{"id":4757,"date":"2007-10-07T12:06:04","date_gmt":"2007-10-07T15:06:04","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=4757"},"modified":"2023-03-27T18:49:51","modified_gmt":"2023-03-27T21:49:51","slug":"o-educador-e-os-bebes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisala-32\/o-educador-e-os-bebes\/","title":{"rendered":"O educador e os beb\u00eas"},"content":{"rendered":"<h5>Que educador n\u00e3o \u00e9 igual a m\u00e3e, todo mundo sabe, mas por que essa id\u00e9ia sempre retorna quando o assunto \u00e9 beb\u00ea e creche? Qual o papel daquele que se ocupa diariamente das crian\u00e7as pequenas? Ser professor de beb\u00eas \u00e9 uma especialidade diferente dos demais profissionais da educa\u00e7\u00e3o?<\/h5>\n<div id=\"attachment_4760\" style=\"width: 212px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4760\" class=\"size-full wp-image-4760 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_32_tema3.jpg\" alt=\"avisala_32_tema3.jpg\" width=\"202\" height=\"288\" \/><p id=\"caption-attachment-4760\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Marcelo Carvalho<\/p><\/div>\n<p>Essas foram algumas das perguntas que surgiram durante uma investiga\u00e7\u00e3o<sup>1<\/sup> sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o beb\u00ea e o educador de ber\u00e7\u00e1rio, aquele que dele se ocupa no cotidiano da creche. O ponto de partida foi a certeza de que a creche tem um papel importante nos prim\u00f3rdios da vida do beb\u00ea, ou seja, a cren\u00e7a de que ir cedo para uma institui\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de uma realidade atual, \u00e9 um acontecimento que tem sua contribui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica na forma\u00e7\u00e3o dessa crian\u00e7a. Na unidade de educa\u00e7\u00e3o, um beb\u00ea mobiliza sentimentos, expectativas, modifica\u00e7\u00f5es ambientais, cuidados espec\u00edficos. O educador que dele se encarrega, envolvido nesta mobiliza\u00e7\u00e3o, a ele dirige seu olhar, sua aten\u00e7\u00e3o, com ele se aflige, se alegra, vive diferentes sentimentos. Por ele, busca novos conhecimentos, defende sua posi\u00e7\u00e3o profissional dentro da creche. No nosso imagin\u00e1rio, assim como no de nossa cultura, os beb\u00eas s\u00e3o criaturas a serem admiradas e cuidadas. A eles, s\u00e3o dirigidas gracinhas, caretas expressivas, palavras em tom diferenciado e muitas vezes no diminutivo, h\u00e1 vontade de toc\u00e1-los e de estreit\u00e1-los no peito. Sabemos que esses sentimentos n\u00e3o s\u00e3o gerais, pois os beb\u00eas tamb\u00e9m d\u00e3o \u201cmedo de pegar\u201d, por sua fragilidade, e angustiam, por sua extrema depend\u00eancia. \u00c9 em fun\u00e7\u00e3o dessa diversidade que \u00e9 poss\u00edvel ouvir coment\u00e1rios diferentes sobre o tema, como:<!--more--><\/p>\n<p>\u2013 Coitadinho desse beb\u00ea, t\u00e3o novinho e j\u00e1 vai pra creche!<br \/>\n\u2013 Esse beb\u00ea \u00e9 esperto, \u00e9 beb\u00ea de creche.<\/p>\n<p><strong>Coitadinho ou esperto?<\/strong><br \/>\nAdmira\u00e7\u00e3o ou receio? S\u00e3o tamb\u00e9m diversas as imagens produzidas a partir da mesma id\u00e9ia. Mas, de modo geral, os beb\u00eas despertam a sensibilidade dos adultos. Os educadores entrevistados durante a investiga\u00e7\u00e3o puderam falar um pouco dessa sensibilidade e daquilo que \u00e9 pr\u00f3prio em seu trabalho cotidiano. Falaram das especificidades do olhar do educador de ber\u00e7\u00e1rio, dos instrumentos necess\u00e1rios, de sua hist\u00f3ria profissional, do conhecimento da fam\u00edlia e da aproxima\u00e7\u00e3o cont\u00ednua com cada beb\u00ea.