Finalmente uma receita!

Há quem diga que, em matéria de educação, não existem receitas. De fato, mais importante do que o passo a passo, são as concepções de ensino e aprendizagem que estão por trás de cada passo, o grau de abertura que oferecem e, principalmente, o reconhecimento ao processo das crianças. Esses são ingredientes imprescindíveis para se respeitar as condições de uma boa situação didática. Como a que se verá a seguir, apresentada com graça, como uma “boa receita”, para desenvolver propostas de produção e revisão de texto com crianças de 5 anos



No colégio Nossa Senhora do Morumbi – Mopyatã, crianças de 5 anos dedicaram parte de seu tempo à pesquisa e escrita de uma enciclopédia das profissões, contando com verbetes explicativos de cada uma das profissões pesquisadas, como, por exemplo, a do padeiro. No início, muitas crianças não sabiam ao certo o que de fato este profissional fazia:

– Padeiro é que trabalha na padaria! – disse Luís Felipe.

– Mas fazendo o quê? – perguntei.

– Pão, ué! – respondeu Gabriel Silveira.

– Mas ele é dono da padaria, o padeiro… – contou Camila.

– É, para ser padeiro tem que ser o dono da padaria… – confirmou Patrícia.

– O padeiro faz e vende o pão! – concluiu André Parise.

Não me preocupei com informações “incorretas”, do ponto de vista adulto. Sabemos, por exemplo, que o padeiro não é o dono da padaria e nem vende, apenas faz o pão. Mas, naquele momento, mais do que saber os fatos corretos, queríamos que as crianças pesquisassem e descobrissem, a partir de seus questionamentos, as informações de que precisavam. Uma visita à padaria e uma entrevista com um profissional garantiram as informações necessárias para melhorar os textos iniciais produzidos por elas.

Pode parecer simples, mas, de fato, esta proposta é muito elaborada se considerarmos que as crianças precisam buscar informações e transmiti-las fazendo uso da linguagem que se escreve, muito diferente da falada no dia-a-dia.

Para os leitores de avisa lá, ofereço minha receita, cheia de observações, detalhes e com a vivacidade de uma experiência bem-sucedida.

Receita

Ingredientes:

  • Um texto escrito sobre a profissão de padeiro a partir do conhecimento prévio das crianças.
  • Programação de visita a uma padaria para a realização de pesquisa de campo com o profissional a ser entrevistado, no caso o padeiro.
  • Elaboração de perguntas, por parte das crianças, para conhecerem mais sobre a profissão.
  • Uma entrevista propriamente dita, com direito a gravador, lápis, papel, perguntas “na ponta da língua” e máquina fotográfica.
  • Produção de um novo texto a partir de todo o conhecimento adquirido.
  • Alguns recursos de produção de imagens relacionados com os textos: desenhos de observação indireta, direta, de memória, com textura etc.
  • Algumas leituras de textos que dêem informações passo a passo (como dobraduras em origami, confecção de algo relacionado com artesanato etc.) para que possam produzir legendas explicativas para as fotografias e mostrar cada etapa de como o padeiro faz o pão.

Tempo de preparo:

  • Algumas semanas incrementadas de muita leitura, entrevistas e boa vontade para inúmeras revisões.


Modo de fazer:

