{"id":5340,"date":"2010-05-06T19:03:34","date_gmt":"2010-05-06T22:03:34","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=5340"},"modified":"2023-03-27T19:49:19","modified_gmt":"2023-03-27T22:49:19","slug":"relacoes-etnicorraciais-em-espaco-de-educacao-infantil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisala-42\/relacoes-etnicorraciais-em-espaco-de-educacao-infantil\/","title":{"rendered":"Rela\u00e7\u00f5es etnicorraciais em espa\u00e7o de Educa\u00e7\u00e3o Infantil"},"content":{"rendered":"<h5>Situa\u00e7\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o no cotidiano escolar geram sofrimento para todas as crian\u00e7as envolvidas<\/h5>\n<div id=\"attachment_5341\" style=\"width: 197px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/avisala_42_estefi3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5341\" class=\"size-full wp-image-5341\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/avisala_42_estefi3.jpg\" alt=\"\u00c9 importante oferecer bonecas de diferentes etnias (fotos: Est\u00e9fi Machado)\" width=\"187\" height=\"200\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5341\" class=\"wp-caption-text\">\u00c9 importante oferecer bonecas de diferentes etnias (fotos: Est\u00e9fi Machado)<\/p><\/div>\n<p>Os professores, em sua maioria, n\u00e3o sabem como agir frente a essas situa\u00e7\u00f5es e, muitas vezes, at\u00e9 as pioram (leia o depoimento na p\u00e1gina seguinte). Os pequenos em idade pr\u00e9-escolar est\u00e3o em uma fase que pode ser chamada de negocia\u00e7\u00e3o. Eles negociam a amizade, o poder e tamb\u00e9m, muitas vezes, as pr\u00f3prias identidades, como as de g\u00eanero e, especificamente, a \u00e9tnico-racial. No entanto, em algumas situa\u00e7\u00f5es, sobre as quais ainda n\u00e3o h\u00e1 a devida compreens\u00e3o para a resolu\u00e7\u00e3o de conflitos, eles atribuem essa negocia\u00e7\u00e3o ao adulto mais pr\u00f3ximo, sendo, quase sempre, o professor. Na compreens\u00e3o infantil, no momento do conflito, o educador \u00e9 quem pode auxili\u00e1-la. Por\u00e9m, nessa e em outras ocasi\u00f5es, porque o adulto n\u00e3o toma uma atitude diante de uma den\u00fancia feita pela crian\u00e7a?<!--more--><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 necess\u00e1rio destacar que o(a) professor(a) de Educa\u00e7\u00e3o infantil faz parte de uma sociedade educada para naturalizar as desigualdades, e que pessoas diferentes, dentre as quais as negras, t\u00eam recebido um tratamento inferior. Ao se deparar com a den\u00fancia de uma crian\u00e7a, ele(a) parte do suposto que, talvez, ser xingado n\u00e3o tenha tanta import\u00e2ncia, j\u00e1 que todas as crian\u00e7as brigam e se xingam. E acaba por reproduzir comportamentos e a\u00e7\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o que ele pr\u00f3prio vivenciou ao longo da vida.<\/p>\n<p>Outra interpreta\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 que a maioria dos professores de Educa\u00e7\u00e3o Infantil compreende como compromisso social da escola as situa\u00e7\u00f5es que estejam ligadas apenas \u00e0s aprendizagens de conte\u00fados, n\u00e3o considerando, portanto, que sua interfer\u00eancia, em uma situa\u00e7\u00e3o de discrimina\u00e7\u00e3o, poderia diminuir ou acabar com a dor e o sofrimento da crian\u00e7a discriminada e possibilitar \u00e0s outras crian\u00e7as o desenvolvimento de um comportamento pautado pela igualdade. Vale lembrar que o preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o envolvem v\u00e1rias sensa\u00e7\u00f5es, dentre elas a impot\u00eancia, a solid\u00e3o e a apatia diante do aprendizado.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAs crian\u00e7as me \u2018xingam\u2019 de preta que n\u00e3o toma banho. S\u00f3 porque eu sou preta, eles falam que eu n\u00e3o tomo banho. Ficam me xingando de preta cor-de-carv\u00e3o. Ela me xingou de preta fedida. Contei para a professora e ela n\u00e3o fez nada.