{"id":682,"date":"2001-01-25T18:12:11","date_gmt":"2001-01-25T20:12:11","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=682"},"modified":"2023-03-27T10:33:14","modified_gmt":"2023-03-27T13:33:14","slug":"o-primeiro-dia-da-professora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/conhecendo-a-crianca\/o-primeiro-dia-da-professora\/","title":{"rendered":"O primeiro dia da professora"},"content":{"rendered":"<p>Como planejar sem conhecer as crian\u00e7as? Esse foi o problema encontrado pela professora Ana Carolina no seu primeiro dia de trabalho. Ela considerou a faixa et\u00e1ria e pensou em propostas simples, com o objetivo de conhecer as crian\u00e7as reais, sujeitos da rela\u00e7\u00e3o de ensino e de aprendizagem. Partindo desse ponto de vista aproveitou os projetos que vinha desenvolvendo.<br \/>\nAqui ela nos conta o que aconteceu nas p\u00e1ginas de seu di\u00e1rio de campo; nos links, trechos do livro O di\u00e1logo entre o ensino e a aprendizagem, de Telma Weisz<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>O m\u00eas de julho foi intenso em termos do trabalho na creche. Aconteceram tantas coisas em t\u00e3o pouco tempo! Desde a minha primeira interven\u00e7\u00e3o na classe do jardim, minha maior preocupa\u00e7\u00e3o foi pensar e realizar atividades de escrita \u2013 dentro do projeto que j\u00e1 vinha sendo desenvolvido pela professora da sala \u2013, que oferecessem a possibilidade de as crian\u00e7as registrarem o que haviam estudado,<br \/>\nsistematizando seus conhecimentos sobre o assunto. Foi com esse objetivo em mente que eu preparei as atividades para o primeiro encontro com elas: roda de conversa sobre o planet\u00e1rio; desenho com escrita de legenda sobre algum aspecto do planet\u00e1rio; roda de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Assim que iniciei a primeira roda, percebi uma coisa: havia me<br \/>\npreparado para conversar com outras crian\u00e7as, que n\u00e3o aquelas.<br \/>\nTalvez eu estivesse pensando nos meus alunos do ano anterior, da<br \/>\noutra escola. Foi bem diferente! Dif\u00edcil de manter um assunto s\u00f3, sem<br \/>\ndispersar ou resvalar para algo muito pessoal sem uma aparente rela\u00e7\u00e3o com o tema em quest\u00e3o. \u00c9 claro que houve momentos interessantes, sempre puxados por relatos pessoais, assim:<\/p>\n<p>Profa.: \u2013 Eu queria saber, afinal de contas, \u00e9 a Lua que muda de<br \/>\ntamanho ou a gente \u00e9 que v\u00ea diferente?<br \/>\nCri. 1: \u2013 Sabe, na minha casa choveu e eu n\u00e3o vi a Lua!<br \/>\nProfa.: \u2013 N\u00e3o d\u00e1 para ver a Lua sempre?<br \/>\nCri. 2: \u2013 Na minha casa eu vi!<br \/>\nTodos: \u2013 Eu tamb\u00e9m! Eu tamb\u00e9m!<br \/>\nProfa.: \u2013 E por que \u00e0s vezes a gente v\u00ea a Lua e \u00e0s vezes n\u00e3o consegue? Por que ela fica diferente?<br \/>\nCri 3: \u2013 Ela fica pequena e grande.<\/p>\n<p>Na maioria das vezes, percebi que a desorganiza\u00e7\u00e3o e as falas dissonantes reinavam\u2026N\u00e3o sei, eu me senti meio incompetente, sabe?<br \/>\nSer\u00e1 que eu havia desaprendido a fazer roda? Havia esquecido?<br \/>\nEstava fria ou enferrujada?<\/p>\n<p>Aos poucos eu pude deixar minha expectativa de lado e olhar para<br \/>\naquelas crian\u00e7as. Foi curioso, eu me lembrei muito das rodas que fazia com os grupos de crian\u00e7as de menor idade com os quais trabalhei, quando havia sempre um apelo para assuntos de ordem pessoal para buscar neles um gancho para a conversa. A minha avalia\u00e7\u00e3o dessa atividade foi a de que as crian\u00e7as dessa classe precisavam ter mais oportunidades de conversar em grupo! E quanto mais elas conversassem mais saberiam aproveitar e aprender na roda!