{"id":4787,"date":"2005-07-08T21:07:27","date_gmt":"2005-07-09T00:07:27","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=4787"},"modified":"2023-03-27T18:00:35","modified_gmt":"2023-03-27T21:00:35","slug":"nenhum-a-menos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisala-23\/nenhum-a-menos\/","title":{"rendered":"Nenhum a menos*"},"content":{"rendered":"<h5>Inclus\u00e3o na escola e democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 cultura letrada \u00e9, sem d\u00favida, uma das prioridades da educa\u00e7\u00e3o em nosso pa\u00eds. No munic\u00edpio de embu, s\u00e3o paulo, um esfor\u00e7o coletivo de professores e formadores garante a aprendizagem de todas as crian\u00e7as, incluindo-as na cultura escrita<\/h5>\n<p><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2006\/07\/avisala_23_paula4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-4790\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2006\/07\/avisala_23_paula4.jpg\" alt=\"avisala_23_paula4\" width=\"199\" height=\"133\" \/><\/a><br \/>\nO t\u00edtulo deste artigo, inspirado na produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica de mesmo nome, reflete o esp\u00edrito do projeto educacional desenvolvido pelo munic\u00edpio de Embu. No filme, uma jovem novata no of\u00edcio de lecionar, ao ter que substituir o professor titular numa escola de prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es, segue as orienta\u00e7\u00f5es que recebeu de seu antecessor: \u201cQuando eu voltar quero encontrar todos os alunos, n\u00e3o quero nenhum a menos\u201d. O desafio lan\u00e7ado ajuda-a a perceber que \u00e9 preciso empenhar-se para que os alunos n\u00e3o desistam de estudar, abandonando a escola.<!--more--><\/p>\n<p>O Projeto Letras e Livros, do munic\u00edpio do Embu, em S\u00e3o Paulo, revela uma preocupa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 da professora do filme. A Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o e seus profissionais empenham-se com compet\u00eancia e perseveran\u00e7a para n\u00e3o \u201cperder\u201d nenhuma crian\u00e7a para a evas\u00e3o e para o fracasso. Pelo profissionalismo e sensibilidade, o projeto \u00e9 um dos vencedores do Pr\u00eamio Al\u00e9m das Letras, e o munic\u00edpio \u00e9 um dos integrantes da rede do mesmo nome de formadores em alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Cuidando da inclus\u00e3o<\/strong><br \/>\nO Projeto Letras e Livros<sup>1<\/sup> abrange todas as escolas municipais de Ensino Fundamental de Embu e investe fortemente na forma\u00e7\u00e3o dos professores para acabar com o alto \u00edndice (20%) de crian\u00e7as com dificuldades de leitura e escrita. S\u00e3o crian\u00e7as de 2\u00aa, 3\u00aa e 4\u00aa s\u00e9ries indicadas pelos professores como n\u00e3o alfabetizadas. O objetivo principal do projeto \u00e9 \u201cnenhum a menos\u201d, ou seja, que todos os alunos, ao conclu\u00edrem a 4\u00aa s\u00e9rie, sejam leitores competentes.<\/p>\n<p>O artigo 24 da Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional (LDB) 9394\/96 aponta \u201cobrigatoriedade de estudos de recupera\u00e7\u00e3o, de prefer\u00eancia paralelos ao per\u00edodo letivo, para os casos de baixo rendimento escolar, a serem disciplinados pelas institui\u00e7\u00f5es de ensino e seus regimentos\u201d. Assim que a nova gest\u00e3o assumiu, foram estabelecidos princ\u00edpios norteadores para a Educa\u00e7\u00e3o no munic\u00edpio: democracia do acesso e condi\u00e7\u00f5es de perman\u00eancia do aluno na escola, democracia da gest\u00e3o, qualidade do ensino e valoriza\u00e7\u00e3o do profissional da Educa\u00e7\u00e3o. Diante do alto n\u00famero de crian\u00e7as com dificuldade em leitura e escrita, buscou-se uma proposta que respeitasse a realidade de cada um dos alunos, despertando neles o interesse pela literatura.<\/p>\n<p>A Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o encontrou alternativas \u00e0quelas que normalmente eram utilizadas nas redes p\u00fablicas, tais como refor\u00e7o e classes de acelera\u00e7\u00e3o. Diante da urg\u00eancia de iniciar o trabalho com as crian\u00e7as, optou-se por uma forma\u00e7\u00e3o\/ supervis\u00e3o, isto \u00e9, discuss\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica dos professores, trazendo subs\u00eddios te\u00f3ricos em fun\u00e7\u00e3o das necessidades identificadas. Articulando pr\u00e1tica e teoria, o projeto exigiu sensibilidade do educador, amplo repert\u00f3rio liter\u00e1rio e observa\u00e7\u00e3o individual dos alunos, para conseguir a t\u00e3o almejada inclus\u00e3o de todos os estudantes.<\/p>\n<p>Como objetivos espec\u00edficos, o projeto visa a: superar a distor\u00e7\u00e3o idade\/s\u00e9rie nas s\u00e9ries iniciais do Ensino Fundamental; recuperar a auto-estima do aluno por meio da aquisi\u00e7\u00e3o da leitura e da escrita; propiciar aos alunos o contato com literatura infanto-juvenil de boa qualidade; promover a reflex\u00e3o dos professores em rela\u00e7\u00e3o ao processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o; realizar uma forma\u00e7\u00e3o com os professores para um trabalho cont\u00ednuo de avalia\u00e7\u00e3o, identifica\u00e7\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o dos problemas de aprendizagem dos alunos; registrar e divulgar a experi\u00eancia para que ela seja conhecida por outros munic\u00edpios.