\u201d (fala de crian\u00e7a de 5 anos, apresentada na pesquisa \u201cDo sil\u00eancio do lar ao sil\u00eancio da escola\u201d, de Eliane Cavallero, 2003)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Alerta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s datas comemorativas <\/strong><br \/>\nMuitos professores de Educa\u00e7\u00e3o Infantil, por participarem de eventos desenvolvidos pela gest\u00e3o escolar ou pelo movimento social, nesse caso, o movimento negro, julgam ter compreens\u00e3o sobre a complexidade das rela\u00e7\u00f5es etnicorraciais e que est\u00e3o aptos, portanto, a desenvolverem atividades sobre o tema nas escolas. Fazem, por exemplo, o que \u00e9 poss\u00edvel constatar em outro depoimento apresentado por Cavallero (2003):<\/p>\n<blockquote><p>Engra\u00e7ado que sempre vem essa hist\u00f3ria de cor. E o m\u00eas de agosto \u00e9 uma \u00f3tima \u00e9poca para se falar disso, porque a gente tem o Saci-perer\u00ea, a mula-sem-cabe\u00e7a, o \u00edndio. E \u00e9 a \u00e9poca do folclore. E \u00e9 uma festa. Voc\u00ea aproveita uma data que \u00e9 muito m\u00e1gica e transforma isso. (depoimento de professora de Educa\u00e7\u00e3o Infantil na pesquisa \u201cDo sil\u00eancio do lar ao sil\u00eancio da escola\u201d, de Eliane Cavallero, 2003).<\/p><\/blockquote>\n<p>Nessa situa\u00e7\u00e3o descrita por uma professora, h\u00e1 algumas considera\u00e7\u00f5es. N\u00e3o apenas educadores de Educa\u00e7\u00e3o Infantil t\u00eam utilizado datas espec\u00edficas para trabalhar as diferen\u00e7as etnicorraciais, como, por exemplo, a Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura, no dia 13 de maio, ou, ainda, o m\u00eas de agosto, por causa do Dia do Folclore Brasileiro. Entretanto, h\u00e1 necessidade de a\u00e7\u00f5es educativas planejadas, de interven\u00e7\u00f5es diante das situa\u00e7\u00f5es cotidianas e de conte\u00fado para trabalhar com a tem\u00e1tica. Para o movimento negro, por exemplo, o dia 13 de maio n\u00e3o \u00e9 comemorado em fun\u00e7\u00e3o, principalmente, da fal\u00e1cia em que est\u00e1 inserida a hist\u00f3ria oficial da liberta\u00e7\u00e3o do povo negro no Brasil. Para o movimento \u00e9 celebrado o dia 20 de novembro, o Dia da Consci\u00eancia Negra, que marca a morte do l\u00edder Zumbi dos Palmares<sup>1<\/sup>.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o que tem entendimento enviesado \u00e9 considerar que o Dia do Folclore Brasileiro tem alguma liga\u00e7\u00e3o com a quest\u00e3o das diferen\u00e7as etnicorraciais. Nesse caso, \u00e9 necess\u00e1rio questionar: ser\u00e1 que alguma crian\u00e7a \u2013 negra ou ind\u00edgena \u2013 se sente identificada com qualquer um dos personagens do folclore brasileiro? A conclus\u00e3o \u00e9 n\u00e3o.<\/p>\n<p>No que algumas situa\u00e7\u00f5es e conte\u00fados podem levar as crian\u00e7as \u2013 negras e ind\u00edgenas \u2013 a situa\u00e7\u00f5es constrangedoras, colaborando negativamente para a constitui\u00e7\u00e3o de sua identidade. Sendo assim, a proposta \u00e9 que as diferen\u00e7as \u00e9tnico-raciais sejam trabalhadas nas unidades de Educa\u00e7\u00e3o Infantil com atividades e conte\u00fados adequados \u00e0 faixa et\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Conhecer para transformar<\/strong><br \/>\nO que devo ou posso fazer? Essa \u00e9 a pergunta mais usual formulada pelos professores em processos formativos sobre rela\u00e7\u00f5es etnicorraciais. Entre 2008 e o primeiro semestre de 2009, realizei pesquisa de campo<sup>2<\/sup> em uma unidade de Educa\u00e7\u00e3o Infantil, na cidade de S\u00e3o Paulo \u2013 SP com o objetivo de verificar quais os sentidos e significados que crian\u00e7as pr\u00e9-escolares atribu\u00edam \u00e0 sua identidade etnicorracial. Nos primeiros contatos que tive com elas, descobri que eu sofria de um mal que assola a maioria dos adultos.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sabia escutar as crian\u00e7as e as considerava ing\u00eanuas. Esses contatos foram primordiais para minha compreens\u00e3o dos pequenos. Logo nas primeiras visitas, percebi que eles v\u00eaem o mundo de outro ponto de vista e que suas habilidades e sensibilidade de compreens\u00e3o social, suas intelig\u00eancias m\u00faltiplas e criatividade para solucionar problemas muitas vezes sem solu\u00e7\u00e3o aos olhos adultos, eram muito coerentes.