{"id":5038,"date":"2003-01-21T18:45:06","date_gmt":"2003-01-21T20:45:06","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=5038"},"modified":"2023-03-27T16:58:24","modified_gmt":"2023-03-27T19:58:24","slug":"o-que-dizem-as-paredes-das-escolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/espaco-educativo\/o-que-dizem-as-paredes-das-escolas\/","title":{"rendered":"O que dizem as paredes das escolas"},"content":{"rendered":"<h5>De acordo com o Referencial Curricular Nacional para a Educa\u00e7\u00e3o Infantil, a organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o f\u00edsico, os materiais, brinquedos, instrumentos sonoros e o mobili\u00e1rio n\u00e3o devem ser vistos como elementos passivos, mas como componentes ativos do processo educacional. O espa\u00e7o f\u00edsico das institui\u00e7\u00f5es sempre reflete os valores que elas adotam e s\u00e3o marcas sugestivas do projeto educativo em curso<\/h5>\n<div id=\"attachment_5039\" style=\"width: 248px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_13_espaco1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5039\" class=\"size-full wp-image-5039\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_13_espaco1.jpg\" alt=\"avisala_13_espaco1.jpg\" width=\"238\" height=\"226\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5039\" class=\"wp-caption-text\">Ao inv\u00e9s de um modelo \u00fanico perpetuado nas paredes, o impacto da produ\u00e7\u00e3o infantil sempre \u00e9 diverso e instigante<\/p><\/div>\n<p>Ao dar uma volta em qualquer bairro de uma cidade brasileira \u00e9 quase imposs\u00edvel n\u00e3o se deparar com muros cobertos de pinturas que retratam guloseimas coloridas, Minnies, Mickeys, d\u00e1lmatas, ursos, patos, p\u00e1ssaros pintados de maneiras estereotipadas, com cores chamativas, anunciando que naquele im\u00f3vel funciona uma escola de educa\u00e7\u00e3o infantil. Muitos adultos que atuam nesse n\u00edvel de ensino acreditam que as crian\u00e7as pequenas v\u00e3o se sentir atra\u00eddas por essas imagens. Consideram tamb\u00e9m que seus pais ficar\u00e3o satisfeitos com o ind\u00edcio, transmitido pelos desenhos, de que a escola tem uma proposta direcionada aos pequenos. O que se esconde por detr\u00e1s dessas escolhas e desses muros?<!--more--><\/p>\n<p>A escritora Fanny Abramovich, no livro Quem Educa Quem?, dedica um cap\u00edtulo especial ao visual das escolas, onde entrevista Madalena Freire e o artista pl\u00e1stico Valdir Sarubbi. Para os tr\u00eas, o jeito como s\u00e3o decoradas as escolas revela muito sobre as concep\u00e7\u00f5es das pessoas envolvidas \u201cEntrando em salas de aula de escolinhas e escolonas, em geral, toma-se o maior susto. Uma olhada e j\u00e1 se percebe qual \u00e9 a proposta da escola, como a professora encaminha o processo educacional, quais os valores em jogo&#8230;\u201d. Isso acontece porque a estrutura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, a forma como os materiais est\u00e3o organizados, sua qualidade e adequa\u00e7\u00e3o constituem elementos essenciais de um projeto educativo.<\/p>\n<p><strong>Um espa\u00e7o para a crian\u00e7a <\/strong><br \/>\nMadalena Freire, no livro acima citado, diz :\u201cSe o espa\u00e7o \u00e9 fechado (referindo-se ao fato de que as paredes est\u00e3o decoradas por adultos), faz com que voc\u00ea perca a sua identidade (o que acontece at\u00e9 com adultos). As escolas que est\u00e3o l\u00e1 com o Mickey, a M\u00f4nica, est\u00e3o refletindo que est\u00e3o mortas, que a sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 a de um cemit\u00e9rio&#8230;\u201d, acrescenta. Sobre salas decoradas com esse tipo de personagem, o artista pl\u00e1stico e educador Valdir Sarubbi \u00e9 mais enf\u00e1tico e declara a Fanny:\u201c&#8230; O problema deste tipo de desenho \u00e9 que \u00e9 estereotipado, enjoado, batido&#8230; \u00c9 sempre o mesmo tra\u00e7o, sem movimento algum, mesmo no cinema parece que os personagens n\u00e3o se mexem. \u00c9 