A diferença que faz uma boa supervisão pedagógica

EDNA C. SAVAZZI BOM E MEIRE E. MALAMAN PINHEIRO¹


TODOS OS PROFISSIONAIS DE UMA REDE PÚBLICA DE EDUCAÇÃO SÃO RESPONSÁVEIS PELA APRENDIZAGEM DAS CRIANÇAS. PARA QUE ISSO REALMENTE SE EFETIVE, UMA SUPERVISÃO COMPARTILHADA AJUDA MUITO


Segundo o dicionário on-line Michaelis, supervisão significa “ato ou o efeito de supervisionar”. De acordo com o dicionário
on-line de sinônimos, a palavra supervisão poderia ser substituída por controle ou vigilância. Será que esses significados dão conta daquilo que chamamos supervisão pedagógica?

Embora em nossa perspectiva o trabalho de supervisão² ganhasse outros contornos e sinônimos, vale dizer, também presentes em dicionários, como acompanhamento e coordenação, notávamos que, por vezes, éramos recebidas como pessoas que iriam apenas fiscalizar e controlar o trabalho.


1 Edna é Assistente Técnico-Pedagógica e Meire é Orientadora Pedagógica da Secretaria Municipal de Educação de Leme (SP).
2 A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9.394, de dezembro de 1996, artigo11 (IV) determina que os municípios tenham a incumbência de autorizar, credenciar e supervisionar os estabelecimentos do seu sistema de ensino.

Como mudar essa visão?

A supervisão no Município, até então denominada visita pedagógica, acontecia com pouca frequência e com um olhar mais geral das propostas de atividades oferecidas às crianças, da organização do espaço e materiais adequados à cada faixa etária. Nestes dois últimos anos, participamos de um processo formativo³ que desencadeou a necessidade de planejar uma pauta de supervisão com foco definido. Isso fez aprimorar a nossa observação como Técnicas da Secretaria4, subsidiando os gestores na formação continuada de professores, possibilitando a reflexão sobre ações quanto à concepção de aluno, ensino e aprendizagem. Nesse período, as visitas às unidades escolares passaram a ser mais frequentes.

Aproveitamos o desenvolvimento de um mesmo projeto didático5 em boa parte das escolas de nossa rede de Educação Infantil para que essas ideias tão arraigadas nas escolas em relação à supervisão começassem a mudar.

Vale dizer que a atividade de supervisão não era proposta de modo isolado, mas dentro de um programa de formação amplo, que previa encontros mensais com coordenadores pedagógicos e diretores, realizados por nós, além de dois horários mensais de HTPC6 dedicados às reflexões da prática e do planejamento de atividades do projeto didático desenvolvido nas escolas pelos professores.


3 Programa Formar em Rede +, desenvolvido pelo Instituto Avisa Lá.
4 As atividades de suporte pedagógico são exercidas pelos profissionais do Magistério titulares de cargo e/ou designados para função de confiança, obedecendo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9.394, de 1996, e Lei Complementar Municipal no 615, de outubro de 2011, que institui o Estatuto do Magistério Público Municipal de Leme (SP). 5 Que teve como foco os textos informativos.

O olhar da supervisão

Embora os encontros de formação fossem essenciais para o desenvolvimento do trabalho, notávamos a importância de um acompanhamento mais próximo nas escolas. Como aquilo que discutíamos e tematizávamos nos encontros mensais chegava às unidades educativas? Como reverberava em novos planejamentos? Por que nem sempre o que parecia estar claro nas formações acontecia nas escolas?

Com essa necessidade de mais acompanhamento do trabalho, o espaço de supervisão nas escolas passou a ser o nosso foco. Mas antes precisávamos mudar a concepção ainda presente. Não iríamos entrar na escola para fiscalizar, mas para estabelecer uma parceria e realizar um acompanhamento.

A supervisão como espaço de parceria

Para que isso de fato acontecesse, a primeira ação foi levar aos encontros de formação a necessidade desse acompanhamento do trabalho nas escolas: ele não seria feito apenas quando alguma coisa estivesse indo mal, mas de forma permanente, com um planejamento prévio e consoante ao que estava sendo tratado na formação.