<\/p>\n<p>Prontamente, esses contatos me fizeram reconsiderar algumas de minhas compreens\u00f5es sobre como trabalhar as rela\u00e7\u00f5es etnicorraciais na Educa\u00e7\u00e3o Infantil. Antes, pensava sempre a partir da perspectiva do professor, e n\u00e3o havia refletido sobre a possibilidade de ouvir diretamente as crian\u00e7as, escutando o que elas t\u00eam a dizer para depois trabalhar com os adultos. Assim constru\u00ed um novo olhar acerca da quest\u00e3o a partir dos depoimentos das e com crian\u00e7as. Leia o depoimento a seguir de uma professora participante de um curso de forma\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>No ano passado, chegou uma estudante de pedagogia para realizar est\u00e1gio no CEI. Era uma mo\u00e7a negra. Expliquei o funcionamento do espa\u00e7o e fui apresent\u00e1-la para a professora com a qual ela ficaria durante o tempo em que permanecesse na escola. Era uma sala com crian\u00e7as de 4 e 5 anos. Bati na porta e a abri, apresentei a estudante para a professora e para a turma. De repente, um menino branco, de 4 anos, disse: \u201cEla pode se sentar naquela mesa&#8230; porque \u00e9 naquela mesa que os negros podem sentar\u201d. Tanto a diretora, segundo ela, quanto a professora nunca haviam percebido que todas as crian\u00e7as negras sentavam-se juntas, em uma mesa, em um canto da sala\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Recentemente, quando reli esse depoimento, compreendi que a professora, ao decidir trabalhar com a tem\u00e1tica das diferen\u00e7as etnicorraciais na Educa\u00e7\u00e3o Infantil, tem de necessariamente aprender e reaprender a escutar e prestar a aten\u00e7\u00e3o a\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as. No depoimento citado, a crian\u00e7a coloca com muita nitidez a maneira como ela est\u00e1 se apropriando dos c\u00f3digos sociais, onde est\u00e1 em jogo a identidade etnicorracial: a sua (como um menino branco) e a dos outros (os negros). Os outros que, por uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia, criam cumplicidades e permanecem em grupos isolados. Um professor atento deve ter como objetivo verificar as negocia\u00e7\u00f5es que as crian\u00e7as estabelecem sobre, por exemplo, quem pode ou n\u00e3o sentar com elas, ser ou n\u00e3o amigo. A aten\u00e7\u00e3o pode ser uma \u00f3tima estrat\u00e9gia para compreender e intervir, buscando atividades pedag\u00f3gicas para a idade dessas crian\u00e7as. Essa a\u00e7\u00e3o certamente contribuir\u00e1 para a n\u00e3o reprodu\u00e7\u00e3o de novas identidades pautadas na superioridade das crian\u00e7as brancas e inferioridade das negras.<\/p>\n<p>Leia a seguir outro depoimento que contribuiu para a mudan\u00e7a na minha maneira de pensar sobre as diferen\u00e7as etnicorraciais na Educa\u00e7\u00e3o Infantil:<\/p>\n<blockquote><p>Havia um grupo de crian\u00e7as entre 3 e 4 anos brincando no parque. Eu me aproximei para verificar o teor da brincadeira. Perguntei: \u201cDo que voc\u00eas est\u00e3o brincando?\u201d \u201cCasinha\u201d, responderam. Perguntei ent\u00e3o: \u201cE o que \u00e9 que o \u2018fulaninho\u2019 \u00e9 nessa brincadeira?\u201d \u201cEle \u00e9 o nosso cachorro\u201d, responderam. \u201cE porque ele \u00e9 o cachorro?\u201d, perguntei. \u201cPorque ele \u00e9 preto\u201d, responderam.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ao t\u00e9rmino desse depoimento, fiquei perplexa. Esse tipo de relato \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de que pelas falas das crian\u00e7as, em suas brincadeiras, \u00e9 poss\u00edvel perceber as negocia\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a constitui\u00e7\u00e3o de suas identidades etnicorraciais igualit\u00e1rias. A partir disso, podem ser feitas novas proposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Trabalhar no cotidiano<\/strong><br \/>\nAlguns estudiosos das rela\u00e7\u00f5es etnicorraciais t\u00eam defendido a necessidade de desenvolvimento de projetos espec\u00edficos para o trabalho com a tem\u00e1tica. Nesse sentido, tendo como base as observa\u00e7\u00f5es feitas na pesquisa que realizei, \u00e9 preciso ficar atento ao ambiente escolar para identificar materiais, objetos e situa\u00e7\u00f5es que propiciem a discrimina\u00e7\u00e3o, neutralizando-os imediatamente.