Um baú de histórias para ler e contar

Saber ler e contar histórias para crianças pequenas é muito importante, tanto pelas questões afetivas que envolve como pela aproximação das crianças com o mundo da escrita. Mas essa é uma competência que precisa ser desenvolvida, como conta a professora Kátia.


A vida da gente muitas vezes dá uma história. É como se abríssemos um baú e descobríssemos dentro dele algo que não imaginávamos pudesse existir.

Assim é a minha vida. Não me lembro de ter lido um livro de contos nos meus primeiros anos na escola, não sentia prazer na leitura, achava cansativa, só tinha meus livros escolares e seu conteúdo não me atraía.

Eu sabia apenas que precisava passar de ano. Não tive o privilégio de encontrar alguém que despertasse em mim o prazer pela leitura, que me fizesse sonhar, imaginar, viver esse momento maravilhoso no mundo das histórias. Só aos 11 anos li meu primeiro livro de história. Antes disso não me lembro de nenhuma situação relacionada a histórias com meus pais, professores e nem de ter ao menos segurado um livro de contos infantis.

Foi aos 11 anos que sonhei, pela primeira vez, diante de um livro. Quem diria que um dever de casa me traria tanta emoção, suspense, prenderia minha atenção, me fazendo mergulhar num mundo cheio de fantasias que fez até rolar dos meus olhos algumas lágrimas.

“A Borboleta Atíria”, um livro simples, mas com uma história que para mim foi preciosa, marcou a minha vida, me fazendo voar pela primeira vez nas asas da imaginação. Hoje sou eu quem leva as crianças a sonhar, oferecendo-lhes a oportunidade que na idade delas muitas pessoas não tiveram e não estão tendo ainda hoje.

As crianças descobrem a história
Ainda que as histórias sejam “de mentira”, apenas contos de fadas, a nossa participação na infância dessas crianças é real. Cada gesto, palavra, atitude, ficarão como uma marca no futuro.

Pensando nisso, comecei a refletir sobre como introduzir a “contação” e a leitura de histórias para as crianças de 2 anos do grupo 2. Achava que eram pequenas demais, não seriam capazes de ouvir e participar de uma atividade em grupo. Eu pensava: Vou ficar falando sozinha, porque elas nem vão prestar atenção no que eu estiver dizendo. Antes de tentar já estava oferecendo resistência.

No CCI nós tínhamos o costume de utilizar discos e fitas de histórias infantis, mas eu vinha percebendo que as crianças se dispersavam muito nesses momentos. Não era interessante para elas. Era muito difícil ter um retorno positivo quando as histórias eram apenas ouvidas. Não é que seja errado usar discos e fitas, mas penso que não é apropriado, porque nessa fase da vida, cheia de descobertas tão importantes, as crianças não querem só ouvir, mas sim tocar, ver etc.

Objetos de apoio elaborados pela professora Katilian para contar histórias

Também pensávamos que, na hora de contar a história, as crianças tinham que fazer silêncio, não podiam conversar, se movimentar, tinham que ficar sentadas, prestando atenção. Mas, quando comecei a contar, percebi que o silêncio se conquista por meio da própria história. São as crianças que sentem a necessidade de ficar quietas para poder ouvir.

Foi aí que resolvi desafiar meus medos e apresentar as histórias como uma atividade planejada, intencional. Escolhi um livro interessante, com lindas ilustrações, me sentei no chão com uma das crianças e comecei a ler, destacando as imagens do livro.

Chegou mais uma criança, depois outra, e quando percebi o grupo estava todo sentado, escutando e observando atentamente meus movimentos ao apontar cada detalhe de uma página. A partir de então, comecei a contar histórias todos os dias.

A prática dessa atividade foi me animando, a cada dia. Além de ler histórias e apresentar os livros, criei outros recursos para conta-las: montei latinhas (extrato de tomate, ervilha etc.) para guardar os personagens das histórias, caixas com cenários e bonecos, fantoches etc. (veja texto abaixo).

O sucesso da história extrapolou o nosso grupo, e eu acabei me tornando uma boa contadora de histórias! Para analisar o resultado do trabalho, observei se as crianças ouviam, se comentavam entre elas, se sentiam-se atraídas pelos livros ou pelos objetos de apoio, como fantoches, caixas etc., se pediam para contar mais de uma vez, se demonstravam interesse em outros momentos do dia, fora da creche. Essa observação ajudou-me a melhorar e mudar algumas práticas.

Ler e contar
É muito importante ler e contar histórias para as crianças menores, pois nessa fase, em que estão aprendendo a falar e a se expressar oralmente, o momento de história contribui para ampliar o vocabulário, entrar no mundo da linguagem que se escreve, ajuda a se concentrar, desperta emoções, alimenta a imaginação e a criatividade.

