Acalentar e acalantos

Quem canta para um bebê dormir primeiro se acalma com a toada e, assim, transmite tranqüilidade para o pequeno que está sendo embalado
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Sempre Juntas, Sandra Guinle

Costumamos dizer com relação a certas coisas que elas são tão antigas quanto o homem. Outras vezes, sobre essas, ou outras coisas, afirmamos que são tão naturais como o andar para frente. Ambas as afirmações integram nosso repertório corriqueiro. À sua maneira, dizem algo da verdade, como também a mascaram. Desconheço se existe uma história sobre os acalantos, assim como temos uma cronologia sobre a vestimenta ou os modos à mesa. No entanto, não duvido de que as cantigas de ninar sejam tão velhas quanto o homem, bem como tão naturais quanto andarmos para frente. Arrisco-me nesta afirmação: o fato de um adulto embalar um bebê é inerente àquilo que chamamos humanidade. Acalentar não é dedicadamente apreendido como, por exemplo, a escrita na escola, embora o ser humano seja o único animal capaz de fazer isso e, portanto, em certo sentido, o escrever também entranhe algo de nossa sempre frágil existência.

Afirmar que cantarmos para adormecer o outro seja tão velho quanto o ser humano e tão natural quanto o caminhar não significa, no entanto, que seja dado de graça, que essa prática caia do céu ou, em outras palavras, que o adulto – a imensa maioria das vezes a mãe, mas não excludentemente –, que cantarola no escuro tentando fazer adormecer o pequeno, não esteja implicado nesse ato. Em suma, todos fazem o possível quando colocam seus esforços no acalento, assim como tudo aquilo que é decididamente humano bem pode, também, em dado momento, desmanchar-se no ar. Os animais não cantam para seus filhotes. Não apenas porque os animais não falam – mesmo que às vezes isso possa nos parecer, como no caso dos papagaios –, senão também porque os filhotes não são seus filhos, ou seja, seus filhotes.

Nós embalamos nossas crianças porque são nossas ou, caso não o sejam, porque bem poderiam sê-lo. O acalentar e o filiar são duas caras de uma mesma moeda. No entanto, o acalentar e o familiar são verso e reverso de uma mesma realidade. Os bichos não fazem suas crias adormecerem com músicas, pois não têm família, mesmo que possam andar em bandos na natureza. Também é possível pensar que, por exemplo, os gorilas não tenham família porque não podem, de direito e de fato, recitar canções ao anoitecer.

Nana, nenê
A seleção de cantigas do acervo do museu virtual1 passa de geração em geração. O traspasso não é linear. Nenhum adulto entrevistado lembra quando a própria mãe entoava canções na hora do dormir quando pequeno. Essa lembrança é impossível. As pessoas dizem ter cantarolado ou ainda cantarolar às crianças de agora aquilo que lembram ter ouvido quando a mãe ou a avó embalava um irmão ou aquilo que recordam que elas disseram alguma vez para a criança, já crescida, ter cantarolado quando ela era pequeninha. É claro que também há casos de quem diz lembrar não ter podido dormir quando já maiores e, assim, lembrar a cantoria. Essas composições são quase sempre curtas. Talvez para que, assim, possam ser repetidas uma e outra vez. Ou quiçá o fato de elas serem repetidas uma e outra vez até o incerto dormir do bebê as torne rápidas. Quem sabe? Quando um pouco mais longas, as letras se desdobram em repetições. Talvez porque o adulto pede e volta a pedir que o pequeno durma. Será?

Por outro lado, de uma geração a outra, um acalanto gera outros e cada um pode virar um outro. Minha filha, Sofía, logo de início se revelou de bem dormir. No entanto, deu à mãe e a mim algumas boas oportunidades. O Arroro mi Nena que cantarolei não é muito bem aquele do acervo. Às vezes, arrisquei uma versão mais simples; outras, uma mistura desse com aquele Duérmete Niño. Também houve noites nas quais me aventurei a dar costura a outras improvisadas derivações, muito embora eu não seja dado à musicalidade, como uma boa parte da minha família tampouco é. A mãe de Sofía, por outro lado, acalantou uma e outra vez com graça musical o Nana Nenê que a cuca vem pegar, mas era uma outra versão daquela do acervo na qual a mulher ia para o cafezal, enquanto o homem estava na roça. Minha esposa, Tânia, também cantou aquela do Boi da Cara Preta. Eu gostava de escutá-la entoar, em particular, essa última que lembra do temor às caretas. Certa vez, quando ouvia essa música – já pela vez não sei das quantas –, consegui escutar a referência ao medo de careta. Antes, ela tinha passado despercebida. Na seqüência me retornou, retroativamente, aquela outra que a cuca vem pegar o neném porque ele não quer dormir, bem como aquele outro verso em espanhol do Duérmete Niño no qual o cuco virá comer o bebê também se ele teimar em não dormir. Curioso, não?

De fato, já ouvi há tempos gente que diz que as cantigas de ninar não seriam adequadas aos pequeninos, uma vez que veiculariam supostas ameaças. Essa e outras reclamações similares são filhas da ilusão que reza fazer coisas supostamente ajustadas tanto à suposta inteligência, quanto à suposta ingenuidade ou pureza infantil. Semelhante crença na possibilidade de existir tal conformidade na vida junto às crianças é isso mesmo uma ilusão, ou seja, uma crença animada por um desejo de encontrar a harmonia que sempre falta ao rendez-vous. Os acalantos não têm como serem adequados, talvez porque eles devam tanto acalentar quanto acalantar, justamente, essa falta de harmonia entre o adulto e o bebê. Então, a letra vale pelo que diz essa falta de proporção para o cuidador que a escuta além do que ouve. Em outras palavras, ele cantarola no escuro para assim ninar algo de si, embora pareça ser a criança a destinatária da cantiga. Quem não fez isso no escuro alguma vez? Certamente, isso não fez com que enxergasse melhor, mas deve ter iluminado uma luz no fim do túnel para, assim, caminhar mais tranqüilo.