um tra\u00e7o duro, consumidor, sem novidade alguma&#8230; \u00c9 como se fosse uma garrafa de Coca-Cola, sempre igualzinha, que n\u00e3o vai mudar nunca! E o pior \u00e9 continuar impingindo isso para a crian\u00e7a, que n\u00e3o nutre nenhuma afetividade especial pelo Pato Donald, que preferiria um desenho que tivesse a ver com ela&#8230; \u00c9 exatamente como se faz com a m\u00fasica de r\u00e1dio, obrigando ao consumismo, ao condicionamento, por insist\u00eancia, para fabricar um \u00eddolo e n\u00e3o para suscitar prazer ou chegar ao ouvinte pelo n\u00edvel afetivo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>A cr\u00edtica \u00e0s paredes povoadas pelo mundo Disney \u00e9 refor\u00e7ada pela decoradora Vera Fraga Leslie. Formada em Comunica\u00e7\u00e3o Social e p\u00f3s-graduada em Hist\u00f3ria das Mentalidades, ela \u00e9 autora de Lugar-Comum,\u201cAuto-Ajuda\u201d de Decora\u00e7\u00e3o e Estilo. No texto leve e bem-humorado, Vera instiga o pensamento cr\u00edtico, afirma que nos quartos infantis impera a \u201cdisneyliza\u00e7\u00e3o\u201d da inf\u00e2ncia e sugere: \u201cdeixe as fadas e os super-her\u00f3is na televis\u00e3o, fora do quarto.\u201d Isso tamb\u00e9m vale para as institui\u00e7\u00f5es. Em entrevista a avisa l\u00e1, ela diz que \u201cisso leva a um comportamento massificado, e \u00e9 esteticamente feio. A possibilidade de uma crian\u00e7a estabelecer rela\u00e7\u00f5es entre o que pensa e as imagens que v\u00ea fica comprometida\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 imagens, assim como textos, can\u00e7\u00f5es e muitas outras manifesta\u00e7\u00f5es culturais, que pela qualidade est\u00e9tica possibilitam \u00e0s pessoas estabelecer m\u00faltiplas e diferentes rela\u00e7\u00f5es; outras, ao contr\u00e1rio, limitam e fecham. Por esse motivo, a educa\u00e7\u00e3o precisa examinar com aten\u00e7\u00e3o a qualidade dos produtos culturais que oferece cotidianamente para as crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Gosto se discute<\/strong><br \/>\nMas, afinal, isso n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de gosto? E n\u00e3o est\u00e1 estabelecido que gosto n\u00e3o se discute? Vera diz o contr\u00e1rio: \u201cCada um tem seu conceito de beleza e almeja o belo, mas gosto se discute, sim, assim como cada um aprende a formar um arquivo de imagens e um repert\u00f3rio cr\u00edtico.\u201d Ela lembra que as imagens e os objetos falam, e \u00e9 da\u00ed que v\u00eam sua magia e perigo. Quando temos nas paredes apenas um \u00fanico modelo perpetuado em um desenho sem qualidade, fica dif\u00edcil para a crian\u00e7a iniciar seu processo de \u201calfabetiza\u00e7\u00e3o visual\u201d, no qual teria que incorporar a possibilidade de cr\u00edtica ao objeto:\u201c Na falta de uma gram\u00e1tica e de uma sintaxe das imagens que nos d\u00eaem a seguran\u00e7a para interpretar e criar, temos que desenvolver a percep\u00e7\u00e3o em vez de aceitar, passivamente, a invas\u00e3o e a satura\u00e7\u00e3o de nossas retinas. Ter consci\u00eancia de que nenhuma imagem \u00e9 inocente e natural \u00e9 a primeira etapa para se manter o olho vivo e lidar com as implica\u00e7\u00f5es e limita\u00e7\u00f5es de ordem cultural, pol\u00edtica e social que se escondem em qualquer est\u00e9tica visual\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/espaco2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5040\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/espaco2.jpg\" alt=\"espaco2\" width=\"207\" height=\"270\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Decora\u00e7\u00e3o das paredes<\/strong><br \/>\nSe n\u00e3o vamos decorar de antem\u00e3o todas as paredes da escola de educa\u00e7\u00e3o infantil, quais seriam as alternativas? Segundo Vera, o importante \u00e9 permitir um movimento vivo e constru\u00eddo pelas pr\u00f3prias crian\u00e7as, em vez de fixar determinados personagens ou imagens nas paredes.A institui\u00e7\u00e3o pode