<\/p>\n<p>Observou-se que o mesmo objeto de trabalho \u2013 beb\u00eas \u2013 suscita, em cada educadora, diferentes sentimentos. De acordo com a hist\u00f3ria pessoal e a experi\u00eancia de cada uma, fomos levados a conhecer maneiras particulares de perceber o universo desta rela\u00e7\u00e3o educador\/crian\u00e7a\/creche. Cada uma das sete educadoras entrevistadas contou do seu jeito a hist\u00f3ria de uma crian\u00e7a, mostrou suas opini\u00f5es sobre o trabalho, sua concep\u00e7\u00e3o de inf\u00e2ncia, educa\u00e7\u00e3o, maternidade. Falar de um trabalho que realizam cotidianamente pareceu, no in\u00edcio, dif\u00edcil para elas; afinal, de certa forma \u00e9 algo que fazem naturalmente, quase automaticamente, ou como elas mesmas definiram:<\/p>\n<p>\u2013 A gente n\u00e3o sabe falar, mas sabe fazer.<br \/>\n\u2013 \u00c9 dif\u00edcil falar sobre beb\u00eas.<\/p>\n<p><strong>Espa\u00e7o profissionalizado<\/strong><br \/>\nApesar da singularidade de cada hist\u00f3ria, pudemos observar semelhan\u00e7as nas falas, tanto de educador para educador, como de creche para creche. Desta forma, algumas id\u00e9ias comuns foram destacadas, como a de que as educadoras t\u00eam um saber profissional, que ocupam o lugar da n\u00e3o-m\u00e3e e que a creche deve dar a refer\u00eancia do modo de lidar com os beb\u00eas. O educador tem normas a serem cumpridas e um \u201clugar\u201d espec\u00edfico. Esse lugar define o perfil pr\u00f3prio daquele que deve passar o dia no ber\u00e7\u00e1rio, com diversos beb\u00eas, atendendo \u00e0s suas necessidades e relacionando-se intimamente com eles. \u00c9 tamb\u00e9m um lugar, como lembra a educadora Rute, que remete a uma estrutura estabelecida:<\/p>\n<p>\u2013 Tem hor\u00e1rio e seq\u00fc\u00eancia certos, as crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o iguais, mas a rotina \u00e9.<\/p>\n<p>Nessas creches, a rotina \u00e9 entendida como organizadora do trabalho, articulando os diversos setores de atua\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o, assim como as diferentes necessidades da crian\u00e7a durante o dia. Seguir uma seq\u00fc\u00eancia predeterminada tem uma fun\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica: organizar as diferentes a\u00e7\u00f5es, assim como dar para a crian\u00e7a referenciais que tanto ajudam a situ\u00e1-la no tempo e no espa\u00e7o, como lhe d\u00e3o seguran\u00e7a em meio a tantas atividades e intera\u00e7\u00f5es. Tudo isso comp\u00f5e o papel de educadora ou professora, que n\u00e3o existe s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crian\u00e7a, pois essa fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser considerada independente da institui\u00e7\u00e3o na qual est\u00e1 inserida, onde h\u00e1 normas e organiza\u00e7\u00e3o espec\u00edficas. Ser educador de creche \u00e9 uma profiss\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_4761\" style=\"width: 218px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4761\" class=\"size-full wp-image-4761 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_32_tema2.jpg\" alt=\"avisala_32_tema2.jpg\" width=\"208\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_32_tema2.jpg 208w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_32_tema2-185x300.jpg 185w\" sizes=\"auto, (max-width: 208px) 100vw, 208px\" \/><p id=\"caption-attachment-4761\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Marcelo Carvalho<\/p><\/div>\n<p>Durantes as entrevistas, as educadoras, em alguns momentos, procuravam delimitar o que era de ordem pessoal e que, dentro do poss\u00edvel, n\u00e3o se devia misturar com as exig\u00eancias do trabalho. \u00c9 o caso de Jussara que, ao falar da paci\u00eancia como atributo necess\u00e1rio \u00e0 natureza desse trabalho, disse:<\/p>\n<p>\u2013 Se voc\u00ea estiver mal-humorada, para trabalhar com crian\u00e7a, n\u00e3o d\u00e1. Voc\u00ea tem que estar sempre sorridente, ainda que esteja amargurada, tem que esquecer, deixar l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>O mesmo falou Maria:<\/p>\n<p>\u2013 A gente se envolve muito com eles, se preocupa, \u00e9 que nem filho&#8230; mas n\u00e3o deve misturar as coisas.