{"id":77,"date":"1999-06-29T21:08:34","date_gmt":"1999-06-30T00:08:34","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=77"},"modified":"2023-03-27T10:17:57","modified_gmt":"2023-03-27T13:17:57","slug":"diarios-de-campo-escrever-para-pensar-melhor-sobre-as-intervencoes-do-professor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisala-01\/diarios-de-campo-escrever-para-pensar-melhor-sobre-as-intervencoes-do-professor\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rios de campo; escrever para pensar melhor sobre as interven\u00e7\u00f5es do professor"},"content":{"rendered":"<p>Di\u00e1rios s\u00e3o as &#8220;obras que registram a rela\u00e7\u00e3o do que se faz, a sucess\u00e3o do que acontece todos os dias&#8221;. Essas obras est\u00e3o presentes na hist\u00f3ria do homem h\u00e1 muito tempo, assumindo diversas fun\u00e7\u00f5es; existem, por exemplo, di\u00e1rios de bordo que guardam as impress\u00f5es de uma inesquec\u00edvel viagem. Di\u00e1rios de navegadores rumo a terras desconhecidas que registram as descobertas do mundo novo. Di\u00e1rios de adolescentes que contam as alegrias e tristezas da juventude, das festas e namoros. Di\u00e1rios \u00edntimos que guardam segredos insuspeitados\u2026<!--more--><br \/>\nQualquer que seja a natureza, alimentam a curiosidade dos leitores que se deixam levar pela vida do outro, por um certo olhar concedido pela narrativa.<\/p>\n<div id=\"attachment_83\" style=\"width: 255px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-83\" class=\"size-full wp-image-83\" title=\"avisala_01_refleprof\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/avisala_01_refleprof.jpg\" alt=\"\" width=\"245\" height=\"318\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/avisala_01_refleprof.jpg 245w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/avisala_01_refleprof-231x300.jpg 231w\" sizes=\"auto, (max-width: 245px) 100vw, 245px\" \/><p id=\"caption-attachment-83\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;O di\u00e1rio \u00e9 muito importante para que a cada dia possamos melhorar as atividades, porque escrevendo o que fazemos com as crian\u00e7as, estamos tamb\u00e9m estudando e pensando&#8230;<br \/>por que eu n\u00e3o preparei aquela atividade de um jeito mais interessante? \u00c9 tamb\u00e9m uma fonte de pesquisa.&#8221;<br \/>(Jerusa, creche Visconde de Ouros)<\/p><\/div>\n<p>Narrativas pessoais tamb\u00e9m est\u00e3o presentes nas institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o: s\u00e3o os di\u00e1rios de campo que promovem reflex\u00f5es da pr\u00e1tica educativa no dia a dia da aprendizagem, no processo de ensino. Escritos pelos pr\u00f3prios professores, depois do momento da pr\u00e1tica direta com as crian\u00e7as, descrevem fatos, relatam iniciativas, interiven\u00e7\u00f5es e resultados, sentimentos, d\u00favidas, inquieta\u00e7\u00f5es\u2026como os di\u00e1rios que existem no mundo, eles contam passo a passo o que acontece todos os dias, como se sucede o tempo considerando o olhar de seu autor.