Crianças de 1 a 2 anos1 de idade têm um jeito muito particular de ler e apreciar belas imagens, que são a sustança de seu pensamento e de sua imaginação
Eram 12 crianças, de 1 ano e meio a 2 anos. Doze crianças, magrinhas, gordinhas, carecas, cabeludas, fofíssimas, mas não falavam, ou melhor, falavam muito pouco. Foi desta observação que partiu a ideia de desenvolver um trabalho de leitura de imagens com esses pequenos: brincar, conversar, pensar… deixar que as crianças manuseassem lindas imagens de Aldemir Martins.
O primeiro passo foi trazer imagens para as crianças apreciarem, mesmo sabendo que poderiam rasgar, como é próprio das crianças pequenas. Levei primeiro uma grande gravura de um galo. As crianças ficaram maravilhadas com o tamanho da imagem, quase da altura de algumas delas. Estendi a imagem no chão e rapidamente elas foram deitando ao seu redor, iniciando uma conversa a respeito:
– Có có? – perguntava Suelen, meio incrédula.
– Sim é um galo! – respondi.
– Ai dedo! – dizia Sabrina, colocando o dedinho no bico do animal.
– Có có có! – falava Guilherme, caindo na gargalhada.
As crianças deitavam em volta, em cima da imagem, corriam para o canto da sala e voltavam correndo para cima da imagem, davam pulinhos como se o galo estivesse mordendo seus pezinhos, enfim “deitaram e rolaram”, literalmente.
No final, não sobrou muito do galo. Quando as crianças se deram conta disso, olharam com expressão de medo ou surpresa, talvez tristeza. Medo, talvez, por não sermos íntimos e não saberem qual seria minha reação. Surpresa, pois creio que não esperavam que tamanha empolgação e alegria pudessem resultar naquilo. Tristeza, talvez, por considerarem que, se o “galo acabou”, a brincadeira também. Então, tirei um durex da bolsa e, num misto de mágica e brincadeira, fui, juntamente com as crianças, restaurando a obra. Recortei pedacinhos de durex e fui dando a elas, que ora o fixavam no papel, ora no cabelo do amigo, na perna, no chão. Muitas vezes a apropriação e o uso do material, que nos parece muito simples, apresentam um mundo desconhecido e maravilhoso para os pequenos.
Por isso, é tão importante conhecer a respeito da faixa etária, para se desenvolver um trabalho coerente, com intencionalidade e intervenções apropriadas.
Terminada a restauração da imagem, combinamos de pendurá-la na parede, na altura de todos, para que pudessem continuar as explorações.
Na semana seguinte, a imagem continuava lá, mais remendada ainda. Levei então alguns exemplares da obra O Galo, de Aldemir Martins, afixadas num papelão, para dar firmeza, e plastificadas, para dar durabilidade. Algumas crianças pegavam a nova imagem e levavam-na até a parede, colocando-a ao lado da antiga imagem do galo.
– Galo! Galo! – diziam apontando para ele.
– Sim, este também é um galo – confirmava eu.
A apreciação das imagens trazidas privilegiou a compreensão, dando maior qualidade às nossas conversas.
Dia a dia fomos brincando de exercitar o olhar, de conversar sobre as impressões que estas propiciavam: espanto, maravilha, embevecimento, susto, medo etc.
– Miau, miau – dizia uma criança, com jeito mole.
– Miau, miau – retrucava outra, ferozmente.
Durante as observações, meu papel passava de interlocutor, disparador ou intermediador das conversas: as crianças exercitaram habilidades de relacionar e solucionar questões propostas por mim. Trabalhar com imagens foi um modo particular de utilizar outras linguagens, ampliando a comunicação entre pares e entre grupos.
Foi assim, ensinando e aprendendo com as crianças que desenvolvi este trabalho. Trocando as imagens mimeografadas e estereotipadas por boas imagens, propondo a elas situações de aprendizagem, convidando-as a exercitar a prática de aprender a ver, observar, ouvir, atuar, tocar, refletir, enfim, olhar com olhos de criança.
1 Esta seqüência de atividades foi realizada na creche Mamãe com apoio do Instituto C&A.
(Luciana Hubner, formadora do Crecheplan, do MEC e consultora de algumas prefeituras)
Para saber mais
- Pacífico o gato. Branca Maria de Paula com ilustrações de Aldemir Martins. Ed. Paulinas. Tel.: (0XX11) 276-5566.
- Aldemir Martins, no lápis da vida não tem borracha. Nilson Moulin e Rubens Matuck. Ed. Callis. São Paulo.
Tel.: (0XX11) 822-2066. - www.jig.com.br/artes/aldemirmartins
Dicas do Professor:
Caixa de imagem
Uma caixa colorida, que expõe produções dos pintores que escolhemos, foi uma das ofertas que mais encantaram as crianças do maternal 2 (2 anos) da nossa creche. Essa é uma das maneiras de colocar crianças pequenas em contato com as imagens, para observá-las, conhecê-las, apreciá-las. Curiosas, esperando sua vez para olhar com muita expectativa, conversam sobre os detalhes que notam e as surpresas que descobrem dentro da caixa.
(Margarete de Faria e Solange Mara dos Santos1)
Materiais:
- caixa tamanho médio (pode ser a caixa de pão que é entregue na creche)
- papel camurça branco
- cola
- pincéis
- tinta guache azul, vermelha, verde e branca, para misturar com as demais
Como fazer:
- Encape a caixa com papel camurça branco;
- Pinte diferentes formas coloridas ou com os motivos que quiser. As
crianças podem se encarregar disso, discutindo com o grupo e decorando como acharem melhor; - Deixe secar e observe o resultado; se for preciso, faça um bom acabamento. Nossa caixa foi bem incrementada com contornos pretos feitos com canetinha;
- Abra uma janela no centro de uma das laterais;
- Fixe uma imagem por dentro, para que possa ser visualizada pelas crianças;
- Você pode ainda oferecer uma lanterna para as crianças iluminarem a imagem de fora para dentro, ou colocar um soquete e lâmpada, para iluminá-la por dentro.
1Margarete e Solange são educadoras de uma das creches da Associação Obra do Berço, Rua Borges lagoa, 1555, São Paulo, SP, 04038-034, tel: 570-6520
Sustança
Quem é Aldemir Martins?
Nascido em 1922, no interior do Ceará, Aldemir Martins é um artista que costuma encantar as crianças. Seu trabalho é bastante diversificado: desenho, pintura, xilogravura, tapeçaria, cerâmica, esculturas, jóias e ilustrações de livros como As Mil e Uma Noites, Sonetos, de Bocage, Gabriela, de Jorge Amado, entre outros. As cenas nordestinas que criou são o tema favorito de muitos de seus apreciadores, a marca do início de sua carreira. Depois das caatingas e cangaceiros, ele fez retratos, nus, gatos e outros bichos.
Dentre suas técnicas mais usadas encontramos a hachura, traçados simples que vão ocupando e preenchendo as formas, compondo teias parecidas com as rendas das rendeiras que, segundo ele, lhe ensinaram essa técnica. Toda essa simplicidade já foi exposta em bienais no Brasil, Veneza e em Barcelona, além de galerias e museus em diversas partes do mundo. Aldemir Martins vive hoje em São Paulo e continua trabalhando avidamente. E se hoje, depois de tantos prêmios, anos de estudo e muita produção, alguém lhe perguntar sobre o segredo de sua técnica e seu belíssimo trabalho, ele ainda responderá: “a coisa é simples: desenhar todas as horas e todos os dias…”