes de começar a atividade para brincar um pouco com os bebês, ficar mais próxima para explorar o espaço. Nesse dia, por exemplo, aproveitei os móbiles para produzir diferentes sons e incentivei os bebês que fizessem o mesmo. Brinquei com os ursos, as bonecas e de esconder e achar com panos, coisas que eles adoram. Dessa forma, poucos me estranham no momento em que eu apresento o que planejamos.

Com a ajuda das educadoras colocamos cobertores nas janelas da sala para que tudo ficasse escuro e organizamos o cenário para apresentação do teatro. A história foi escolhida pelas próprias educadoras, porque tinham ganho, em um dos encontros de formação intercreches, os fantoches da história Bruxa, Bruxa Venha à Minha Festa, de papel cartão, próprios para teatro de sombra. O abajur que ficou próximo a mim e escondido atrás do cenário chamou muito a atenção das crianças, afinal era o único foco de luz da sala.

Quando apresentei o primeiro fantoche, que era a bruxa, ouvi lá de trás alguns gritos de espanto. De repente enxergar uma sombra se movimentar e ouvir uma voz sem saber de quem é, realmente causa um certo alvoroço. Achei interessante chamar a atenção das educadoras para os diferentes movimentos das crianças, ou seja, não é preciso exigir que todos fiquem sentados da mesma forma, na mesma posição, para que se envolvam com o que propomos.

As crianças desse grupo ainda não verbalizavam partes da história, muito menos nos diziam se estavam gostando ou não do que presenciavam. No entanto, o fato de pegarem os fantoches e se manifestarem a cada vez que um personagem diferente se apresentava em forma de sombra revelava que estavam interagindo com a proposta. Sem dúvida, as educadoras contribuíram muito para isso, pois a todo momento conversavam com as crianças e se mostravam tão encantadas quanto estas.

Assim que apresentei a história inteira, deixei que se aproximassem de mim para brincar com os fantoches; isso, porém, não teve graça nenhuma, pois não conseguiam observar o que acontecia no cenário. Para quem assistia, tudo bem, mas para quem manipulava, a única atração era pegar o fantoche com as próprias mãos, colocá-lo na boca ou amassar o arame. Resolvi então passar para o que tínhamos pensado como proposta paralela, que era brincar com lanternas pela sala, aproveitando também para oferecer os fantoches para que observassem as sombras destes produzidas com a luz da lanterna na parede.

Brincamos com a lanterna jogando a luz de um lado para outro. Nesse momento foi contagiante observar os olhares e as diversas reações das crianças! Só foi difícil dividir apenas uma lanterna para todos. É importante ter mais de uma. A idéia de oferecer lanterna para brincar é muito boa, pois começam observando o objeto em si e quando mexem a mão em que está a lanterna e descobrem o que é possível fazer, aí ninguém quer mais devolver, e se pedimos, mesmo com o maior cuidado, é choro na certa! Delzuita está providenciando mais lanternas para que todos, ou pelo menos a maioria, possam ter a sua, e para que possamos ampliar as possibilidades de brincadeiras entre as crianças.

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Imagens de plástico produzindo sombras no retroprojetor

A conversa com as educadoras
Combinamos repetir essas atividades na semana seguinte, pois temos discutido bastante a importância de as crianças vivenciarem variadas vezes as mesmas propostas. Pensamos nos seguintes encaminhamentos:

  • Brincar com as lanternas pelo espaço (mostrar móbiles, objetos, as próprias crianças);
  • Fazer demonstrações variadas com as lanternas;
  • Deixar as crianças experimentarem mexer sozinhas;
  • Sugerir que os pais façam brincadeiras semelhantes em casa.

Depois da leitura dos relatórios, apresentei o seguinte trecho de um texto, da professora Isabel Galvão, para que pudéssemos ampliar o conhecimento sobre os bebês: “(…) Se considerarmos como interação social somente as situações em que há encadeamento entre as ações dos parceiros em direção a um objetivo comum, deixaremos de tratar como tal inclusive formas de interação entre coetâneos, como situações muito comuns no primeiro ano de vida, quando, por exemplo, uma criança realiza alguma ação (empurrar um carrinho, balançar um chocalho) e a outra permanece observando. Se restringirmos o conceito à cooperação, ao olharmos esta cena constataremos ausência de interação. Contudo, se nos pautarmos num conceito mais abrangente e se estivermos sensíveis para os componentes expressivo-emocionais das condutas infantis, veremos nessas ações aparentemente paralelas e independentes, coesão e complementaridade: a criança que empurra o carrinho ou mexe o chocalho parece se exibir para o companheiro, como que alimentada pelo seu olhar atento; o observador, por sua vez, apresenta-se de tal forma absorto na atividade do outro, que é como se participasse dela, acompanhando-a por meio de seu corpo, mímica facial e outras variações posturais (…)”

