Adeus às fraldas…

Deixar de usar fralda e aprender a ir ao banheiro é um processo significativo que precisa de atenção especial dos educadores, sempre em parceria com a família
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Desenho feito por Danyelle

Em nosso meio cultural, as crianças aprendem a usar o sanitário em torno de dois anos de idade. Nesta fase, elas começam a se interessar pelas suas excreções e experimentar, com mais consciência, as sensações provocadas pela contração e pelo relaxamento dos esfíncteres anal e vesical. Vale lembrar que os esfíncteres são músculos compostos por fibras circulares concêntricas dispostas em forma de anel, que controlam o grau de amplitude de um determinado orifício. No caso dos esfíncteres anal e vesical, eles controlam a saída das fezes e da urina. As crianças adquirem maior controle sobre essas musculaturas a partir dos 18 meses de idade. Como todo desenvolvimento orgânico, esse é um processo que integra fatores biológicos, emocionais e cognitivos. No final do segundo ano de vida, a bexiga urinária possui maior capacidade, permitindo que a criança retenha o xixi por mais tempo e mantenha-se seca em intervalos maiores, o que logo é percebido pela professora e pelos pais.

O mesmo ocorre com o intestino que, mais maduro, funciona com movimentos regulares que são mais intensos após as principais refeições, armazenando os resíduos de fezes no reto, que “avisa”, com contrações peculiares, quando está cheio. Cada criança tem seu próprio ritmo de evacuações. Quando a professora e a mãe estão atentas, elas são capazes de prever esses momentos, ou então, a própria criança começa a avisar que fez ou vai fazer cocô. A criança, nessa idade, tem maior controle motor, o que faz com que consiga andar, abaixar, levantar, girar sobre si mesma, correr e parar com certa desenvoltura, assim como comunica-se melhor pelos gestos e fala. Estes são indicativos de um desenvolvimento potencial para aprender a utilizar o sanitário e dar adeus às fraldas.

Conhecer as regras
A vida social implica em normas e regras que precisam ser aprendidas pelos membros mais jovens. Uma delas é que existem lugares especiais – os sanitários – para que as pessoas façam cocô e xixi. Dessa forma, os humanos aprenderam a preservar a sua saúde, uma vez que fezes e urina são dejetos que precisam ficar longe da água potável, dos alimentos e dos locais de repouso e convívio social. As normas de preservação da saúde não são isoladas dos rituais e regras sociais de convívio, das relações entre homens e mulheres, das diferenças entre o público e o privado. É na primeira infância que aprendemos não apenas a controlar a sensação visceral de bexiga e intestino cheios, e a identificar os sinais de que precisam ser esvaziados, mas, também, que o ato de eliminação é privado.

Aprendemos que, embora em cada residência as regras possam ser diferentes, na vida em sociedade há sanitários separados por sexo. Além das regras sociais a serem aprendidas, devem-se considerar os aspectos subjetivos que permeiam todos os atos humanos. As fezes e a urina têm um significado especial, pois são produtos corporais que a criança está aprendendo a perceber e reconhecer como separados dela. Segundo Wallon1, a criança pode ter uma atração pelas substâncias e cheiros que emanam do seu corpo, relacionada à construção da percepção do seu próprio corpo e à diferenciação do outro no processo de construção de sua identidade.

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Desenho feito por Charles

As regras sociais ensinam que não podemos guardar ou manipular fezes e urina, que elas são classificadas como substâncias que devem ser eliminadas por meio da descarga de água ou enterradas, dependendo do local em que se reside. Para a criança, no início do processo, isso pode ser difícil, ou mesmo assustador, o que requer compreensão dos educadores e familiares.

O educador e a família têm um papel importante no cuidado e educação da criança nessa fase. Suas atitudes de aceitação ou aversão – expressas por meio da própria mímica facial, dos movimentos e da fala – podem contribuir para que a criança desenvolva um sentimento de baixa auto-estima, de vergonha e insegurança.