<\/p>\n<p>Por isso s\u00e3o narrativas e singulares, que no conjunto, comp\u00f5em uma diversidade de textos bastante interessante. Existem, por exemplo, narrativas que empreendem uma certa pesquisa a respeito de algum aspecto do trabalho como o processo de adapta\u00e7\u00e3o, a aquisi\u00e7\u00e3o da escrita pelas crian\u00e7as (recomendamos a leitura do di\u00e1rio de Ana Carolina, a seguir), a aprendizagem de determinados procedimentos matem\u00e1ticos, etc. Esses assuntos s\u00e3o tratados ao longo de um certo tempo (dias, semanas, etc) tecendo um percurso. H\u00e1 tamb\u00e9m notas sobre rea\u00e7\u00f5es e caracter\u00edsticas individuais das crian\u00e7as, fatos in\u00e9ditos daquele dia, o que foi significativo ou pode ter repercuss\u00e3o nos dias seguintes, epis\u00f3dios de parque, dificuldades da organiza\u00e7\u00e3o do tempo, rela\u00e7\u00f5es com as fam\u00edlias\u2026enfim, h\u00e1 tantos tipos de di\u00e1rios quanto tipos de professores, pensamentos e quest\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_84\" style=\"width: 272px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/avisala_01_reflexprof2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-84\" class=\"size-full wp-image-84\" title=\"avisala_01_reflexprof2\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/avisala_01_reflexprof2.jpg\" alt=\"\" width=\"262\" height=\"454\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/avisala_01_reflexprof2.jpg 262w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/avisala_01_reflexprof2-173x300.jpg 173w\" sizes=\"auto, (max-width: 262px) 100vw, 262px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-84\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Atrav\u00e9s do di\u00e1rio podemos registrar nossos trabalhos e at\u00e9 mesmo nos corrigir, pois s\u00f3 na hora em que escrevo o meu di\u00e1rio eu vejo coisas que na hora da atividade n\u00e3o havia percebido.&#8221;<br \/>(Ana, C.J. Centro Social do Brooklin)<\/p><\/div>\n<p>A escrita do di\u00e1rio \u00e9 uma pr\u00e1tica importante para o professor; ao escrever ele se coloca num di\u00e1logo \u00edntimo, uma conversa consigo mesmo, podendo tomar consci\u00eancia do seu fazer, refletir sobre o que aconteceu, avaliar e muitas vezes j\u00e1 pensar futuras interven\u00e7\u00f5es, reorganizar materiais, planejar situa\u00e7\u00f5es que podem realizar melhor suas inten\u00e7\u00f5es com as crian\u00e7as. Por esse meio pode aprender cada vez mais sobre seu pr\u00f3prio trabalho. Segundo Zabalza<sup>1<\/sup> , &#8220;o pr\u00f3prio fato de escrever, de escrever sobre sua pr\u00e1tica, leva o professor a aprender atrav\u00e9s da sua narra\u00e7\u00e3o. Ao narrar a sua experi\u00eancia recente, o professor n\u00e3o s\u00f3 a constr\u00f3i linguisticamente como tamb\u00e9m a reconstr\u00f3i ao n\u00edvel do discurso pr\u00e1tico e da atividade profissional (a descri\u00e7\u00e3o v\u00ea-se continuamente excedida por abordagens reflexivas sobre os porqu\u00eas e as estruturas de racionalidade e justifica\u00e7\u00e3o que fundamentam os fatos narrados). Quer dizer, a narra\u00e7\u00e3o constitui-se em reflex\u00e3o&#8221;. Registros dessa natureza, al\u00e9m do benef\u00edcio imediato no pr\u00f3prio ato de escrever, tamb\u00e9m amplia os conhecimentos do professor na medida em que podem ser lidos por um parceiro mais experiente, em geral o coordenador pedag\u00f3gico.<\/p>\n<p>O di\u00e1rio, como forma de reflex\u00e3o, quando lido com seriedade e respeito, segundo contrato pr\u00e9vio entre o autor e seu parceiro, pode se tornar um recurso importante que permite o acesso ao pensamento<br \/>\ndo professor, fundamental na busca de estrat\u00e9gias mais apropriadas para desestabilizar suas cren\u00e7as e hip\u00f3teses, ajudando-o a avan\u00e7ar al\u00e9m do que j\u00e1 sabe.