  1. Divida as crianças em grupos pequenos e peça que escrevam o que sabem sobre tal profissão. Escolha uma criança já alfabética para ser a escriba e deixe que as demais do grupo tenham a função de ditar. Desse modo, as crianças já alfabéticas irão preocupar-se com o “como escrever”, enquanto as outras, produtoras do texto, irão preocupar-se com o conteúdo do mesmo.
  2. Peça às crianças que leiam ao grupo o que produziram. Reserve e deixe este texto descansar por algum tempo. Comece, então, a preparar o recheio.
  3. Marque a visita a uma padaria próxima e informe ao grupo. Explique que o padeiro vai dar uma atenção especial a todos, num momento de trabalho, e que, portanto, será preciso preparar algumas perguntas para que não se corra o risco de ficar sem saber o que fazer.
  4. Registre cada pergunta da entrevista num papel e divida (em partes iguais) o que cada criança irá perguntar. Como as crianças desde muito pequenas já percebem a função da escrita, você pode se deparar com sugestões como esta, da Maria Fernanda: – Por que você não escreve a pergunta de cada um no papel e deixa a gente estudar em casa?
  5. Leve o grupo de crianças interessado, lápis, papel, gravador e muita empolgação. Chegue à padaria e acrescente tudo isso, aos poucos, do contrário você corre o risco de as crianças falarem todas de uma vez e não conseguirem ouvir o que está sendo respondido e explicado pelo profissional entrevistado. Em nossas visitas, as crianças se queixaram um pouco do calor dos fornos da padaria, mas, após a entrevista, pareciam estar comendo um pão diferente, com outro sabor, uma vez que tiveram a oportunidade de auxiliar no seu preparo.
  6. 6 De volta à classe, pegue o texto que estava reservado e releia-o para o grupo. É hora de recheá-lo! No mesmo instante as crianças perceberãoque há informações incorretas, como aconteceu em minha turma:– Ah, ele não vende pão – disse André Carvalho.– Ele só trabalha fazendo o pão! – completou Maria Fernanda. E então, será a hora de escrever um novo texto, desta vez com a professora como escriba.
  7. Vá retomando as perguntas que foram feitas, para dar continuidade ao recheio do texto, como fizemos em grupo: – Como se chama a profissão de quem faz o bolo? – perguntei. – Confeiteiro – disse Juliana. – É melhor escrever no texto de outra profissão! – concluiu Luiz Gustavo. – Ele faz confeitos! – completou Beatriz. – E o que são confeitos? – perguntei. – É bala, brigadeiro, docinho… – enumerou Bárbara. – E o confeiteiro também confeita e enfeita bolos! – concluiu Patrícia.
  8. Para registrar corretamente passo-a-passo como se faz o pão, pergunte ao grupo o que podemos fazer, que logo surgirá uma sugestão como a do Lucas: – Vamos ouvir o gravador, não foi pra isso que a gente gravou?
  9. Faça intervenções pontuais para que as crianças percebam a   necessidade de explicar cada detalhe destes procedimentos. – Vocês já tinham visto alguém colocar gelo numa massa de pão? Não é melhor explicar para que serve? – pontuei. – Escreve que é para a massa não ficar quente! – disse Beatriz, ajudando a completar o texto: “(…) O GELO NÃO DEIXA A MASSA FICAR QUENTE. DEPOIS ELE PÕE TODOS ESSES INGREDIENTES…” Atenção:  É importante ressaltar constantemente para as crianças a preocupação com o leitor deste texto: é preciso que elas se façam compreender através da escrita, pois não estarão presentes, ao lado do leitor, para explicar melhor. Desse modo, portanto, estarão percebendo e fazendo uso de uma importante função da escrita.
  10. Você verá que, no tempo em que ficou descansando, o texto cresceu muito. Continue anotando cada detalhe, como fizemos: OS INGREDIENTES VIRAM UMA MASSA E ESSA MASSA VAI PARA UMA OUTRA MÁQUINA: A CILINDREIRA. A CILINDREIRA ABRE A MASSA PARA DEIXAR BEM GRANDE E LISA – li para o grupo. FUNCIONA QUE NEM O ROLO DE ABRIR MASSA QUE A NOSSA MÃE USA, SÓ QUE É BEM MAIS RÁPIDO PORQUE É UMA MÁQUINA – contribuiu Beatriz na tentativa de explicar melhor o que era a cilindreira. A MASSA VAI PARA A MESA DE MASSA PARA DESCANSAR, continuou Léo. – E O PADEIRO COBRE PARA NÃO RESSECAR – completou Cláudia. – Mas cobre a massa com o quê? Perguntei. – Cobre com um plástico, completa que é com um plástico! – Gabriel Ghion. – DEPOIS ELE CORTA A MASSA EM PEDAÇOS – ditou Henrique. – Mas pedaços bem iguais! – advertiu Luís Felipe, propondo uma nova forma e escrever: (…) CORTA A MASSA EM PEDAÇOS BEM IGUAIS E JOGA NUMA MÁQUINA QUE ENROLA OS PÃEZINHOS. – E CADA PÃO FRANCÊS TEM QUE PESAR 50 GRAMAS. O PADEIRO CORTA A MASSA COM A MÃO E OS PÃEZINHOS SAEM DO MESMO TAMANHO; TEM QUE TER MUITA PRÁTICA – concluiu Cláudia, retomando novamente a fala do padeiro no gravador.
  11. Depois do texto pronto, passe para a fase final da receita: incrementá-lo, confeitá-lo, dar o acabamento. As crianças precisam agora revisar o texto que escreveram, tornando-o mais bonito, de acordo com as regras da linguagem que se escreve e elaborando questionamentos relacionados com a produção do mesmo (combinação de tempos verbais, pontuação, palavras repetidas etc.). Transcreva o texto produzido anteriormente para um cartaz grande ou uma transparência e expliqueao grupo a necessidade de passar de uma linguagem mais informal para alinguagem que se escreve. É bem capaz de, ao começar a ler, as crianças dizerem que está bom daquele jeito, como foi o caso. No entanto, pontueque o texto não pode repetir tantas palavras, como PADEIRO ou MASSA, por exemplo. É importante dar parâmetros do que tem que ser revisto, levando-se em conta que as crianças ainda não estão habituadas a revisões deste tipo.
  12. Pronto, após tal revisão, você terá a oportunidade de ouvir sugestões como substituir “SE CHAMA” por “CHAMADA”,“PADEIRO” por “ELE” ou “MASSA” por “ELA”, ou ainda omitir alguns sujeitos após a verificação de que dá para compreender o que está sendo dito daquela maneira.
  13. Leia para o grupo textos instrucionais que exemplificam como fazer algo através de desenhos e legendas passo a passo. Eu, por exemplo, utilizei receitas ilustradas para crianças, instruções de dobraduras, de como fazer máscaras de papel.
  14. Dê uma foto feita na padaria para cada criança, peça que faça um desenho de observação e depois a escrita de uma legenda (desta vez as próprias crianças escrevem).
  15. Para incrementar estes pequenos textos siga os mesmos passos de revisão descritos anteriormente.