<\/p>\n<p>Todos os projetos did\u00e1ticos, sequ\u00eancias e atividades permanentes devem ser planejados de modo a contemplar as rela\u00e7\u00f5es etnicorraciais. Ao elaborar um projeto de leitura de hist\u00f3ria de princesas, por exemplo, al\u00e9m da Branca de Neve ou da Cinderela, \u00e9 necess\u00e1rio incluir hist\u00f3rias de princesas negras, \u00edndias. \u00c9 preciso pensar al\u00e9m de situa\u00e7\u00f5es espor\u00e1dicas nas quais as crian\u00e7as negras podem vivenciar e se sentir expostas e constrangidas, como, por exemplo, realizar atividades apenas na Semana da Consci\u00eancia Negra.<\/p>\n<p>Para tanto, \u00e9 urgente que os educadores privilegiem a rela\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica, em que a crian\u00e7a tenha voz, seja mais que ouvida, escutada. Essa mudan\u00e7a de postura pode facilitar a compreens\u00e3o do mundo infantil e suas rela\u00e7\u00f5es. Isso poder\u00e1 garantir conte\u00fados significativos que resultem em interven\u00e7\u00e3o dentro dos espa\u00e7os infantis e no direcionamento de pol\u00edticas p\u00fablicas para a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as pequenas. \u00c9 fundamental a reflex\u00e3o por parte das equipes envolvidas sobre os pap\u00e9is de cada profissional \u2013 professores e gestores \u2013 como reprodutores ou produtores de novas possibilidades para as crian\u00e7as constitu\u00edrem identidades positivas.<\/p>\n<p>Essa reflex\u00e3o se faz necess\u00e1ria ao se considerar a situa\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio da maior parte das crian\u00e7as brancas, que pode ser impulsionada fundamentalmente pelos professores, contribuindo para o n\u00e3o reconhecimento do processo de constitui\u00e7\u00e3o da identidade \u2013 dela e dos outros \u2013 e, consequentemente, da sociedade. Considerando que a Educa\u00e7\u00e3o Infantil \u00e9, em muitos casos, um dos primeiros espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, esse tipo de comportamento contribui para que os pequenos cristalizem pap\u00e9is sociais originados em desigualdades. Portanto, o papel do docente deve ser permanentemente o de questionar a realidade social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica em que se vive.<\/p>\n<div id=\"attachment_5344\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/avisala_42_estefi4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5344\" class=\"size-full wp-image-5344\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/avisala_42_estefi4.jpg\" alt=\"A leitura de hist\u00f3rias de diferentes culturas para as crian\u00e7as\" width=\"280\" height=\"217\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5344\" class=\"wp-caption-text\">A leitura de hist\u00f3rias de diferentes culturas para as crian\u00e7as<\/p><\/div>\n<p><strong>Conversa como possibilidade<\/strong><br \/>\nUtilizei a roda de conversas como um dos momentos de observa\u00e7\u00e3o. Em um dos dias da semana, as crian\u00e7as levavam seus brinquedos para a escola e o dia come\u00e7ava com uma roda de conversas sobre os objetos. Sentava-me com a professora e as crian\u00e7as em uma roda para participar da atividade e para escutar o bate-papo. Todas as semanas apareciam novidades, j\u00e1 que muitas se preparavam para o momento de brincadeira e, por isso, levavam seus melhores brinquedos \u2013 novos ou os que elas mais gostavam.