<\/p>\n<p>Podemos entender que quando dizem \u201cdeixar l\u00e1 fora\u201d ou \u201ca gente n\u00e3o deve misturar\u201d, essas educadoras est\u00e3o tentando fazer uma diferencia\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 pessoal e o espa\u00e7o de trabalho. Sabemos que isso n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil, j\u00e1 que assumimos que ela exige sensibilidade do educador, mas essa clareza se faz necess\u00e1ria para executar o trabalho di\u00e1rio. Para atuar profissionalmente, \u00e9 preciso um saber espec\u00edfico que n\u00e3o vem simplesmente da hist\u00f3ria pessoal da educadora e sim de um ensinamento externo. \u00c9 o saber da profiss\u00e3o. Observar, proteger; guardar; cuidar da sa\u00fade e da higiene; dar aten\u00e7\u00e3o ao crescimento e desenvolvimento; brincar e ocupar; educar e ensinar comp\u00f5em a caracteriza\u00e7\u00e3o do profissional.<\/p>\n<p><strong>Rela\u00e7\u00e3o com cada beb\u00ea<\/strong><br \/>\nO que \u00e9 esse saber? Em v\u00e1rios momentos pudemos identificar relatos de manias, gestos, fatos, que caracterizam cada beb\u00ea como \u00fanico, valorizando pequenas diferen\u00e7as, assim como falas que revelam uma aproxima\u00e7\u00e3o exclusiva entre a educadora e um determinado beb\u00ea. Elas s\u00e3o capazes de identificar pequenas mudan\u00e7as no comportamento de um beb\u00ea, prevendo uma doen\u00e7a a caminho ou alguma tristeza referente a acontecimento familiar.<\/p>\n<p>Por exemplo, Olga e Ana, de creches diferentes, enquanto falavam de cada uma das crian\u00e7as, mostrando-as no ber\u00e7\u00e1rio, disseram:<\/p>\n<p>\u2013 Hoje ele n\u00e3o est\u00e1 bonzinho, quando fica mais manhoso, \u00e9 porque est\u00e1 ficando doente.<br \/>\n\u2013 Ela chegou muito s\u00e9ria e s\u00f3 quer colo, da \u00faltima vez que chegou assim \u00e9 porque sua m\u00e3e estava nervosa, com problemas em casa.<br \/>\n\u2013 Voc\u00ea conhece a crian\u00e7a atrav\u00e9s do gesto, do choro, de sinais.<br \/>\n\u2013 Porque voc\u00ea tem que estar atento a essas coisinhas&#8230;\u00e0s vezes, est\u00e1 chorando porque quer colo mesmo, n\u00e3o \u00e9 comida.<br \/>\n\u2013 A gente vai conhecendo o beb\u00ea e vai sabendo o que ele quer.<\/p>\n<p>Cada educadora pode saber bastante acerca do beb\u00ea, assim como uma m\u00e3e, por\u00e9m, sabe de um lugar diferente. Apontamos como elementos dessas caracter\u00edsticas a observa\u00e7\u00e3o e a aproxima\u00e7\u00e3o, que requerem disponibilidade para ouvir, conhecer e se colocar em fun\u00e7\u00e3o das necessidades do beb\u00ea:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea acaba observando, tendo mais cuidados&#8230; Quando ela dorme no colo, segura, acaba pegando na roupa, acho que d\u00e1 seguran\u00e7a pra ela. (In\u00eas)<\/p>\n<p>\u2013 A gente est\u00e1 t\u00e3o acostumada com eles que sabe quando eles n\u00e3o est\u00e3o bem. (Jussara)<\/p>\n<p>Por tratar-se de beb\u00eas, o olhar da educadora \u00e9 mais agu\u00e7ado, sens\u00edvel a pequenos sinais que podem dar dicas sobre como estar com eles ou o que oferecer para confort\u00e1-los. A aproxima\u00e7\u00e3o se d\u00e1 tanto pela observa\u00e7\u00e3o atenta que leva o educador a levantar