O despertar do olhar e da escuta

Diálogo entre música de vanguarda e arte visual contemporânea favorece a experiência de fruir arte pelas crianças pequenas

A prática educativa deve instigar, provocar, levar à reflexão e, sobretudo, abrir portas para a compreensão da arte que se produz hoje, pois ela caminha na contramão do que a mídia oferece. Deve, portanto, buscar novas estratégias para aproximar essas produções artísticas da realidade infantil. É desse princípio que partimos ao desenvolver um trabalho de artes com criança.Continue lendo >

Conversa na cantina e a matemática1

Situações do cotidiano, como conversa na fila da cantina sobre o dinheiro do lanche, transformam-se em situações de aprendizagem sobre cálculos e sistema numérico

Uma aprendizagem significativa é aquela que envolve a criança em sua curiosidade e em sua competência, desafiando-a em suas dúvidas cotidianas, ampliando e desencadeando novos conhecimentos e experiências. São situações que podem partir, muitas vezes, do interesse e da atitude dos próprios alunos, provocando professor a desenvolver atividades específicas. Um exemplo disso foram as conversas vivenciadas em sala de aula sobre o dinheiro do lanche e de todos os dias que  começaram a chamar a atenção de educadores do Centro Educacional Interação, em Santo André (SP).

mate5211Identificamos, nessa situação cotidiana, uma oportunidade para trabalhar conteúdos matemáticos previstos no plano anual dessa turma. Momentos antes do recreio ouvíamos os comentários: Continue lendo >

Formar formadores: uma tarefa complexa e coletiva

Para além de cursos, palestras e eventos pontuais, a formação continuada em uma rede pública, para se efetivar, depende de bons formadores locais

Maria Virginia Gastaldi1 desenvolve, desde 2005, consultoria técnica para as equipes de profissionais da Secretaria Municipal de Educação responsáveis pela Educação Infantil da cidade de Curitiba (PR). O longo processo formativo ensejou mudanças significativas nas práticas educativas com as crianças e também construção coletiva de conhecimentos sobre formação de formadores. Este foi o tema de sua dissertação de mestrado2.

Revista avisa lá: Em seu trabalho sobre formação continuada, você fala que o grande desafio do formador é aprender a aprender, aprender a ensinar e ensinar simultaneamente. O que significam essas ações simultâneas?
Maria Virginia Gastaldi: Quando falo que um dos desafios do formador é aprender a aprender, aprender a ensinar e ensinar simultaneamente, refiro-me ao que penso ser uma condição do agir profissional do formador. São ações simultâneas que marcam o período inicial de seu trabalho como formador, e permanecem ao longo de sua trajetória de trabalho. Em uma sociedade em mudança, a aprendizagem ao longo da vida é uma condição que se coloca hoje para todos os profissionais. Na educação, além das mudanças naturais de qualquer processo de aprendizagem, novas e numerosas demandas são feitas à escola e aos professores, o que acentua o valor da aprendizagem permanente e, consequentemente, de aprender a aprender.

Quais seriam as condições necessárias a um bom formador de formadores?
O formador precisa ser alguém com disponibilidade para aprender, para acolher os seus não saberes, os desafios que chegam, os apontamentos que parceiros lhe fazem, as inquietações, os resultados das propostas. O principal meio para dar conta de tudo isso é a reflexão. Ela potencializa as condições prévias e amplia a possibilidade de aprendizado. Quando se coloca na posição de pensar, refletir com os pares, o formador percebe que aprende muito e também produz mudanças. Essa é a função principal de um formador: produzir mudança. Quando ele se vê como alguém que sabe fazer, que sabe realizar ações que resultam em mudanças nas aprendizagens das crianças e dos professores, isso trás uma satisfação, uma alegria com o trabalho, reabastecendo-nos para novos desafios.

Há alguma especificidade no papel do formador em Educação Infantil?
A Educação Infantil, como parte da Educação Básica, é tão nova para nós, que estamos todos aprendendo sobre a especificidade desse ciclo da escolaridade. Ocorre, então, com muitos formadores, ter de trabalhar na formação com formas de organização de tempo, espaço, materiais e conteúdos que não conhece. Ele aprende nos programas de formação de formadores não só os conteúdos referentes à formação, mas também aqueles referentes à organização curricular da Educação Infantil, que são novos para ele. É por isso que digo que são ações simultâneas, porque o formador aprende e ensina praticamente ao mesmo tempo. E não é possível fazer muito diferente disso, dada a urgência das mudanças nos contextos da Educação Infantil. É preciso que as políticas e os programas de formação valorizem e considerem cada vez mais a complexidade da tarefa do formador e disponibilizem condições de tempo e recursos para que seu trabalho seja menos solitário e mais compatível com as condições do contexto em que trabalha. E nós, formadores de formadores, precisamos organizar contextos formativos de parceria e apoio cada vez
maior ao trabalho do formador.