Rendimento:
Todas essas etapas devem render um texto sobre uma das profissões que farão parte de nossa enciclopédia. Como em toda receita, é claro que cada grupo vai colocar seu toque especial, um tempero diferente, um sabor que não é o mesmo. Portanto, é de se esperar uma grande diversidade de textos finais, a depender do que as crianças sabiam e puderam aprender. Na nossa turma, foi possível chegar até esta forma:

“O padeiro faz o pão na padaria e não é ele quem vende. Para fazer o pão mistura a farinha, o sal, um pozinho que parece leite ninho e que dá força para o pão crescer, gelo, água, banha e fermento. O gelo não deixa a massa ficar quente. Ele põe todos esses ingredientes numa grande máquina chamada masseira. Os ingredientes viram uma massa que vai para uma outra máquina: a cilindreira. Ela abre a massa para deixar bem grande e lisa; funciona como o rolo que a nossa mãe usa, só que é bem mais rápida.

O padeiro coloca essa massa numa mesa para descansar e cobre com um plástico para não ressecar. Depois ele separa uma tira de massa, corta em pedaços bem iguais e joga numa máquina que enrola os pãezinhos. Cada pão francês tem que pesar 50 gramas. O padeiro corta a massa com a mão e os pãezinhos saem do mesmo tamanho. O ajudante do padeiro coloca os pãezinhos numa assadeira e depois numa estufa para crescerem. Só depois é que o pão vai para o forno e fica assando por 10 minutos.

O padeiro leva 1 hora e meia para fazer o pão. Numa fornada saem 208 pãezinhos. Num dia ele faz 80 quilos de massa, que dão 1600 pãezinhos.  Na padaria o padeiro faz vários tipos de pães: pão de metro, rosca, pão doce, trança, pão italiano, minipãozinho, bisnaguinha, pão de queijo, croissant e outros.