hip\u00f3teses e tirar conclus\u00f5es sobre a crian\u00e7a, quanto pelos sentimentos que a rela\u00e7\u00e3o com o beb\u00ea provoca. Os beb\u00eas permanecem no pensamento da educadora mesmo fora do hor\u00e1rio de trabalho, suscitando preocupa\u00e7\u00e3o ou causando modifica\u00e7\u00f5es em sua vida, fazendo-a prestar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas ao redor ou tornando-a mais paciente ou sens\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2013 Muitas vezes a gente tem que fazer as vezes da m\u00e3e. \u00c9 aquele neg\u00f3cio do aconchego, de p\u00f4r no colo, dar papinha, dar carinho. (Rute)<\/p>\n<p>\u2013 A gente se acostuma praticamente quase igual \u00e0 m\u00e3e, porque a m\u00e3e t\u00e1 ali junto, sabe o que fazer. (Maria)<\/p>\n<div id=\"attachment_4762\" style=\"width: 337px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4762\" class=\"size-full wp-image-4762 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_32_tema1.jpg\" alt=\"avisala_32_tema1.jpg\" width=\"327\" height=\"297\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_32_tema1.jpg 327w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_32_tema1-300x272.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 327px) 100vw, 327px\" \/><p id=\"caption-attachment-4762\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Estefi M. Pereira<\/p><\/div>\n<p><strong>Papel espec\u00edfico<\/strong><br \/>\nSem deixar de marcar que seu papel n\u00e3o \u00e9 substituir a m\u00e3e, as educadoras reconhecem que o aconchego, a privacidade e a aproxima\u00e7\u00e3o afetiva \u00edntima (caracter\u00edsticas da rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-beb\u00ea) tamb\u00e9m fazem parte da hist\u00f3ria que se constr\u00f3i entre ela e o beb\u00ea na creche. Em outros momentos, para falar do seu trabalho, elas fizeram quest\u00e3o de delimitar o espa\u00e7o de \u201cn\u00e3o-m\u00e3e\u201d:<\/p>\n<p>\u2013 \u00c0s vezes \u00e9 muito corrido aqui, n\u00e3o d\u00e1 pra voc\u00ea ficar s\u00f3 com um beb\u00ea, ent\u00e3o voc\u00ea tem que dar aten\u00e7\u00e3o pra todos. (Maria)<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea d\u00e1 carinho, voc\u00ea d\u00e1 afeto, mas tem que ser para todos, n\u00e3o tem que ser s\u00f3 aquele exclusivo. J\u00e1 a m\u00e3e n\u00e3o, a m\u00e3e d\u00e1 aquele carinho s\u00f3 para aquela crian\u00e7a, a crian\u00e7a s\u00f3 tem aten\u00e7\u00e3o dela. A gente n\u00e3o pode ser t\u00e3o protetora da crian\u00e7a, assim que nem a m\u00e3e&#8230; (In\u00eas)<\/p>\n<p>Entendemos, com isso, que a creche tem um papel complementar e n\u00e3o substitutivo da fun\u00e7\u00e3o materna. A rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-beb\u00ea nos parece ficar preservada como algo \u00fanico. Mesmo havendo momentos de conflito entre creche e m\u00e3e, no quais surgem ci\u00fames de ambas as partes, disputas pelo beb\u00ea e at\u00e9 dificuldades em reconhecer que a fam\u00edlia e a creche n\u00e3o t\u00eam que ser ambientes id\u00eanticos para a crian\u00e7a, a institui\u00e7\u00e3o coloca-se em um lugar definido. Um lugar com fun\u00e7\u00f5es que dizem respeito ao cuidado e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a dentro das possibilidades de um espa\u00e7o coletivo. A creche \u00e9 o lugar do cuidado, da conviv\u00eancia e da educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 representante de uma cultura, de um universo social mais amplo que a fam\u00edlia. Essas caracter\u00edsticas contribuem para uma forma\u00e7\u00e3o diferenciada da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>As creches onde realizamos nossas pesquisas, pertencentes \u00e0 rede de creches conveniadas com a prefeitura da cidade de S\u00e3o Paulo, est\u00e3o em pleno processo de amplia\u00e7\u00e3o do trabalho de forma\u00e7\u00e3o de seus profissionais. Nas tr\u00eas a leitura e o estudo doReferencial Curricular Nacional para Educa\u00e7\u00e3o Infantil (RCNEI)<sup>2<\/sup> havia sido ou estava sendo pauta das reuni\u00f5es de reciclagem<sup>3<\/sup>. Realizada em conjunto por todos os funcion\u00e1rios da creche, essa atividade revelava claramente a busca pela unifica\u00e7\u00e3o de algumas id\u00e9ias e principalmente pela concep\u00e7\u00e3o do trabalho de Educa\u00e7\u00e3o Infantil.<\/p>\n<p>Acreditamos que as informa\u00e7\u00f5es divulgadas por esses documentos e pela coordena\u00e7\u00e3o de cada creche v\u00e3o aos poucos sendo incorporadas ao discurso e cotidiano dos educadores e ao entendimento a respeito de seu trabalho:<\/p>\n<p>\u2013 (O beb\u00ea) \u00e9 capaz de muitas coisas, e cabe ao educador desenvolv\u00ea-lo. (Rosa)<\/p>\n<p>\u2013 Precisamos de planejamento e espa\u00e7os organizados para alimentar o c\u00e9rebro deles. O ber\u00e7\u00e1rio tem que ser bem cuidado, a crian\u00e7a tem que ser bem tratada no ber\u00e7\u00e1rio menor&#8230; porque eu acho que vai ficar retratado na mente da crian\u00e7a se ela n\u00e3o for bem tratada. (Maria)<\/p>\n<p><strong>\u201cBem necess\u00e1rio\u201d<\/strong><br \/>\nSe antes, muitas vezes, ouvimos falar da creche como um \u201cmal necess\u00e1rio\u201d, aqui essa institui\u00e7\u00e3o aparece como realidade, como um \u201cbem necess\u00e1rio\u201d e sempre poss\u00edvel de ser aperfei\u00e7oado. Um ambiente com o potencial de ajudar a crian\u00e7a a crescer, se desenvolver, se constituir como pessoa singular.<\/p>\n<p>\u00c9 positivo que seja reconhecido pelo educador que o beb\u00ea tem sua maneira pr\u00f3pria de ver o mundo, e que manifesta isto por meio da rela\u00e7\u00e3o com o adulto, com as outras crian\u00e7as, com os objetos. Com essa vis\u00e3o, o educador n\u00e3o apenas v\u00ea aquilo que \u00e9 concretamente observ\u00e1vel, como as conquistas ligadas ao andar ou falar, mas tece considera\u00e7\u00f5es que dizem respeito ao seu jeito de ser e se colocar no mundo, como por exemplo:<\/p>\n<p>\u2013 Essa beb\u00ea fica muito satisfeita em perceber que o outro pode vir quando ela d\u00e1 seus gritinhos.<br \/>\n\u2013 Ele tem receio de sair do ber\u00e7\u00e1rio, parece ter medo de n\u00e3o voltar.<br \/>\n\u2013 Quando est\u00e1 comendo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 comida, mas come tudo o que v\u00ea ao seu redor.<\/p>\n<p>Falas como estas podem indicar que o beb\u00ea est\u00e1 sendo olhado e cuidado para al\u00e9m das suas aptid\u00f5es f\u00edsicas, mas tamb\u00e9m em seu universo ps\u00edquico pr\u00f3prio. Para garantir esse olhar e a qualidade na rela\u00e7\u00e3o cotidiana do educador com o beb\u00ea, \u00e9 interessante que as creches, em seu trabalho cont\u00ednuo de forma\u00e7\u00e3o, garantam um espa\u00e7o de fala entre os educadores, coordenadores e diretores, um espa\u00e7o de compartilhamento e reconhecimento do pr\u00f3prio trabalho. Estabelecer um momento para que falem de seu dia-a-dia com os beb\u00eas, levantem d\u00favidas, compartilhem sentimentos, sejam escutados, \u00e9 um modo de cuidar de quem cuida.<\/p>\n<p>Desta forma, vamos aperfei\u00e7oando o caminho que vem sendo percorrido para que se encontre o melhor jeito de lidar com beb\u00eas em creche e, assim, contribuir para o entendimento da creche enquanto lugar da inf\u00e2ncia, que ajuda a garantir que os pequenos sejam tratados de forma cada vez mais cuidadosa e profissional.