{"id":4728,"date":"2008-07-05T13:24:42","date_gmt":"2008-07-05T16:24:42","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=4728"},"modified":"2023-03-27T18:58:32","modified_gmt":"2023-03-27T21:58:32","slug":"calorias-e-preconceitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisala-35\/calorias-e-preconceitos\/","title":{"rendered":"Calorias e preconceitos"},"content":{"rendered":"<p>Reza a lenda que Calorias s\u00e3o seres min\u00fasculos, praticamente invis\u00edveis, que se escondem nos arm\u00e1rios (t\u00eam prefer\u00eancia pelos femininos) e trabalham a noite toda, apertando as roupas. J\u00e1 os Preconceitos s\u00e3o seres com caracter\u00edsticas semelhantes de tamanho e invisibilidade, que formam uma fam\u00edlia grande, mas com um tra\u00e7o comum: a viol\u00eancia moral ou f\u00edsica.<\/p>\n<p>Alguns Preconceitos circulam livremente \u00e0 luz do Sol, pois n\u00e3o t\u00eam medo de serem vistos. Acham que t\u00eam raz\u00e3o e, por isso, se mostram. S\u00e3o truculentos e valent\u00f5es. Massacram quem n\u00e3o concorda com seus pontos de vista, pois n\u00e3o t\u00eam argumentos que resistam \u00e0 reflex\u00e3o ou \u00e0 comprova\u00e7\u00e3o. Reproduzem-se de forma exuberante, especialmente em algumas \u00e9pocas do ano e em diferentes lugares. Basta lembrar da prima Eugenia, que reinou absoluta na Alemanha nazista; dos primos Apartheid, da \u00c1frica do Sul; nos diversos momentos de escravid\u00e3o, que se apoiaram no ramo do racismo. Na gera\u00e7\u00e3o mais jovem, o Bullying est\u00e1 na crista da onda, mas, na verdade, ele esteve sempre por a\u00ed. Apenas modernizaram seu nome e, por isso, hoje \u00e9 mais conhecido.<!--more--><\/p>\n<p>Outros Preconceitos, mais pr\u00f3ximos das Calorias, se escondem em locais escuros e improv\u00e1veis. S\u00e3o mestres do disfarce. Parecem inocentes e t\u00eam cara de bonzinhos, o que dificulta sua identifica\u00e7\u00e3o. Lembram o Gato de Botas, do filme Shrek, que tem aquele olhar meigo, carente e, de repente, mostra as garras. \u00c9 dif\u00edcil identific\u00e1-los e desmascar\u00e1-los. Est\u00e3o em toda a parte, mas t\u00eam predile\u00e7\u00e3o por escolas e empresas. Por causa das mudan\u00e7as sociais, assumem diversas identidades, da sutil \u00e0 declarada.<!--more--><\/p>\n<p>Recentemente, um Preconceito foi detectado em uma escola que havia recebido uma crian\u00e7a com s\u00edndrome de down. Um belo dia, essa crian\u00e7a soltou um flato, coisa que ocorre com todos n\u00f3s. Nessa ocasi\u00e3o, o Preconceito estava ligad\u00e3o e n\u00e3o ia perder essa oportunidade de ouro! Fez as professoras ligarem para a m\u00e3e da crian\u00e7a. Ela saiu correndo do trabalho, passou em casa para pegar uma muda limpa de roupas e voou para a escola. Ao chegar l\u00e1, viu o filho brincando feliz: tinha sido s\u00f3 um flato, sem maiores conseq\u00fc\u00eancias. Se fosse outra crian\u00e7a, sem defici\u00eancia, o Preconceito n\u00e3o teria essa oportunidade e n\u00e3o ficaria t\u00e3o satisfeito consigo mesmo.<\/p>\n<p>Alguns aparecem em formas musicais e podem ser encontrados em marchinhas de Carnaval: Eu sou o pirata da perna de pau, do olho de vidro, da cara de mau. Ou em sambas: Nega do cabelo duro, qual \u00e9 o pente que te penteia. \/ Quem n\u00e3o gosta de samba, bom sujeito n\u00e3o \u00e9, \u00e9 ruim da cabe\u00e7a ou doente do p\u00e9. \/ Mas como a cor n\u00e3o pega, mulata. Mulata, eu quero o teu amor, entre outros. Esse \u00e9 um ramo da fam\u00edlia extremamente resistente, pois fica na cabe\u00e7a das pessoas, que saem cantarolando e reproduzindo-os, sem serem percebidos. Outra parte formada pelos Preconceitos se estabeleceu no reino da carochinha, onde o diferente, o que n\u00e3o \u00e9 como todos, mora no cora\u00e7\u00e3o da floresta, como os sete an\u00f5es, que formam uma comunidade fechada e desconhecida. Alguns s\u00e3o malvados, como o Capit\u00e3o Gancho.