<\/p>\n<p>Sendo assim escritos, lidos e entendidos, al\u00e9m do prazer que se oferece aos leitores, os di\u00e1rios de campo contribuem significativamente para melhorar a qualidade da &#8220;rela\u00e7\u00e3o do que se faz, do que sucede todos os dias&#8221; entre crian\u00e7as, professores e pais numa institui\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>Zabalza: pesquisador e professor da Universidade de Santiago de Compostela na Espanha.<\/p>\n<h4><strong>Para saber mais:<\/strong><\/h4>\n<ul>\n<li>Di\u00e1rios de Aula, M.A. Zabalza; ed. Porto, Portugal,1994<\/li>\n<li>Observa\u00e7\u00e3o, Registro, Reflex\u00e3o, Madalena Freire Weffort; Espa\u00e7o Pedag\u00f3gico, 2a ed., 1996<\/li>\n<li>Era Assim, Agora N\u00e3o, Regina Scarpa; ed. Casa do Psic\u00f3logo, 1998<\/li>\n<\/ul>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Di\u00e1rio da professora<\/p>\n<blockquote><p><em>21 \/ 5 \/ 1998 <\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;O grupo todo esteve super envolvido numa<br \/>\nconversa sobre a figura mitol\u00f3gica do Minotauro,<br \/>\nestimulados pelas leituras que temos<br \/>\nrealizado da obra de Monteiro Lobato. A<br \/>\nexist\u00eancia ou n\u00e3o do Minotauro, o labirinto em<br \/>\nque morava e se utilizava para &#8220;pegar&#8221; suas v\u00edtimas<br \/>\nmobilizou todo o grupo. Assim que terminamos<br \/>\na conversa, resolvemos registrar com um<br \/>\ndesenho o que hav\u00edamos discutido, as caracter\u00edsticas<br \/>\ndo bicho e de seu labirinto.<br \/>\nQuando percebi que algumas crian\u00e7as j\u00e1<br \/>\nestavam terminando o seu desenho, sugeri<br \/>\nque escrevessem os seus nomes e quem<br \/>\nquisesse, poderia tamb\u00e9m escrever Minotauro.<br \/>\nAlgumas crian\u00e7as falaram logo de cara que n\u00e3o<br \/>\nsabiam escrever e mediante essa rea\u00e7\u00e3o eu<br \/>\ndisse que poderiam tentar, pensando como<br \/>\nfariam, que letras utilizariam, etc.<br \/>\nGabriel logo se prontificou a escrever e<br \/>\nobteve um resultado emocionante! Para cada<br \/>\ns\u00edlaba, ele correspondeu uma vogal, mantendo<br \/>\no seu valor sonoro assim:<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_88\" style=\"width: 195px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-88\" class=\"size-full wp-image-88\" title=\"avisala_01_reflexprof_mino1\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/avisala_01_reflexprof_mino1.jpg\" alt=\"\" width=\"185\" height=\"126\" \/><p id=\"caption-attachment-88\" class=\"wp-caption-text\">Mi no tau ro<\/p><\/div>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>I O A O.<br \/>\nMi no tau ro.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em>Em outra mesa Luiza tamb\u00e9m escreveu dessa forma. Diante do meu entusiasmo e a descoberta dos dois, a classe toda escreveu IOAO tamb\u00e9m. Gabriel, que foi o primeiro,<br \/>\nficou muito orgulhoso e ia de mesa em mesa verificar como andavam as escritas dos colegas, super satisfeito com o que havia conseguido, repetindo para si mesmo: MI NO TAU RO, assim mesmo, pausadamente, como se ainda estivesse lendo.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em>22 \/ 5 \/ 1998<\/em><\/p>\n<p><em> No dia seguinte, est\u00e1vamos todos na roda de conversa, nos preparando para iniciar a escrita de nossa agenda a fim de marcar os compromissos<br \/>\ndo dia quando Isabella levantou-se e disse: &#8220;Olha, eu preciso falar uma coisa: algumas crian\u00e7as escreveram daquele jeito minotauro<br \/>\nmas n\u00e3o \u00e9 daquele jeito.