Elas participam tão intensamente que é como se estivessem vivendo o conto. Podemos perceber isso por meio do olhar, da expressão no rosto de cada uma. Ao dizer: Vamos contar histórias…, as crianças largam tudo o que estão fazendo, guardam os brinquedos, correm, sentam-se e aguardam atentas para saber se vou pegar uma lata de personagens, uma caixa de história ou um livro.

mais objetos de apoio

O hábito de contar histórias todos os dias fez com que as crianças se tornassem mais comunicativas, mais atentas, participativas e interessadas em escolher a história que queriam ouvir. Muitas já recontam do jeito que conseguem. Notei uma grande diferença, pois antes de criarmos o hábito de contar histórias todos os dias, não havia tanto interesse, ao passo que hoje as crianças mal me vêem e já pedem: Qué hitóia! (Quero história!).

Chamou-me a atenção uma criança, em especial. Ela passava por um período de adaptação à creche, e eu estava bastante insegura porque achava que não seria uma fase fácil. Mas um dia, chegando de manhã para trabalhar, encontrei-a já na sala com a outra educadora. Ela ainda não tinha uma linguagem clara, disse algumas palavras que eu não entendi. Depois pegou uma cadeira, arrastou para o canto onde nós costumávamos contar histórias, bateu no assento, olhou para mim e entendi que era para eu me sentar.

Mesmo entendendo o recado, esperei mais um pouco para ver o que faria. Então ela veio segurar minha mão, me levou até a cadeira, correu e sentou-se em frente. Olhou para minhas mãos, como se estivesse perguntando: Cadê o livro? Como continuei sentada, ela levantou-se, pegou outra cadeira, foi até o armário onde guardamos as caixas, as latas e os livros e se preparava para subir, então, é claro, levantei-me para ajudá-la. Ela apontou para o armário, dizendo: Toia (história).

Muitas vezes as crianças querem contar imitando o que viram e ouviram, criando da maneira delas. Imitam os adultos na posição e no jeito de segurar o livro. Ficam tão envolvidas que quando acabamos o momento da história são muitos os pedidos:

– Não quero que acabe.
– Não pára.
– Quero história.

Pois é, quem achava que história para criança nessa idade não passava de 10 a 15 minutos, enganou-se, pois muitas vezes, ao olharmos no relógio, vemos que já se passaram 40, 50 minutos. As crianças só sossegam quando digo: Amanhã tem mais.

As mudanças foram confirmadas também pelos depoimentos dos pais: Nossa, meu filho teve uma mudança radical! Olha, eu tava no supermercado com meu filho e ela olhou para as latas de extrato de tomate e disse história! Agora, chego em casa, minha filha quer que eu conte história para ela. E meu filho também, chega para mim e diz: buta, buta. Eu pensei: onde será que ele ouviu isso? Depois descobri que ele estava querendo dizer bruxa, bruxa.

Expliquei a essa mãe que nós tínhamos um livro que contava a história de uma bruxa e também uma boneca de espuma que parece uma bruxa e que utilizamos para contar histórias. Grandes mudanças!

Antes não havia retorno nem das crianças nem dos pais, e, depois que dei início a esse trabalho, a virada foi surpreendente. Às vezes pensava que era só uma fase, uma empolgação por causa da novidade e que iria acabar.

Mas enganei-me, pois diferentes turmas também se envolveram com as histórias. Quando digo: Quem vai contar história hoje… todas as crianças querem contar. E aqueles que já saíram do grupo 2, quando passam por mim, sempre dizem alguma coisa.

– Você é o Lobo Mau!
– A bruxa tá dormindo?
– Você vai contar história hoje?

Fico feliz quando ouço essas falas por saber que fui e estou sendo uma referência na vida delas. Hoje posso dizer que as crianças criaram uma relação maior com os livros. Antes era comum que fossem rasgados, jogados para cima, e até pisados, como algo sem valor. Agora aprenderam não só amar as histórias, mas também a cuidar dos livros, a ponto de abraçá-los e chorar para que não sejam guardados.

Depois que iniciamos essa atividade de história, é muito raro encontrar um livro rasurado e, quando encontramos, o restauramos junto com o grupo. As crianças têm solicitado, inclusive aos pais, que contem histórias, depois recontam o que ouviram e trazem de suas casas livros e fitas de clássicos infantis. Tudo isso me deixa motivada a seguir em frente e a dar continuidade ao trabalho.

A professora que é contadora
Há pouco tempo descobri que existem contadores de histórias, e acho que encontrei um dentro de mim. Essa prática passou a significar muito na minha rotina profissional e também na minha vida. A relação com os livros se tornou muito mais forte, pois aumentou meu interesse pela leitura.

Comecei a olhar de maneira diferente para os livros, não como algo chato, cheio de páginas com aquele monte de palavras, mas como algo que nos traz uma experiência maior, que nos faz por um momento fugir da realidade e entrar no mundo dos personagens.