Você disse que a principal função do formador de professores é produzir mudanças e que isso é um desafio. Pode dar algum exemplo disso observado na sua pesquisa?Continue lendo >

Espelhos

Sabemos que ler diariamente na escola é fundamental, mas serve qualquer livro? Veja aqui a discussão a distância entre profissionais de educação sobre critérios de escolha de acervo literário para crianças

Temi-os, desde menino, por instintiva suspeita. Também os animais negam-se a encará-los, salvo as críveis excepções. Sou do interior, o senhor também; na nossa terra, diz-se que nunca se deve olhar em espelho às horas mortas da noite, estando-se sozinho. Porque, neles, às vezes, em lugar de nossa imagem, assombra-nos alguma outra e medonha visão.
João Guimarães Rosa. Primeiras estórias. (1962)

Foto: CEMEI Profª Carolina Ferreira Lima (SME Apiaí–SP)

Foto: CEMEI Profª Carolina Ferreira Lima (SME Apiaí–SP)

Neste trecho de Guimarães Rosa fica claro que a ação de se olhar em um espelho, além de ocupar um lugar na história da civilização, tendo iniciado sua existência nas superfícies das águas, também ocupa lugar no imaginário das pessoas. O espelho tem sido personificado na literatura, na mitologia, nas crendices populares, em provérbios e pensamentos. Poderíamos escrever um livro de muitos capítulos sobre esse tão importante objeto e sua relação com o ser humano, mas, para nós, ele pode ser visto a partir de outro prisma, o de ser um utensílio importante para a educação.Continue lendo >

Costureiros reais

Crianças de quinto ano revelam sua trajetória como leitoras e a importância de alguns influenciadores: escola e família
Produção feita pelas crianças da Escola Grão de Chão

Produção feita pelas crianças da Escola Grão de Chão

Há grande diversidade de objetos nos espaços em que as crianças estão inseridas, com diferentes características, usos e estéticas. Conhecer o mundo implica conhecer as relações entre os seres humanos, a natureza, os objetos e a forma como interagem com os recursos com os quais dispõem.

Segundo os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (RCNEI):

Os materiais constituem um instrumento importante para o desenvolvimento da tarefa educativa, uma vez que são um meio que auxilia a ação das crianças. Se de um lado, possuem qualidades físicas que permitem a construção de um conhecimento mais direto e baseado na experiência imediata, por outro, possuem qualidades outras que serão conhecidas apenas pela intervenção dos adultos ou de parceiros mais experientes. As crianças exploram os objetos, conhecem suas propriedades e funções e, além disso, transformam-nos nas suas brincadeiras, atribuindo-lhes novos significados. (Vol. 1. p.71)

Para que os objetos possam ser utilizados como fonte de conhecimentos para as crianças, é necessário criar situações nas quais elas observem e percebam suas características sensíveis e também suas propriedades não evidentes. Foi pensando em oferecer às crianças de 4 e 5 anos do G5 novas informações sobre os materiais e seus usos e propiciar experiências diversas que organizamos o projeto Costureiros reais na Escola Grão de Chão, em São Paulo (SP).Continue lendo >

Observar para aprender o mundo

Crianças de quinto ano revelam sua trajetória como leitoras e a importância de alguns influenciadores: escola e família
Curiosos, os alunos descobrem mais sobre o caranguejo de água doce Foto: divulgação Escola Santi

Curiosos, os alunos descobrem mais sobre o caranguejo de água doce (Foto: divulgação Escola Santi)

Propor situações de estudo de Natureza e Sociedade para crianças de dois anos é um grande desafio. Em 2007, nós, educadores da Escola Santi, em São Paulo (SP), reavaliamos o que estávamos propondo para os alunos dessa faixa etária. Constatamos que um dos focos era organizar um estudo que possibilitasse aos alunos uma primeira aproximação com a observação científica, conteúdo procedimental essencial das Ciências Naturais.