<br \/>\nEnt\u00e3o eu pensei: o que um professor pode querer numa roda de conversa? O que ele quer que as crian\u00e7as aprendam? As crian\u00e7as devem<br \/>\nfalar sobre o que sabem, discutir e levantar hip\u00f3teses sobre os assuntos \u2013 o professor deve ouvir e n\u00e3o checar conhecimento \u2013, pois quanto mais conversarem mais poder\u00e3o pensar diferente, sabendo expressar o que pensam. Isso deve ser uma parte do trabalho com a turma.<\/p>\n<p>Sabendo melhor o que fazer no eixo da linguagem oral, observei<br \/>\nmelhor a escrita. A pr\u00f3xima atividade era a produ\u00e7\u00e3o de legenda para<br \/>\nas fotos do planet\u00e1rio, que elas tinham visitado recentemente com<br \/>\noutra professora. Antes de iniciarmos, as crian\u00e7as haviam escolhido<br \/>\nalgum aspecto que gostaram ou que lhes chamara mais a aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDepois de discutido com elas o conte\u00fado que seria registrado,<br \/>\nretomei o que era uma legenda, quem \u00e9 que sabia, se lembrava o que<br \/>\nera. Vi que muitas sabiam:<\/p>\n<p>\u2013 Tem no livro.<br \/>\n\u2013 Serve para contar.<br \/>\n\u2013 \u00c9 hist\u00f3ria?<br \/>\n\u2013 \u00c9.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o! N\u00e3o \u00e9. \u00c9 bem pouquinho.<\/p>\n<p>Partimos para a escrita. Escrita e leitura. Havia o objetivo de fazer<br \/>\nas crian\u00e7as pensarem sobre aquele tipo de texto, \u00e9 claro. Bem, e o que eu pude notar? Muitas crian\u00e7as daquela sala n\u00e3o faziam claramente a rela\u00e7\u00e3o do texto com a escrita, ou seja, usavam letras, sabiam que necessitavam de v\u00e1rias letras para escrever, mas o que estavam escrevendo? N\u00e3o sabiam! Na hora de ler, soletravam as letras. Desse modo:<\/p>\n<p>\u2013 O que voc\u00ea escreveu aqui?<br \/>\n\u2013 (A O T F I L) A, o, t\u00ea, efe, i, ele.<br \/>\n\u2013 Mas o que voc\u00ea quis dizer com essas letras? O que elas dizem?<br \/>\n\u2013 \u2026<br \/>\n\u2013 Em qual legenda voc\u00ea pensou?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se houve uma consigna mal dada por mim, mas tive a<br \/>\nimpress\u00e3o de que as crian\u00e7as estavam muito mais preocupadas com<br \/>\nquais letras usar do que com o texto como forma de comunicar algo.<br \/>\n\u00c9 claro que, no meio delas, havia quem ditasse oralmente o texto e<br \/>\nlesse uma legenda para as professoras. De qualquer forma, foi um<br \/>\naspecto para incluir no planejamento.<br \/>\nCom rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escrita propriamente dita, notei que as crian\u00e7as, em<br \/>\nsua maioria, estavam numa fase pr\u00e9-sil\u00e1bica, mas poucas se arriscavam<br \/>\na ler. Muitas usavam letras do pr\u00f3prio nome, e duas delas n\u00e3o admitiam escrever como sabiam, buscando um cartaz para copiar palavras como Sol e Lua.<\/p>\n<p>Pensei, ent\u00e3o: o que deveria estar em jogo naquela atividade, o que<br \/>\nsignificava escrever para aquelas crian\u00e7as? Sabemos que a escrita tem<br \/>\numa fun\u00e7\u00e3o, sempre serve para alguma coisa e para algu\u00e9m, \u00e9 uma<br \/>\nforma de comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era essa a preocupa\u00e7\u00e3o daquelas crian\u00e7as<br \/>\nque apenas soletravam as letras. Para escrever um texto, \u00e9 preciso conhecer o c\u00f3digo alfab\u00e9tico mas, antes disso, conhecer a linguagem<br \/>\nescrita, nos seus usos e fun\u00e7\u00f5es, saber como ela funciona na nossa vida.