Brincadeira, arte e cultura em Florianopolis – Crianças constroem o boi de mamão para brincar

Nesta matéria, apresento um pouco de minha experiência com uma forma de trabalho que se aproxima do que se denomina projeto. Esse é sobre o boi de mamão, desenvolvido no primeiro semestre de 1998 com crianças de 3 anos em um Núcleo de Educação Infantil da Rede Pública Municipal de Florianópolis-SC.Tivemos a intenção de articular a brincadeira boi de mamão – manifestação do folclore ilhéu – com a arte, o conhecimento e a cultura. Conheça mais nas próximas páginas



O trabalho teve a intenção de articular a brincadeira Boi-de-Mamão
– manifestação do folclore ilhéu – com a arte, o conhecimento e a cultura. Entre os diversos objetivos, destacamos a construção de um boi de mamão através de um processo lúdico-artístico e a aproximação com a cultura como possibilidade de ampliar a experiência estético-visual e assegurar o alimento ao imaginário infantil e suas diversas linguagens: corporais, verbais, estéticas e musicais.

Considerei como princípio e ponto de partida o direito da criança pequena interagir e usufruir o patrimônio artístico – cultural da humanidade através de sua expressão universal e local. Como fruto desse contato, o direito de construir categorias estéticas de produção e apreciação da arte além do progressivo domínio dos procedimentos do fazer artístico como forma de expressão e de conhecimento. Mas, o mais importante, a garantia do direito fundamental da criança: brincar.

Diversos olhares sobre o Boi-de-Mamão
Partindo do conhecimento prévio das crianças e da comunidade sobre a farra do boi e o boi-de-mamão do conhecimento popular, organizamos um passeio – visita ao Museu de Arte de Santa Catarina para ver a Exposição de Juarez Machado e seus diversos olhares sobre a cultura da ilha, sobre a farra do boi e o boi-de-mamão.

Nesse caminho, percorremos algumas trilhas do “erudito ao popular” – incursão e interação das crianças com a arte e conhecimento mais elaborado através da arte de Juarez Machado, Portinari, Martinho de Haro e Franklin Cascaes – para alimentar nosso repertório imagético a fim de favorecer o percurso gráfico e plástico na construção do nosso boi.

Deleitamos com histórias da mitologia brasileira e do folclore catarinense e ilhéu, com seus personagens fantásticos, para enriquecer nosso imaginário na composição dos personagens.

As dificuldades de um trabalho coletivo Na construção do nosso boi-de-mamão, vivemos um processo lento e o planejamento configurou-se num momento de difícil equilíbrio e muitas interrogações: acreditava que as crianças deveriam ser entendidas como sujeitos nesse processo, participando das ações de forma organizada e intencional.

Mas como organizar tal participação encontrando um jeito entre sintonia e compasso do trabalho a ser desenvolvido com as possibilidades reais e potenciais das crianças de 3 anos? Em que situações essa participação poderia ocorrer de fato para que os momentos de espera não fossem maiores que os de participação efetiva e de criação? Pensava no resultado da alegoria, que deveria ter uma certa resistência, sem ser pesada demais, para que as crianças pudessem brincar e manipular, além de ter uma estética que identificasse a produção do grupo, mas que também lembrasse o Boi-de-Mamão.

No início, na construção com sucata e na definição de formas estruturais, considerava importante que as crianças acompanhassem o que é o princípio do trabalho com sucata: o processo de transformação e reaproveitamento do material em nova configuração, que nesse caso seria a criação de figuras e formas do nosso boi.

Elas precisariam saber como uma caixa de papelão se transforma no corpo do boi, como embalagens de garrafas plásticas e caixas viram cabeças do boi, cavalo e cabra. No entanto, sentia que havia pouca participação efetiva das crianças nesses momentos e que eles se configuraram mais em momentos de espera – gerando confusão e dificultando o próprio trabalho – do que em participação e produção coletiva.

Fotos: Mônica Fantim

Perguntava-me onde ou em que as crianças realmente podiam contribuir, participar e ajudar para sentirem-se autoras dessa construção e não apenas meras espectadoras. Então, se antes estava planejado construir tudo com elas para que acompanhassem todo o processo de criação, comecei a questionar se tal procedimento era o mais acertado, correto e adequado em tais circunstâncias.