<\/p>\n<p><strong>Atendimento individualizado<\/strong><br \/>\nO Projeto Letras e Livros quer que os alunos se tornem leitores competentes. Por este motivo, o material b\u00e1sico s\u00e3o livros de literatura infantojuvenil de boa qualidade e tamb\u00e9m conjuntos de letras m\u00f3veis, que permitem maior reflex\u00e3o da crian\u00e7a sobre a escrita. O ajuste do livro aos interesses individuais de cada crian\u00e7a \u00e9 fundamental para o sucesso do trabalho. Para a aluna Bianca, que se recusa a falar, Os Cisnes Selvagens ou A Princesa Silenciosa podem ser um bom come\u00e7o. Para Lu\u00eds, que \u00e9 santista, Uma Hist\u00f3ria de Futebol ou Decis\u00e3o de Campeonato. Assim os meninos v\u00e3o aprendendo a ler e percebendo que a literatura tem algo vital a lhes dizer. A compet\u00eancia aumenta quanto maior \u00e9 o prazer. O mesmo se faz com a escrita. As crian\u00e7as escrevem nomes de pessoas e coisas queridas, cartas e bilhetes (que s\u00e3o entregues aos destinat\u00e1rios), di\u00e1rios e hist\u00f3rias em que s\u00e3o protagonistas.<\/p>\n<p>O trabalho suplementar para os alunos com dificuldades \u00e9 feito por professores da rede em hor\u00e1rio espec\u00edfico, com remunera\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. As crian\u00e7as recebem esse atendimento individualizado em seu per\u00edodo normal de aula, e em alguns casos nos Hor\u00e1rio de Trabalho Pedag\u00f3gico Individual (HTPI). D\u00e1-se \u00eanfase \u00e0 leitura de textos liter\u00e1rios e \u00e0 escrita personalizada \u2013 ajustada aos interesses e possibilidades de cada crian\u00e7a. S\u00e3o muitos os resultados positivos e as a\u00e7\u00f5es formativas deste projeto. Por uma quest\u00e3o de espa\u00e7o, vamos destacar o acompanhamento longitudinal da aluna Paula, com reflex\u00f5es de duas professoras, durante dois anos.<\/p>\n<p><strong>Conhecendo a aluna Paula<sup>2<\/sup><\/strong><br \/>\nReflex\u00f5es da professora Cleide Goes, em 2002 Na primeira entrevista, em maio de 2002, descobri que Paula tem 12 anos e mora com sete pessoas em uma casa de um quarto e cozinha. Seu sonho, ainda irrealizado, \u00e9 uma festa de anivers\u00e1rio em que ganhe roupas de presente. Gosta de macarronada com carne mo\u00edda e doces. Freq\u00fcenta a igreja Deus \u00e9 Amor e disse que queria aprender a ler. Ela se mostrou bastante inquieta. Na segunda entrevista, pude saber um pouco mais sobre sua fam\u00edlia, a m\u00e3e Tereza e o pai In\u00e1cio. Nesta oportunidade escrevi os nomes de seus pais com letras m\u00f3veis e ela copiou corretamente. Escrevemos outros nomes de membros da fam\u00edlia: Cileide, Tatiane. No terceiro encontro partimos do nome dela e sugeri que formasse palavras com as letras m\u00f3veis dispon\u00edveis. Com o P sugeriu Pepe e pato.<\/p>\n<p>Quando pedi que ela me desse as letras do seu nome, descobri que ela s\u00f3 conhecia as vogais. S\u00f3 me deu o A e o U. Embaralhei as letras do nome e ela n\u00e3o conseguiu reordenar. Em outra oportunidade, apresentei as figuras de uma hist\u00f3ria em quadrinhos, representando quatro momentos do dia: manh\u00e3, meio-dia, tarde e noite. Ela ordenou corretamente, sem ajuda. Depois desenhou bem, com muitos detalhes, sem rever as figuras. Usando as mesmas imagens (galo cantando, etc.) escrevi as frases que ela ditava, a partir das figuras. Ela ditou:<\/p>\n<p>\u201cO sol est\u00e1 nascendo e o galo est\u00e1 cantando\u201d (1\u00aa).<\/p>\n<p>\u201cO galo canta feliz no terreiro\u201d (2\u00aa).<\/p>\n<p>\u201cQuando o dia acaba e a noite chega, todos v\u00e3o dormir, a flor, a lua e o galo\u201d (3\u00aa).<\/p>\n<p>Escrevi as tr\u00eas frases em tiras, com letras mai\u00fasculas de imprensa, e embaralhei-as. Paula reordenou-as corretamente e colocou-as, sozinha, na seq\u00fc\u00eancia. Na sexta entrevista ela disse que era seu anivers\u00e1rio. Escreveu seu nome com letras m\u00f3veis e tamb\u00e9m no caderno, com letra cursiva, e prop\u00f4s fazer tamb\u00e9m meu nome. Ela julgou que fosse com K (o que pode ser considerado um erro inteligente) e conseguiu comp\u00f4-lo, com a minha ajuda. Eu pedia as letras, e ela encontrou o E e o I, mas n\u00e3o o C, o L e o D. Verifiquei, por\u00e9m, que se as letras estivessem em ordem alfab\u00e9tica, ela as teria encontrado.