<\/p>\n<p>(Maria Teresa W. De Carvalho, psicanalista, mestre em Psicologia da Educa\u00e7\u00e3o e colaboradora do Instituto Avisa L\u00e1)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>A investiga\u00e7\u00e3o para disserta\u00e7\u00e3o de mestrado consistiu em observa\u00e7\u00f5es e algumas entrevistas com profissionais de ber\u00e7\u00e1rio de tr\u00eas creches pertencentes a entidades conveniadas com a Prefeitura da cidade de S\u00e3o Paulo \u2013 SP.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup>O RCNEI \u00e9 um documento que se constitui a partir das concep\u00e7\u00f5es de crian\u00e7a, inf\u00e2ncia e educa\u00e7\u00e3o e oferece diretrizes curriculares a todos que atuam na \u00e1rea de Educa\u00e7\u00e3o Infantil. Volumes dispon\u00edveis no site: www.mec.gov.br<\/p>\n<p><sup>3<\/sup>Reciclagem \u00e9 o nome que tem sido dado ao dia especial de treinamento, que ocorre uma vez por m\u00eas em cada creche e que j\u00e1 \u00e9 previsto no calend\u00e1rio anual de planejamento.<\/p>\n<div id=\"attachment_4763\" style=\"width: 425px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4763\" class=\"size-full wp-image-4763 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_32_tema4.jpg\" alt=\"avisala_32_tema4.jpg\" width=\"415\" height=\"312\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_32_tema4.jpg 415w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_32_tema4-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 415px) 100vw, 415px\" \/><p id=\"caption-attachment-4763\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Eduardo da Silva<\/p><\/div>\n<h4>Profiss\u00e3o educador<\/h4>\n<p>Cuidar e educar crian\u00e7as pequenas em institui\u00e7\u00f5es coletivas \u00e9 uma habilidade profissional que necessita ser aprendida, e essa aprendizagem depende tamb\u00e9m de condi\u00e7\u00f5es de trabalho adequadas para se expressar. O modelo de que a educadora infantil \u00e9 uma substituta materna acaba, de certa forma, justificando o poder p\u00fablico a n\u00e3o investir nessa \u00e1rea, historicamente, porque o poder p\u00fablico e o restante da sociedade investem em educa\u00e7\u00e3o, tanto mais quanto mais velho for o cidad\u00e3o. E, com a desculpa de que basta ser mulher para cuidar de crian\u00e7a pequena, de que n\u00f3s todas fomos socializadas para exercer essa fun\u00e7\u00e3o, ou seja, quando se desqualifica e desprofissionaliza o cuidado integrado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, muitas vezes quando se tem a forma\u00e7\u00e3o em magist\u00e9rio, tem-se uma imensa dificuldade de valorizar o cuidado, de se escapar do modelo de escolaridade instrucional, porque se imagina que o cuidar \u00e9 fun\u00e7\u00e3o materna, ou, o que \u00e9 muito comum, de empregada dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>No Brasil ainda persiste a concep\u00e7\u00e3o de que quem cuida do corpo de crian\u00e7a pequena \u00e9 a m\u00e3e ou a empregada dom\u00e9stica, a bab\u00e1. Comete-se este equ\u00edvoco, trazendo para o campo institucional essa fun\u00e7\u00e3o do cuidar e educar com os significados que recebem no espa\u00e7o dom\u00e9stico. Ora, aqui, a educa\u00e7\u00e3o infantil se processa em outra institui\u00e7\u00e3o, com outras caracter\u00edsticas, apesar de se estar pensando numa \u00fanica crian\u00e7a: aquela que vive em casa e que vive na creche e pr\u00e9-escola.