{"id":4749,"date":"2008-07-06T00:43:38","date_gmt":"2008-07-06T03:43:38","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=4749"},"modified":"2023-03-27T18:58:14","modified_gmt":"2023-03-27T21:58:14","slug":"a-cara-das-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/sustanca\/a-cara-das-criancas\/","title":{"rendered":"A cara das crian\u00e7as"},"content":{"rendered":"<h5>Conhecer artistas que ousam e inovam e usar diferentes materiais de maneira inusitada favorecem o trabalho criativo com o auto-retrato<\/h5>\n<p>O tema auto-retrato surgiu em meados de outubro de 2006. Est\u00e1vamos, eu e mais tr\u00eas crian\u00e7as<sup>1<\/sup>, no ateli\u00ea: Iago, de 8 anos; Laura, de 6 e Valter, de 7. Antes de prosseguir nessa hist\u00f3ria, preciso contar um pouco sobre onde tudo isso aconteceu. A escola Ziarte-Viveka, em S\u00e3o Paulo, desenvolve pr\u00e1ticas nas oficinas de desenho, pintura e escultura, introduzindo gram\u00e1ticas visuais e hist\u00f3ria da arte (brasileira e internacional). A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 estimular a sensibilidade e a constru\u00e7\u00e3o do pensamento visual dos alunos. A institui\u00e7\u00e3o recebe de iniciantes a profissionais (professores e estudantes da disciplina e artistas), contemplando, portanto, diversos interesses te\u00f3rico-pr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>S\u00e3o comuns, no in\u00edcio, as vis\u00f5es mais est\u00e9ticas e acad\u00eamicas, pautadas em concep\u00e7\u00f5es de dom e de habilidade. O caminho escolhido<!--more--> por n\u00f3s passa primeiro por atender aos anseios dos que nos procuram, experimentando t\u00e9cnicas e materiais art\u00edsticos, realizando o sonho de copiar ou de criar uma tela ou uma escultura. Ao conviver com pessoas cujos interesses s\u00e3o diversos (pr\u00e9-vestibulandos e iniciantes em desenho), alguns desafios v\u00e3o sendo propostos, fazendo com que problematizemos e ampliemos os conceitos mais arraigados.<\/p>\n<p>Na Vivekinha, nome carinhoso dado ao espa\u00e7o dedicado ao p\u00fablico infantil, geralmente entre 4 e 10 anos, estimulamos a curiosidade dos pequenos. Nosso papel \u00e9 instigar a meninada \u00e0 pesquisa de t\u00e9cnicas e de diversos materiais, apresentando autores contempor\u00e2neos ou de outros per\u00edodos, despertando o gosto pela leitura e pelo pensamento visual, com muita brincadeira e descontra\u00e7\u00e3o. Para isso, estabelecemos uma comunica\u00e7\u00e3o com os pais e os familiares sobre todas as etapas que comp\u00f5em esse nosso trabalho, e o resultado tem sido extremamente positivo, j\u00e1 que as fam\u00edlias est\u00e3o mais participativas e bem mais familiarizadas com o sentido que damos \u00e0 arte.<\/p>\n<p><strong>A imagem de cada um <\/strong><br \/>\nFoi nesse contexto que encontramos um espelho no ateli\u00ea da Vivekinha e aproveitamos para desenhar as coisas e as pessoas refletidas nele. Fizemos retratos dos outros e de n\u00f3s mesmos. Do jeito que a gente se v\u00ea e do jeito que os outros nos v\u00eaem. Os primeiros registros foram mais comportados; depois, se soltaram, divertindo-se com os exageros. Espirais viraram cabelos de anjinho do Valter, Laura retratou-se com dent\u00f5es, Iago aumentou o tamanho do seu nariz e de suas orelhas.