A minha intenção com a apresentação deste trecho era justamente conversar sobre as reações diversas que o bebê manifesta quando estamos propondo algo. O fato de não verbalizar o que sente e pensa, de ainda não trocar com seus pares, não significa que não tenha condições de interagir com tudo o que acontece ao seu redor.

Vera, assim que terminei de ler, disse: “Pensando assim, estão sempre interagindo. Mesmo só observando estão interagindo, e o nosso papel é promover situações para isso.” Rita ainda disse “que é muito importante estar sempre atenta aos que não falam para interpretar o que querem e também para incentivar que falem”.

Retomamos o relatório de Rita e Ana para situarmos como a interação ocorreu no momento em que apresentaram a atividade com a lanterna e também na situação que propus nesse encontro. Os olhares, os movimentos e ações diversas foram mencionados por elas como formas de interação.

Brincando com lanternas

Brincando com lanternas

Um cenário iluminado
Em outro dia organizamos o espaço com um cenário feito de lençol. Iniciei organizando as crianças num tapete e apresentei a elas, na parte de trás do pano, com o auxílio de um abajur, alguns fantoches e cantei cantigas do universo infantil, como A Pombinha Voou e Roda, Roda, Roda, entre outras, realizando alguns gestos que eram transformados em sombras para a platéia do berçário.

O aluno Luiz Henrique, bastante curioso, várias vezes foi ver quem estava atrás do cenário, e eu aproveitei para chamá-lo para me auxiliar na produção de mais sombras. Fizemos Currupio, brinquei com o corpo dele como se fosse um aviãozinho, dançamos a música Nandaia. Nesse momento outras crianças vieram participar, envolvidas pelo ritmo e possibilidades de gestos que foram observados por trás do lençol:

…OLHA PALMA, OLHA O PÉ, FICA DE JOELHOS, DÁ UMA RODADINHA…

Depois disso, Vera, Rita e eu cantamos Abre a Roda Tindolelê com o auxílio do CD, realizando a coreografia que a própria música sugere:

…ME DÊ SUA MÃO, Ô TINDOLELÊ ME DÊ SUA MÃO, Ô TINDOLALÁ REQUEBRADINHA TINDOLELÊ E DE TRENZINHO TINDOLELÊ DE MARCHA RÉ…

Quando as crianças descobriram que era possível passar de um lado para outro do lençol, ou mesmo se arrastarem pelo vãozinho que ficava entre o chão e o lençol para passar para o outro lado, o foco da atividade mudou: o movimento tomou conta da sala, pois um foi indo atrás do outro como se fosse um trem, em que um imitava o companheiro.

Depois de um tempo, resolvi sentá-los novamente no tapete e apagar de vez a luz do abajur. Quando isso aconteceu, restou apenas o foco da luz da filmadora e uma cena maravilhosa: o móbile de peixes feitos com o material de transparência que estava de frente para o lençol se movimentava como um carrossel colorido.

As cores eram refletidas, e as crianças, ao observarem isso, ficaram tão eufóricas que passaram a pegar o lençol e a puxá-lo, achando talvez que fosse possível ter os peixes em suas próprias mãos. Balancei o lençol para frente e para trás e brincamos mais ainda com o movimento das imagens sobre este. Por fim, pareceu-me que o encantamento funcionou na mesma proporção para as educadoras, pois elas ficaram surpresas e admiradas com o acaso e satisfeitas em possibilitar às crianças a apreciação de imagens tão belas.

Educadora risca com giz as sombras no chão

Educadora risca com giz as sombras no chão

Refletindo com as educadoras
Iniciamos com uma avaliação desse encontro. Combinamos repetir a atividade, atentando para a organização das crianças, e destacamos as interações das educadoras nas brincadeiras. Pensamos na possibilidade de ter o lençol permanentemente na sala para que seja utilizado com freqüência pelas crianças. Em seguida lemos os registros da semana anterior e focamos a discussão nas brincadeiras realizadas pelos bebês. Questionei como observavam esta questão e Vera sabiamente nos respondeu: “O bebê brinca com o olhar de descoberta, curiosidade, diferente de uma criança de 5 anos.”

