Água com moderação é questão de educação

Água com moderação é questão de educação

Como conciliar as aprendizagens, a vontade e o prazer que as brincadeiras de água proporcionam com a saúde e o cuidado com o meio ambiente
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O educador tem um papel fundamental no planejamento das atividades com água

Lavar panelinhas, dar banho nas bonecas, fazer bolhas de sabão, navegar o barquinho de papel, tomar banho de esguicho. Que criança não gosta de brincar com água? O contato da água com o corpo, a pele, os cabelos, sobretudo nos dias de intenso calor, é fonte de prazer e muita aprendizagem. Por esses motivos, as brincadeiras com água são tão freqüentes entre os pequenos.

Apesar dos benefícios e do prazer que o contato com a água traz para as crianças, é preciso cuidado ao desenvolver atividades que envolvam consumo de água, sobretudo nos dias de hoje, em que o mundo todo discute formas de enfrentar uma das maiores crises sociais e naturais de todos os tempos: a falta de água.

Estudos prevêem que, nos próximos 20 anos, haverá uma queda de cerca de um terço na média mundial de abastecimento por habitante. Embora a Terra seja um planeta composto em sua maior parte por água, apenas 1% é próprio para o consumo, e é justamente essa pequena cifra que está ameaçada pela poluição, pelo desperdício, pelas mudanças climáticas e, principalmente, pelo aumento do consumo mundial de água que, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), dobra a cada 20 anos.

No entanto, uma brincadeira bem planejada para as crianças não é a pior ameaça à falta de água, sobretudo diante do desperdício que ocorre cotidianamente nas instituições. Estima-se que a cada minuto mais 20 litros de água vão embora pelo ralo, em cada residência, resultado do descuido.

Em ambientes coletivos isso é ainda mais sério. Multiplique-se esse volume pelos números de torneiras que pingam nas creches ou pré-escolas, sem que ninguém repare, some-se a quantidade de água desperdiçada entre escovação de dentes de todas as crianças com torneiras abertas, banhos demorados, lavagem de lençóis etc. e se chegará a um resultado assustador.

Planejar para não faltar
Um planejamento voltado para essa questão ajuda a economizar água suficiente para as necessidades reais e para outros propósitos e de acordo com o projeto pedagógico da instituição. Se soubermos usar não vai faltar água nos próximos anos, afirma o pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, Aldo Rebouças.

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Na área externa do Educandário São Domingos, as crianças brincam com água e tomam banho de sol de manhã

Mas para isso é preciso haver, entre outras iniciativas, mudanças na forma de consumir água. E isso deve ser foco da atenção também dos educadores, tanto nas ações individuais quanto nos procedimentos coletivos. Reduzir o consumo de água nas creches e pré-escolas é tão importante quanto usá-la de modo interessante, educando as crianças para conhecer os prazeres e também a responsabilidade com a água. Algumas dicas podem nortear as discussões entre os educadores:

  • Orientar as crianças para que fechem a torneira durante a escovação de dentes. Estima-se que cerca de 20 litros de água por criança podem ser economizados com esse gesto simples.
  • Os banhos, quando tomados de modo autônomo pelas próprias crianças ou cuidados pelo educador, especialmente no caso das crianças menores, devem ser planejados: não precisam ser tão rápidos, desde que se feche a torneira enquanto se ensaboa, permitindo, assim, um maior tempo da criança em contato com a espuma.
  • Talheres, pratos e outros utensílios utilizados pelas crianças durante as refeições podem ficar de molho dentro da pia antes de serem lavados. Esse procedimento prepara uma higienização mais rápida e, portanto, mais econômica. Fechar a torneira enquanto se ensaboa a louça ajuda a economizar cerca de 100 litros de água em uma única lavagem.
  • A máquina de lavar roupas deve ser ligada apenas com a carga máxima, evitando o excesso de sabão, que aumenta o número de enxágües.
  • O uso de baldes em vez de mangueira para lavar o chão e os brinquedos de espaços externos também ajuda a economizar água.
  • As plantas dos jardins e as dos vasos que decoram os espaços internos da instituição não devem ser regadas nas horas quentes do dia, pois a água evapora antes mesmo de atingir as raízes, o que obrigará que se regue novamente em outro momento.
  • E, em todos os casos, cuidar dos vazamentos é fundamental. Uma torneira pingando consome 46 litros de água por dia, o que resulta, em um mês, em 1.380 litros. Multiplique esse valor pelo número de torneiras em sua creche e descubra quanta água pode ser desperdiçada.

Cuidados com as crianças
Evitar o desperdício de água é um cuidado que ensina às crianças a importância da sua preservação. Pequenos gestos, como fechar torneiras, são um modelo de comportamento para as crianças, que podem aprender a regular seu consumo e valorizar esse bem natural. Além dessas ações educacionais, há também uma série de cuidados que o educador deve observar para melhorar a qualidade de vida e contribuir para a promoção da saúde em instituições coletivas. As atividades com água devem considerar cuidados específicos antes e depois da brincadeira.

Antes da brincadeira
Avaliar o clima, idade e condições de saúde das crianças antes de iniciar a atividade. Brincadeiras com água, ao ar livre, que envolvam o corpo todo, devem ser planejadas para dias mais quentes. Já as brincadeiras com água nas quais apenas as mãos são utilizadas podem ser feitas mesmo em dias frios.

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Atividades espontâneas como as brincadeiras podem ser enriquecidas com o apoio dos adultos

Planejar previamente a localização, altura dos recipientes ou tanques. Cuidados com a proteção e acesso das crianças pequenas visam evitar acidentes como afogamentos e aspiração. O piso sobre o qual é planejada a brincadeira deve ser antiderrapante, para evitar quedas. Certificar-se de que a água utilizada pelas crianças é potável.

Depois da brincadeira

  • A água deve ser descartada logo após as brincadeiras, para evitar contaminação e acidentes, e pode ser usada para regar plantas ou lavar o chão.
  • Os brinquedos utilizados durante a brincadeira devem ser lavados após o uso com água e detergente e desinfetados com solução clorada contendo 250 ppm de cloro ativo.
  • Os tanques de água e recipientes devem ser lavados e desinfetados após o uso com solução clorada contendo 250 ppm de cloro ativo. Mantê-los secos e tampados quando fora de uso para evitar criadouros de mosquitos e contaminação dos resíduos de água.
  • As roupas das crianças devem ser adequadas ao tipo de brincadeira e trocadas posteriormente, quando molhadas.

A supervisão constante de profissionais de educação é imprescindível nesse tipo de brincadeira, não só pelos cuidados com a saúde, mas também pela importância da observação do professor, que pode potencializar esses momentos, enriquecendo-os com desafios que instigam o pensamento e a imaginação das crianças (leia também Conhecendo a Criança).

(Por Damaris Maranhão, especialista em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo. Mestre em Enfermagem Pediátrica e doutoranda em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo. Educadora e consultora em saúde coletiva do Instituto Avisa Lá)
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O cuidado com os materiais com os quais as crianças brincam é parte do planejamento do educador (Foto: Renata Frauendorf)


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #19 de julho de 2004. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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