Esses foram os primeiros passos para que começasse a se dar uma parceria efetiva entre nós, formadores, técnicos da Secretaria, diretores, coordenadores pedagógicos e professores. Parceria necessária para um trabalho mais eficiente e com foco na aprendizagem da criança, com mais tempo para observar e dar devolutivas mais precisas aos gestores, que são os maiores responsáveis pelo trabalho de formação na escola.

O foco na observação durante a visita foi possível mediante a pauta de supervisão orientada pelas formadoras do Instituto Avisa Lá, com conteúdos e objetivos bem definidos, além dos encaminhamentos necessários para esse momento.


6 Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo

Cuidados com os parceiros

Muitas vezes, ainda há a crença de que se deve aparecer de surpresa na escola, pois só assim conseguimos ver o que acontece de fato. Na verdade, essa visão pressupõe uma ideia de que o professor será pego no flagra, como se o supervisor fosse denunciar alguma coisa, bem diferente da parceria e da formação que estávamos querendo instaurar na supervisão. As concepções de trabalho aparecem numa atividade planejada em conjunto, diretor e/ou coordenador pedagógico, professor e nós, os técnicos, e, quanto mais o professor for assegurado de que está sendo acompanhado em seu trabalho, mais aberto e menos resistente às mudanças ele ficará.

Dessa forma, vamos relatar uma experiência que realizamos. Após a pauta definida, o segundo passo foi ligar para os gestores da EMEB Salma Elmor Nassif, uma entre as várias escolas em que fazemos o mesmo modo de trabalho, e propor que acompanhássemos uma atividade do projeto didático na sala de uma professora, já apresentada e discutida nos encontros de formação. Combinar o melhor dia e horário para ela é uma forma de respeitar seu tempo e seu espaço de trabalho, fundamental para que nos vejam como parceiros e não como “fiscais” que chegam de surpresa e os deixam sem saber o que realmente estamos fazendo ali. Como técnicas, colocamo-nos à disposição dos gestores para ajudá-los no planejamento dessa atividade, porém a coordenadora assumiu esse papel com a professora.

Por ser um projeto didático de leitura e escrita de textos informativos na Educação Infantil, sabíamos que teríamos alguns desafios pela frente. Embora a ideia de que as crianças pequenas também tivessem de ter acesso à linguagem escrita desde cedo, muitas professoras ainda ficavam na dúvida em como proceder. Como intervir quando a criança ainda não lê e escreve de modo convencional? Como ajudá-las a avançar em suas hipóteses?

Tratando-se de textos informativos, algumas características desse tipo de portador, bem como seus procedimentos de leitura, precisavam ser ensinadas às crianças. Será que lemos um livro informativo de cabo a rabo? Como conseguimos encontrar o que queremos pesquisar? Apresentar o índice às crianças tornou-se uma ação importante, que além de ensiná-las o procedimento da consulta, também propiciava que a leitura do índice pudesse fazê-las refletir sobre o sistema de escrita, avançando em suas hipóteses.

A observação em sala

A atividade observada foi da leitura do índice pela criança. A professora Fernanda, da sala de Pré-1 (crianças de 4 anos), planejou as duplas produtivas de trabalho, ou seja, crianças com conhecimentos próximos, mas diferenciados, e providenciou uma cópia em letra bastão do índice do livro.

No momento da observação, a turma estava organizada nas atividades diversificadas para que as crianças tivessem mais autonomia em suas produções enquanto a professora realizava a leitura com as duplas. Sabiam da nossa visita e como aconteceria esse momento. Elas estavam muito tranquilas, parecia uma prática comum nessa sala.

A professora fez os encaminhamentos para as duplas no início da atividade: procurar a palavra FORMIGA no índice: cachorro, foca, formiga, galinha, gato, jabuti, macaco, peixe e tartaruga.

Nas primeiras duplas, as crianças já identificavam as letras inicial e final da palavra. Pensar em outras formas de justificar sua escolha e fazê-las avançar em suas hipóteses seria um desafio que a professora poderia provocar nas crianças, tornando essa atividade de leitura uma situação de aprendizagem e não apenas diagnóstica. Como ajudá-la durante a atividade?

