As esculturas e as crianças

A escolha das esculturas para o trabalho de artes com crianças de 3 anos foi uma decisão acertada pois é uma excelente porta de entrada para a experiência estética

A proposta de nutrição estética “Para comer com os olhos”, desenvolvida pela Eduque, envolve leitura visual, fruição de arte, reflexão, registro e construção de conhecimentos específicos da área. Incentiva-se a aproximação ao patrimônio estético cultural da cidade a partir de contatos acumulativos mediados dos alunos com museus de arte da cidade de São Paulo. Vimos, na edição 51 dessa revista, quais os propósitos deste projeto e o relato do trabalho realizado com os alunos do segundo ano do Ensino Fundamental. Continue lendo >

Observar para conhecer e documentar

O poder do olhar informado por uma concepção de criança potente e capaz muda a forma de registrar e documentar as ações educativas

As creches municipais de Teixeira de Freitas (BA)1 reconhecem a importância da brincadeira na infância e contemplam em sua rotina atividades permanentes que envolvem essa linguagem: cantinhos de atividades diversificadas, atividades com água e misturas variadas, circuitos para incentivar diferentes tipos de movimentos e brincadeiras de faz de conta, o tão imprescindível jogo simbólico.

Nesse sentido, o desafio para a formação dos gestores em 2011 não era mais a implantação do brincar na rotina das creches, mas identificar pontos que precisavam de investimento e aprimoramento. Analisado o resultado do diagnóstico acerca do brincar, nós, formadoras locais do Programa Formar em Rede, constatamos que ainda existiam fragilidades quanto à qualidade da interação entre educadores e crianças, uma vez que o processo educativo ainda era muito centrado no adulto.Continue lendo >

O despertar do olhar e da escuta

Diálogo entre música de vanguarda e arte visual contemporânea favorece a experiência de fruir arte pelas crianças pequenas

A prática educativa deve instigar, provocar, levar à reflexão e, sobretudo, abrir portas para a compreensão da arte que se produz hoje, pois ela caminha na contramão do que a mídia oferece. Deve, portanto, buscar novas estratégias para aproximar essas produções artísticas da realidade infantil. É desse princípio que partimos ao desenvolver um trabalho de artes com criança.Continue lendo >

Conversa na cantina e a matemática1

Situações do cotidiano, como conversa na fila da cantina sobre o dinheiro do lanche, transformam-se em situações de aprendizagem sobre cálculos e sistema numérico

Uma aprendizagem significativa é aquela que envolve a criança em sua curiosidade e em sua competência, desafiando-a em suas dúvidas cotidianas, ampliando e desencadeando novos conhecimentos e experiências. São situações que podem partir, muitas vezes, do interesse e da atitude dos próprios alunos, provocando professor a desenvolver atividades específicas. Um exemplo disso foram as conversas vivenciadas em sala de aula sobre o dinheiro do lanche e de todos os dias que  começaram a chamar a atenção de educadores do Centro Educacional Interação, em Santo André (SP).

mate5211Identificamos, nessa situação cotidiana, uma oportunidade para trabalhar conteúdos matemáticos previstos no plano anual dessa turma. Momentos antes do recreio ouvíamos os comentários: Continue lendo >

Formar formadores: uma tarefa complexa e coletiva

Para além de cursos, palestras e eventos pontuais, a formação continuada em uma rede pública, para se efetivar, depende de bons formadores locais

Maria Virginia Gastaldi1 desenvolve, desde 2005, consultoria técnica para as equipes de profissionais da Secretaria Municipal de Educação responsáveis pela Educação Infantil da cidade de Curitiba (PR). O longo processo formativo ensejou mudanças significativas nas práticas educativas com as crianças e também construção coletiva de conhecimentos sobre formação de formadores. Este foi o tema de sua dissertação de mestrado2.

Revista avisa lá: Em seu trabalho sobre formação continuada, você fala que o grande desafio do formador é aprender a aprender, aprender a ensinar e ensinar simultaneamente. O que significam essas ações simultâneas?
Maria Virginia Gastaldi: Quando falo que um dos desafios do formador é aprender a aprender, aprender a ensinar e ensinar simultaneamente, refiro-me ao que penso ser uma condição do agir profissional do formador. São ações simultâneas que marcam o período inicial de seu trabalho como formador, e permanecem ao longo de sua trajetória de trabalho. Em uma sociedade em mudança, a aprendizagem ao longo da vida é uma condição que se coloca hoje para todos os profissionais. Na educação, além das mudanças naturais de qualquer processo de aprendizagem, novas e numerosas demandas são feitas à escola e aos professores, o que acentua o valor da aprendizagem permanente e, consequentemente, de aprender a aprender.