Chegada a hora
Nas unidades de educação e cuidado da primeira infância administradas pelo Ceduc2, os professores acompanham o desenvolvimento das crianças e iniciam o processo de retirada das fraldas de forma individualizada, sempre em parceria com a família. O processo segue algumas regras:

  1. Combinar o dia – Quando uma mãe considera, juntamente com o educador, que seu filho está maduro para começar a retirada das fraldas, é combinado que a partir de determinado dia será iniciado o processo.
  2. Observar e registrar – O processo inicia-se com a observação e o registro dos horários em que a criança faz xixi e cocô em casa e na creche. Para isso, tanto a família como os educadores convidam a criança para ir ao sanitário verificar se fez cocô e xixi, aproximadamente a cada uma hora, observando e nomeando para ela o que percebe na sua fralda.
  3. Idas ao banheiro – Nessa fase, continua-se vestindo a fralda na criança, que é retirada e recolocada no ambiente onde está o vaso sanitário, anotando-se o horário e as excreções que a criança fez. Se estiver seca, o adulto convida-a para sentar no vaso ou no penico, onde se sentir mais segura, para fazer cocô e xixi.
  4. Começar pelo dia – Apenas quando a criança já vivenciou a experiência de fazer cocô e xixi algumas vezes no vaso sanitário, percebendo que esse “ritual” se repete, a fralda será retirada durante o dia, nos períodos em que estiver acordada, passando a vestir calcinha ou cueca.
  5. Quer ir ao banheiro? – O educador e a família continuarão atentos, observando as expressões, movimentos e comportamentos da criança durante as brincadeiras, antes e após as refeições, antes e depois de dormir, convidando-a para ir ao sanitário com uma certa peridiocidade para fazer cocô e xixi. Os adultos precisam ser tolerantes com os possíveis “acidentes de percurso”, mas, ao mesmo tempo, gradativamente, devem dar limites à criança, sempre de forma afetiva e segura.
  6. Onde sentar? – Algumas crianças sentam diretamente no sanitário infantil com os pés apoiados em um banquinho – o que permite uma prensa abdominal adequada para fazer cocô, além de dar maior segurança. Outras preferem a cadeira higiênica (penico), que sempre deve ser mantida limpa e desinfetada, no espaço do sanitário.
  7. Penico só no banheiro – A família é orientada para que nunca leve ou mantenha o penico em outros espaços da residência, pois a criança deve aprender também que há um local próprio para evacuar ou fazer xixi. O mesmo se aplica aos educadores na creche. É preciso, antes de tudo, confiar na capacidade da criança em aprender a segurar o xixi e o cocô até chegar ao sanitário que, sem dúvida, não deve, nessa fase, estar muito longe do local em que ela permanece. Se o educador e os familiares estiverem atentos aos sinais do desenvolvimento potencial da criança, não será preciso “andar com o penico atrás dela”. Esse cuidado é fundamental para manter a higiene requerida pelos espaços de estar, brincar, conviver e dormir, que não são compatíveis com o uso de cadeiras sanitárias.
  8. Retirada gradativa – A aprendizagem é gradativa: depois de aprender a ir ao sanitário nos momentos de vigília, passa-se para outra fase, a da retirada da fralda para dormir depois do almoço e da fralda para ir para casa, o que requer da mãe tolerância e recursos para lidar com possíveis “vazamentos”. Finalmente, a família retira a fralda do período noturno.
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Desenho feito por Alessandra

Trabalhando com os pais
A maioria das crianças não apresenta dificuldade nesse processo, mas algumas requerem uma conduta ou atenção diferenciada, o que não significa necessariamente um problema. Segundo Danielle Wolff, diretora do Ceduc, a decisão sobre o momento de início de retirada de fraldas nasce, preferencialmente, da observação e solicitação da família. Para orientar pais e educadores, o Ceduc elaborou uma circular (ver abaixo) para orientá-los no início do processo. O folheto complementa, mas não substitui a conversa pessoal sobre o tema, a escuta e o esclarecimento de dúvidas específicas dos familiares e educadores, assim como possíveis contatos posteriores para orientar e combinar cuidados especiais com crianças que apresentam alguma peculiaridade nesse processo.