Intervir naquele momento foi necessário, porém fizemos isso de forma cuidadosa, pois não poderíamos colocar em risco a relação e a confiança da professora depositada em nós, técnicas, mas vimos a oportunidade para fazê-lo e aproveitar esse momento que ela tanto planejou e, assim, não seria necessário retomar a atividade com todos.

Sugerimos que, nas duplas seguintes, ela provocasse o desafio de irem além de apontar as letras inicial e final para justificarem suas respostas, uma vez que já tinham esse saber. A professora poderia motivá-las com perguntas que fizessem buscar indícios internos na palavra FORMIGA, como apontar para a palavra FOCA que também possui essas mesmas características, comparando os eixos quantitativo e qualitativo entre estas. Por exemplo: Por que você acha que aqui está escrito FORMIGA? Não poderia ser essa palavra que também começa com a letra F e termina com a letra A? (apontando para FOCA). Será que podemos olhar para outras letras ou partes das duas palavras que nos ajudem a descobrir qual é a FORMIGA?

Essas intervenções ajudariam as crianças em relação à busca por informações de forma a avançarem em suas hipóteses e passarem a considerar outros elementos na leitura. A professora, como sempre, aberta e comprometida, aceitou o desafio para as próximas duplas. Ela foi bastante cooperativa e profissional e, por isso, pudemos inaugurar um jeito novo de fazer supervisão. Para nós três foram momentos de muita aprendizagem, e as crianças também puderam avançar em suas hipóteses.

A parceria com os gestores

Toda a ação foi combinada de antemão com o diretor e coordenadora pedagógica. Após a supervisão em sala demos uma devolutiva aos gestores, relatando a observação realizada e os encaminhamentos para as reflexões necessárias com a professora ou grupo: acompanhar a atividade em outra sala, certificar a clareza dos objetivos da atividade para todos, retomar o vídeo de tematização – O trabalho com o índice – utilizado no quarto encontro, agora com mais foco nas intervenções (o porquê daquelas perguntas àquela dupla, o que a professora queria que as crianças aprendessem quando as questionava), bem como planejar a próxima atividade do projeto com a professora. Levar essa reflexão para a formação em HTPC seria fundamental. A necessidade de uma conversa individual com a professora também era uma forma de fortalecer esse trabalho de formação na escola e priorizar a observação como auxilio e parceria com o professor, já que todos fazem parte desse processo de construção de conhecimentos.

Os gestores da escola aderiram com profissionalismo à proposta e foram além… Solicitaram que uma das professoras da escola fizesse um relato no HTPC sobre sua atividade de leitura de índice, acompanhada por eles em sala de aula. Como as intervenções da professora foram boas acharam interessante socializá-las com as demais.

A supervisão deve ser cuidadosa por parte de quem supervisiona, estabelecendo-se como uma parceria para atuar juntos em busca da melhoria da qualidade da educação, nunca como atividade de fiscalização ou mera avaliação do trabalho em sala de aula, mas como um dos instrumentos para auxiliar na formação dos professores.

A experiência foi importante para refinar o nosso olhar como técnicas sobre o que está sendo proposto às crianças, auxiliando os envolvidos na compreensão do que realmente é necessário para garantir que elas avancem em seus conhecimentos.

Já é tempo de desconstruirmos a ideia de que a observação é para fiscalizar. O técnico precisa ser visto como formador, e uma das possibilidades da formação é que aconteça na própria unidade escolar durante o cotidiano de trabalho com as crianças. O trabalho em rede vem fortalecer essa ideia de que precisamos de parcerias para crescermos e beneficiarmos a criança.

Como disse o diretor Marcos Terossi, da EMEB Salma, a intervenção ainda é um desafio tanto para o professor quanto para nós, gestores. Essa prática é um processo em construção na rede e é fundamental que seja foco nas formações que realizamos na unidade escolar. A leitura como conteúdo vem com um novo olhar na Educação Infantil, e o acompanhamento das atividades em sala é necessário para o replanejamento de ações escolares.

Posted in Revista Avisa lá #69.