Reflexões sobre o ato de registrar

Apontamentos das equipes formadoras dos CEIs. do CCJA*

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante se sentou na areia da praia e disse: “Não há mais que ver”, sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caia, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. 

José Saramago

No Encontro de Formação, diante do desafio lançado com as frases da escritora Clarice Lispector, abaixo, as formadoras apontam reflexões muito pertinentes e significativas, além de filosóficas e poéticas, que demonstram o quanto já trabalharam as questões relativas ao seu fazer profissional.

“É que ‘quem sou eu’? Provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto”.

Diante desta frase, as formadoras fizeram analogias aos sonhos – é ruim sonhar? Os desafios da profissão estão também na busca, pois o incompleto é um estímulo para continuar, move-nos, não nos paralisa.

As pessoas mais felizes não são aquelas que têm as melhores coisas materiais, mas aquelas que sabem fazer as melhores coisas com as oportunidades que se apresentam. Mas essas oportunidades se apresentam quando temos clareza de que precisamos “ir em busca de”, que somos seres incompletos.

A imprevisibilidade é um fato, tudo é imprevisível.

Questionarmos a nós mesmas já traz uma necessidade e a consciência da incompletude nos leva a tentar encontrar significados. Na ação perguntamos: será que estamos fazendo o suficiente? Estamos fazendo o novo acontecer?

Já diante da segunda frase da autora, surgem reflexões mais próximas às questões da prática.

“Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados”. 

É preciso ter clareza sobre o que nos mobiliza no ato da leitura.
Ler melhora a escuta. O que tenho feito para melhorar a escrita? E a dos professores?
Em primeiro lugar é preciso escrever mais, compartilhar mais o escrito, apesar de ser difícil registramos para alguém. Como tornar o registro claro? O que ele revela?
Não realizamos sozinhas os registros, há um movimento de sínteses e devolutivas. Nos registros devem aparecer as tentativas de aproximação, vínculo, aproximação criança/criança, criança/educador. Há muitas formas de registrar.
Temos responsabilidade também pelo registro das professoras, pois, por meio das devolutivas impactamos suas vidas. Como o ato de registrar das professoras e os diálogos em torno de suas escritas, provocam mudanças, engendram novos conhecimentos?

O registro não é algo individual, mas é diálogo, é compartilhamento e constrói uma rede de significações.

Recordando e complementando. Trechos da Síntese do Encontro de 09/10/2019.

Para complementar essas reflexões, pareceu-nos interessante retomar uma discussão sobre “síntese” realizada em um encontro de formação anterior, mesmo sem uma sistematização, pois ela revela questões relativas à escrita, que apoiam a formação e o desenvolvimento profissional.

Para que serve a síntese, então?

  • documentar, refletir, valorizar os sentimentos
  • referenciar ações formativas
  • documentar conteúdos, registrar as falas; porque são importantes e ricos esses momentos.
  • fazer uma ligação entre o passado e o presente, e ao fazer a leitura, lembrar-se das coisas, como uma memória.
  • para quem escreve há um processo reflexivo bastante grande; pensar, repensar em tudo o que aconteceu e estruturar a escrita.
  • melhorar o nosso olhar para olharmos a síntese dos educadores, o que eles escrevem.
  • no CEI, a síntese serve para situar a equipe sobre o que a dupla gestora está aprendendo nos encontros de formação; é uma forma de incluí-las no processo de aprendizagem.
  • os professores têm de ler, escrever e entender a importância dessa escrita, porque só se faz quando se vê sentido.
  • professores têm de entender que essa escrita não é uma coisa a mais, que eles não vão ter mais trabalho, mas que essa escrita facilitará, aprimorará seu fazer, na verdade, de uma forma menos trabalhosa.
  • a síntese também faz parte de um processo de documentação do que vai ser arquivado ou vai para um portfólio.
  • pensar na palavra Documentação; tem que se fazer uma reflexão e não simplesmente ser um papel dado, ou melhor, há outros valores importantes além de documentar.
  • é preciso exercitar, fazer anotações, mas ainda há a dificuldade de organizar a escrita; todos, desde professores, diretores e coordenadores precisamos saber fazer essa organização. Esse exercício faz você refletir, escrever e escrever; na hora em que você vai organizar tem que repensar toda a estrutura.
  • para Madalena Freire a síntese é um processo de constituição de grupo, pois é um instrumento importante de como incluir o outro.

E para finalizar e arrematar, nada melhor do que uma frase do Walter Benjamin…

“Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso”!

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*Centros de Educação Infantil do CCJA – Centro Comunitário Jardim Autódromo.

Imagem: https://www.chamada.com.br/assets/images/stories/vaso-oleiro.jpg

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