O hábito da escrita profissional

Documentar o trabalho profissional por meio da escrita é um hábito que precisa ser instituído nos espaços de formação

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No programa de formação continuada de educadores do Projeto Capacitar – EI2, o objetivo é atender às crianças de maneira mais significativa. No entanto, para mudar, é necessário que os profissionais sejam reflexivos, e a escrita sobre a própria prática é uma das ferramentas mais importantes desse processo. Escrever não é simples, ainda mais para quem não tem essa prática como hábito. Existem diversas maneiras de se analisar cuidadosamente o que acontece nas instituições educativas. Exemplos são os diários de campo, os projetos institucionais, os relatórios de acompanhamento, as devolutivas dos formadores registradas nos diários, os planejamentos, a narrativa dos projetos didáticos e as sínteses das reuniões de formação.
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Escolhas infantis

Falar de si tem a ver com escolher, selecionar e contém uma grande dose de afetividade

As crianças do Colégio Santo Américo, em São Paulo (SP), também elaboraram suas autobiografias estimuladas e orientadas por suas professoras. Os resultados dos desenhos e a qualidade dos textos, cujos exemplos ilustram esta página, inspiraram a reflexão que se segue. Continue lendo >

Quem sou eu

Produzir um livro de autobiografias com crianças em processo de alfabetização coloca em evidência a sua competência escritora
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Produção final: um livro do grupo

Em 2001, coordenei um projeto didático, ou seja, uma modalidade de trabalho que tinha uma seqüência de atividades com vistas a um produto final. No caso, um livro1. Desde o início, as crianças já sabiam que iriam escrever autobiografias e se empenharam em todas as atividades para alcançar o melhor resultado. Essa é a diferença mais relevante para outras formas de organizar os saberes culturais, quer dizer, os pequenos compartilham o objetivo do estudo, sabem por que estão realizando determinadas tarefas, qual é a funcionalidade delas e, com isso, esforçam-se e envolvem-se porque atribuem sentido a elas, condição determinante para uma relação favorável com o conhecimento.

Condições didáticas
Tudo começou com o grupo mostrando o que conhecia sobre autobiografias e biografias (leia a definição abaixo) por meio do contato com livros que foram selecionados previamente. Folheando e lendo as publicações, as crianças foram reconhecendo algumas leituras já feitas. O menino Mário Gabriel definiu o gênero com base no que conhecia: “São livros que contam a vida de pessoas que já morreram. Às vezes, elas escrevem sobre sua vida antes de morrer. Falam o nome dos filhos, da mulher, o que gostavam de fazer, sobre o trabalho”. Caroline completou: “No livro do Drácula, não foi ele que escreveu. Foi outra pessoa”.

Seguimos com a leitura de personalidades da música, pintura e literatura. Com isso, os pequenos foram se familiarizando com esse tipo de texto e conhecendo um pouco da vida de Cândido Portinari2, da magnitude da obra de Mozart4, encantando-se com as férias de Monteiro Lobato5 no sítio e indignando-se com a infância de Heitor Villa-Lobos6, que tinha suas pernas amarradas pelo pai para fazer a lição. A partir desse repertório, eles prepararam um roteiro contemplando todos os assuntos que gostariam de escrever nas autobiografias: nome, local de nascimento, nomes dos pais e irmãos, o que mais gostavam de fazer na escola, as comidas preferidas e as histórias mais queridas.Continue lendo >

A escrita e a prática pedagógica

Síntese é uma forma de registro profissional que auxilia a organização, a continuidade e a reflexão sobre os processos de formação

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Neste artigo, a idéia é discutir a importância da elaboração de síntese de uma reunião profissional e verificar seu impacto na formação presencial ou a distância. Esse tipo de registro tem por objetivo organizar as discussões realizadas durante um encontro, cujas reflexões feitas, se não registradas de alguma maneira, podem se perder em vez de virar material de apoio ao aprimoramento de trabalho. Segundo o professor Miguel Zabalza1, há vários tipos de registro: descritivos, analíticos, avaliativos, reflexivos. No entanto, todos devem contemplar três dimensões, imprescindíveis quando se pretende ter um material de qualidade: o pensamento, a ação e o sentimento. Isso implica integrar aspectos descritivos e reflexivos de modo a atribuir ao texto escrito uma natureza histórica e longitudinal, que retrate a continuidade do processo formativo.Continue lendo >

Chita no Carnaval e no São João

Um simples tecido pode ser o mote para desencadear um bom trabalho com crianças sobre diversidade cultural e suas manifestações artísticas na música, na dança e nas artes visuais brasileiras
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Painel coletivo das festas de São João (fotos: arquivo da escola Grão de Chão)

No início do ano letivo, é importante planejar ações pedagógicas para conhecer as crianças, deixando espaço para atividades significativas que encerrem também muitas aprendizagens. Em fevereiro, em geral, além da adaptação e dos aspectos de incentivo à socialização, outro tema que sempre vem à tona é o Carnaval. Com ênfase na música e na dança, a intenção é contextualizar essa comemoração fazendo recortes das mais diferentes manifestações populares que acontecem nesse período no Brasil. As artes visuais se beneficiam na construção de fantasias, adereços e cenários, com base em pesquisas que envolvem diferentes materiais e suportes.
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Arte para todos

interatividade com esculturas permite que crianças com deficiência se aproximem da linguagem artística
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A artista Sandra Guinle (fotos: Wilton Montenegro)

Nasci no interior de São Paulo, em uma cidadezinha chamada Monte Mor. Na terra vermelha, que desconhecia asfalto, desenhei muitas amarelinhas. Na beira dos riachos, acompanhava minha mãe e outras mulheres que, lavando roupas, entoavam cantigas que tenho ainda frescas na memória. Ali, meu primeiro contato com o barro. Passava horas de cócoras perguntando à minha mãe o que é que ela queria que eu fizesse com o punhado de terra molhada que estava em minhas mãos. Enquanto isso, ela, com quatro agulhas de bambu, tecia uma trama linda e dizia: “Faz aquela lavadeira ali e, depois, faz você nos braços da mamãe”.
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Com a mão na massa

A imaginação criadora pode ser apoiada pelo trabalho experimental com substâncias diversas, tais como água, areia, terra, sempre bem-vindas em processos educativos

Sonhei que eu dirigia uma caminhonete D-20, e minha avó estava sentada ao meu lado. Íamos por uma estrada de terra paralela ao asfalto, a praia à nossa esquerda. Era um domingão, muitos automóveis, e eu que, entretanto, queria levá-la para ver as casas, as igrejas antigas e, especialmente, os lindos turbantes de chitão colorido usados por jovens moças e rapazes, tomo uma via perpendicular à rua da praia, avenida de terra larga e barrenta, um barro vermelho, denso, em que a caminhonete ia derrapando para lá e para cá e não se via o fim, como numa transamazônica. Lá em cima da estrada (que era plana…), formando ângulos improváveis, entreviam-se praias, a da esquerda com mar bravio, grandes ondas batendo em rochedos, a espuma do mar planando nas alturas; uma outra, à direita, com mar azul turquesa, calmo, brilhante, convidativo.
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