Quais seriam as condições necessárias a um bom formador de formadores?
O formador precisa ser alguém com disponibilidade para aprender, para acolher os seus não saberes, os desafios que chegam, os apontamentos que parceiros lhe fazem, as inquietações, os resultados das propostas. O principal meio para dar conta de tudo isso é a reflexão. Ela potencializa as condições prévias e amplia a possibilidade de aprendizado. Quando se coloca na posição de pensar, refletir com os pares, o formador percebe que aprende muito e também produz mudanças. Essa é a função principal de um formador: produzir mudança. Quando ele se vê como alguém que sabe fazer, que sabe realizar ações que resultam em mudanças nas aprendizagens das crianças e dos professores, isso trás uma satisfação, uma alegria com o trabalho, reabastecendo-nos para novos desafios.

Há alguma especificidade no papel do formador em Educação Infantil?
A Educação Infantil, como parte da Educação Básica, é tão nova para nós, que estamos todos aprendendo sobre a especificidade desse ciclo da escolaridade. Ocorre, então, com muitos formadores, ter de trabalhar na formação com formas de organização de tempo, espaço, materiais e conteúdos que não conhece. Ele aprende nos programas de formação de formadores não só os conteúdos referentes à formação, mas também aqueles referentes à organização curricular da Educação Infantil, que são novos para ele. É por isso que digo que são ações simultâneas, porque o formador aprende e ensina praticamente ao mesmo tempo. E não é possível fazer muito diferente disso, dada a urgência das mudanças nos contextos da Educação Infantil. É preciso que as políticas e os programas de formação valorizem e considerem cada vez mais a complexidade da tarefa do formador e disponibilizem condições de tempo e recursos para que seu trabalho seja menos solitário e mais compatível com as condições do contexto em que trabalha. E nós, formadores de formadores, precisamos organizar contextos formativos de parceria e apoio cada vez
maior ao trabalho do formador.

Você disse que a principal função do formador de professores é produzir mudanças e que isso é um desafio. Pode dar algum exemplo disso observado na sua pesquisa?Continue lendo >

Espelhos

Sabemos que ler diariamente na escola é fundamental, mas serve qualquer livro? Veja aqui a discussão a distância entre profissionais de educação sobre critérios de escolha de acervo literário para crianças

Temi-os, desde menino, por instintiva suspeita. Também os animais negam-se a encará-los, salvo as críveis excepções. Sou do interior, o senhor também; na nossa terra, diz-se que nunca se deve olhar em espelho às horas mortas da noite, estando-se sozinho. Porque, neles, às vezes, em lugar de nossa imagem, assombra-nos alguma outra e medonha visão.
João Guimarães Rosa. Primeiras estórias. (1962)

Foto: CEMEI Profª Carolina Ferreira Lima (SME Apiaí–SP)

Foto: CEMEI Profª Carolina Ferreira Lima (SME Apiaí–SP)

Neste trecho de Guimarães Rosa fica claro que a ação de se olhar em um espelho, além de ocupar um lugar na história da civilização, tendo iniciado sua existência nas superfícies das águas, também ocupa lugar no imaginário das pessoas. O espelho tem sido personificado na literatura, na mitologia, nas crendices populares, em provérbios e pensamentos. Poderíamos escrever um livro de muitos capítulos sobre esse tão importante objeto e sua relação com o ser humano, mas, para nós, ele pode ser visto a partir de outro prisma, o de ser um utensílio importante para a educação.Continue lendo >

Qual é a melhor versão?

Sabemos que ler diariamente na escola é fundamental, mas serve qualquer livro? Veja aqui a discussão a distância entre profissionais de educação sobre critérios de escolha de acervo literário para crianças

No curso online* sobre leitura pelo professor, propusemos uma unidade de estudo sobre os critérios de seleção de textos para serem lidos para as crianças. Para além da ilustração, do tema e do gênero, o que é preciso considerar? Como selecionar o texto a partir de uma apreciação literária atenta à linguagem empregada?

Desenho: Arquivo Instituto Avisa Lá

Desenho: Arquivo Instituto Avisa Lá

Para iniciar a discussão, fizemos uma pesquisa e, depois, abrimos um fórum para discutir as justificativas de cada voto. Foi um sucesso! Tivemos 1.283 visitas a esse fórum, com 183 comentários em duas semanas. Foram produzidos tantos posts que não seria possível relacionar todos os nomes dos participantes e todos os comentários. Nesse artigo, procuramos realizar uma síntese e resgatar os momentos mais importantes da conversa.

Esperamos, com a apresentação do resultado de nosso trabalho, levar esse debate às escolas, provocando discussões que possam alimentar os momentos de reflexão e de estudo dos professores.