<\/p>\n<p>A divers\u00e3o era tanta que resolvemos zanzar por outras propostas, explorando a imagem inteira ou as partes das quais mais apreci\u00e1vamos, como os olhos, para Laura; ou os buracos do nariz, \u201cimportant\u00edssimos para a gente respirar melhor\u201d, como dizia Iago. As que n\u00e3o gost\u00e1vamos tamb\u00e9m apareceram. O machucado no bra\u00e7o do Valter foi uma delas. No intervalo desse processo, ao pesquisar sobre o assunto e autores contempor\u00e2neos, deparei-me com Leda Catunda<sup>2<\/sup>. Meu objetivo era buscar outros caminhos para a turma explorar e n\u00e3o ficar apenas na pintura e no desenho. Montei, ent\u00e3o, uma apresenta\u00e7\u00e3o com algumas de suas obras, reunindo suportes e materiais diversificados como cobertor, colch\u00e3o, recortes e costura. \u00c9 uma del\u00edcia ver as crian\u00e7as lendo trabalhos de arte. Elas v\u00e3o aonde menos se espera! O Iago entendeu de pronto o trocadilho da obra On\u00e7a Pintada n\u00ba 1, de Leda. Trata-se da pintura de uma on\u00e7a, cujo corpo \u00e9 cheio de pintas (acr\u00edlica sobre cobertor, de 1984). Laura imaginou mil bichos e esconderijos em Casca (acr\u00edlica sobre tela e tecido, de 1997), que \u00e9 outra pintura da artista pl\u00e1stica, semelhante ao casco de uma tartaruga. Os pequenos ficavam imaginando que animais estariam escondidos nela.<\/p>\n<p>Ao apreciar Duas bocas (acr\u00edlica sobre tela e veludo, de 1994), Valter ficou imaginando o que haveria por detr\u00e1s daquela obra abstrata. Para o garoto, havia um enorme monstro verde, que falava com ecos, repetindo sempre o que ele mesmo pensava. Nessa obra, h\u00e1 duas bocas e \u201cse ele tem duas bocas, fala duas vezes\u201d, argumentava. Retrato (acr\u00edlica sobre tela e veludo, de 2002), de Leda, \u201c\u00e9 uma bola feita de tecido cheia de pingos\u201d, definiam eles. E notaram que, se alguns tinham boca, olhos e nariz, outros estavam vazios, como buracos, o que gerou muita gargalhada. \u201cQue maluquice\u201d, repetiam. Isso me fez refletir: \u201cOnde ser\u00e1 que ela escondeu os cheiros, os sons, as vozes e as imagens de sua vida? O que aparece em branco pode estar cheio de tantas coisas!\u201d A fotografia foi outro recurso igualmente atrativo. Eles adoraram a id\u00e9ia. De m\u00e3o em m\u00e3o, a m\u00e1quina rodou para que todos tivessem a chance de atuar como fot\u00f3grafos e modelos. Laura quis que registrassem a afta que lhe do\u00eda. Rimos muito da id\u00e9ia dela e resolvemos experimentar alguns cliques nessas partes mais esquisitas.<\/p>\n<p>Depois de descarregarmos os arquivos digitais em um computador e de salv\u00e1-los em pastas espec\u00edficas, observamos que algumas fotos ficaram inteiramente estranhas, enquanto outras nem tanto. Resolvemos edit\u00e1-las em um programa de computador, chamado Artsoft Photo Studio, com a inten\u00e7\u00e3o de deixar a imagem totalmente estranha, para que os monstros aparecessem mesmo. Eles compartilharam comigo esse processo, cortando, nomeando e salvando as produ\u00e7\u00f5es nas devidas pastas. Essa etapa foi bem demorada, e \u00e9 bom que se diga que principalmente Laurinha estava em fase de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Os t\u00edtulos das cenas tornaram-se bem representativos: Coisas estranhas, Boca de bicho, T\u00fanel de cabelo, Orelha que n\u00e3o \u00e9 orelha e Pintura sem ser pintura.<\/p>\n<p><strong>O Sol\/c\u00e9rebro<\/strong><br \/>\nNa aula seguinte, montamos algumas imagens no programa CorelDRAW\u00ae e imprimimos em papel para poder cortar, olhar mais de perto, enfim, mexer mesmo. Perguntei o que ainda poder\u00edamos fazer com elas. Guardar num envelope ou colar em algum lugar? Foi a\u00ed que o Iago lembrou-se da obra C\u00e9rebro em stand (acr\u00edlica, de 1988), de Leda, cujo formato \u00e9 um Sol. Conversamos mais sobre o assunto.<\/p>\n<p>Zilpa \u2013 O que \u00e9 c\u00e9rebro? Para que serve e o que faz?<br \/>\nIago \u2013 \u00c9 o lugar mais importante do corpo.<br \/>\nValter (reclamando) \u2013 Os lugares mais importantes devem ser a boca e a barriga porque sem comer n\u00e3o vivemos.