Achamos que padeiro é uma profissão em que se aprende fazendo. Quanto mais tempo alguém trabalha na padaria, mais prática tem para fazer o pão.”

Variações:
Você pode utilizar esta mesma receita para a escrita de muitas outras
profissões. Nós experimentamos e ficou muito bom!

Acompanhamentos:
Sirva esta produção de texto com algumas outras atividades que auxiliam no processo de construção da escrita, para quem ainda não está alfabético, e na reflexão sobre como se fazer compreender através da escrita, para quem já está alfabético (veja texto abaixo).

(Denise Milan Tonello, Professora de educação infantil do Colégio Nossa Senhora do Morumbi-Mopyatã.)

Por que é importante planejar com as crianças

A percepção da importância de planejar a entrevista é muito importante para a qualidade da produção do texto e para a construção de uma postura de investigador. Antes de sair com as crianças para a padaria, eu retomei com o grupo o que sabiam até então, registrado nos primeiros textos, a fim de esclarecer a tarefa de cada um e decidir o que perguntaríamos ao padeiro. As crianças elaboraram perguntas sobre as informações que estavam gerando conflitos no grupo justamente por não terem certeza do que o padeiro faz realmente.

Após a retomada dos textos iniciais produzidos pelos grupos, as crianças concluíram que estas deveriam ser as perguntas ao padeiro:

– Você faz e vende o pão ou só faz?

– Você que faz o bolo na padaria ou existe outra pessoa?

– Como chama a profissão de quem faz o bolo?

– Como você faz o pão?

– Quanto tempo leva para fazer o pão?

– Quantas vezes você faz pão num dia?

– Quantos pães saem numa fornada?

– O que mais você faz na padaria sem ser pão?

Como trabalhar com turmas heterogêneas

Sempre há, em qualquer grupo, crianças com hipóteses diferentes de escrita; enquanto algumas ainda estão construindo este processo, outras já escrevem alfabeticamente. Tal diversidade é fundamental para que possa haver trocas entre as crianças, permitindo, desse modo, que todas avancem.

O trabalho com listas, realizado a partir dos nomes das profissões, tem auxiliado na estabilização de algumas palavras, como PADEIRO, BOMBEIRO, DENTISTA, MÉDICO, entre outras.

É a partir delas que as crianças começam a estabelecer relações entre o jeito que conseguem escrever e a forma convencional, conhecimento importante para escrever novas palavras, avançando assim em seu processo de alfabetização.

Com esse objetivo, proponho também jogos como cruzadinhas, adivinhas, caçapalavras, ordenações em ordem alfabética, jogos em que as crianças precisam relacionar a escrita à figura, entre outras atividades. O desafio, entretanto, é fundamental para que todos se interessem pelo projeto, pela aprendizagem.

Por isso, não deixo de realizar atividades específicas e pontuais para quem já está alfabético, como a leitura autônoma e, algumas vezes, em voz alta de pequenos textos, propostas de interpretação a partir de perguntas ou lacunados e, mais recentemente, o início de um trabalho com a letra cursiva. Desse modo, todos terão desafios a serem enfrentados e estarão envolvidos com suas aprendizagens.

Ficha técnica:

Esta matéria é parte do relatório escrito pela professora Denise, destinado aos pais de seu grupo, a fim de informá-los sobre apenas uma parte da Enciclopédia das Profissões, projeto de linguagem escrita previsto para o semestre da turma.

  • Colégio Nossa Senhora do Morumbi – Mopyatã, Av. Pres. Giovani Gronchi, 4000, Morumbi, São Paulo, SP, 05724-020, tel.: (11) 3746-8234, [email protected]

Bibliografia:

  • Ler e escrever, entrando no mundo da escrita. Chartier, Clesse & Hébrard.Ed.Artmed. Tel.: (11) 3083-6160
  • Formando crianças produtoras de textos e poemas. Jolibert.Ed.Artmed. Tel.: (11) 3083-6160
  • Escola, leitura e produção de textos. Kaufman & Rodriguez.Ed.Artmed.Tel.: (11) 3083-6160

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #8 de outubro de 2001. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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