<\/p>\n<p>Passamos toda a sess\u00e3o conversando. Consegui autoriza\u00e7\u00e3o para ela tomar banho na escola, j\u00e1 que era uma necessidade espec\u00edfica. Ela deseja muito freq\u00fcentar a biblioteca, e eu a desafiei ent\u00e3o a aprender a ler bem. Ela ditou: \u201cAprendi a ler sobre o galo que canta e sobre o meu anivers\u00e1rio, e esta semana vou fazer 13 anos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Os avan\u00e7os e os desafios<\/strong><br \/>\nNo in\u00edcio de setembro, discuti novamente o seu caso com a supervisora, porque ela continuava sem dominar inteiramente o alfabeto, embora tivesse aprendido de cor a recit\u00e1-lo. Manifestava interesse no livro Dia e Noite, da cole\u00e7\u00e3o Gato e Rato, relendo-o com aten\u00e7\u00e3o. Este livro \u00e9 considerado por n\u00f3s como tendo n\u00edvel 2 de dificuldade, pois apresenta muitas imagens e pouco texto. A supervisora, relendo os registros, encontrou v\u00e1rios pontos animadores: bom v\u00ednculo j\u00e1 formado, gra\u00e7as \u00e0s propostas variadas, interessantes e pessoais, e a sensibilidade para ouvi-la; aus\u00eancia de qualquer possibilidade de defici\u00eancia mental, o que ficou claramente demonstrado na quarta entrevista, n\u00e3o s\u00f3 pela reordena\u00e7\u00e3o da seq\u00fc\u00eancia, como pelo texto ditado; interesse em aprender, manifestado de v\u00e1rias formas: verbal, pela aceita\u00e7\u00e3o de todas as propostas sem resist\u00eancia, pela iniciativa de memorizar o livro.<\/p>\n<p>O ponto mais delicado era a quest\u00e3o da higiene, que poderia gerar fortes sentimentos de inferioridade e a resist\u00eancia \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de intimidade, que sup\u00f5e aproxima\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Esta quest\u00e3o n\u00e3o pareceu resolvida ainda, sendo urgente identificar o motivo para elimin\u00e1-lo. Por que ela n\u00e3o se sente \u00e0 vontade para tomar banho na escola? Falta toalha, sabonete, roupa branca? Ou ela se sente mal por ser a \u00fanica, etc.? Como resolver estas quest\u00f5es aparentemente simples?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2006\/07\/paula1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-4791\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2006\/07\/paula1.jpg\" alt=\"paula1\" width=\"321\" height=\"168\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2006\/07\/paula1.jpg 321w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2006\/07\/paula1-300x157.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 321px) 100vw, 321px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Sugest\u00f5es da Supervis\u00e3o<\/strong><br \/>\nEm rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de leitura, dada a sua urg\u00eancia, foi proposto conseguir um repert\u00f3rio de vinte e poucas palavras significativas e trabalh\u00e1-las todas as sess\u00f5es. Al\u00e9m dos cinco nomes de pessoas pr\u00f3ximas (Paula, In\u00e1cio, Tereza, Cleide, Tatiane), poder\u00edamos propor mais duas s\u00e9ries de dez: a primeira relativa a objetos cotidianos (l\u00e1pis, caneta, caderno, giz, livro, borracha, r\u00e9gua, papel, giz vermelho) e a outra com dez nomes de partes do corpo (cotovelo, barriga, perna, p\u00e9, bra\u00e7o, m\u00e3o, orelha, cabe\u00e7a, nariz, boca).<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, dever\u00edamos us\u00e1-las de modo diagn\u00f3stico, para acompanhar a sua evolu\u00e7\u00e3o, ditando-as todo m\u00eas e anotando a sua escrita espont\u00e2nea antes de complet\u00e1-las com a aluna (a palavra sugerida \u00e9 \u201ccompletar\u201d, em vez de \u201ccorrigir\u201d, sempre que poss\u00edvel). Muitas atividades foram indicadas visando auxiliar Paula nas suas dificuldades, algumas um pouco infantis para a idade. Para compensar Paula, que j\u00e1 tinha na \u00e9poca 13 anos, seria necess\u00e1rio ler para ela hist\u00f3rias de amor e aventura com hero\u00ednas da sua idade.<\/p>\n<p>Valeria a pena tamb\u00e9m pensar na possibilidade de recompensar leitura com leitura, isto \u00e9, premiar a vit\u00f3ria no bingo, ou em outros desafios, com revistinhas que seriam s\u00f3 dela. Outra a\u00e7\u00e3o importante seria encorajar ao m\u00e1ximo o \u201cpalpite\u201d quando a aluna diz n\u00e3o saber, e depois perguntar por que escolheu uma palavra e n\u00e3o outra. Com isto, consegue-se entender como est\u00e1 funcionando a sua intelig\u00eancia diante da tarefa cognitiva que \u00e9 a leitura.<\/p>\n<p>O pedido de desembaralhar as palavras ou consertar erros deliberadamente cometidos vai, mais tarde, obrig\u00e1-la a olhar analiticamente para a estrutura interna da palavra. Isto permitir\u00e1 tamb\u00e9m verificar se o aluno n\u00e3o ousa e n\u00e3o sabe, ou se sabe mas n\u00e3o ousa. Situa\u00e7\u00f5es psicologicamente muito diferentes. A segunda, confirma uma inseguran\u00e7a extrema, que deve ser habilmente trabalhada. Um dos melhores recursos para lidar com a inseguran\u00e7a \u00e9 a previsibilidade da situa\u00e7\u00e3o. Por isso, muitas vezes o virtuosismo da professora, que traz um repert\u00f3rio variado de atividades, sendo uma poderosa estrat\u00e9gia para atrair os resistentes e desinteressados, pode ser contraproducente com os inseguros. Com estes, variar as propostas dentro de um n\u00famero inicialmente limitado de palavras fortemente significativas pode ser essencial para que ousem se arriscar.<\/p>\n<p>O jogo previsibilidade\/surpresa \u00e9 uma dial\u00e9tica sutil. Embora opostos, s\u00e3o ambos indispens\u00e1veis, por\u00e9m em doses muito diferenciadas, de acordo com as circunst\u00e2ncias. A previsibilidade reassegura e tranq\u00fciliza; a surpresa estimula e anima. Do que necessita neste momento Paula?