Tempestade, Sandra Guinle

Tempestade, Sandra Guinle

Nesse sentido, as cantorias com vistas a fazer dormir o neném talvez, primeiro, tragam calmaria ao adulto e essa, por sua vez, sentida na pele e nos ouvidos, seja a que faça dormir o pequeno. Mas por que os pais estariam intranqüilos à noite? Podemos responder: porque o bebê não dorme e eles têm de levantar cedo no dia seguinte para ir trabalhar! Mas se tudo nas nossas vidas fosse tão linear e mecânico, nós não seríamos tão humanos como somos.

Música para acalmar
À noite ficamos, de fato, inquietos. Na tranqüilidade do escuro, enxergamos a fragilidade da existência e a imensidão das forças da natureza. A noite de hoje também nos lembra as de nossa infância, à mercê do caráter, sempre em última instância, ineducável da realidade pulsional, da densidade insistente dos afetos. Por outro lado, uma criança pousa no colo de sua mãe e, embora não seja o início absoluto de nada, pois a história já estava em curso, aí se instala uma diferença entre um antes e um depois. Agora, a senhora de plantão se depara com o fato de aceitar, ou não, ser mãe desse ser que chega ao mundo sempre mais ou menos estrangeiro com relação àqueles que já o habitam faz tempo. Essa decisão, que implica uma adoção, uma acolhida, ecoa no horizonte e manda às favas o suposto instinto materno. Os bebês dormem de dia, são mais sociáveis à noite, choram por coisas que os grandes não entendem, fazem todo o tipo de caretas – será que é por isso que a música Boi da Cara Preta faz alusão às caretas que amedrontam? –, falam uma língua que não parece ser de fácil compreensão, dentre outras coisas meio esquisitas à vida já feita cotidiana e familiar.

Nesse sentido, não é para menos que a natureza estrangeira do recém- chegado vire intranqüilidade. Um recém-nascido é, de fato, estrangeiro ou ele é considerado tal? Semelhante pergunta não tem resposta. O importante é ele ser recebido como se o fosse, pois isso metaforiza o inevitável desencontro no real entre o adulto e o pequeno ser. Que ele seja encarado como se fosse um estrangeiro não é equivalente a que o seja, como se fosse um extraterrestre ou um selvagem. Do indivíduo considerado um selvagem, aquele que se toma por civilizado pretende manter certa distância. Se o acha um bom selvagem, então quererá estudá-lo de forma minuciosa e científica para, assim, saber da exata medida da diferença que há entre ambos e, dessa maneira, apagar o estranho mistério que tanto anima um quanto angustia o outro. Ao contrário, se se trata de um mal selvagem, o civilizado tentará livrar-se da temerária estranheza organizando uma campanha de extermínio.

Por outro lado, do extraterrestre, no fundo, nada queremos saber. Tão-só queremos manter sempre a mesma distância que, ao mesmo tempo, nos permita adorá-lo, sonhá-lo, como também fugirmos dele caso lhe ocorra aproximar-se um pouco mais. Tanto um quanto o outro são tratados diferentemente de alguém de outro lugar ao qual lhe supomos, com maior ou menor simpatia, que possui coisas de um outro mundo para nos contar, bem como lhe supomos estar interessado em saber como nós somos. Em suma, receber um estrangeiro dá samba, enquanto um bebê, como se o fosse, bem pode fazer soar acalantos! Ao contrário, não ninamos nem extraterrestres nem selvagens: eles não têm nada a nos dizer, nem nós a lhes cantarolar.

Uma mãe fala para seu filho na espera de que ele aprenda sua língua e, dessa forma, possa contar a ela sobre essas coisas de outro mundo, vindo, assim, ambos a serem menos estranhos entre si e, portanto, mais familiares os dois. Uma mulher supõe ao recém-chegado ao mundo a mesma iniciativa comunicativa que ela possui, bem como a sua mesma inteligência para o diálogo. Como não supor? Caso não o fizesse, então não falaria ao bebê. Assim, ela fala de dia e cantarola à noite. Porém, uma mãe também sabe que tanto essa iniciativa comunicativa quanto essa inteligência estão ainda tomadas por certa fragilidade. Por isso mesmo ela insiste: fala de dia e cantarola à noite. De onde advém semelhante insistência vocal?

Certa vez, Sigmund Freud2 – o pai da psicanálise – afirmou: “(…) a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida. E é essa a batalha de Titãs que nossas babás tentam apaziguar com sua cantiga de ninar!”.

(Leandro de Lajonquière, professor titular na Universidade de São Paulo, responsável pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas Psicanalíticas e Educacionais sobre a Infância)

1Vasto patrimônio humano, manifesto pelas cantigas entoadas em várias línguas por diferentes povos, está sendo reunido num grande acervo virtual de gravações e imagens, por iniciativa do Instituto Auditório Ibirapuera, em São Paulo (SP).

2Austríaco, criador da Psicanálise. (1856 – 1939)

Ventania, Sandra Guinle

Ventania, Sandra Guinle

Ficha técnica

Texto disponível em: http://www.auditorioibirapuera.com.br /acalanto_texto_leandrolajonquiere.aspx
Contato com o autor: Leandro de Lajonquière. E-mail: [email protected]


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #37 de fevereiro de 2009. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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