Reforcei essa idéia completando que de fato as crianças na faixa etária desse berçário (1 ano a 1 ano e meio) ainda não brincam como as de cinco anos. Por fim, encaminhei a leitura dos textos “Interações Sociais e Construção do Conhecimento” e “Nascimento de uma Pedagogia Interativa”, ambos do grupo francês Centro de Recherche de l’Education et de l’Adaptation Ecolaire (Cresas), que realizou um trabalho de observação bastante minucioso sobre as crianças pequenas, para que se ampliasse o olhar sobre a faixa etária do berçário, assim como para que se pensasse em novos encaminhamentos para o trabalho.

Uma caixa de muitas imagens
No último encontro apresentei às crianças a caixa de imagens que foi confeccionada pelas educadoras. Rita e Ana capricharam: arranjaram uma caixa bem ampla, encaparam, pintaram a parte interna de preto, furaram a parte de cima para o encaixe da lanterna e uma parte da frente em forma de círculo, para que as crianças pudessem observar a imagens.

Para apresentar a proposta, sentei todas as crianças no tapete, mostrei a caixa e por onde poderiam olhar. Luiz Henrique foi o primeiro a se levantar, e no começo foi difícil conseguir que direcionasse os olhos para o buraco da caixa que permitia a visualização da imagem. Escolheu pegar a lanterna em suas mãos, até que eu comecei a mexer a imagem dentro da caixa e fazer barulho. Ao fazer isso, Isabela aproximou-se e, na ponta dos pés, conseguiu observar o que estava dentro da caixa: três macacos sentados num sofá e depois um bebê sorrindo de pernas para cima. Luiz, logo em seguida, afastou-a e também começou a olhar, e assim Vera e as demais educadoras me auxiliaram, até que todos pudessem apreciar a caixa com suas diversas imagens.

Para finalizar, apaguei a luz e coloquei uma caixa aberta em cima de um banco para que as crianças pudessem observar todas as imagens vistas anteriormente pelo buraco. Com as educadoras Lemos juntas um trecho do texto que eu havia indicado, “Interações Sociais e Construção de Conhecimentos”, que aborda especificamente o primeiro ano de vida do bebê e como se dão as trocas. O texto menciona que as crianças esforçam-se para passar mensagens e que a comunicação se efetua com a ajuda de olhares, mímicas, gestos, posturas, vocalizações. Ana relembrou como isso acontecia com as crianças do seu grupo e retomamos alguns relatórios em que registrou observações desse tipo.

Na outra parte da conversa as educadoras leram as avaliações da nossa seqüência e passamos a discutir as aprendizagens conquistadas no decorrer do nosso trabalho.

1Esta atuação fez parte do projeto Capacitar 9, no qual quatro formadores do Instituto Avisa Lá atuaram simultaneamente, durante dois anos, na creche.

(Por Clélia Cortez, formadora do Instituto Avisa Lá e coordenadora pedagógica da Creche Central da USP)

Luzes e sombras também na Itália

Educadores de Reggio Emilia – região do norte da Itália cuja abordagem para a Educação Infantil é bastante consistente e inovadora – concluíram que, além de muito interessante, esse tema oferecia muitas possibilidades de aprendizagem para as crianças.

Segundo o que escreveram, o trabalho com luzes abarca três dimensões da percepção: a visibilidade, a experiência estética e a sensação da passagem do tempo. Ainda que as luzes estejam mais associadas à questão da visibilidade, podemos facilmente perceber que há muito de nossa percepção estética em sua presença, pois dependendo dos elementos de sua modulação, da forma e da quantidade em que aparecem, podemos sentir alegria ou medo, euforia ou letargia.

E, finalmente, a luz natural nos oferece parâmetros para que possamos perceber a passagem do tempo: mexendo com esses elementos também podemos “mexer” com o tempo como, por exemplo, numa brincadeira no escuro que represente a noite. Seguindo esse raciocínio, é até curioso pensar como as luzes, normalmente homogêneas no ambiente escolar, poderiam oferecer variações de modulação para as crianças, a depender de cada ambiente.

Dessa forma, nem todos os espaços precisariam ter luz fria: um canto de brincadeira de casinha, por exemplo, poderia ter uma iluminação mais aconchegante; nem todos os vidros deveriam ser incolores; etc. Além de oferecer novas percepções às crianças, o trabalho com luzes e sombras possibilita que elas pensem acerca de fenômenos da ótica, como os reflexos.