<\/p>\n<p><strong>Paula no ano seguinte (Reflex\u00f5es da professora Alexandra Contocani, em 2003) <\/strong><br \/>\nA proposta para o bimestre foi atender individualmente as crian\u00e7as com mais dificuldades na leitura e escrita, dentro do hor\u00e1rio escolar e nos HTPIs. Foram cerca de 12 atendimentos, em que pude acompanhar de perto as crian\u00e7as que necessitavam de ajuda particular. Vejamos um exemplo dos registros que eu realizava para poder refletir a respeito do processo de ensino-aprendizagem proporcionado por estes encontros, que tiveram continuidade posterior, realizados por outra professora.<br \/>\n<strong><br \/>\n1\u00ba encontro com Paula: 02\/04\/03, 45 min.<\/strong><br \/>\nFui para uma das escolas da rede municipal de Embu para atender a aluna Paula. Antes de atend\u00ea-la visitei as tr\u00eas salas do projeto, que estavam muito aconchegantes. Conversei um pouco com os professores, especialmente com a Cirlene, que j\u00e1 est\u00e1 trabalhando com ela havia algum tempo. Retirei a Paula da sala de aula, que fica no terceiro andar, e durante o percurso at\u00e9 a sala do projeto, no t\u00e9rreo, pude me apresentar e perguntar se ela gostaria de ler comigo. Na sala, propus que sent\u00e1ssemos lado a lado no tapete com almofadas.<\/p>\n<p>Mostrei-lhe cinco livros com diferentes n\u00edveis de dificuldades: O Reizinho Mand\u00e3o, A Bolsa Amarela, Pandolfo Bereba, Contos Tradicionais do Brasil e Contos de Andersen, com tradu\u00e7\u00e3o de Monteiro Lobato, e pedi que escolhesse um para lermos juntas. Paula pegou Contos Tradicionais do Brasil, folheou e disse: \u201cEste n\u00e3o, as letras s\u00e3o muito pequenas\u201d. Manuseou ent\u00e3o A Bolsa Amarela e disse: \u201cQuero este!\u201d.<\/p>\n<p>Contei a ela que eu adorava aquele livro e que o havia lido muitas vezes quando menina. Pedi que tentasse ler o t\u00edtulo. Primeiro ela disse que n\u00e3o sabia. Encorajei-a e perguntei: \u201cO que \u00e9 que tem na capa?\u201d. Ela ent\u00e3o leu apontando para as palavras: \u201cA Bolsa&#8230; Amarela\u201d.<\/p>\n<p>Iniciei a leitura e quando cheguei no momento em que uma das personagens come\u00e7a a escrever cartas a outra, aproveitei para perguntar a Paula se ela queria escrever uma carta para algu\u00e9m. Ela respondeu que sim. Falei que ela podia ditar que eu escreveria. Ditou-me a seguinte carta:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cPaula e Luiz Carlos<br \/>\nGosto de voc\u00ea. N\u00e3o sei se voc\u00ea gosta de mim, mas eu gosto de voc\u00ea.<br \/>\nNo Eclipse do Sol<br \/>\nMinha boca beija a tua<br \/>\nPassei pelo sol<br \/>\nN\u00e3o me queimei<br \/>\nPassei pela \u00e1gua<br \/>\nN\u00e3o me molhei<br \/>\nMas por voc\u00ea<br \/>\nMe apaixonei<\/p>\n<p>Paula ama Luiz Carlos. Eu sei que voc\u00ea gosta de mim, mas por isso eu vou continuar gostando de voc\u00ea. Nunca vou te esquecer, anda sempre sorrindo.<\/p>\n<p>Mande sua resposta se vai namorar comigo. N\u00e3o rasgue esta carta. Eu sei que voc\u00ea gosta de mim, mas n\u00e3o tem coragem de falar.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Depois leu toda a carta acompanhando as palavras com o dedo. Ficou em d\u00favida quando apareceu pela primeira vez a palavra \u201cgosto\u201d. Nesse momento eu ajudei-a e ela seguiu lendo com seguran\u00e7a. Parabenizei-a pela leitura. Combinamos que na pr\u00f3xima sess\u00e3o passar\u00edamos a carta para um papel mais bonito e far\u00edamos um envelope, para que ela pudesse entreg\u00e1-la. Perguntei se j\u00e1 queria voltar para a sala. Respondeu que n\u00e3o e foi logo pegando Contos de Andersen e dizendo:<\/p>\n<p>\u201cL\u00ea esse aqui para mim\u201d.<\/p>\n<p>Expliquei que naquele livro havia muitas hist\u00f3rias e que eu leria os t\u00edtulos de todas para que escolhesse uma. Quando terminei, perguntou-me que hist\u00f3ria era aquela, apontando com o dedo entre O Isqueiro M\u00e1gico e O Patinho Feio. Li O Patinho Feio e ela disse: \u201cN\u00e3o, n\u00e3o quero essa\u201d.<\/p>\n<p>Depois, apontando com o dedo, leu: \u201cO Isqueiro&#8230;M\u00e1gico\u201d e disse com convic\u00e7\u00e3o: \u201cQuero esta aqui\u201d. Contei a ela que nunca havia lido aquela hist\u00f3ria e que ir\u00edamos conhec\u00ea-la juntas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria fala de um soldado que com ajuda de uma feiticeira consegue muito dinheiro e um isqueiro que realiza todos os seus desejos. Comecei a ler e, percebendo que as palavras \u201cavental\u201d, \u201ccachorro\u201d, \u201cmoedas de cobre\u201d, \u201cmoedas de prata\u201d e \u201cmoedas de ouro\u201d eram recorrentes no texto, fui deixando um tempo de sil\u00eancio quando elas apareciam e Paula foi completando as frases sem dificuldade, de modo que pode participar ativamente da leitura de um livro de n\u00edvel 5.