<br \/>\n&#8211; Por que Bella, n\u00e3o \u00e9 daquele jeito? &#8211;<br \/>\nperguntei.<br \/>\n&#8211; Porque eu sei que n\u00e3o \u00e9 daquele jeito,<br \/>\ntem mais letras.<br \/>\n&#8211; Como voc\u00ea acha que \u00e9? Quais letras voc\u00ea<br \/>\nacha que tem a mais no minotauro?<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o sei quais letras, mas eu sei que<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 assim, tem mais letras mas n\u00e3o sei<br \/>\nquais. Nesse momento v\u00e1rias crian\u00e7as sa\u00edram da<br \/>\nroda para ver a escrita de minotauro que<br \/>\nestava em um desenho pendurado no painel.<br \/>\nPedi que todos voltassem trazendo o desenho<br \/>\npara a roda. Com todos acomodados novamente, pedi<br \/>\npara o Gabriel ler a escrita IOAO, acompanhando<br \/>\ncom o seu dedo (\u00e9 claro que tive a inten\u00e7\u00e3o de provocar, ou melhor, incrementar a discuss\u00e3o, j\u00e1 que quem provocou foi a Bella, trazendo-nos uma informa\u00e7\u00e3o nova, a de que a palavra minotauro continha mais do que 4 letras; eu sabia que Gabriel estava muito certo de seu jeito de escrever e ler e sabia que boa parte do grupo concordaria, mas queria<br \/>\nfaz\u00ea-los pensar, incluindo a nova informa\u00e7\u00e3o).<br \/>\nDe fato, e como era esperado, Gabriel leu sem problemas, enfatizando cada s\u00edlaba em uma letra. Ap\u00f3s a leitura do Gabriel, Luiza tamb\u00e9m<br \/>\ntrouxe novo desafio ao grupo:<\/em><\/p>\n<p><em> &#8211; N\u00e3o \u00e9 assim! Eu sei que come\u00e7a com M e que tem outras letras porque a minha m\u00e3e sabe e ela escreveu ontem. Era grande, n\u00e3o tinha s\u00f3 isso de letra!<br \/>\n&#8211; Como voc\u00ea acha que \u00e9 Luiza? &#8211; perguntei.<br \/>\n&#8211; Ah, eu n\u00e3o sei.<br \/>\n&#8211; Mas tenta escrever, voc\u00ea pode tentar.<br \/>\nLuiza toma um papel e escreve: MIOTRO.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_90\" style=\"width: 240px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-90\" class=\"size-full wp-image-90\" title=\"avisala_01_reflexprof_mino2\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/avisala_01_reflexprof_mino2.jpg\" alt=\"\" width=\"230\" height=\"120\" \/><p id=\"caption-attachment-90\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Eu sei que come\u00e7a com M&#8221;<\/p><\/div>\n<p>Em seguida ela diz:<br \/>\n&#8211; Tem M, come\u00e7a com M, eu lembro!<br \/>\nPedi para Stefano ler e ele o fez da seguinte forma:<br \/>\nM I O T R O,<br \/>\nMi no tau ro&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\ncompartilhando a hip\u00f3tese sil\u00e1bica.<br \/>\n&#8211; E essas duas letras, Stefano? O que voc\u00ea faria com elas?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, essas duas letras n\u00e3o precisa.<br \/>\n&#8211; Precisa sim! Tem essas duas letras!<br \/>\n&#8211; E voc\u00ea Bella, como voc\u00ea acha que se l\u00ea?