Trabalhando com luzes, sombras e espelhos, as crianças também podem estabelecer conexões entre esses meios, enfocando diferenças e semelhanças, levantando e testando hipóteses sobre esse tema.

Registro da atividade com retroprojetor

Primeiro organizamos a sala, escurecendo-a com cobertores nas janelas, para que pudéssemos dar início a atividade “brincando com luzes e sombras”. Em seguida, sentamos as crianças próximas ao retroprojetor para que pudessem ver as figuras refletidas na parede. A Delzuita, que estava na sala, ligou o retro, brincando apenas com a luz, sem usar os moldes; as crianças estavam encantadas com o que viam e seguiam com os olhos a luz pela parede.

Logo em seguida, fui colocando a mão e depois alguns moldes de animais. As crianças ficaram bastante atentas e participaram da atividade pronunciando os nomes dos animais que conheciam. Nós as deixamos à vontade para irem até as sombras refletidas na parede, e então elas colocavam as mãos tentando pegá-las, e também colocavam e tiravam os animais no retro.

As reações foram incríveis, todos os bebês participaram e brincaram com as sombras! A Delzuita movimentava o retro e as crianças iam atrás para tentar pegar as sombras dos animais. Ao identificarem alguns animais, como o cachorro, reproduziam o seu latido; quando viram o peixe e o jacaré, nós cantamos duas músicas que se referem a esses animais.

Depois colocamos o retro para projetar as sombras no chão, o que foi muito interessante, pois as crianças sentavam e tentavam pegá-las. Por fim, perceberam suas próprias sombras na parede, e então nós as deixamos livres para brincarem com elas. O resultado da atividade foi bastante satisfatório, devido à grande participação das crianças, e nós, como educadoras, gostamos muito de ter realizado essa atividade.

(Vera e Nadires)

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A lanterna bem perto da mão

Relato das educadoras

Atividade: “Brincando com luz e sombra feitas com lanterna”

Hoje realizamos uma atividade que nos foi proposta no segundo encontro com a Clélia. Tínhamos que planejar uma atividade na qual usaríamos outro tipo de material para obtermos “luz e sombra”. Fizemos a atividade com a luz da lanterna. Escurecemos a sala, depois reunimos as crianças para mostrar-lhes a lanterna apagada e acesa.

A reação das crianças ao ver a luz da lanterna foi de espanto e admiração. Ficaram por um tempo olhando, logo queriam pegar a lanterna. Deixamos que a pegassem para dissipar sua curiosidade. As crianças gostaram muito de ver o movimento da luz da lanterna, que fizemos em toda a sala, nas paredes, no teto. A Júlia tentava virar a cabeça para acompanhar o movimento, a Gabrieli, que já movimenta mais o corpo, apesar de não engatinhar, mesmo sentada ia se virando para todos os lados. As outras crianças, como o Gustavo, o Ryan, o Samuel Moraes, iam andando atrás da luz tentando pegá-la. As crianças que só engatinham ficaram sentadas observando apenas.

Depois fizemos sombra com moldes vazados e não vazados, com formatos de bichos, mas a sombra não ficou bem nítida, não sabemos por quê. Fizemos a sombra com as mãos e o corpo das crianças; essas ficaram bem nítidas. Mostramos a sombra do corpo do Gustavo na parede. Ele não tinha percebido, nem se interessou, queria mesmo era pegar a lanterna.

Mostramos novamente. Assim que ele viu a sua sombra refletida na parede começou apontar o dedo. Assim foi também com o Samuel Moraes. Foi interessante a atividade com a lanterna, porque as crianças viram a sombra ou a luz e não podiam pegar mesmo que as tocassem.

(Rita e Ana)

Seqüência de luz e sombra

I. Objetivos:

  • Proporcionar a investigação, por parte das crianças, de alguns fenômenos presenciados e vividos por elas;
  • Despertar a curiosidade e o gosto pelas descobertas;
  • Favorecer a participação em diferentes atividades, envolvendo a observação sobre a ação da luz e da sombra;
  • Propor jogos e brincadeiras variadas com luz e sombra produzidas com materiais diversos (lanternas, abajures, cabanas, panos, etc.);
  • Favorecer a interação entre as crianças por meio das brincadeiras;
  • Socializar as experiências das crianças usando o registro fotográfico;
  • Organizar o espaço físico com propostas que favoreçam a escolha das crianças.