<\/p>\n<p>Penso que deveria haver, para esta turma, formas de discutir os textos, atividades que envolvam objetivos de leitura. Ler o que algumas crian\u00e7as escrevem e pedir que leiam as legendas para conversar sobre elas poderia ser bom. A escrita precisaria tamb\u00e9m circular na sala, como produto do projeto. Desde a minha primeira visita, essa foi uma quest\u00e3o que me chamou a aten\u00e7\u00e3o. J\u00e1 deu para ver o que h\u00e1 para fazer.<\/p>\n<p>Pode ser que eu esteja sendo diretiva demais, j\u00e1 pensando logo<br \/>\nem uma f\u00f3rmula do que tem que fazer. Mas n\u00e3o \u00e9 isso. Eu sei que vou<br \/>\ncontinuar observando e pensando\u2026 o fato \u00e9 que preciso ficar atenta<br \/>\nquanto \u00e0s propostas que fa\u00e7o \u00e0s crian\u00e7as e quanto ao que elas est\u00e3o<br \/>\nfazendo, falando e pensando, para ent\u00e3o decidir o que \u00e9 que eu<br \/>\ntenho que fazer com esta turma.<\/p>\n<p>(Ana Carolina Carvalho)<\/p>\n<h3>Dica de leitura<\/h3>\n<p>Se voc\u00ea n\u00e3o sabe, ao certo, o que sabe uma crian\u00e7a que parece n\u00e3o<br \/>\nsaber nada, se tem d\u00favidas sobre quando se deve ou n\u00e3o corrigir um aluno e quer saber como fazer o conhecimento da crian\u00e7a avan\u00e7ar, n\u00e3o pode deixar de ler O di\u00e1logo entre o ensino e a aprendizagem, da cole\u00e7\u00e3o<br \/>\nPalavra de Professor, escrito por Telma Weisz em parceria com Ana<br \/>\nSanchez. Reflex\u00f5es de professores e crian\u00e7as, interpreta\u00e7\u00e3o das hip\u00f3teses formuladas pelas crian\u00e7as no campo da linguagem escrita e outras \u00e1reas de conhecimentos, discuss\u00e3o dos principais problemas de aprendizagem, an\u00e1lise de pr\u00e1ticas de ensino e muito mais, numa<br \/>\nleitura que mais parece uma conversa entre educadores.<br \/>\nPartindo da sala de aula tal como ela \u00e9, esse livro ajuda a<br \/>\nesclarecer as diferen\u00e7as e rela\u00e7\u00f5es entre dois processos: o de<br \/>\nensino e o de aprendizagem, vistos sob a \u00f3tica construtivista,<br \/>\nfundamental para compreender os aspectos essenciais das mudan\u00e7as em curso na educa\u00e7\u00e3o. T\u00edtulo indispens\u00e1vel na estante de todos os que se interessam por educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(Telma Weisz, Ana Sanchez: O di\u00e1logo entre o ensino e a aprendizagem.<br \/>\nS\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1999. Tel.: (0XX11) 3346-3000 \u2013 Fax (0XX11) 277-4146. www.atica.com.br &#8211; e.mail: editora@atica.com.br)<\/p>\n<h4><strong>Para saber mais<\/strong><\/h4>\n<ul>\n<li>O di\u00e1logo entre o ensino e a aprendizagem. Telma Weisz com Ana Sanchez. Ed. \u00c1tica. Tel.: (0XX11) 3346-3000.<\/li>\n<li>Psicopedagogia da linguagem escrita. Ana Teberosky. Ed. UNICAMP e<br \/>\nEd. Vozes. Tel: (0XX11) 258-6910<br \/>\n\u2022 Alfabetiza\u00e7\u00e3o em processo. Emilia Ferreiro. Ed. Cortez. Tel.: (0XX11) 864-0111<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As dificuldades e as solu\u00e7\u00f5es encontradas para que o professor que ainda n\u00e3o conhece os alunos fa\u00e7a o seu planejamento. Por Ana Carolina Carvalho<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":3010,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,171],"tags":[26,193,180,192,191],"class_list":{"0":"post-682","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-conhecendo-a-crianca","8":"category-revista-avisala-05","9":"tag-ana-carolina-carvalho","10":"tag-diario","11":"tag-planejamento","12":"tag-primeiro-dia","13":"tag-professora","15":"post-with-thumbnail","16":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/682","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=682"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/682\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3010"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}