Soluções para garantir a participação de todos
Apoiada nos instrumentos teóricometodológicos que Madalena Freire propõe – observação, registro, análise e avaliação e (re)planejamento –, reconsiderei algumas questões, planejando outras formas e momentos de participação coletiva.

Discutindo com outros profissionais e refletindo a esse respeito, pensei numa dinâmica de trabalho para a construção das estruturas do boi-de-mamão de forma que não comprometesse a autoria coletiva: separei os momentos mais difíceis e demorados na confecção e montagem da estrutura básica, que ficariam sob meu encargo, e as crianças participariam da papietagem (rasgar papel e colar em várias camadas), da pintura, da escolha e da montagem dos acessórios.

Aos poucos outras etapas foram-se sucedendo e fomos dando vida ao nosso boi. Assim, combinamos nosso jeito de ver, saber e fazer com outros tantos jeitos e fomos ampliando nossa experiência estético-visual através da vivência, experimentação e construção de conhecimentos culturalmente significativos. Esse caminho também nos levou a chegar novamente ao popular, através do passeio e da visita ao boi-de-mamão de Sambaqui, alimentados por um delicioso piquenique à beira-mar.

A apresentação do Boi, síntese de tantos esforços Vivenciando a riqueza e beleza desse percurso em que buscamos elementos diversos para construir nosso boi-de-mamão, restava a síntese, que seria a apresentação – momento e espaço em que a parcela da criação individual e coletiva encontraria seu momento de expressão lúdica e artística.

A apresentação, ou melhor, as apresentações, de certa forma estiveram presentes em todo o processo, pois sempre cantávamos e brincávamos nos momentos de confecção, dançávamos assim que cada alegoria ficava pronta – tomando os devidos cuidados, principalmente nas brincadeiras de pátio, quando as crianças de outras turmas também participavam.

Mas a apresentação formal foi o momento mais esperado – a alegria contagiante das crianças, a emoção e o orgulho dos pais assistindo, vibrando, cantando e fotografando suas crianças. No entanto, foi um “grand finale” sem fim, pois até hoje as crianças continuam brincando, se divertindo e apresentando o nosso, e agora de todos, Boi-de-Mamão.

Reflexões finais
Tendo cumprido essa trajetória, chegamos ao final do projeto, enriquecidos com os elementos e alimentos da arte, da cultura e do conhecimento, construindo uma possibilidade de educação lúdico-estética que permitiu a recriação de uma brincadeira tradicional na nossa cultura. Conversando, conhecendo, vendo, visitando exposições e lugares, desenhando, pintando, representando, cantando, dançando, construindo, brincando, passeando e apresentando: assim as crianças vivenciaram esse percurso.

Posso dizer que nosso projeto foi uma trajetória muito rica, cheia de curvas, desvios e atalhos, mas mostrou uma possibilidade de trilhar caminhos apaixonantes e culturalmente significativos entre a arte erudita e popular na Educação Infantil. No percurso do projeto, a cultura foi sendo reconstituída com arte e ludicidade.

As brincadeiras com o boi, a música, os instrumentos marcando passos e ritmos, os detalhes da confecção, do ensaio e apresentação… os passeios, tudo configurando a construção de uma sintonia entre o projeto com as demais propostas da rotina das crianças: as atividades permanentes e as diferentes seqüências.

As crianças dialogaram com os elementos da cultura e do conhecimento mediadas pela professora, que organizava e criava condições para tal, compondo todas um grande mosaico colorido e musical. Revelação de um encontro, de uma sintonia e de um compasso entre crianças arte e cultura marcado ludicamente pelas linguagens da arte, da música e da brincadeira.

(Mônica Fantin, foi professora e coordenadora pedagógica da rede pública municipal de Florianópolis. Atualmente é professora na UFSC, colaboradora do Museu do Brinquedo da Ilha de Santa Catarina e assessora de projetos artísticos e culturais, entre eles o “Artistas da Palavra”, do Instituto Cidade Futura)

Brincar com o Boi-de-Mamão é uma forma de conhecer a cultura ilhoa

O que é o Boi-de-Mamão

O folguedo Boi-de-Mamão é uma das brincadeiras de maior atração popular no folclore do litoral catarinense, pois seu enredo envolve história, encenação/dramatização, música e dança ao redor do tema épico da “vida, morte e ressurreição do boi”.

