Resistir também é aprender

Lucila Silva de Almeida

Falar sobre aprendizagem é, inevitavelmente, tocar em algo que nos desestabiliza.

Aprender implica movimento, deslocamento, abertura para o novo, e tudo isso, por vezes, causa desconforto.

Não se trata apenas de receber um conteúdo ou experimentar uma técnica, mas de se deixar atravessar por algo que nos exige rever o que pensamos, sentimos e fazemos. E é justamente nesse atravessamento que, muitas vezes, surge a resistência.

Mais do que um obstáculo, a resistência pode ser compreendida como parte do próprio processo de transformação, seja no plano individual ou coletivo.

A resistência sinaliza tensões, limites, conflitos, mas também desejos, buscas e presenças, em vez de paralisar, pode ser um ponto de partida.

Quantas vezes eu mesma resisti a um texto compartilhado nas disciplinas do mestrado, a intervenções feitas por um editor nos materiais que produzo, ou até mesmo ao revisitar minha trajetória e lembrar da minha primeira experiência formativa na creche onde trabalhei.

Cada possibilidade de desestruturar aquilo que acredito me desloca profundamente. Já tive vontade de desistir muitas vezes diante de trabalhos excessivamente normativos, de formações em que sentia que não daria conta. E, ainda assim, persisti.

Ficar, para mim, tem sido uma forma de aprender mais, de acessar outras camadas de saberes, e de reconhecer, com humildade, o quanto ainda não sei.

Com o tempo, venho compreendendo que a resistência nem sempre é sinal de recusa ou de bloqueio.

Muitas vezes, ela é uma forma legítima de dizer que algo não faz sentido naquele momento, que o ritmo precisa ser outro, que o modo de fazer precisa mudar.

A resistência pode ser uma forma de marcar território, de dizer “estou aqui”, de buscar outro caminho possível. Ela carrega, em si, uma força que convoca deslocamentos, em quem resiste e em quem se dispõe a escutar.

Nas relações educativas, a resistência aparece o tempo todo. Quando uma criança se recusa a participar de uma proposta, quando insiste em repetir um gesto já desencorajado, quando não responde da forma esperada, tudo isso pode ser lido como resistência. Mas, se olharmos com mais cuidado, talvez a criança esteja dizendo que o convite não a alcançou, que o tempo dela é outro, que há algo ali que precisa ser revisto.

A resistência, nesse caso, se torna um convite para que o adulto também se mova, repense suas escolhas, reveja suas intenções.

Na formação de professores, a resistência também se anuncia nos corpos. Ela aparece em um olhar atravessado, em um silêncio prolongado, em um franzir de testa que revela incômodo. Gestos pequenos, quase imperceptíveis, mas carregados de pensamento.

Nem sempre quem franze a testa está recusando; muitas vezes, está tentando compreender, elaborando, tensionando aquilo que foi proposto. Há ali um pensamento em curso, um corpo que pensa antes de consentir.

Não raro, quem diz “não” ou nem chega a dizê-lo franze a testa, silencia, demora. Há ali um pensamento em curso, por vezes mais atento ao que está sendo proposto do que no “sim” que responde rápido demais.

E é justamente nesse ponto que mora a potência: quando algo nos incomoda, somos tirados do lugar comum e obrigados a pensar de outro jeito.

Resistir pode ser, portanto, um gesto de construção, de abertura ao novo, de aprendizagem profunda.

A resistência não é o contrário da escuta. Pelo contrário: ela exige que a escuta se amplie, se aprofunde. Ela nos obriga a sair do piloto automático e a estar, de fato, com o outro.

Reconhecer a resistência como parte do processo educativo é compreender que aprender envolve tensionar, duvidar, insistir, experimentar outras formas.

Talvez seja justamente nesse movimento de dizer “não” a algo que um novo “sim” comece a se formar.

Não sou especialista em dinâmicas de grupo, mas há um autor que sempre me atravessa quando penso nisso: Enrique Pichon-Rivière. Um de seus trechos que mais me comove diz: “Eu não sou você, você não é eu, mas sei muito de mim vivendo com você.”

Essa frase, para mim, é a síntese do quanto o outro nos provoca, nos tira das certezas, e do quanto esse outro nos oferece o privilégio da dúvida. Porque, se somos resistentes a algo, é porque pensamos sobre esse algo.

E a dúvida já nos tirou do lugar. Para Pichon-Rivière, a resistência não deve ser vista como algo a ser superado ou combatido, mas sim compreendida como linguagem.

A resistência aparece como um gesto. Às vezes silencioso, às vezes explícito. Um modo de dizer que o novo desorganiza, desloca, ameaça aquilo que parecia conhecido. Ela não nasce do acaso: traz inscritas as marcas de histórias pessoais e coletivas, crenças aprendidas, modos de existir que foram sendo tecidos ao longo do tempo.

Resistir é, muitas vezes, tentar preservar sentidos já construídos diante daquilo que nos convoca a mudar.

Em seus textos Pichon nos lembra também que toda tarefa grupal convoca o coletivo a se reorganizar diante de algo novo, e que, quando isso não é possível, emerge a anti-tarefa.

Um movimento que não é exatamente negação, mas expressão: a anti-tarefa revela aquilo que ainda não pode ser elaborado, que ainda exige mediação, tempo, escuta.

Ela aponta as zonas de tensão e revela os pontos que precisam ser lidos com atenção e cuidado.

Trabalhar com grupos de professores, crianças ou qualquer coletivo em movimento exige disponibilidade para escutar aquilo que ainda não virou palavra, mas que já se anuncia em forma de silêncio, desvio, repetição ou recusa.

A resistência, então, não é barreira. É possibilidade. E é nesse lugar ético e implicado que se faz possível sustentar uma escuta genuína aquela que não busca controlar o outro, mas reconhecê-lo em sua inteireza.

Talvez a grande força da resistência seja essa: nos lembrar que nada que vale a pena aprender vem sem movimento.

Talvez por isso, falar de resistência no início de um novo ano seja tão necessário.

O calendário nos convoca a recomeços, metas, projetos, como se mudar fosse simples e linear. Mas aprender e transformar-se raramente acompanha a pressa do tempo cronológico.

A resistência aparece, então, como um pedido de pausa, de cuidado com os processos, de respeito aos ritmos que não cabem em planejamentos fechados.

Escutá-la é também uma forma de sustentar começos menos apressados e mais verdadeiros.

17/04/2025

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Lucila Silva de Almeida – Mestranda na pós graduação em “Educação de Crianças de 0 a 3 anos” pelo Instituto Singularidades – SP. É autora do livro “Interações: Crianças, brincadeiras brasileiras e escola” – Editora Blucher e coautora do livro “Parlendas para Brincar” , “Adivinhas para Brincar” e “Receitas para brincar” Editora Panda Books e “Práticas comentadas para Inspirar” Editora do Brasil . Formadora de professoras da rede pública e privada desde 2002, atualmente trabalha em projetos e programas de formação de professores pelo Instituto Avisa Lá, Vivace e Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

       

Referência:

PICHON-RIVIÈRE, Enrique. O processo grupal. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

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