Para crianças de dois anos, o contato direto com o objeto de estudo é fundamental para mantê-las envolvidas. No jardim da escola, temos dois jabutis – Inácio e Martin – que são cuidados e alimentados pelos alunos do T2 todos os dias da semana. Aproveitando-nos dessa situação, organizamos um projeto de observação e comparação entre os jabutis e outros animais trazidos por alunos de outras séries da escola. Por meio da observação e do convívio, nosso objetivo era que as crianças pudessem perceber as características físicas, hábitos alimentares e alguns cuidados básicos, além de estabelecerem comparações quanto a semelhanças e diferenças entre os jabutis e os animais que seriam trazidos à escola.Continue lendo >

Investigando contextos de formação do leitor

Crianças de quinto ano revelam sua trajetória como leitoras e a importância de alguns influenciadores: escola e família
Desenho: Pedro Melo Valim de Camargo

Desenho: Pedro Melo Valim de Camargo

Os resultados da mais recente pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”1 confirmam que os leitores mais experientes que convivem com crianças têm papel fundamental no ensino de comportamentos leitores, promovendo o contato com livros e a formação do repertório cultural dos leitores em formação. É deles a responsabilidade de mostrar às novas gerações o sentido e as características da linguagem escrita, e isso acontece de diversas maneiras. Por exemplo, servindo como modelo e inserindo-as em práticas de leitura. Assim, fica evidente a importância da participação da família e da escola nesse processo, que começa mesmo antes de a criança ler convencionalmente.Continue lendo >

A curiosidade e o e encantamento de movimentar o corpo

O uso do movimento nas escolas de educação infantil é um daqueles consensos difíceis de se tornar prática. Mas para algumas crianças ele é uma realidade na rotina

Eu me enrolo,
me espicho,
aprendo a rolar.
Olho o tatu-bola no chão e na mão.
Espio dentro de um buraco que me parece muito
fundo e me estico para dar uma
olhadinha no coelho.
Abaixo e levanto.
Me escondo embaixo da mesa e preciso ficar
muito alto para alcançar aquela bolinha de
sabão que quer escapar.
Testo meu equilíbrio, agora já não caio mais!
Me aperto dentro das caixas, me alongo para
olhar nas janelas.
Rodo, giro e rolo, mexo o meu corpo sem parar,
e no final do dia quero um colinho gostoso para
me enroscar!
(Mariana Americano e Carmen Orofino)

Foto: Mariana Americano

Foto: Mariana Americano

Segundo Rudolf Steiner1, os primeiros anos de vida de uma criança são principalmente dedicados ao desenvolvimento da motricidade, desde a coordenação dos músculos que controlam o globo ocular e possibilitam a visão do mundo até o controle da cabeça, dos braços, das mãos, do arrastar-se, do rolar, da capacidade de se sentar, seguidos pelo deslocamento no engatinhar e culminando com a posição vertical e o andar.

Na Escola Viva, muitas crianças, assim que aprendem a andar, passam a fazer parte da nossa escola, num momento em que seu corpo fala muito mais alto do que a comunicação oral. A curiosidade faz com que as crianças queiram conhecer o mundo, explorando cada possibilidade de movimento com o corpo. Para ajudá-las nesse processo de crescimento, proporcionamos muito mais do que apenas a exploração natural do espaço. Fazemos um planeja mento das atividades, uma organização intencional do espaço e um preparo do olhar voltado ao corpo des sas crianças, oferecendo desafios e também apoio para que se descubram e desenvolvam as habilidades motoras esperadas.Continue lendo >

Um começo que instiga

Ampliar o repertório de imagens pode contribuir para que as crianças se expressem de forma mais consistente e singular
Foto: Valéria Pimentel

Foto: Valéria Pimentel

O que fazer para ampliar o repertório de produção de imagens dos alunos? Há um universo de variações para encaminhar e propor desafios relacionados a esse conteúdo. Em muitas escolas, os professores respondem a essa pergunta planejando atividades que permitam aos alunos:Continue lendo >

Educação musical território para a produção infantil

Integradas com o ambiente e a cultura, as crianças interagem com sons e músicas, escutando, reproduzindo e criando

O ser humano interage com os sons, os silêncios e a música em sintonia com seu modo de perceber, pensar, sentir, conhecer… enfim, em consonância com sua maneira de ser e estar no mundo. Como uma das manifestações da consciência, a realização musical – jogo de sistemas sonoros simbólicos – reafirma a condição de integração entre o ser humano e o ambiente, bem como entre a natureza e a cultura.

Por isso, é sempre bom lembrar que o fazer musical não é privilégio dos músicos1, realizando-se de maneiras e por motivos diversos, com diferentes níveis de competências, conhecimentos, possibilidades e recursos. Os sons e silêncios, no continuum tempo-espaço, revestidos de sentidos e de significados, mantêm-se à disposição de músicos e não músicos. Basta manter-se disponível para produzi-los ou escutá-los.Continue lendo >