<\/p>\n<div id=\"attachment_4792\" style=\"width: 303px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2006\/07\/avisala_23_paula2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4792\" class=\"size-full wp-image-4792\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2006\/07\/avisala_23_paula2.jpg\" alt=\"avisala_23_paula2.jpg\" width=\"293\" height=\"223\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4792\" class=\"wp-caption-text\">Professora atende individualmente a aluna (Arquivo Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de Embu)<\/p><\/div>\n<p>Tivemos que parar a leitura antes de terminar a hist\u00f3ria, pois j\u00e1 era quase meio-dia. Marcamos o livro onde paramos e combinamos que terminar\u00edamos na sess\u00e3o seguinte. Fui embora muito contente com nosso primeiro encontro.<\/p>\n<p><strong>2\u00ba encontro: 04\/04\/03, 60 min.<\/strong><br \/>\nLemos juntas o relato que escrevi da sess\u00e3o anterior. Paula pareceu atenta e entusiasmada com a leitura. Participou da mesma forma que no livro que lemos na quarta-feira, completando as palavras quando eu parava a frase no meio. Quando chegamos na carta, perguntei se ela n\u00e3o estava cansada e se queria fazer outra coisa. Ela disse que n\u00e3o e quis ler o relato at\u00e9 o final. Quando acabamos, perguntei se ela gostaria de terminar a leitura de O Isqueiro M\u00e1gico ou se preferia escrever a carta para o Luiz Carlos na m\u00e1quina de escrever. Escolheu a segunda op\u00e7\u00e3o, dizendo inicialmente que n\u00e3o ia conseguir escrever e pedindo para que eu o fizesse. Eu disse a ela que a ajudaria, mas confiava que iria conseguir. Come\u00e7ou ent\u00e3o a escrever com apoio da carta manuscrita com letra de forma mai\u00fascula. Conforme ela ia escrevendo (copiando) cada palavra, pedia que ela lesse. Conseguiu ler e escrever quase tudo com pouca ajuda. Percebi que Paula, em alguns momentos, pensava que uma letra representava uma s\u00edlaba e que ainda n\u00e3o conhecia as letras Q e Y, e n\u00e3o sabia que de vez em quando usamos SS para escrever algumas palavras. Na hora de escrever, n\u00e3o estava muito atenta aos espa\u00e7os entre as palavras, por isso, na pr\u00f3xima sess\u00e3o contaria a ela que o espa\u00e7o existe para separar palavras, e que n\u00e3o as escrevemos \u201cgrudadas\u201d.<\/p>\n<p>No final da sess\u00e3o perguntei a Paula se eu podia mostrar para a professora Cilene o relato que lemos juntas. Ela disse que sim. Deixei o relato e o livro, que n\u00e3o conseguimos terminar de ler, por falta de tempo, para que a professora Anna Andr\u00e9ia entregasse para a Cilene. Hoje a sess\u00e3o foi muito boa, pena que o tempo passou muito depressa!<\/p>\n<p><strong>3\u00ba encontro: 09\/04\/03, 1 h 15 min.<\/strong><br \/>\nHoje eu e a Paula trabalhamos juntas mais uma vez. Ela me contou que terminou de ler O Isqueiro M\u00e1gico com a Cilene e que gostou da hist\u00f3ria. Terminou de escrever a carta para o Luiz Carlos e fez um envelope vermelho onde quis escrever com a letra dela a seguinte frase: \u201cN\u00f3s com n\u00f3s \u00e9 n\u00f3s porque sem n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 n\u00f3s\u201d. Sugeri que us\u00e1ssemos primeiro as letras m\u00f3veis para compor a frase. Separei todas as letras que seriam usadas e ela comp\u00f4s a frase com a minha ajuda.<\/p>\n<p>Quis escrever tamb\u00e9m Paula e Luiz Carlos, o que conseguiu com mais facilidade e sem precisar que eu lhe fornecesse as letras. Pediu que eu lesse o relato do nosso 2\u00ba encontro. Fizemos mais uma vez uma leitura cooperativa, na qual ela ia completando algumas palavras do texto diante do meu sil\u00eancio. Ap\u00f3s essa atividade, solicitou que eu lesse uma hist\u00f3ria do livro Contos de Grimm. Escolheu Chapeuzinho Vermelho.<\/p>\n<p>Durante a leitura, contou-me que tamb\u00e9m tem uma av\u00f3. Pude observar que Paula conseguiu ler sozinha as seguintes palavras: \u201cvoc\u00ea\u201d, \u201cvou\u201d, \u201cresposta\u201d, \u201cLuiz Carlos\u201d, \u201cPaula\u201d, \u201cn\u00f3s\u201d, \u201cn\u00e3o\u201d, \u201cisqueiro\u201d, \u201cm\u00e1gico\u201d, \u201cchapeuzinho\u201d, \u201cvermelho\u201d, \u201clobo\u201d, \u201cav\u00f3\u201d, \u201cvov\u00f3\u201d e \u201cmenina\u201d. S\u00e3o 16 palavras, que bom! Um detalhe me chamou aten\u00e7\u00e3o: Paula conseguia ler as palavras \u201cav\u00f3\u201d e \u201cvov\u00f3\u201d, o que confirma que al\u00e9m de ler pelo sentido, estava tamb\u00e9m prestando aten\u00e7\u00e3o nas letras que comp\u00f5em cada palavra. Cilene contou que Paula havia lido sozinha v\u00e1rias palavras da hist\u00f3ria. Ela est\u00e1 indo muito bem, daqui a pouco estar\u00e1 lendo tudo sozinha.<\/p>\n<p><strong>4\u00ba encontro: 16\/04\/03, 45 min.