<br \/>\nLaura \u2013 Para mim, o lugar mais importante \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o porque eu adoro ilustra\u00e7\u00f5es de cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O debate foi longe. Destacavam-se outras partes e o c\u00e9rebro reinava incondicional em seu trono de dono de todos os comandos, sustentado pelo Iago. Lembrei-me dos vazios do c\u00e9rebro, comentados e representados em esculturas pelo artista pl\u00e1stico carioca Nelson F\u00e9lix, da d\u00e9cada de 1980. Resolvi, ent\u00e3o, em contraposi\u00e7\u00e3o a essa id\u00e9ia dos espa\u00e7os deixados pela Leda, exibir um pequeno trecho de um filme que eu havia gravado quando exibido pela TV. Nesse filme, h\u00e1 uma cabe\u00e7a humana virada bem de frente, em transpar\u00eancia, que revela a forma do vazio do c\u00e9rebro. Nelson \u00e9 autor de um desenho tridimensional sobre esse assunto. As crian\u00e7as ficaram malucas com a id\u00e9ia dele, com o mist\u00e9rio ainda n\u00e3o desvendado pela ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Iago \u2013 Sem a luz de qualquer um deles n\u00e3o existir\u00edamos!<\/p>\n<p>\u00d3bvio. Nosso trabalho precisaria ter um suporte com a forma do Sol\/c\u00e9rebro. As imagens estariam ali recortadas e ainda ter\u00edamos um espa\u00e7o reservado ao vazio do c\u00e9rebro. Preparamos o papel paran\u00e1, por ser grande e mais resistente. Sofremos um bocado para cort\u00e1-lo. Para Laura, as bordas lembravam flor e estrela, lugar \u201cdo lado de fora da gente\u201d. Ao centro, \u00e9 claro, alguns espa\u00e7os sem nada. Deu fome! Comemoramos o fim do projeto comendo muita bolacha rechead\u00edssima de chocolate, para encher um buraco nada misterioso.<\/p>\n<p>(Zilpa Magalh\u00e3es, professora de arte da escola Ziarte-Viveka<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>Durante o trabalho, algumas crian\u00e7as entraram na escola, outras sa\u00edram, o que significa dizer que elas tamb\u00e9m compartilharam do projeto. Por\u00e9m, as tr\u00eas aqui citadas participaram integralmente dos trabalhos<\/p>\n<p><sup>2<\/sup>Artista pl\u00e1stica. Ela usa em suas obras, al\u00e9m de tinta, pl\u00e1stico e tecidos como, algod\u00e3o estampado, jeans e veludo.<\/p>\n<h4>Ficha t\u00e9cnica<\/h4>\n<p>Escola Ziarte-Viveka<br \/>\nEndere\u00e7o: Rua Profa Sebastiana da Silva Minhoto, 375 \u2013 Tatuap\u00e9. S\u00e3o Paulo \u2013 SP. CEP: 03316-030 &#8211; Tel.: (11) 2225-1285. E-mail: viveka@viveka.pro.br<br \/>\nSite: www.viveka.pro.br<\/p>\n<h4>Para saber mais<\/h4>\n<p><strong>Livros<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>A paix\u00e3o de conhecer o mundo, Madalena Freire. Ed. Paz e Terra. Tel.: (11) 3337-8399<\/li>\n<li>Fazer e pensar arte, Ana Marie Holm. Ed. Mam<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Site<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Para saber mais sobre vida e obra de Leda Catunda: sergioeleda.sites.uol.com.br<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhecer artistas que ousam e inovam e usar diferentes materiais de maneira inusitada favorecem o trabalho criativo com o auto-retrato. Por Zilpa Magalh\u00e3es<\/p>\n","protected":false},"author":148,"featured_media":3806,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[396,27],"tags":[1109,28,298,666,624,950,495,665,949],"class_list":{"0":"post-4749","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-revista-avisala-35","8":"category-sustanca","9":"tag-revista-avisa-la-2008","10":"tag-arte","11":"tag-auto-retrato","12":"tag-conversas","13":"tag-criatividade","14":"tag-inovacao","15":"tag-materiais","16":"tag-pensamento","17":"tag-zilpa-magalhaes","19":"post-with-thumbnail","20":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4749","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/148"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4749"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4749\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3806"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}