O Boi-de-Mamão catarinense pode ser considerado como uma variação do conhecido Bumba-meu-Boi e, se no Nordeste sua apresentação é mais dramática, em Santa Catarina o trágico e o dramático cederam lugar ao cômico e ao lúdico. Com características próprias e variações de personagens, músicas e coreografias, o Boi-de-Mamão catarinense incluiu a Maricota e a Bernunça e ficou mais leve e gracioso.

As figuras centrais do Boi-de-Mamão são o boi, o vaqueiro, o cavalinho, a cabra e seu Mateus, dono do boi. Dependendo do lugar, da cidade ou da região, os personagens que acompanham o boi diversificam-se.

A apresentação começa com as figuras que vão surgindo e dançando ao som da cantoria com o “chamador”, que conta e canta os versos chamando para se apresentar: as investidas do boi, a sensação de morte e seu ressurgimento através da benzedura, uma vez que o veterinário o dá como morto; o cavaleiro que laça o boi e a cabrinha que pula e berra; a terrível bernunça, que dança abrindo e fechando sua boca enorme, engole uma criança da platéia e dá à luz uma bernuncinha; a Maricota, com seus três metros de altura dançando com seus longos braços girando pelo corpo com as mãos espalmadas e, para finalizar “todos bichos no salão”. (Podem aparecer outras criações, como o Jaraguá os urubus, que bicam o boi morto, os cachorros que espantam, além do urso, macaco, caipora, marimbondo e o galinho, que em certos lugares finaliza a apresentação.)

Em Florianópolis, há cerca de 30 anos, havia muitos grupos de Boi-de-Mamão e por uma série de motivos foi desaparecendo esta manifestação da cultura. Se antigamente o folguedo era realizado no carnaval e nas ruas dos bairros como uma prática cotidiana, hoje ele acontece principalmente em eventos culturais, festas juninas e em manifestações folclóricas.

O projeto

Objetivo do projeto

Objetivo compartilhado com as crianças: Construir um boi-de-mamão para a turma.

Objetivo didático do projeto: Conhecer as diversas representações
de boi-de-mamão na arte (erudita e popular) ampliando a experiência estético-visual das crianças e alimentando o imaginário infantil através de diferentes linguagens verbais, corporais e artísticas.

O que a professora quer que as crianças aprendam

  1. Identificar o boi de mamão como brincadeira típica e manifestação da cultura da ilha.
  2. Ampliar a experiência estético-visual das crianças.
  3. Interagir com elementos da cultura erudita e popular.
  4. Apreciar representações diversas em diferentes artistas, veículos e portadores da arte erudita e popular.
  5. Aproximar com as obras de alguns artistas em relação à temática fornecendo dados para apreciação e fazer artístico de seus trabalhos.
  6. Registrar suas impressões para construir seus registros.
  7. Ampliar repertório imagético para construir suas representações gráficas e plásticas.
  8. Expressar pensamentos e sentimentos através do desenho, da pintura, da música e da dramatização.
  9. Construir com sucatas compreendendo o princípio da transformação e reutilização de materiais.
  10. Socializar e interagir com o grupo em situações organizadas.
  11. Valorizar o conhecimento cultural, a troca e o trabalho cooperativo.