<\/p>\n<p>No reino da literatura cl\u00e1ssica, o disforme, o que-n\u00e3o-\u00e9-como- os-outros tamb\u00e9m vive escondido e envergonhado, como o Corcunda de Notre Dame ou o Fantasma da \u00d3pera. Ou \u00e9 um ser amargo e atormentado, como o vingativo Capit\u00e3o Ahab, que persegue Moby Dick incessantemente, considerando-a culpada por ter ficado sem a perna. Frases como \u201cFalei que n\u00e3o ia dar certo\u201d, \u201c\u00c9 melhor n\u00e3o mudar\u201d, \u201cN\u00e3o temos recursos\u201d s\u00e3o consideradas assassinas pelo poder que t\u00eam de imobilizar as pessoas e inviabilizar a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A pergunta que vem \u00e0 mente \u00e9: Como o Preconceito come\u00e7ou? Segundo alguns estudiosos, ele est\u00e1 conosco desde o in\u00edcio da humanidade e foi fundamental para nossa sobreviv\u00eancia. Imagine um grupo de hom\u00ednidas \u00e0 procura de alimento em ambiente hostil. Est\u00e3o famintos e encontram um fruto. \u00c9 preciso decidir: \u00c9 de comer? \u00c9 venenoso? Come-se com a casca? E o caro\u00e7o? Parece com outro que j\u00e1 comeu? Se sim, como se sentiu depois? Se n\u00e3o, deve-se agir rapidamente ou, ent\u00e3o, algu\u00e9m pode roubar a comida. Situa\u00e7\u00f5es semelhantes aconteciam quando o grupo se deparava com outros bandos de hom\u00ednidas ou com um animal. Assim, o ser humano desenvolveu a habilidade de criar classifica\u00e7\u00f5es e aplic\u00e1-las imediatamente. Trata-se da capacidade de formar ju\u00edzos (conceitos) e tomar decis\u00f5es rapidamente.<\/p>\n<p>Os tempos mudaram e o homem conservou essa capacidade, hoje desnecess\u00e1ria para a sobreviv\u00eancia. As pessoas continuam a ser classificadas: gordos s\u00e3o alegres e gostam de contar piada; negros gostam de samba e futebol; surdos s\u00e3o irritadi\u00e7os e loiras s\u00e3o burras. Essas classifica\u00e7\u00f5es s\u00e3o perversas. \u00c9 como colocar um espelho \u00e0 frente da pessoa rotulada e diz\u00ea-la: \u201cVoc\u00ea \u00e9 isso\u201d ou \u201cEsperamos que fa\u00e7a aquilo\u201d. Essas expectativas s\u00e3o moldes, que limitam as pessoas, seus talentos, suas habilidades. Restringem o nosso olhar e procuram fazer o mesmo com o olhar da pr\u00f3pria pessoa, que muitas vezes acredita que s\u00f3 \u00e9 aquilo que a sociedade diz, s\u00f3 v\u00ea o que o espelho mostra.<\/p>\n<p>Como acabar com a fam\u00edlia dos Preconceitos? \u00c9 mais dif\u00edcil do que acabar com a das Calorias. Estas requerem mudan\u00e7a de h\u00e1bitos alimentares e exerc\u00edcios f\u00edsicos, na maioria das vezes. Contra os Preconceitos, \u00e9 preciso jogar a luz da informa\u00e7\u00e3o sobre eles. Assim, abrem-se caminhos para que a Inclus\u00e3o chegue e ocupe seus espa\u00e7os. Se eles v\u00e3o voltar? Sem d\u00favida nenhuma, muitas e muitas vezes. S\u00e3o resistentes e teimosos esses monstrinhos. Afinal, por muitos anos ficaram no bembom. E os seres humanos, seus hospedeiros, tamb\u00e9m resistem \u00e0s mudan\u00e7as, pois mudar d\u00e1 trabalho. Mas uma coisa \u00e9 certa: a cada vez que a informa\u00e7\u00e3o os ilumina e os desmascara, eles se enfraquecem e a Inclus\u00e3o conquista mais adeptos e espa\u00e7os. At\u00e9 que um dia&#8230;<\/p>\n<p>(Marta Gil, soci\u00f3loga, consultora na \u00e1rea de defici\u00eancia e coordenadora executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas)<\/p>\n<p>Fonte: Rede Saci. 20\/3\/2008. Dispon\u00edvel em: http:\/\/saci.org.br \/index.php?modulo=akemi\u00b6metro=21321<\/p>\n<h6><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Preconceitos existem desde o in\u00edcio da humanidade e j\u00e1 foram at\u00e9 essenciais para a sobreviv\u00eancia. Mas os tempos mudaram e devem ser combatidos com muita informa\u00e7\u00e3o. Por Marta Gil<\/p>\n","protected":false},"author":147,"featured_media":3806,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[396],"tags":[1109,945,943,944,1329,637,942,42],"class_list":{"0":"post-4728","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-revista-avisala-35","8":"tag-revista-avisa-la-2008","9":"tag-classificacoes","10":"tag-estigmas","11":"tag-expectativas","12":"tag-inclusao","13":"tag-informacao","14":"tag-marta-gil","15":"tag-preconceito","17":"post-with-thumbnail","18":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4728","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/147"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4728"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4728\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3806"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4728"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4728"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4728"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}