{"id":494,"date":"2000-08-18T01:42:26","date_gmt":"2000-08-18T04:42:26","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=494"},"modified":"2023-03-27T10:26:24","modified_gmt":"2023-03-27T13:26:24","slug":"camara-cascudo-um-grimm-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/sustanca\/camara-cascudo-um-grimm-brasileiro\/","title":{"rendered":"C\u00e2mara Cascudo, um Grimm brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>C\u00e2mara Cascudo nasceu no Rio Grande do Norte e l\u00e1 viveu toda a sua vida. Viajando pelo Brasil, pode recolher muitas hist\u00f3rias que foram transmitidas de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o, vindas de outras culturas. Algumas dessas hist\u00f3rias s\u00e3o muito parecidas com os causos. Embora n\u00e3o sejam narradas em primeira pessoa, s\u00e3o hist\u00f3rias inusitadas, fant\u00e1sticas ou assustadoras como os causos, que muitas vezes servem para dar o exemplo.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h4><strong>A menina dos brincos de ouro<\/strong><\/h4>\n<blockquote><p>U&#8217;a m\u00e3e que era muito severa para os filhos fez presente a sua filhinha de uns brincos de ouro. Quando a menina ia \u00e0 fonte buscar \u00e1gua e tomar banho, costumava tirar os brincos e bot\u00e1los em cima de uma pedra. Um dia ela foi \u00e0 fonte, tomou banho, encheu a caba\u00e7a e voltou para casa, esquecendo-se dos brincos. Chegando em casa, deu por falta deles e com medo da m\u00e3e ralhar com ela e castig\u00e1-la correu \u00e0 fonte a buscar os brincos. Chegando l\u00e1, encontrou um velho muito feio que a agarrou, botou nas costas e levou consigo. O velho pegou na menina, meteu dentro de um surr\u00e3o, coseu o surr\u00e3o e disse \u00e0 menina que ia sair com ela de porta em porta para ganhar a vida e que, quando ele ordenasse, ela cantasse dentro do surr\u00e3o, sen\u00e3o ele bateria com o bord\u00e3o. Em todo o lugar que chegava, botava o surr\u00e3o no ch\u00e3o e dizia:<br \/>\n&#8220;Canta, canta meu surr\u00e3o, Sen\u00e3o te meto este bord\u00e3o.&#8221;<br \/>\nE o surr\u00e3o cantava:<br \/>\n&#8220;Neste surr\u00e3o me meteram, neste surr\u00e3o hei de morrer, por causa de uns brincos d&#8217;ouro que na fonte eu deixei.&#8221;<br \/>\nTodo mundo ficava admirado e dava dinheiro ao velho. Quando foi um dia, ele chegou \u00e0 casa da m\u00e3e da menina que reconheceu logo a voz da filha. Ent\u00e3o convidaram o velho para comer e beber e, como j\u00e1 era tarde, instaram muito com ele para dormir. De noite, como ele tinha bebido demais, ferrou num sono muito pesado. As mo\u00e7as foram, abriram o surr\u00e3o e tiraram a menina que j\u00e1 estava fraquinha, quase para morrer. Em lugar da menina, encheram o surr\u00e3o de excrementos.<br \/>\nNo dia seguinte, o velho acordou, pegou no surr\u00e3o, botou \u00e0s costas e foi-se embora. Adiante, em uma casa, perguntou se queriam ouvir um surr\u00e3o cantar. Botou o surr\u00e3o no ch\u00e3o e disse:<br \/>\nCanta, canta meu surr\u00e3o \/ Sen\u00e3o te meto esse bord\u00e3o.<br \/>\nNada. O surr\u00e3o calado. Repetiu ainda. Nada.<br \/>\nEnt\u00e3o o velho meteu o cacete no surr\u00e3o que se arrebentou todo e mostrou a pe\u00e7a que as mo\u00e7as tinham pregado no velho, o qual ficou possesso.<\/p><\/blockquote>\n<p>(Recontado por Nina Rodrigues &#8211; Contos Tradicionais do Brasil, C\u00e2mara Cascudo)<\/p>\n<h4><strong>A Mo\u00e7a e a Vela<\/strong><\/h4>\n<div id=\"attachment_495\" style=\"width: 299px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-495\" class=\"size-full wp-image-495\" title=\"avisala_04_tempo3\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_04_tempo3.jpg\" alt=\"&quot;A Menina e a Vela&quot;, desenho de Carlos Galvan (9 anos)\" width=\"289\" height=\"242\" \/><p id=\"caption-attachment-495\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;A Mo\u00e7a e a Vela&#8221;, desenho de Carlos Galvan (9 anos)<\/p><\/div>\n<blockquote><p>Minha filha \u2013 dizia sempre a m\u00e3e de uma mo\u00e7a que tinha por costume ficar \u00e0 janela at\u00e9 as tantas da noite \u2013, quem se deixa ficar \u00e0 janela at\u00e9 alta hora v\u00ea coisas que n\u00e3o deve ver. Isso \u00e9 exemplo dos antigos que sabiam mais do que n\u00f3s.<br \/>\n\u2013 Qual o qu\u00ea! \u2013 dizia a mo\u00e7a, nunca vi nada de espantar. N\u00e3o tenho sono, n\u00e3o hei de dormir com as galinhas.<br \/>\nA m\u00e3e repetia-lhe sempre o conselho, mas a mo\u00e7a com quem ia \u00e0s vezes falar o namorado, continuou com seu costume. Vai por uma vez estava a teimosa \u00e0 janela, quando, ao soar a \u00faltima badalada da meia-noite, viu aproximar-se-lhe uma figura, envolta num h\u00e1bito muito branco, caminhando com passo apressado e trazendo, numa das m\u00e3os, uma vela acesa. A mo\u00e7a estava t\u00e3o distra\u00edda, a pensar nos seus amores e naquele que esperava, que nem pavor sentiu. Foi como se n\u00e3o tivesse visto nada. O desconhecido saudou-a e, apagando a vela, pediu-lhe que lha guardasse at\u00e9 sua volta. Maquinalmente a rapariga foi colocar a vela sobre o leito e, quando voltou, j\u00e1 n\u00e3o encontrou mais o desconhecido. Nem se lembrou do conselho da m\u00e3e nem a apari\u00e7\u00e3o lhe causou o menor abalo. Continuou \u00e0 janela toda preocupada com os seus pensamentos de amores. \u00c0s duas da madrugada, que \u00e9 quando as almas penadas se recolhem, ela ainda estava apreciando a noite. O desconhecido chegou-se rapidamente e pediulhe a vela. A mo\u00e7a foi busc\u00e1-la ao leito, mas soltou um grito de horror. Em vez de vela, se lhe apresentou um esqueleto, estendido na cama. A caveira ergueu-se e foi, diante de seus olhos, saindo pela janela, como se fosse uma pluma. Desde esse dia a mo\u00e7a ficou pateta, rindo e chorando \u00e0 toa, e foi exemplo a todas as filhas desobedientes, no lugar onde esse caso se deu.<\/p><\/blockquote>\n<p>(Recontado por Lindolfo Gomes &#8211; Contos Tradicionais do Brasil, C\u00e2mara Cascudo).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e2mara Cascudo nasceu no Rio Grande do Norte e l\u00e1 viveu toda a sua vida. Viajando pelo Brasil, pode recolher muitas hist\u00f3rias que foram transmitidas de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o, vindas de outras culturas. Algumas dessas hist\u00f3rias s\u00e3o muito parecidas com os causos. 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