<\/strong><br \/>\nPaula leu comigo o livro N\u00f3s, de Eva Furnari (n\u00edvel 4). Durante a leitura, sempre que eu propunha que ela lesse alguma palavra pelo sentido, conseguia. Leu as seguintes palavras: \u201cn\u00f3s\u201d, \u201cn\u00f3\u201d, \u201cmel\u201d, \u201cgaroto\u201d, \u201cmenino\u201d, \u201cbicicleta\u201d, \u201crepolho\u201d, \u201ccasa\u201d, \u201camarela\u201d, \u201cnariz\u201d. No total s\u00e3o dez palavras. Conseguiu ler tamb\u00e9m a lista de palavras do 3\u00ba encontro. Ficou muito contente em saber que j\u00e1 havia lido 16 palavras e me pediu que somasse as do encontro passado com as lidas hoje. O resultado foi 25 palavras, pois a palavra \u201cn\u00f3s\u201d est\u00e1 nas duas listas. Vale observar mais uma vez que ela leu \u201cmenino\u201d e \u201cgaroto\u201d adequadamente, o que revela sua aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente ao sentido, mas tamb\u00e9m \u00e0 palavra lida.<\/p>\n<p>Em seguida mostrei-lhe uma tira com letras de imprensa e de m\u00e3o (mai\u00fasculas e min\u00fasculas). Ela me ajudou a encap\u00e1-la com contact e recortou as sobras de papel. Disse-lhe que poderia levar para a sala de aula, para consult\u00e1-la quando tivesse alguma d\u00favida. Falou que agora ia saber as letras da professora. Jogamos bingo com a cartela de letras min\u00fasculas de imprensa. Paula precisou consultar a tira para achar as letras: f, g \u2013 reparou que o g min\u00fasculo da tira era diferente do g da cartela) \u2013, h, j, k, q, r. N\u00e3o houve tempo para ditar as letras i, p, u, x. As demais, Paula acertou sem titubear.<\/p>\n<p>Quando tirava alguma letra da cestinha e perguntava que letra era, na maioria das vezes ela n\u00e3o sabia dizer. No entanto, Paula sabe recitar o alfabeto corretamente e conhece visualmente as correspondentes min\u00fasculas de v\u00e1rias letras mai\u00fasculas. Na cartela do bingo, espontaneamente, Paula anotou, a l\u00e1pis, a vers\u00e3o mai\u00fascula da letra ditada. Contei-lhe sobre os encontros de supervis\u00e3o do Projeto Letras e Livros e disse-lhe que \u00e0s vezes lia para as outras professoras tudo o que escrevo sobre ela e tudo o que j\u00e1 est\u00e1 conseguindo. Paula sorriu.<\/p>\n<p><strong>5\u00ba encontro: 05\/05\/03, 30 min.<\/strong><br \/>\nDepois de duas semanas sem conseguir encontrar Paula, finalmente pude rev\u00ea-la. Estava com muita saudade. Come\u00e7amos a sess\u00e3o pela leitura do livro Coc\u00f4 de Passarinho (n\u00edvel 2). Paula pareceu estar desinteressada, quase n\u00e3o olhou para o livro, mas quando perguntei-lhe se queria parar de ler, ela disse que n\u00e3o. Propus, ap\u00f3s a leitura, que escrevesse seu nome. Escreveu com as letras m\u00f3veis PALUA. Perguntei se era assim mesmo o nome dela, ent\u00e3o ela corrigiu. Depois pedi que escrevesse Luiz Carlos. Ela escreveu LUS DAIE. Depois, com algumas interven\u00e7\u00f5es, chegou \u00e0 vers\u00e3o correta.<\/p>\n<p>Antes de ir para a sala, me disse que estava precisando de um caderno. Sa\u00ed da sess\u00e3o preocupada, pois Paula pareceu alheia e distante.<\/p>\n<p><strong>6\u00ba encontro: 14\/05\/03, 60 min.<\/strong><br \/>\nHoje nosso encontro foi muito bom! Come\u00e7amos com a leitura do livro Dito e Feito (n\u00edvel 4). Paula conseguiu ler as palavras: \u201crio\u201d, \u201covos\u201d, \u201cganso\u201d, \u201cbruxa\u201d, \u201cp\u00e3o\u201d e \u201cavental\u201d v\u00e1rias vezes. Ela disse que gostou do livro. Depois apresentei-lhe um caderno. Ela quis escrever no caderno os nomes de suas amigas: Viviane, Karina, Jaciele, Tatiane, Evelin, Daniele, Roberta, Jane e Jenifer. Escreveu com ajuda. Tamb\u00e9m quis escrever o nome de um lugar para onde queria viajar: Para\u00edba. Disse que seu irm\u00e3o morava l\u00e1.<\/p>\n<p>Primeiro escreveu assim: PAIABRA, PAIBARA, APAIBRA. Perguntei ent\u00e3o se ela sabia qual, dessas tr\u00eas palavras, era a correta: PAIABRA, RAIBAPA, PARA\u00cdBA. Identificou rapidamente a correta. Em seu caderno tamb\u00e9m escreveu, com ajuda, o nome da mat\u00e9ria preferida: (Matem\u00e1tica) e o nome de sua professora de sala (C\u00e9lia).<\/p>\n<p>Obs.: Nesta semana a professora Cirlene, do projeto, que tamb\u00e9m estava atendendo a Paula, se desligou, sendo substitu\u00edda pela professora Silvana.<\/p>\n<p><strong>7\u00ba encontro: 22\/05\/03, 60 min.<\/strong><br \/>\nCome\u00e7amos nossa sess\u00e3o pela leitura dos envelopes com as palavras importantes para Paula: nomes das amigas, mat\u00e9ria preferida, lugar que quer conhecer, nome de sua professora. Quando est\u00e1vamos lendo o envelope do lugar que quer conhecer, Paula me contou que queria conhecer Santos. Pedi a ela ent\u00e3o que escrevesse a palavra. Com as letras m\u00f3veis fez: SANTOU, SANTOI, SANTOSU, SANTOS. Disse ent\u00e3o que queria escrever uma carta para seu irm\u00e3o, que mora na Para\u00edba. Ditou-me:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cMeu irm\u00e3o,<br \/>\nTou com saudades, queria te ver, mas n\u00e3o posso ir a\u00ed. Por isso estou te mandando essa carta. Nada anda bem por aqui. Como voc\u00ea vai a\u00ed? Queria que voc\u00ea viesse aqui, mas n\u00e3o pode vir, meu pai tamb\u00e9m est\u00e1 com saudades. Meu pai n\u00e3o pode mandar 100 reais ent\u00e3o quando ele receber vou mandar ele mandar o dinheiro. Minha irm\u00e3 Luzinete tem uma nen\u00ea que se chama Michele. Queria que voc\u00ea pudesse ver a Michele por isto estou mandando esta carta. Tou com saudades. Paula que mandou. Todo mundo est\u00e1 com saudade. Luzinete e Michele, Damiana, Tereza, Tatiane, Cileide, Angelina, Corrinha, Dande, Ingrid, Tita e Paula. Muitos beijos. Te amo.