se transformar num espa\u00e7o l\u00fadico, onde todas as condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a est\u00e3o presentes, mas existe a liberdade para o jeito especial das crian\u00e7as criarem. Portanto, quanto mais claras, limpas e luminosas forem as paredes, melhor. O colorido vir\u00e1 aos poucos, num movimento permanente, que mostra a alma da institui\u00e7\u00e3o e do trabalho desenvolvido por seus educadores, por meio da produ\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. \u00c9 preciso abrir, literalmente e metaforicamente, as janelas para expandir os horizontes do pensamento.<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 Madalena Freire, na entrevista \u00e0 Fanny, que sugere um caminho parecido \u201cQuando as crian\u00e7as, no in\u00edcio do ano, entram na sua sala de aula as paredes est\u00e3o totalmente brancas&#8230; n\u00e3o h\u00e1 nada dependurado nelas, n\u00e3o existe nenhum material exposto, apenas o essencial para uma organiza\u00e7\u00e3o m\u00ednima: bancos e coisas assim&#8230; Ent\u00e3o, come\u00e7amos a habitar esse espa\u00e7o, sentir o corpo atuando nele..\u201d Ap\u00f3s as atividades desenvolvidas pelas crian\u00e7as em fun\u00e7\u00e3o dos projetos did\u00e1ticos, Madalena conclui:\u201cE a\u00ed, no final do ano, h\u00e1 um c\u00e9u no teto, todo pintado ou cheio de recortes, mil coisas&#8230; Um v\u00e3o min\u00fasculo, na parede, foi descoberto, e est\u00e1 l\u00e1 demonstrado, apontado&#8230; A sala tem e reflete tudo o que aconteceu durante o ano, nas aulas de matem\u00e1tica, de alfabetiza\u00e7\u00e3o, de informa\u00e7\u00e3o sobre planetas etc&#8230; Est\u00e3o l\u00e1, em destaque,o quadro das descobertas feitas e o quadro das d\u00favidas levantadas, porque conhecer n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 saber&#8230; \u00c9 duvidar! Desta rela\u00e7\u00e3o, que \u00e9 de vida, \u00e9 que vai se criando e se habitando esse espa\u00e7o!\u201d<\/p>\n<p>Valdir Sarubbi refor\u00e7a:\u201cImportante, e muito, \u00e9 que a sala de aula esteja nua&#8230; Se poss\u00edvel, a parede s\u00f3 caiada&#8230; Ent\u00e3o, quando se transa um trabalho que foi importante para o grupo, se dependura e ele aparece de modo muito mais n\u00edtido&#8230;N\u00e3o importa se for um trabalho de desenho ou uma constru\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o. Fundamental \u00e9 que ele se coloca por inteiro, sem nenhuma interfer\u00eancia de outros elementos de fora, que atrapalham a pr\u00f3pria vis\u00e3o do que foi feito, conseguido&#8230;\u201d<\/p>\n<p>A proposta desses educadores \u00e9 que o projeto arquitet\u00f4nico, os m\u00f3veis, as paredes devam se constituir no melhor suporte poss\u00edvel para fazer emergir a express\u00e3o das crian\u00e7as que ocupam o espa\u00e7o. Jamais um efeito decorativo onde o visual sobrepuja a a\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Na pr\u00f3xima mat\u00e9ria conhe\u00e7a o exemplo de uma escola onde o espa\u00e7o acolhe e favorece as experi\u00eancias e manifesta\u00e7\u00f5es infantis.<\/p>\n<h4>Bibliografia<\/h4>\n<ul>\n<li>Referencial Curricular Nacional para a Educa\u00e7\u00e3o Infantil,Volume 1. Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o Fundamental \u2013 Bras\u00edlia MEC \/ SEF, 1998.<\/li>\n<li>Quem educa quem? Fanny Abramovich. Summus. Tel.: (11) 3872-3322. Site www.gruposummus.com.br.<\/li>\n<li>As cem linguagens da crian\u00e7a. Carolyn Edwards, Lella Gandini e George Forman. Edi\u00e7\u00e3o Artmed.Tel.: (11) 3062-3757.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De acordo com o Referencial Curricular Nacional para a Educa\u00e7\u00e3o Infantil, a organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o f\u00edsico, os materiais, brinquedos, instrumentos sonoros e o mobili\u00e1rio n\u00e3o devem ser vistos como elementos passivos, mas como componentes ativos do processo educacional. 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