E aí, quando isso acontece, é impossível guardar tudo para mim. Por isso deixo transbordar, conto e leio as histórias, depois observo as emoções das crianças por meio da fala, do silêncio, dos gestos, das escolhas dos livros, da relação delas com os materiais que usamos para contá-las etc. Percebi o quanto as histórias significam para elas.

Tento proporcionar para as crianças um momento agradável ao ouvir histórias, para que elas descubram cedo como isso é prazeroso e não tenham a mesma impressão que eu tinha, a de que livro é uma coisa chata. Se assim fizermos com as nossas crianças hoje, com certeza não ficaremos espantados, mas sim orgulhosos quando, no futuro, nos pegarmos lendo algo escrito por uma delas.

Que alegria saber que pudemos dar nossa contribuição! Posso dizer com certeza que muitas dúvidas e incertezas sobre contar histórias para crianças tão pequenas têm caído por terra. Descobri que a capacidade delas vai além daquilo que muitas vezes pensamos. Mas só descobrimos isso quando damos a elas a oportunidade de demonstrar, de crescer, quando valorizamos cada palavra, gesto, cada escolha etc.

E, se você deseja ser uma boa contadora de histórias, é muito simples: não basta apenas contar ou ler, é preciso viver o momento do conto, passar emoções, sensações, suspense, fazer com que as crianças mergulhem neste momento mágico. E, acima de tudo, não ter medo nem vergonha de crescer.

(Katilian D. M. do Nascimento, Educadora do grupo 2 do CCI Adolfo Lutz, 2002)

A magia da leitura

Você já parou para pensar por que, afinal, é importante ler histórias, além de contar? Por que a leitura encanta a criança, mesmo as menores, como as do grupo da professora Katy? Emília Ferreiro nos traz importantes informações sobre o papel do interpretante – aquele que lê para a criança – e a magia da leitura: “O interpretante informa à criança, ao efetuar esse ato aparentemente banal que chamamos de um ato de leitura, que essas marcas têm poderes especiais: basta olhá-las para produzir linguagem.

O ato de leitura é um ato mágico. O que existe por trás dessas marcas para que o olho incite a boca a produzir linguagem? Certamente é uma linguagem peculiar, bem diferente da comunicação face a face. Quem lê não olha para o outro, mas para a página (ou qualquer outra superfície sobre a qual as marcas foram realizadas).

Quem lê parece falar para o outro, porém o que diz não é a sua própria palavra, mas a palavra de um Outro que pode ser desdobrada em muitos Outros saídos não se sabe de onde, também escondidos atrás das marcas.

De fato, o leitor é um ator: empresta sua voz para o texto ser re-apresentado (o sentido etimológico de ‘tornarse a apresentar’). Portanto, o interpretante fala, mas não é ele quem fala; o interpretante diz, porém o dito não é seu próprio dizer mas o de fantasmas que se realizam através da sua boca. (…)

O interpretante-leitor é um ilusionista que tira dessa cartola mágica que é a sua boca os mais insuspeitos objetospalavras, em um desenrolar de surpresas que parece infinito. Parte da magia consiste em que o mesmo texto (ou seja, as mesmas palavras, na mesma ordem) torne a re-apresentarse diversas vezes, diante das mesmas marcas.

Que existe nessas marcas que permite não só eliciar linguagem, mas também provocar o mesmo texto oral, uma e outra vez? O fascínio das crianças pela leitura e releitura da mesma história tem a ver com esta descoberta fundamental: a escrita fixa da língua, controla-a de tal maneira que as palavras não se dispersam, não se desvanecem nem são substituídas umas pelas outras. As mesmas palavras, uma e outra vez; grande parte do mistério reside nesta possibilidade de repetição, de representação.”

(Interpretação, intérpretes, interpretantes. Piaget – Vygotsky, novas contribuições para o debate. Emília Ferreiro. Ed. Ática, págs. 165 e 166)

Ficha Técnica

  • CCI Adolfo Lutz Rua Itaquera, 519 – Pacaembu CEP 01246-030 Tel.: (11) 3661-7547 e-mail: cci@ig.com.br
  • Coordenadora Pedagógica: Ana Christina Romani
  • Diretora:Ana Maria Dahi Rizzo

Bibliografia

  • Interpretação, intérpretes, interpretantes. Piaget – Vygotsky, novas contribuições para o debate. Emília Ferreiro. Ed. Ática.
  • Quer ouvir uma história? Lendas e mitos no mundo da criança. Heloisa Prieto. Ed.Angra.
  • Leitura pelo Professor – Um projeto para conhecer e apreciar histórias. Emelisa Monteiro – Revista avisa lá no 7 – julho/2001.
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