<\/p>\n<p>Rua China, n\u00ba 2 \u2013 Embu\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Combinamos que Paula traria o endere\u00e7o do irm\u00e3o na Para\u00edba no nosso pr\u00f3ximo encontro, para que pud\u00e9ssemos enviar a carta.<\/p>\n<p><strong>8\u00ba encontro: 30\/05\/03, 15 min.<\/strong><br \/>\nFui \u00e0 escola excepcionalmente na sexta-feira, pois n\u00e3o encontrei Paula na quinta-feira. Ela estava na aula de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, mas eu convidei-a mesmo assim para a sess\u00e3o. Perguntei sobre o endere\u00e7o do irm\u00e3o e ela me respondeu, muito decepcionada, que n\u00e3o havia encontrado o envelope onde ele estava. Disse-me que sua m\u00e3e havia sa\u00eddo de casa, parecia estar triste. Em seguida fez um coment\u00e1rio sobre o jogo da Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica. Perguntei se ela queria voltar para a aula, respondeu que sim. Nos despedimos.<\/p>\n<p><strong>9\u00ba encontro: 10\/06\/03, 60 min.<\/strong><br \/>\nInfelizmente n\u00e3o pude atender Paula na semana passada, pois ela faltou. J\u00e1 estava com saudades, por isso mandei uma carta para ela.<\/p>\n<p>Hoje nosso encontro foi maravilhoso! Come\u00e7amos lendo juntas o livro De Onde Viemos. Paula conseguiu ler sozinha muitas palavras do texto, mas, em determinado momento, me disse que n\u00e3o poderia continuar a leitura do livro, pois ainda era muito crian\u00e7a. Durante a leitura achou interessante a palavra \u201ctrig\u00eameos\u201d. Propus ent\u00e3o que a encontrasse em uma p\u00e1gina s\u00f3 de texto. Ela disse que n\u00e3o conseguiria, mas eu insisti que ao menos tentasse.<\/p>\n<p>Em seguida apontou corretamente a palavra. Fiquei muito feliz, pois percebi que Paula j\u00e1 est\u00e1 conseguindo ler, embora \u00e0s vezes tenha medo de arriscar. Continuamos nossa sess\u00e3o com a leitura de um conto tibetano do livro Varia\u00e7\u00f5es sobre o Tema Mulher. O conto era o do unic\u00f3rnio. Paula demonstrou muito interesse pelo texto e participou bastante. N\u00e3o conseguimos terminar a leitura, pois bateu o sinal, mas deixei o livro para a professora Silvana terminar de ler.<\/p>\n<p><strong>10\u00ba encontro: 18\/06\/03, 40 min.<\/strong><br \/>\nUm dia muito especial! Paula conseguiu ler uma poesia inteira sozinha! J\u00e1 a caminho da sala, me disse: \u201cSabia que a minha professora disse que eu j\u00e1 sei ler?\u201d. J\u00e1 estava decidida a propor um desafio maior a Paula, e esta afirma\u00e7\u00e3o me encorajou ainda mais. Havia trazido o Livro de Letras, de Vinicius de Moraes. Abri na p\u00e1gina do conto Casa e pedi que ela lesse. Primeiro olhou para mim, desconfiada, depois leu tudo, tudo mesmo, sem nenhuma ajuda. Em seguida leu As Meninas, de Cec\u00edlia Meireles. Precisou de pouca ajuda. Hoje percebi que Paula j\u00e1 est\u00e1 lendo sozinha. Fiquei muito feliz.<\/p>\n<p><strong>11\u00ba encontro: 26\/06\/03, 45 min.<\/strong><br \/>\nTrouxe para Paula escutar a m\u00fasica Velha Inf\u00e2ncia, dos Tribalistas. Ela gostou muito e pediu para ouvir de novo v\u00e1rias vezes. Depois acompanhou com o dedo a letra da m\u00fasica, enquanto ouvia. \u00c0s vezes seu dedo se desencontrava da palavra cantada. Neste momento recuei um pouco, reduzindo o n\u00famero de visitas, mas intensificando a correspond\u00eancia escrita. A esta altura recebi uma carta que ela me disse ter escrito sem ajuda. Veio em um envelope feito por ela mesma. Transcrevo a carta mantendo os erros ortogr\u00e1ficos e a original.<\/p>\n<div id=\"attachment_4793\" style=\"width: 477px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2006\/07\/avisala_23_paula3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4793\" class=\"size-full wp-image-4793\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2006\/07\/avisala_23_paula3.jpg\" alt=\"avisala_23_paula3.jpg\" width=\"467\" height=\"602\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2006\/07\/avisala_23_paula3.jpg 467w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2006\/07\/avisala_23_paula3-232x300.jpg 232w\" sizes=\"auto, (max-width: 467px) 100vw, 467px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4793\" class=\"wp-caption-text\">De: Paula<br \/>Pala:<br \/>Plofessoras eu gosto muito de vo\u00eas, sobia que a senhenhoia \u00e9 a melmor piofes sora que e j\u00e1 conmecir. Voc\u00eas me aiudaram bastante a aprender a ler e escrever i com voc\u00eas apren dir muito deis do come\u00e7o do ano Estou mandando esta carta pauio dizer o cuanto eu gosto de voces, ouiodo eu passar para a escoia pauio cmagas n\u00e3o estar sembe co les dois voc\u00eas dois v\u00e3o estar sempre no fundo do meu corac\u00e2o tadem nao irei e squecer da marcia dire tora desta escoia E u sempre irei gostar de voc\u00eas, que compartilmaram comigo e tive gosto muito de voc\u00ea!