Tudo começou com uma escolhaContinue lendo >

Proposta de alfabetização estético-visual em museus

Museus e escolas podem ser excelentes parceiros desde que se saiba como aproveitar melhor as especificidades de cada um

Segundo Mirian Celeste Martins:

A arte é importante na escola, principalmente porque é importante fora dela. Por ser um conhecimento construído pelo homem através dos tempos, a arte é um patrimônio cultural da humanidade e todo ser humano tem direito ao acesso a esse saber1.

Comendo com os olhos, Sem título, de Sofu Teshigahara (desenho Henrique Yuji Ueno)

Comendo com os olhos, Sem título, de Sofu Teshigahara (desenho Henrique Yuji Ueno)

Entender a Arte como conhecimento significa articular a criação/produção, a percepção/análise e o conhecimento da produção artístico-estética da humanidade, compreendendo-a histórica e culturalmente. Foi pensando em garantir experimentações sensíveis e estéticas com o patrimônio artístico e cultural da cidade de São Paulo, do povo brasileiro e de outros povos por meio da mediação educativa que nasceu a proposta “Para comer com os olhos: uma proposta de alfabetização estético-visual a partir de contatos acumulativos mediados em museus”.

O legado da humanidade, construído ao longo de séculos por homens e mulheres em tempos e lugares diversos, é um bem simbólico que nem sempre tem sido respeitado e valorizado. Integrá-lo ao conjunto de saberes na Proposta Curricular de Arte possibilita abordar esses valores.

Nos museus, temos contato com a memória, a criação estética, as elaborações artísticas, a própria Arte, que se estrutura como um sistema simbólico, registrando e expressando experiências estéticas e estésicas3 como manifestações humanas.Continue lendo >

Costureiros reais

Crianças de quinto ano revelam sua trajetória como leitoras e a importância de alguns influenciadores: escola e família
Produção feita pelas crianças da Escola Grão de Chão

Produção feita pelas crianças da Escola Grão de Chão

Há grande diversidade de objetos nos espaços em que as crianças estão inseridas, com diferentes características, usos e estéticas. Conhecer o mundo implica conhecer as relações entre os seres humanos, a natureza, os objetos e a forma como interagem com os recursos com os quais dispõem.

Segundo os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (RCNEI):

Os materiais constituem um instrumento importante para o desenvolvimento da tarefa educativa, uma vez que são um meio que auxilia a ação das crianças. Se de um lado, possuem qualidades físicas que permitem a construção de um conhecimento mais direto e baseado na experiência imediata, por outro, possuem qualidades outras que serão conhecidas apenas pela intervenção dos adultos ou de parceiros mais experientes. As crianças exploram os objetos, conhecem suas propriedades e funções e, além disso, transformam-nos nas suas brincadeiras, atribuindo-lhes novos significados. (Vol. 1. p.71)

Para que os objetos possam ser utilizados como fonte de conhecimentos para as crianças, é necessário criar situações nas quais elas observem e percebam suas características sensíveis e também suas propriedades não evidentes. Foi pensando em oferecer às crianças de 4 e 5 anos do G5 novas informações sobre os materiais e seus usos e propiciar experiências diversas que organizamos o projeto Costureiros reais na Escola Grão de Chão, em São Paulo (SP).Continue lendo >

Observar para aprender o mundo

Crianças de quinto ano revelam sua trajetória como leitoras e a importância de alguns influenciadores: escola e família
Curiosos, os alunos descobrem mais sobre o caranguejo de água doce Foto: divulgação Escola Santi

Curiosos, os alunos descobrem mais sobre o caranguejo de água doce (Foto: divulgação Escola Santi)

Propor situações de estudo de Natureza e Sociedade para crianças de dois anos é um grande desafio. Em 2007, nós, educadores da Escola Santi, em São Paulo (SP), reavaliamos o que estávamos propondo para os alunos dessa faixa etária. Constatamos que um dos focos era organizar um estudo que possibilitasse aos alunos uma primeira aproximação com a observação científica, conteúdo procedimental essencial das Ciências Naturais.

Para crianças de dois anos, o contato direto com o objeto de estudo é fundamental para mantê-las envolvidas. No jardim da escola, temos dois jabutis – Inácio e Martin – que são cuidados e alimentados pelos alunos do T2 todos os dias da semana. Aproveitando-nos dessa situação, organizamos um projeto de observação e comparação entre os jabutis e outros animais trazidos por alunos de outras séries da escola. Por meio da observação e do convívio, nosso objetivo era que as crianças pudessem perceber as características físicas, hábitos alimentares e alguns cuidados básicos, além de estabelecerem comparações quanto a semelhanças e diferenças entre os jabutis e os animais que seriam trazidos à escola.Continue lendo >