<\/p>\n<p>Cuidar e educar crian\u00e7as pequenas em institui\u00e7\u00f5es coletivas \u00e9 uma profiss\u00e3o. Por isso, para o exerc\u00edcio dessa fun\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria forma\u00e7\u00e3o pr\u00e9via (que contemple conhecimentos sobre este duplo objetivo), forma\u00e7\u00e3o em servi\u00e7o (principalmente atrav\u00e9s de cursos e supervis\u00e3o), espa\u00e7o e instrumentos de trabalho adequados e remunera\u00e7\u00e3o condizente com a import\u00e2ncia social do trabalho. O dia em que as educadoras e professoras tiverem a consci\u00eancia clara de que a creche e a pr\u00e9-escola s\u00e3o espa\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o e cuidado da crian\u00e7a, mas, tamb\u00e9m, espa\u00e7o seu de trabalho, talvez sejam mais vigorosas em suas reivindica\u00e7\u00f5es pela melhoria da qualidade do atendimento oferecido \u00e0 crian\u00e7a. Temos direito a espa\u00e7os confort\u00e1veis, bem como a livros, brinquedos, equipamentos n\u00e3o s\u00f3 para beneficiar a crian\u00e7a, mas tamb\u00e9m como instrumento de trabalho enquanto profissional.<\/p>\n<p>Trecho do artigo \u201cEduca\u00e7\u00e3o Infantil, Educar e Cuidar e a Atua\u00e7\u00e3o Profissional\u201d, de F\u00falvia Rosemberg, publicado em Inf\u00e2ncia na Ciranda da Educa\u00e7\u00e3o. Revista n\u00ba 3 \u2013 novembro de 1997 \u2013 Publica\u00e7\u00e3o do Centro de Aperfei\u00e7oamento dos Profissionais da Educa\u00e7\u00e3o \u2013 CAPE\/SMED<\/p>\n<h4>Sete perguntas<\/h4>\n<p>Gostaria de trazer as contribui\u00e7\u00f5es de Robert Myers<sup>4<\/sup>, que levanta sete desdobramentos do significado de cuidar de crian\u00e7as, em contexto familiar ou institucional. Quais seriam as a\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, m\u00ednimas de cuidado para com uma crian\u00e7a pequena. Vou list\u00e1-las e instigar que se pense o quanto se concorda, ou n\u00e3o, que a educa\u00e7\u00e3o infantil, a creche e a pr\u00e9-escola (esta tamb\u00e9m), devem cobri-las e, se a resposta for afirmativa, o quanto se estaria respondendo a estas necessidades infantis:<\/p>\n<ol>\n<li>Fornecer-lhes seguran\u00e7a e abrigo. O que \u00e9 fornecer seguran\u00e7a e abrigo ao ser humano? Como isto ocorre nas creches e pr\u00e9-escolas?<\/li>\n<li>Fornecer-lhes alimenta\u00e7\u00e3o e vestu\u00e1rio. Qual o sentido que se pode atribuir, aqui, a fornecer? \u00c9 somente dar?<\/li>\n<li>Cuidar da sua higiene. Seria o cuidado para com a higiene de uma crian\u00e7a pequena atividade incompat\u00edvel com o exerc\u00edcio do magist\u00e9rio? Quais as dificuldades pessoais e as barreiras sociais que levam a estas respostas?<\/li>\n<li>Prevenir e curar as doen\u00e7as. Como isto pode ser feito em institui\u00e7\u00f5es educacionais? \u00c9 fun\u00e7\u00e3o do magist\u00e9rio? Por qu\u00ea?<\/li>\n<li>Demonstrar carinho e afeto. Isto significa obrigatoriamente comportamentos \u201cde m\u00e3e\u201d?<\/li>\n<li>Interagir e brincar com a crian\u00e7a. O quanto, n\u00f3s adultos, nos dispomos a brincar com as crian\u00e7as? Quais as barreiras? O que fazer para super\u00e1-las?<\/li>\n<li>Estimul\u00e1-la e socializ\u00e1-la. Em que cultura estamos socializando? Qual a id\u00e9ia de sociedade humana que passamos para as crian\u00e7as? Qual a id\u00e9ia de ser humano que passamos concretamente para a crian\u00e7a quando atribu\u00edmos a seu corpo um valor inferior ao que atribu\u00edmos \u00e0 sua cabe\u00e7a?<\/li>\n<\/ol>\n<p>(Trecho do artigo \u201cEduca\u00e7\u00e3o Infantil, Educar e Cuidar e a Atua\u00e7\u00e3o Profissional\u201d, de F\u00falvia Rosemberg, publicado em Inf\u00e2ncia na Ciranda da Educa\u00e7\u00e3o. Revista n\u00ba 3 \u2013 novembro de 1997 \u2013 Publica\u00e7\u00e3o do Centro de Aperfei\u00e7oamento dos Profissionais da Educa\u00e7\u00e3o \u2013 CAPE\/SMED)<\/p>\n<p><sup>4<\/sup>Robert Myers \u00e9 professor de Matem\u00e1tica na Universidade Estadual de Oklahoma \u2013 EUA.