<br \/>beijos de Paula<\/p><\/div>\n<p>Ainda houve mais um encontro, que foi registrado em v\u00eddeo, onde lemos juntas O Rei Bigodeira e a Sua Banheira. Desde o in\u00edcio me envolvi profundamente com Paula. Tive que, por este motivo, administrar as sensa\u00e7\u00f5es dial\u00e9ticas de impot\u00eancia e onipot\u00eancia que me invadiram em determinados momentos de nossa hist\u00f3ria. Hoje ainda me vejo em conflito. Como ser\u00e1 que ela est\u00e1 na 5\u00aa s\u00e9rie? O que podemos fazer para reivindicar que este tipo de acompanhamento se estenda pelo tempo que for necess\u00e1rio? Como garantir que Paula n\u00e3o seja mais uma crian\u00e7a a abandonar a escola? Tenho consci\u00eancia de que tudo o que fizemos por ela n\u00e3o foi pouco, mas \u00e9 dif\u00edcil deixar de pensar no que ser\u00e1 feito daqui para frente.<\/p>\n<p>(Cleide Goes e Alexandra Contocani, professoras do Munic\u00edpio do Embu \u2013 SP)<\/p>\n<p>*T\u00edtulo do filme de Yi Ge Dou Bu Neng Shao, China, 1998, drama, 106 min. Dire\u00e7\u00e3o de Zang Yimou.<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>Projeto em andamento desde abril de 2002. Tem sua origem na Escola de Aplica\u00e7\u00e3o da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo (FEUSP)<br \/>\ne conta com a assessoria de Heloysa Dantas.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup>O nome da aluna foi trocado para preserv\u00e1-la.<\/p>\n<h4>Rela\u00e7\u00e3o de livros e discos utilizados<\/h4>\n<ul>\n<li>A Bolsa Amarela, de L\u00edgia Bojunga. Ed. Casa L\u00edgia Bojunga. Tel.: (21) 2516-2581<\/li>\n<li>Coc\u00f4 de Passarinho, de Eva Funari. Ed. Cia. das Letrinhas. Tel.: (11) 3167-0801<\/li>\n<li>Contos de Andersen, de Hans Christian Andersen. Ed. \u00c1tica. Tel.: (11) 3346-3000<\/li>\n<li>Contos De Grimm, de Jacob e Wilhelm. Ed. \u00c1tica. Tel.: (11) 3346-3000<\/li>\n<li>Contos Tradicionais do Brasil, de Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo. Ed. Global. Tel.: (11) 3277-7999<\/li>\n<li>De Onde Viemos?, de Paul Walter, Arthur Robins e Peter Mayle. Ed. Nobel. Tel.: (11) 3706-1466<\/li>\n<li>Dito e Feito, de Jannifer Armstrong. Ed. Brinquebook. Tel.: (11) 3742-8142<\/li>\n<li>Melhores Poemas de Cec\u00edlia Meireles, Cec\u00edlia Meireles. Ed. Global. Tel.: (11) 3277-7999<\/li>\n<li>O Livro de Letras, Vinicius de Moraes. Ed. Cia das Letras. Tel.: (11) 3167-0801<\/li>\n<li>O Reizinho Mand\u00e3o, de Ruth Rocha. Ed. Salamandra. Tel.: (11) 6090-1500<\/li>\n<li>Pandolfo Bereba, de Eva Funari. Ed Moderna. Tel.: 0800-172002<\/li>\n<li>Varia\u00e7\u00f5es sobre o Tema Mulher, de Jette Bonaventure. Ed. Paulus. Tel.: (11) 5084-3066<\/li>\n<li>CD Os Tribalistas. Gravadora IME. Encontrado em lojas de CDs e Livrarias.<\/li>\n<\/ul>\n<h4>Ficha t\u00e9cnica<\/h4>\n<p>Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o, Cultura, Esportes e Lazer do Munic\u00edpio do Embu &#8211; Rua Andronico dos Prazeres Gon\u00e7alves, 114<br \/>\nEmbu das Artes \u2013 S\u00e3o Paulo \u2013 SP. CEP: 06804-200<br \/>\nTel.: (11) 4704-3500. Fax: (11) 4704-6185. E-mail: educacao@embu.sp.gov.br<br \/>\nCoordenadora da equipe pedag\u00f3gica: L\u00eddia Maria Balsi Machado<br \/>\nSupervisora respons\u00e1vel pelo Projeto Letras e Livros: Laura Dantas de Souza Pinto<br \/>\nAssessora: Heloysa Dantas<br \/>\nEducadoras: Alexandra Contocani, Cilene Jeronymo, Cleide Ferreira de G\u00f3es, Maria Doredi Gon\u00e7alves, Nadir Maria F. Carvalho, Rita de Cassia Ferreira, Silvana Carvalho Zelante Escolas: E.M. Astrogilda de Abreu Sevilha, E.M. Elza Marreiro Medina, E.M. Iodoque Rosa, E.M. Janaina Agostinho Oliveira, E.M. Mauro Ferreira da Silva; Escola Municipal Villa-Lobos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inclus\u00e3o na escola e democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 cultura letrada \u00e9, sem d\u00favida, uma das prioridades da educa\u00e7\u00e3o em nosso pa\u00eds. No munic\u00edpio de embu, s\u00e3o paulo, um esfor\u00e7o coletivo de professores e formadores garante a aprendizagem de todas as crian\u00e7as, incluindo-as na cultura escrita. Cleide Goes e Alexandra Contocani<\/p>\n","protected":false},"author":99,"featured_media":3096,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[448,384],"tags":[1106,962,1325,737,963,961,21,1329,151],"class_list":{"0":"post-4787","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-formacao-nos-municipios","8":"category-revista-avisala-23","9":"tag-revista-avisa-la-2005","10":"tag-alexandra-contocani","11":"tag-alfabetizacao","12":"tag-atencao","13":"tag-atendimento-individual","14":"tag-cleide-goes","15":"tag-escrita","16":"tag-inclusao","17":"tag-leitura","19":"post-with-thumbnail","20":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4787","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/99"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4787"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4787\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3096"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4787"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4787"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4787"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}