<\/p>\n<p>Com o tempo, pude compreender que a roda de conversa, estimulada com objetos, suscitava outros fatores interessantes de ser observados e analisados, como, por exemplo, as diferen\u00e7as de classes sociais no grupo. Isso porque havia crian\u00e7as que nunca levavam brinquedos. Havia tamb\u00e9m a diferen\u00e7a estabelecida entre meninos e meninas. As garotas estavam sempre com suas bonecas e fog\u00f5es, enquanto os garotos ficavam com seus carrinhos e monstros. Tais diferen\u00e7as tamb\u00e9m se concretizavam posteriormente, no momento da brincadeira, com a separa\u00e7\u00e3o n\u00edtida entre os grupos de meninos e meninas. A tem\u00e1tica etnicorracial tinha palco nessa roda por vias diversas. Em um dos dias registrei a seguinte situa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>Giovana, uma menina de 5 anos, levou uma boneca. A professora pegou o brinquedo e disse: \u201cEla tem tra\u00e7os diferentes. Ela \u00e9 brasileira?\u201d Lucas e Tamires, que como as demais crian\u00e7as prestavam aten\u00e7\u00e3o \u00e0 conversa, disseram: \u201cEla \u00e9 japonesa\u201d. Ingrid, outra menina, disse: &#8220;eu sou chinesa, meus olhos s\u00e3o assim (puxando os olhos para mostrar o quanto \u00e9 diferente)\u201d. A professora perguntou se sua descend\u00eancia era chinesa. Ela respondeu: \u201cN\u00e3o, sou s\u00f3 eu. Eu sei falar ingl\u00eas\u201d, continuou a menina. \u201cFala a palavra geladeira em ingl\u00eas, ent\u00e3o\u201d, pediu a professora. Tamires afirmou que sabia falar japon\u00eas e tamb\u00e9m disse uma palavra e fez os gestos de cumprimento em japon\u00eas. Ingrid havia levado uma boneca preta. A professora fez a mesma pergunta: \u201cEla \u00e9 brasileira? De que lugar ela \u00e9?\u201d \u201cDa Europa\u201d, disse Lucas, novamente. \u201cEla \u00e9 baiana\u201d, disse outra crian\u00e7a. \u201cComo se chama a boneca?\u201d, perguntou a professora. \u201cNeguinha\u201d, respondeu a garota. \u201cPor que ela \u00e9 chamada por esse nome?\u201d, questionou a professora. Ingrid disse: \u201cFoi minha m\u00e3e quem deu o nome\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>O fato de a boneca ser chamada de neguinha, em princ\u00edpio, n\u00e3o \u00e9 um problema; entretanto, n\u00e3o se chama boneca de branquinha; elas t\u00eam nomes, sejam brancas ou negras. Neguinha poderia ser um apelido carinhoso, mais n\u00e3o substituiria o nome. A riqueza de elementos que os pequenos explicitaram em suas falas \u00e9 extremamente significativa. Eles trazem suas percep\u00e7\u00f5es de mundo e das pessoas, possibilitando, para uma professora atenta, a escuta infantil e diferentes maneiras para trabalhar a tem\u00e1tica etnicorracial. Eles evidenciam conhecimento relacionado a diferentes na\u00e7\u00f5es, suas respectivas l\u00ednguas e seus comportamentos culturais. O nome da boneca \u2013 Neguinha \u2013 tamb\u00e9m poderia ter sido mais bem explorado pela educadora j\u00e1 que envolvia a fam\u00edlia e a constru\u00e7\u00e3o da identidade etnicorracial. Por que muitos adultos n\u00e3o conseguem extrair elementos para uma interven\u00e7\u00e3o adequada?<\/p>\n<p>A roda de conversas sobre brinquedos \u00e9 um exemplo cl\u00e1ssico de que n\u00e3o \u00e9 preciso reinventar a roda para se trabalhar com as diferen\u00e7as etnicorraciais. Pelo contr\u00e1rio, ela pode ser associada a outros recursos, como a utiliza\u00e7\u00e3o de livros infantis culturalmente diversificados. Nesse aspecto, enfatizo a import\u00e2ncia de processos formativos para professores visando \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o do conhecimento sobre a tem\u00e1tica etnicorracial, bem como leituras de textos dispon\u00edveis e muito divulgados em sites e publica\u00e7\u00f5es especializadas no assunto. Esse conjunto de a\u00e7\u00f5es pode contribuir para melhor compreens\u00e3o do mundo que cerca os pequenos. O que pretendo com este artigo \u00e9 impulsionar a forma\u00e7\u00e3o de novos olhares sobre as diferen\u00e7as etnicorraciais.<\/p>\n<p>(Cristina Teodoro Trinidad, bolsista do Programa Internacional de Bolsas de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Ford e doutoranda do Programa Psicologia da Educa\u00e7\u00e3o da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica, em S\u00e3o Paulo \u2013 SP)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>Zumbi (1655-1695), nascido em Alagoas, foi o \u00faltimo dos l\u00edderes do Quilombo dos Palmares, em Serra da Barriga \u2013 Alagoas.