Do meu nariz cuido eu – Como educar para os cuidados pessoais num ambiente coletivo

Por meio da coriza e de secreções eliminadas pela tosse e pelo espirro as crianças podem “passar” vírus e bactérias entre si ou para adultos. Veja como construir conhecimentos com educadores e crianças para reduzir o mal-estar provocado pelas doenças e os riscos de contaminação

Vitória, 3 anos, assoando o nariz sozinha

Durante o processo de reflexão profissional sobre promoção de saúde na escola, desencadeado durante o Projeto Capacitar, a equipe de coordenação da entidade social Mão Cooperadora teve acesso a informações que ajudam a dimensionar os problemas de saúde mais freqüentes nas crianças daquela unidade. Maria Lucia do Nascimento, auxiliar de enfermagem da creche, havia registrado mensalmente os casos de crianças que adoeciam, identificando um número elevado de resfriados, amidalites, gripes, bronquites, broncopneumonias e otites.

Liasita Goetz, diretora da creche, também percebia o problema no dia-a-dia: Parecia sem solução. Eu via que algumas crianças tinham coriza o tempo todo. Quando pedia que o educador limpasse, ele dizia: “Mas eu acabei de limpar!”

Era evidente que apenas pedir ao educador não solucionaria a situação, pois cuidar de uma criança não significa apenas realizar ações por ela, mas permitir e dar condições para que ela adquira maior autonomia no cuidado de si mesma. Essa foi a orientação de Elza Corsi, formadora responsável pelos profissionais de saúde: ela e a equipe da creche deveriam desenvolver um projeto específico de saúde, cujo objetivo maior fosse a construção de hábitos e a aprendizagem de procedimentos de higiene e cuidado pessoal.

Ensinando procedimentos para limpar o nariz
Os demais funcionários da creche foram chamados a participar, já que esse cuidado deve ser compartilhado pela equipe. Para abordar inicialmente o assunto, Liasita e Maria Lucia lançaram ao grupo a seguinte pergunta: Como você aprendeu a limpar seu nariz? As respostas foram variadas, mas havia um dado coincidente: todos aprenderam porque alguém ensinou. Isso levou o grupo a refletir sobre quem ensinaria esses procedimentos às crianças.

Conta Liasita: “Nosso objetivo era propor ao educador que considerasse a necessidade de que a própria criança limpasse seu nariz. Conscientes disso, cada grupo poderia desempenhar o trabalho de ensinar às crianças a cuidar de si, de acordo com as orientações da equipe de saúde.”

Para colocar essas intenções em prática foi preciso tomar algumas providências: o papel higiênico, que é um item básico, deveria estar sempre disponível e ao alcance das crianças, bem como o acesso ao espelho e às torneiras para que pudessem lavar as mãos depois.

jogando papel no lixo

Também foi preciso estudar os procedimentos dessa ação. Os educadores foram orientados por Maria Lucia para seguir alguns passos sempre que encontrassem uma criança com o nariz escorrendo:

  1. Dirigir-se ao espelho com a criança, mostrando a ela sua imagem e chamando a atenção para o nariz, a fim de que percebesse que precisava ser limpo.
  2. Orientar para cortar o papel na quantidade suficiente e ensinar a forma adequada de dobrá-lo.
  3. Mostrar como assoar uma narina de cada vez.
  4. Ensinar a dobrar o papel com o lado sujo para dentro como forma de prepará-lo para jogar no lixo.
  5. Pedir que confira sua imagem no espelho, observando se está tudo bem, se precisa repetir a operação.
  6. E, para terminar, lembrar à criança de lavar as mãos e secá-las bem.

O desenvolvimento do projeto
“No início não foi muito fácil” – conta Liasita. “Tivemos que romper algumas dificuldades que o grupo levantava, tais como: a criança não vai conseguir cortar o papel, vai estragar todo o rolo, vai se lambuzar mais ainda. Mesmo assim lançamos o desafio e a proposta de dar toda ênfase possível ao trabalho educativo para que as crianças aprendessem a fazer sua própria higiene, contando com apoio, compreensão e orientação do educador conforme a necessidade.”

Pouco tempo depois os resultados animadores se mostraram. “No início, antes de receber as orientações da equipe de saúde eu não trabalhava os procedimentos adequados” – diz a educadora do grupo de 3 anos, Luisa Helena Rodrigues de Almeida. “Eu colocava o rolo de papel no alto, observava se o nariz estava sujo, então cortava o papel e limpava o nariz da criança e às vezes dava o papel sujo para que ela jogasse no lixo, achando que com isso a estava educando. Muitas vezes limpava o nariz de várias crianças ao mesmo tempo. Eu não tinha consciência do alto risco de contaminação.”