<br \/>\nIsabella l\u00ea Minotauro correndo de uma s\u00f3 vez<br \/>\npela palavra MIOTRO. Ap\u00f3s a leitura de Isabella, Stefano pede para<br \/>\nescrever &#8211; ele normalmente adora escrever &#8220;do seu jeito&#8221; e \u00e0s vezes, viaja&#8230; j\u00e1 notei que muitas vezes, vai s\u00f3 colocando letra no papel,<br \/>\nsem parar e pensar, ou pelo menos, n\u00e3o como algumas crian\u00e7as que problematizam a escrita. Stefano n\u00e3o faz assim mas acho que tudo bem,<\/p>\n<p><em><em> at\u00e9 porque numa discuss\u00e3o t\u00e3o acalorada como essa, ele escreve assim: MIONANTTRO. O que ele fez aqui? Nossa! Ele estava super atento \u00e0 discuss\u00e3o porque ele incluiu todas as informa\u00e7\u00f5es novas, se aproximando mesmo da escrita convencional da palavra&#8230;<\/em><\/em><\/p>\n<p><em>Em seguida, Izabel pede para escrever e o faz assim: MOIRE, ao que algumas crian\u00e7as contestam,<\/em><\/p>\n<p><em><em> dizendo que aquele jeito n\u00e3o era de jeito nenhum porque minotauro acabava com O. Ent\u00e3o Izabel retomou sua escrita e acrescentou um O, ficando: MOIREO. Alice tamb\u00e9m escreveu MOAO, mas o grupo logo disse que faltava um I. Nessa altura, percebi que a informa\u00e7\u00e3o da Luiza &#8211; minotauro come\u00e7a com M &#8211; fora assimilada por todos, assim como a presen\u00e7a do I acabou como uma certeza, da mesma forma que a finaliza\u00e7\u00e3o com O. Melhor dizendo, nem todos: Gabriel fixou-se na sua hip\u00f3tese, olhando para mim desconfiado, como que pedindo uma confirma\u00e7\u00e3o da sua escrita. Toda hora em que tinha uma brecha na discuss\u00e3o, ele falava: &#8211; Eu acho que \u00e9 daquele jeito que eu escrevi! E refor\u00e7ava sua teoria com a contagem dos dedos (4 s\u00edlabas = 4 letras). Alex fazia-lhe coro e tamb\u00e9m repetia a hip\u00f3tese de Gabriel, concordando, escrevendo novamente IOAO. <\/em><\/em><\/p>\n<p><em>Enquanto algumas crian\u00e7as escreviam, outras como Marcelo, Camila e Martin ficavam acompanhando com os dedos, contando as letras como s\u00edlabas, olhando as escritas que iam surgindo; os tr\u00eas tamb\u00e9m achavam que minotauro possu\u00eda 4 letras e comunicavam essa id\u00e9ia do grupo. Dessa forma, todos se mostravam envolvidos na discuss\u00e3o. Durante toda essa conversa, v\u00e1rias crian\u00e7as<\/em><br \/>\nficavam me pedindo incessantemente: -L\u00ea! L\u00ea o que a gente escreveu!<\/p>\n<p>Mas como eu queria que a discuss\u00e3o fosse adiante e n\u00e3o parasse por ali,<br \/>\nresolvi deixar a leitura para o final, mas tamb\u00e9m tinha d\u00favidas: leio ou n\u00e3o<br \/>\nleio? E agora? Ali\u00e1s, frequentemente tenho essa d\u00favida.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, eu sempre lia o que as crian\u00e7as escreviam na agenda, elas curtiam saber o que tinham escrito e aproveitavam as informa\u00e7\u00f5es que a leitura traz. No entanto, isso virou um &#8220;cacoete&#8221; do grupo e eu percebia que j\u00e1 n\u00e3o escreviam mais sem que eu lesse. Resolvi reduzir minhas leituras para que justamente n\u00e3o minasse possibilidades de discuss\u00e3o e tamb\u00e9m n\u00e3o causasse uma depend\u00eancia do tipo &#8220;s\u00f3 escrevo se a professora ler&#8221;, mas ainda mantive algumas leituras.<br \/>\nIsabella sempre me pede e \u00e0s vezes fica frustrada porque n\u00e3o leio imediatamente, deixando para depois da discuss\u00e3o. Fico na d\u00favida e as<br \/>\nvezes n\u00e3o sei o que fazer, pensando que pode ser ruim n\u00e3o ler toda hora. Ser\u00e1 que estou escondendo o jogo? Tenho certeza de que essas d\u00favidas s\u00e3o t\u00edpicas de professores dessa faixa et\u00e1ria&#8230; Acho que deve ter sempre essa d\u00favida: o que responder? O que falar? O que eu fiz foi legal? Estou ajudando as crian\u00e7as a aprender ou estou travando o processo?