(Mariana Santos, coordenadora pedagógica e enfermeira supervisora do Ceduc e Damaris Gomes Maranhão, doutora em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo – Unifesp e consultora em Saúde Coletiva do Instituto Avisa Lá)

2Henri Wallon, filósofo, médico, psicólogo e político francês (1879 – 1962).
3O Ceduc (Centro de Educação e Desenvolvimento Profissional) é uma empresa especializada em administrar creches para empresas privadas, que atendem crianças de três meses a quatro anos de idade, filhos e filhas dos trabalhadores de fábricas, escritórios e serviços.

De olhos fechados

Lucas freqüenta a creche de uma empresa, cujos sanitários têm descarga a vácuo (para economizar água), que “suga” o cocô ruidosamente e rapidamente com um jato de água, diferente das outras, existentes nas residências. Na primeira vez que viu seu cocô ir embora daquela forma, ele estranhou. Nos outros dias, quando a educadora o ajudava a apertar o botão, ele tampava os ouvidos com as mãos em concha, fechava os olhos para se proteger da cena e dizia:
– Ai, vai dar descarga, o cocô vai embora!

Fim da confusão

Lívia recusava-se a avisar que desejava fazer cocô. Continuava fazendo na calcinha, mesmo quando andava pelo corredor dava a impressão de que não percebia que estava sem fralda. A educadora nomeava todas as vezes que ela fazia cocô na calcinha, mostrava a ela o cocô que caiu no chão, levava-a ao banheiro, explicava, retomava os combinados. Conversou com sua mãe que contou que, por temer “vazamentos”, continuava a colocar a fralda durante o dia, nos finais de semana, o que deixava Lívia confusa. Somente depois da mãe retirar a fralda diurna e começar o processo em casa, Lívia deixou de fazer cocô na calcinha e aprendeu a usar o vaso sanitário.

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Desenho feito por Karem

Falando com os pais3

Quando e como retirar as fraldas?
A criança cresce e desenvolve, gradativamente, capacidades que permitem maior independência do adulto em relação aos cuidados com o próprio corpo, obtendo maior controle sobre si mesma. Esse processo é lento e gradual, começando pelo desmame, locomoção, linguagem, diversificação das brincadeiras e de compreensão e aprendizagem das regras sociais. Uma dessas regras é que aproximadamente entre dois e três anos as crianças deixam de usar fraldas e aprendem a usar os sanitários para fazer cocô e xixi. A capacidade motora que possibilita o controle corporal para conseguir reter por algum tempo o desejo de evacuar ou urinar denomina-se controle dos esfíncteres.

Esfíncter: Músculo de fibras circulares concêntricas dispostas em forma de anel, que controla o grau de amplitude de um determinado orifício. No caso do esfíncter anal, ele controla a saída das fezes.

O significado do controle do cocô e do xixi para a criança:
Em torno dos dois anos, as crianças começam a perceber e se interessar pelo xixi e cocô que sentem no seu corpo. As fezes e a urina são produções da criança e têm um significado especial para ela. Esta fase coincide com o desenvolvimento da diferenciação EU/OUTRO, portanto, a criança percebe ter um certo poder de controle sobre si mesma, o outro e o ambiente. Aprender a controlar e a eliminar o xixi e o cocô quando deseja significa mais uma etapa na aquisição da autonomia.

Ao mesmo tempo sua reação diante das fezes produzidas pode ser de interesse, curiosidade, diferente dos adultos, que podem reagir com nojo. Os adultos que são mais compreensivos com as necessidades das crianças nessa fase proporcionam sentimentos positivos como confiança, auto-estima e segurança.

O que observar na criança:
Para iniciar a retirada das fraldas é necessário esperar que a criança seja capaz de controlar os esfíncteres. Quando a criança já possui um bom controle muscular, por exemplo, abaixa, senta, anda e corre com segurança, ela demonstra apresentar condições neurológicas e psicomotoras para controlar os esfíncteres.