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup>A pesquisa foi realizada com 33 crian\u00e7as de uma escola de Educa\u00e7\u00e3o Infantil da regi\u00e3o Oeste de S\u00e3o Paulo, mas os dados ainda n\u00e3o foram analisados. Consideram-se neste artigo, portanto, as percep\u00e7\u00f5es vivenciadas pela pesquisadora no interior da unidade no decorrer da pesquisa.<\/p>\n<div id=\"attachment_5345\" style=\"width: 363px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/avisala_42_estefi2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5345\" class=\"size-full wp-image-5345\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/avisala_42_estefi2.jpg\" alt=\"Ouvir e conversar com as crian\u00e7as \u00e9 importante para compreender o seu olhar para o mundo\" width=\"353\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/avisala_42_estefi2.jpg 353w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/avisala_42_estefi2-300x192.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 353px) 100vw, 353px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5345\" class=\"wp-caption-text\">Ouvir e conversar com as crian\u00e7as \u00e9 importante para compreender o seu olhar para o mundo<\/p><\/div>\n<h4>Fique atento<\/h4>\n<p><strong>Murais e cartazes \u2013<\/strong> Fotos e imagens de crian\u00e7as negras, brancas, ind\u00edgenas, amarelas e fam\u00edlias representadas em igual propor\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Brinquedos \u2013<\/strong> Exist\u00eancia de bonecas que representem diferentes ra\u00e7as\/etnias, brinquedos de diversas culturas;<\/p>\n<p><strong>Livros e revistas \u2013<\/strong> Revistas e livros com imagens, textos e contextos de v\u00e1rias origens, culturas, pa\u00edses;<\/p>\n<p><strong>M\u00fasica e dan\u00e7a \u2013<\/strong> Ouvir e aprender dan\u00e7as e m\u00fasicas com significados rituais de acordo com cada cultura. Oferecer instrumentos musicais que produzam sons t\u00edpicos de regi\u00f5es diversas.<\/p>\n<h4>Ficha t\u00e9cnica<\/h4>\n<p>Cristina Teodoro Trinidad<br \/>\nEmail:cris.teodoro@ig.com.br<\/p>\n<p>Fot\u00f3grafa: Est\u00e9fi Machado<br \/>\nEmail: estefi@toranjarosa.com<br \/>\nSite: www.toranjarosa.com<\/p>\n<h4>Para saber mais<\/h4>\n<p><strong>Livros<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Do sil\u00eancio do lar ao sil\u00eancio da escola, de E. Cavallero, Contexto: S\u00e3o Paulo, 2003. Tel.: (11) 3832-5838. Site: www.editoracontexto.com.br<\/li>\n<li>As culturas da inf\u00e2ncia nas encruzilhadas da segunda modernidade, de M. J. Sarmento In: SARMENTO, M. J.; CERISARA, A. B. Crian\u00e7as e mi\u00fados: perspectivas sociopedag\u00f3gicas da inf\u00e2ncia e educa\u00e7\u00e3o. Porto: Asa, 2004. p. 9-34.<\/li>\n<li>Mala da diversidade, da equipe de educadores da Creche Heitor Villa-Lobos, in Revista Avisa l\u00e1, no 37\/Fevereiro de 2009: S\u00e3o Paulo.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Situa\u00e7\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o no cotidiano escolar geram sofrimento para todas as crian\u00e7as envolvidas. Por Cristina Teodoro Trinidad<\/p>\n","protected":false},"author":181,"featured_media":4307,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[403],"tags":[1111,1084,54,965,512,42,889],"class_list":{"0":"post-5340","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-revista-avisala-42","8":"tag-revista-avisa-la-2010","9":"tag-cristina-teodoro-trinidad","10":"tag-cuidados","11":"tag-desigualdade","12":"tag-discriminacao","13":"tag-preconceito","14":"tag-solucoes","16":"post-with-thumbnail","17":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5340","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/181"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5340"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5340\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4307"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5340"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5340"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5340"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}