<\/p>\n<p><em> Ao final da discuss\u00e3o, percebi que algumas crian\u00e7as j\u00e1 estavam cansadas e al\u00e9m disso, j\u00e1 estava na hora do lanche&#8230; Ent\u00e3o passamos pela leitura. Nem preciso dizer que Gabriel ficou frustrad\u00edssimo quando li IOAO, tal como ele escrevera. A cara que ele fez! Ainda bem que Izabel salvou a p\u00e1tria dizendo: &#8211; Ah, mas eu acho muito legal esse jeito que ele escreveu!<\/em><br \/>\nDemais, n\u00e3o? \u00c9 claro que nessa hora o grupo estava a mil, as crian\u00e7as falando alto, repetindo o que havia lido, falando para o Gabriel que ele tinha errado e ningu\u00e9m ouviu o que a Bel tinha dito! E \u00e9 claro tamb\u00e9m que eu a fiz repetir&#8230; Ela repetiu e eu fiz coro \u00e0 sua fala, complementando:<br \/>\n&#8211; Eu tamb\u00e9m acho esse jeito muito legal, sabem por que? Porque o Gabriel est\u00e1 pensando como se escreve, que letras deve usar, quais servem para aquele som, como funciona a escrita e isso \u00e9 muito legal mesmo porque \u00e9 assim que a gente aprende, discutindo, vendo o outro escrever, pensando se \u00e9 daquele jeito mesmo ou n\u00e3o! E foi isso que a gente fez hoje aqui!<\/p>\n<p><em> Em seguida li as outras escritas e, ao final, eles me pediram para eu mesma escrever Minotauro e eu o fiz. Agora estou mais certa da minha atitude de ler o que escreveram e de escrever a palavra ao final, na sua forma convencional. Isso possibilita que as crian\u00e7as pensem sobre a escrita. A diferen\u00e7a, agora pensando, n\u00e3o reside em escrever ou ler, mas sim na forma como proporciono o uso dessa escrita \u00e0s crian\u00e7as: n\u00e3o \u00e9 impositivo, nem de fora para dentro, ao contr\u00e1rio: o uso deve vir sempre atrelado \u00e0 possibilidade de reflex\u00e3o das crian\u00e7as e contribuir nesse processo \u00e9, sim, papel do professor na Educa\u00e7\u00e3o Infantil.&#8221;<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Ana Carolina Carvalho<br \/>\nprofessora do grupo 5 (5 a 6 anos)<br \/>\nEscola Logos &#8211; Educa\u00e7\u00e3o Infantil (em 1998)<\/p>\n<h6><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Di\u00e1rios s\u00e3o as \u201cobras que registram a rela\u00e7\u00e3o do que se faz, a sucess\u00e3o do que acontece todos os dias\u201d. Essas obras est\u00e3o presentes na hist\u00f3ria do homem h\u00e1 muito tempo, assumindo diversas fun\u00e7\u00f5es; existem, por exemplo, di\u00e1rios de bordo que guardam as impress\u00f5es de uma inesquec\u00edvel viagem. Di\u00e1rios de navegadores rumo a terras desconhecidas que registram as descobertas do mundo novo. Di\u00e1rios de adolescentes que contam as alegrias e tristezas da juventude, das festas e namoros. Di\u00e1rios \u00edntimos que guardam segredos insuspeitados\u2026 Qualquer que seja a natureza, alimentam a curiosidade dos leitores que se deixam levar<br \/>\npela vida do outro, por um certo olhar concedido pela narrativa. Por Ana Carolina Carvalho<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":95,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[18,22,11],"tags":[1100,1325,26,23,24,25],"class_list":{"0":"post-77","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-alfabetizacao","8":"category-reflexoes-do-professor","9":"category-revista-avisala-01","10":"tag-revista-avisa-la-1999","11":"tag-alfabetizacao","12":"tag-ana-carolina-carvalho","13":"tag-minotauro","14":"tag-silabas","15":"tag-silabica","17":"post-with-thumbnail","18":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}