II. Conteúdos:

  • Participação em diferentes atividades que envolvam a observação e a pesquisa sobre a ação da luz e da sombra;
  • Exploração de diferentes brincadeiras e jogos;
  • Exploração do espaço físico.

III. Etapas planejadas

  • Atuação da formadora e das educadoras.

1º dia:

  • Observação das crianças e apresentação da proposta para as educadoras e explicação do que será realizado.

2º dia:

  • Brincadeiras com o retroprojetor com as mãos e o corpo;
  • Organizar um canto com livros e contar as histórias e apresentar as imagens, iluminando com a luz de um abajur ou lanterna
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Teatro de sombras com lanterna

3º dia:

  • Teatro de sombras.
  • Atividade paralela: Brincadeiras com os fantoches de papel-cartão com a luz de lanternas em outros espaços da sala.

4º dia:

  • Produção de sombras simples com o auxílio de lanternas.
  • Atividade paralela: Cobrir lanternas com papel celofane de diferentes cores e deixar uma caixa com fundo branco para que as crianças apontem as lanternas para ele e observem o que acontece.

5º dia:

  • Divertindo-se com sombras – Sombras em movimento.
  1. Brincar no espaço externo da creche para observar as sombras produzidas no chão.
  2. Desenhar com giz as sombras das crianças em diferentes lugares.
  3. Oferecer peixes, cachorros, gatos, entre outros bichos confeccionados com papel-cartão.
  4. Brincar com sombras em vasilhas de água.

6º dia:

  • Organizar propostas variadas com o tema luz e sombra.
  1.  Construir perto das crianças uma cabana, usando um pano escuro e cadeiras, mesas ou caixas. Tentar deixá-la completamente escura e chamar as crianças para que entrem e brinquem com luzes de lanternas.
  2. Brincar com a luz da lanterna sob as mãos e pés bem próxima a eles, para que observem o que acontece.
  3. Colocar uma lanterna acesa perto de alguns objetos para que observem quais deles a luz atravessa e quais não (separar potes plásticos transparentes, bexigas, bola, entre outros).
  4. Oferecer os animais de papel-cartão para que brinquem de fazer sombras nas paredes.

7º dia:

  • Coreografia atrás do lençol.
  • Apresentar uma música coreografada.
  • Assim que terminar, propor que as crianças se aproximem para que reinventem seus próprios movimentos.
  • Oferecer chapéus, fantasias e objetos diversos e incentivar que observem umas as outras.

8º dia:

  • Oferecer caixas de imagens (toda preta por fora com apenas um furo na extremidade superior para encaixar uma lanterna). Haverá em uma das laterais um espaço para trocar as imagens e um furo para que as crianças possam observá-las.
  • Colocar em uma caixa grande várias lanternas encaixadas em furos, encapadas com papel celofane colorido para que as crianças observem a produção de vários focos de luz em diferentes direções e cores.
  • Projetar a sombra dos próprios rostos das crianças na parede com um papel branco fixado, para que brinquem com o contorno com o auxílio de canetas ou giz de cera.

Ficha Técnica

Programa Capacitar Educadores – Iniciativa: Instituto C&A
Responsabilidade Técnica: Instituto Avisa Lá
Realização: CEI Sinhazinha Meirelles
Av. José Joaquim Seabra, 1.159 – Rio Pequeno – São Paulo – SP. CEP: 05304-000 Tel.: (11) 3768-2731. E-mail: [email protected]
Coordenadora Pedagógica: Delzuita Moreira Duart

Para saber mais

  • Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/ SEF, 1998. Vol. 3
  • Cor e Luz (Coleção Vamos Explorar Ciências), David Evans e Claudette Willians. Ed. Ática. Tel.: (11) 3346-3000
  • Luz – Experiências Divertidas, Bonita Searle-Barnes. Ed. Paulinas. Tel.: 0800 7010081
  • As Cem Linguagens da Criança, Carolyn Edwards, Lelle Gandini e George Foman. Ed. Artmed. Tel.: 0800 703 3444
  • O Teatro de Sombras de Ofélia, Michael Ende e Friederich Hechelman. Ed. Ática. Tel.: (11) 3346-3000
  • Teatrinho de Sombras – Criando com as Mãos um Mundo de História e Fantasia de Sati Achatt. Ed. Nova Alexandria. Tel.: (11) 5571-5637

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #22 de abril de 2005. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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