Perceber-se na ação diária com a criança foi um fator que ajudou Luisa Helena a acreditar na importância de um projeto como este. Ela o desenvolveu com afinco: “… ele veio ao encontro da minha proposta de trabalho: ajudar a criança a se tornar independente.

Em primeiro lugar, conversamos com as crianças sobre a importância de aprender a limpar o nariz e dissemos que agora elas fariam isso sozinhas. Fizemos alguns combinados e reorganizamos o espaço em função de nossa necessidade: colocamos um suporte para papel na sala, um cesto de lixo, um espelho para que as crianças pudessem se ver fazendo a própria higiene e facilitamos o acesso às torneiras para que lavassem as mãos depois. Com isso elas passaram a perceber-se cuidando de si mesmas sem que eu precisasse cobrar o tempo todo.” Valeu a pena tanto esforço.

O projeto teve resultados bastante animadores, segundo a educadora: “Deu certo! Percebemos uma diminuição nos casos de coriza e agora toda criança cuida do própriz nariz com mais higiene, segurança e autonomia.” Foi um bom trabalho educativo que resultou num grande alívio para as crianças e na incorporação de um hábito saudável.

Alexandre, 2 anos, já sabe que depois de assoar o nariz é preciso lavar as mãos

Palavra de especialista

O que é a coriza?
A coriza é um sinal de doença respiratória que pode se apresentar tanto como uma secreção aquosa e transparente como pode tornar-se espessa e esverdeada. Quando isso ocorre significa presença de pus, que é resultante de uma descamação da pele do revestimento das vias respiratórias – o epitélio – e de anticorpos que tentam combater a infecção. Isso pode ocorrer freqüentemente no curso de um resfriado por vírus, não significando necessariamente que há infecção bacteriana.

Quando há infecção significa que houve uma complicação do resfriado na forma de uma amidalite purulenta, sinusite, otite, ou doenças de vias respiratórias baixas, como bronquite e pneumonia.

Outros cuidados
Os resfriados comuns que causam coriza ou obstrução nasal e espirros, mal-estar geral, são autolimitados, ou seja, regridem ao final de 7 dias em média, sendo necessários cuidados com hidratação, alimentação, conforto e proteção. As crianças podem apresentar em média de 3 a 8 episódios por ano. Quando esta secreção permanecer por mais de 7 a 10 dias ou estiver acompanhada de sinais como febre persistente, cansaço, chiado ou prostração e abatimento do estado geral, a criança precisa retornar ao pediatra para que ele avalie se há complicações.

Crianças que apresentem resfriados constantes também precisam de cuidados especiais e de avaliação médica, por isso é importante que a creche observe e registre regularmente quem tem coriza e qual a freqüência.

Como as doenças respiratórias se propagam
As crianças são os principais portadores do vírus do resfriado, por meio de infecções adquiridas nas escolas que levam às suas casas, onde as mães constituem casos secundários. O vírus se reproduz nas vias respiratórias superiores, principalmente no nariz. Pesquisas detectaram o vírus nas secreções nasais, na pele do rosto e das mãos, pois ele pode passar facilmente do nariz para as mãos e estas podem contaminar mãos de outras pessoas, objetos, brinquedos e o ambiente.

A contaminação do ambiente também pode se dar por meio dos espirros e tosse, por isso é importante ensinar às crianças e adultos protegerem a boca e o nariz com lenço de papel .A contaminação de outras pessoas ocorre com maior intensidade no transcurso dos primeiros 5 dias, sendo provavelmente mais contagioso do terceiro ao quinto dia, período em que os sintomas são mais intensos e há maior excreção do vírus pelas secreções e aerossóis eliminados pelos espirros e tosse (Díaz; in Infecções respiratórias em crianças; 1998).

(Damaris Maranhão, enfermeira)

Alice, 2 anos

Ficha técnica:

Iniciativa: Instituto C&A. Desenvolvimento: Creche Mão Cooperadora e Instituto Avisa lá. Equipe: Maria Lúcia do Nascimento, Liazita Goetz e Elza Corsi.

Para saber Mais

  • Díaz, H. R. H; Resfriado comum. In Infecções respiratórias em crianças. Série HCT/ AIEPI- 1P,Washington, D. C. OPAS; 1998.
  • Conversando com as mães: problemas respiratórios na infância. Vídeo – Núcleo de Apoio das Atividades de Cultura e Extensão. Assistência de Enfermagem e Saúde Coletiva. USP.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #10 de abril de 2002. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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