Indicadores do desenvolvimento infantil para iniciar a retirada das fraldas:

  1.  Ter aproximadamente dois anos;
  2. Nomear que fez ou vai fazer xixi ou cocô, por meio de linguagem oral ou de expressão facial e movimentos corporais (baixar para fazer, retirar-se para um canto e fazer força, olhar para as próprias fraldas e apontar que está fazendo xixi ou cocô);
  3. Apresentar as capacidades plenas de locomoção;
  4. Incomodar-se com a fralda “cheia”.

Ações no berçário:

  1. Ouvir a família e conversar com ela sobre o desenvolvimento do seu filho, refletindo juntos sobre os indicadores que sinalizam que ele está preparado para iniciar o processo de retirada de fraldas;
  2. Trocar a criança em períodos regulares, nomeando e registrando os horários em que ela faz regularmente cocô e xixi, nomeando para ela o que observou;
  3. Conversar com a criança e nomear o que vai ocorrer, convidando-a, para começar a fazer cocô e xixi no vaso;
  4. Colocar a criança no penico ou vaso sanitário com atenção se os pés estão bem apoiados;
  5. Convidar a criança para ir ao banheiro regularmente, com atenção ao padrão de eliminação que foi registrado anteriormente;
  6. Após a criança finalizar as suas necessidades no penico, é necessário que o educador despeje o conteúdo no vaso sanitário na frente da criança, dê descarga e depois providencie sua limpeza4;
  7. Ensinar e ajudar a criança a lavar as mãos após a utilização do banheiro;
  8. Depois que a criança já conseguiu algumas vezes fazer xixi no vaso, compreendendo o ritual de ir ao banheiro, retirar a fralda diurna e vesti-la com calcinha ou cueca. Continuar colocando a fralda para dormir à tarde no berçário e no retorno para casa, negociando a sua retirada gradativa com a família, de acordo com o processo de aprendizagem e controle de cada criança.
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Desenho feito por Jailso

Ações em casa (família):

  1. Observar os indicadores de desenvolvimento infantil que sinalizam a capacidade potencial para iniciar a retirada das fraldas e combinar o processo com os educadores;
  2. Iniciar o processo junto com o berçário;
  3. Conversar com a criança e nomear o que vai ocorrer, convidando-a, para começar a fazer cocô e xixi no vaso. Retirar a fralda depois que ela compreendeu o ritual e conseguiu fazer algumas vezes no vaso ou penico, semelhante ao que ocorre no berçário;
  4. Convidar a criança para ir ao banheiro regularmente, com atenção ao padrão de eliminação que foi registrado anteriormente;
  5. 5. Se utilizarem o penico, deixá-lo sempre no banheiro, para que a criança aprenda o lugar correto de fazer as necessidades;
  6. Colocar a criança no penico ou vaso sanitário com atenção se os pés estão bem apoiados;
  7. Limpar a criança e ensiná-la aos poucos a fazê-lo sozinha, orientando e ajudando-a a jogar o papel higiênico no lixo;
  8. Lembrá-la e ajudá-la a lavar as mãos;
  9. Ser tolerante com a criança quando o xixi ou cocô “escaparem”, isto não significa a ausência de limites;
  10. Ter paciência, ou seja, é um processo que pode durar alguns dias e até meses;
  11. Controlar a ansiedade, estando atenta e lembrar a criança, mas não fazê-lo a todo instante;
  12. Manter a fralda noturna até que o controle diurno esteja estabelecido.

“O desenvolvimento do controle voluntário dos esfíncteres depende de vários fatores. Embora entre eles sejam importantes o treinamento, a aprendizagem e a maduração neurofisiológica, esse controle costuma estar condicionado ao desenvolvimento afetivo da criança, ou seja, ao equilíbrio da comunicação mãe-filho” (PsiqWeb)

3Folheto entregue para os pais pelo Ceduc.
4A limpeza e desinfecção dos penicos em ambientes coletivos requer alguns cuidados para evitar contaminação do espaço e do educador.

Ficha técnica

Centro de Desenvolvimento Profissional e Educacional – Ceduc – Rua Albino Puttini, 170 – Jardim das Hortências – Jundiaí – SP. CEP: 13209-462 – Tel.: (11) 4523-0755


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #29 de janeiro de 2007. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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