Seqüência de atividades

  1. A partir da discussão sobre a farra do boi em decorrência da Páscoa – época em que mais aparece tal manifestação –, conversar com as crianças para conhecer o que sabem sobre o boi, relacionando e suscitando o assunto do boi-de-mamão: conhecem a brincadeira, a música e os personagens? Já brincaram? Onde viram? E outras questões, instigando o interesse para a construção do boi-de-mamão da turma.
  2.  Pedir que as crianças pesquisem com os pais sobre o boi-de-mamão e desenhem seus personagens.
  3. Expor ao grupo a pesquisa realizada e os desenhos feitos pelos pais.
  4. Discutir as várias possibilidades de representação do boi-de-mamão relacionando o desenho dos pais com algumas representações na arte.
  5. Mostrar desenhos, gravuras e pinturas de diversos artistas (Portinari, Martinho de Haro, Franklin Cascaes e Juarez Machado) a respeito da temática.
  6. Preparar visita ao Museu de Arte de SC (MASC) no Centro Integrado de Cultura para ver a exposição de Juarez Machado sobre a ilha, mostrando catálogos e dando alguns dados biográficos.
  7. Visitar a exposição de Juarez Machado no MASC.
  8. Fazer registros individuais sobre a visita pintando o que mais gostou.
  9. Pintar um painel coletivo sobre o passeio e montar a exposição dos trabalhos sobre a visita à exposição.
  10. Ler e contar histórias da mitologia brasileira e do folclore catarinense e ilhéu (sobretudo na atividade permanente da roda da história).
  11. Dramatizar a história do Boi-de-Mamão com bonecos de fantoche de dedos;
  12. Assistir ao filme do Boi-de-Mamão.
  13. Fazer com as crianças os personagens do boi com sucata utilizando caixas de papelão, caixas de leite, potes de plástico, arame, espuma, jornal, fita crepe, cola, grude, tampas de garrafas, cabos de vassouras, cabide etc.
  14. Papietar os personagens e, após secar, pintar.
  15. Vestir os personagens com retalhos e tecidos coloridos, vestido, luva, lãs, e acessórios para enfeitar.
  16. Cantar a música do Boi-de-Mamão com acompanhamento do som e percussão de ritmos com pandeiros.
  17. Brincar de Boi-de-Mamão na sala e no pátio da escola;
  18. Desenhar com e sem interferências os personagens e outros temas (trabalho realizado dentro da perspectiva das atividades seqüenciais).
  19. Visitar o Boi-de-Mamão de Sambaqui.
  20. Desenhar o que mais chamou a atenção no passeio.
  21. Apresentação para outras turmas da escola e para os pais.
  22. Desenhar seu auto-retrato expressando como se sentiram na apresentação do boi-de-mamão.

Ficha técnica:

Iniciativa: Núcleo de Educação Infantil (NEI) Santo Antônio de Pádua – Florianópolis. Realização: Odete Oliveira Reis (auxiliar de sala), Dione Raizer (professora do NEI), Darcy (auxiliar de serviços gerais), Maria Elisabete Ruzza (auxiliar de direção) e Maria de Fátima Barbosa da Costa Ferreira (diretora)

  • Mônica Fantin: R. Prof.Walter Bona Castelan, 434, Florianópolis – SC 88037-300 Fone (48) 233-2759 • e-mail: [email protected] terra.com.br

Para Saber Mais

O Boi-de-Mamão:

  • Escola do Boi – Tel (48) 331-8525 (com Maristela)
  • Grupo Arreda Boi – Tel (48) 269-83 21 (com Nado)
  • NEI Santo Antônio de Pádua Tel (48) 334-8363 (com Dione)
  • Museu do Brinquedo da Ilha de Santa Catarina/Museu Universitário da UFSC Tel (48) 331-9325 (com Peninha)

Bibliografia:

  • Arte-educação: leitura no subsolo. Org. por A.M. Barbosa. Ed. Cortez.Tel.: (11) 3864-0111.
  • Reflexões: criança o brinquedo e a educação.Walter Benjamin. Ed. Summus. Tel.: (11) 3865-9890.
  • Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. MEC Tel.: (61) 410-8484.
  • Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília, MEC.
  • Revista Criança no 29, MEC. Tel.: (61) 410-8484.
  • Por um triz. Paz e Terra. Org. por Monique Deheinzelin. Tel.: (11) 223-6522
  • Instrumentos Metodológicos II. Planejamento e Avaliação. Espaço Pedagógico. Tel.: (11) 5505-5013
  • As artes e o desenvolvimento humano. Howard Gardner. Ed. Artmed. Tel.: (51) 330-3444.
  • O desenho cultivado da criança. Rosa Iavelberg. In CAVALCANTI, Zélia (org). Arte na sala de aula. Ed. Artmed.
  • Ilha de Santa Catarina. Caderno de esboços. Juarez Machado. Publicado pela Simões de Assis Galeria de Arte, Curitiba.
  • Didática do ensino de arte. A linguagem do mundo: poetizar, fruir e conhecer arte. Org. por M. Martins. Ed.FTD. Tel.: (11) 3284-8500.
  • Aprendizagem escolar e construção de conhecimento. C.S. Coll. Ed.Artmed.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #9 de janeiro de 2002. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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