<\/p>\n<div id=\"attachment_4764\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4764\" class=\"size-full wp-image-4764 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_32_tema5.jpg\" alt=\"avisala_32_tema5.jpg\" width=\"400\" height=\"381\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_32_tema5.jpg 400w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_32_tema5-300x285.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><p id=\"caption-attachment-4764\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Suzana Gouveia \/ arquivo familiar<\/p><\/div>\n<h4>Crescendo seguro<\/h4>\n<p>Pediatra e psicanalista ingl\u00eas que contribuiu grandemente com pesquisas e trabalhos na \u00e1rea infantil, Donald Woods Winnicott (1896-1971) enfatizou as primeiras rela\u00e7\u00f5es do beb\u00ea como fundamentais para o estabelecimento da uma sa\u00fade mental da crian\u00e7a. E, ao falar sobre seguran\u00e7a, Winnicott afirma: \u201cPor n\u00e3o haver duas crian\u00e7as rigorosamente id\u00eanticas, requer-se de n\u00f3s que nos adaptemos de modo espec\u00edfico \u00e0s necessidades de cada uma. Isso significa que todo aquele que cuida de uma crian\u00e7a deve conhec\u00ea-la e trabalhar com base numa rela\u00e7\u00e3o viva e pessoal com o objeto de seus cuidados, e n\u00e3o aplicando mecanicamente um conhecimento te\u00f3rico&#8230; Basta estarmos sempre presentes, e sermos coerentemente iguais a n\u00f3s mesmos, para proporcionarmos uma estabilidade que n\u00e3o \u00e9 r\u00edgida, mas viva e humana, com a qual o beb\u00ea j\u00e1 pode sentir-se seguro. \u00c9 em rela\u00e7\u00e3o a isso que o beb\u00ea cresce.\u201d<\/p>\n<p>Winnicott garante que o beb\u00ea vive estados diferentes de calma e de excita\u00e7\u00e3o e que, a princ\u00edpio ele n\u00e3o tem consci\u00eancia de ser o mesmo quando usufrui de um banho e quando grita desconfort\u00e1vel, esfomeado, e tamb\u00e9m n\u00e3o tem consci\u00eancia de ser o mesmo quando est\u00e1 dormindo e quando est\u00e1 acordado. No in\u00edcio da vida, m\u00e3e e beb\u00ea est\u00e3o muito pr\u00f3ximos. \u00c0 medida que ele cresce e, se estiver em ambiente favor\u00e1vel, a separa\u00e7\u00e3o m\u00e3e-beb\u00ea vai acontecendo gradual e suavemente.<\/p>\n<h4>Para saber mais<\/h4>\n<p><strong>Livros<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>\u201cEducar e Cuidar: quest\u00f5es sobre o perfil do profissional de Educa\u00e7\u00e3o Infantil\u201d, Maria Malta Campos, in Colet\u00e2nea por uma pol\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o do profissional de educa\u00e7\u00e3o infantil, publicada pelo MEC\/COEDI em 1994. www.mec.gov.br<\/li>\n<li>A teoria do amadurecimento, Donald Woods Winnicott, Elza Oliveira Dias. Ed. Imago. Tel.: (21) 2242-0627.<\/li>\n<li>Um retrato biogr\u00e1fico, Brett Kahr. Donald Woods Winnicott. Ed. Exodus. E-mail: info@editoraexodus.com<\/li>\n<li>O brincar e a realidade. Ed. Imago. Tel.: (21) 2242-0627.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Sites<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Centro Winnicott de S\u00e3o Paulo \u2013 www.centrowinnicott.com.br\/html \/modules\/mydownloads\/ Espa\u00e7o Winnicott \u2013 www.espacowinnicott.com.br<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que educador n\u00e3o \u00e9 igual a m\u00e3e, todo mundo sabe, mas por que essa id\u00e9ia sempre retorna quando o assunto \u00e9 beb\u00ea e creche? Qual o papel daquele que se ocupa diariamente das crian\u00e7as pequenas? Ser professor de beb\u00eas \u00e9 uma especialidade diferente dos demais profissionais da educa\u00e7\u00e3o? Por Maria Teresa W. 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