{"id":4621,"date":"2008-01-03T13:38:14","date_gmt":"2008-01-03T15:38:14","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=4621"},"modified":"2023-03-27T18:52:06","modified_gmt":"2023-03-27T21:52:06","slug":"so-ve-quem-sabe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisala-33\/so-ve-quem-sabe\/","title":{"rendered":"S\u00f3 v\u00ea quem sabe"},"content":{"rendered":"<h5>\u00c9 comum uma fam\u00edlia receber queixas da escola sobre o aluno que mora em \u00e1rea rural. Muitas professoras possuem preconceitos em rela\u00e7\u00e3o a essas crian\u00e7as e, ignorando seus saberes, n\u00e3o conseguem faz\u00ea-los avan\u00e7ar naquilo que desconhecem. Mas isto pode ser muito diferente, como mostra este artigo<\/h5>\n<div id=\"attachment_4622\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4622\" class=\"size-full wp-image-4622 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_33_aprendendo1.jpg\" alt=\"avisala_33_aprendendo1.jpg\" width=\"224\" height=\"269\" \/><p id=\"caption-attachment-4622\" class=\"wp-caption-text\">Matheus e sua av\u00f3<\/p><\/div>\n<p>Matheus, para a fam\u00edlia, nasceu no dia 6 de setembro de 1997 em Campinas, S\u00e3o Paulo. Desde ent\u00e3o mora em Santa Maria da Serra das Cabras, Joaquim Eg\u00eddio \u2013 um subdistrito de Campinas, com o irm\u00e3o Ronei, a m\u00e3e Alessandra, os av\u00f3s Ana e Benedito (o Dit\u00e3o) e o tio Tid\u00e3o. A primeira imagem sua que me assoma s\u00e3o cachos dourados e grandes olhos verdes iluminando o sorriso, que me levaram a pintar um S\u00e3o Jo\u00e3o, a partir de uma hist\u00f3ria de seu av\u00f4 Dit\u00e3o. A hist\u00f3ria a seguir Matheus fez em meu computador.<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<blockquote><p><strong>Meu av\u00f4 e o saci <\/strong><br \/>\nO meu av\u00f4 viu um saci em cima do fog\u00e3o fumando cachimbo e da\u00ed ele levantou para olhar e o saci foi embora. O V\u00f4 estava tirando leite, a vaca come\u00e7ou a pular, da\u00ed o V\u00f4 pegou um banquinho e deu bem nas costas da vaca. Da\u00ed a vaca come\u00e7ou a pular e da\u00ed depois deu com os dois p\u00e9s no telhado e saiu at\u00e9 telha. E deu um coice e voou at\u00e9 bosta no leite. O V\u00f4 p\u00f4s o bezerro preso perto do cocho, estava quase enforcado, o bezerrinho at\u00e9 peidou. A\u00ed a vaca parou de pular, da\u00ed o V\u00f4 foi l\u00e1 e tirou leite dela. Era a primeira cria, e da\u00ed s\u00f3 d\u00e1 um litro de leite. O bezerro est\u00e1 l\u00e1 atr\u00e1s, a vaca na frente, n\u00f3s temos que empurrar o bezerro para a vaca vir atr\u00e1s. O Ronei jogou o la\u00e7o feito com a peia<sup>1<\/sup> para peiar a vaca, prender o bezerro no cocho, numa argola. Da\u00ed prendemos o bezerro e soltamos a vaca.<\/p>\n<div id=\"attachment_4623\" style=\"width: 279px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4623\" class=\"size-full wp-image-4623 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/aprendnedo1.jpg\" alt=\"aprendnedo1.jpg\" width=\"269\" height=\"286\" \/><p id=\"caption-attachment-4623\" class=\"wp-caption-text\">Matheus \u00e9 um contador de hist\u00f3rias e as ilustra com gosto<\/p><\/div>\n<p>Esta regi\u00e3o em que moramos \u00e9 pedregosa, \u00e1rida, com mandacarus e cascav\u00e9is. O Matheus conhece tudo como a palma de sua m\u00e3o e corre descal\u00e7o por vales e montes sem perder rumo, nem f\u00f4lego. Sento com ele em uma pedra no alto do pasto, ele come\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2013 T\u00e1 vendo aquela vaca l\u00e1, pintada?<br \/>\n\u2013 T\u00e1 procurando o bezerrinho dela. T\u00e1 vendo atr\u00e1s daquela pedrinha?<br \/>\n\u2013 Ele t\u00e1 l\u00e1, mas ela n\u00e3o t\u00e1 vendo.<br \/>\n\u2013 T\u00e1 vendo aquele passarinho l\u00e1?<br \/>\n\u2013 T\u00e1 fazendo ninho perto das vacas pra ter o que comer, carrapatos.<br \/>\n\u2013 T\u00e1 vendo aquela \u00e1gua branca l\u00e1? L\u00e1 no meio daquelas \u00e1rvores&#8230; parece um homem de bra\u00e7o aberto olhando pra n\u00f3s.<br \/>\n\u2014 T\u00e1 vendo aquela eguinha branca l\u00e1? Bem atr\u00e1s do capim.<br \/>\n\u2014 T\u00e1 vendo &#8230;<\/p><\/blockquote>\n<p>O Matheus de 9 anos enxerga tudo. Ele olha, sente e sabe, v\u00ea o que n\u00e3o suspeitamos. Semana passada ele esteve aqui, foi visitar os pintinhos novos, as galinhas, os galos, o galinheiro e viu uma cascavel. \u00c0s vezes ele vem aqui em casa com queixa do professor de que ele n\u00e3o faz li\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o presta aten\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o se interessa pelas aulas. Como muitas crian\u00e7as, durante o segundo ano, Matheus estava sil\u00e1bico (desenho ao lado), mas enquanto a professora pedia que ele copiasse infinitamente o alfabeto, ele foi se infligindo li\u00e7\u00f5es e alfabetizou-se sem problema. A essa altura j\u00e1 era bom leitor dos livrinhos que sua m\u00e3e lhe dava.<\/p>\n<p>Como vimos no caso da cascavel no galinheiro, Matheus hoje escreve bem. Na escola, copia direitinho a hist\u00f3ria de Macuna\u00edma<sup>2<\/sup>:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4625\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_33_aprendendo5.jpg\" alt=\"avisala_33_aprendendo5\" width=\"641\" height=\"578\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_33_aprendendo5.jpg 641w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_33_aprendendo5-300x270.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 641px) 100vw, 641px\" \/><\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que este texto culto e de boa qualidade diz o que diria Matheus a partir de seu olhar sens\u00edvel? Aprendi com ele a tomar consci\u00eancia da enorme dist\u00e2ncia entre o que propomos na escola e o que a crian\u00e7a sente. Matheus me leva a pensar, o que \u00e9 autoria? \u00c9 a possibilidade de ser respons\u00e1vel por a\u00e7\u00f5es transformadoras. \u00c9 um reconhecimento de nosso pr\u00f3prio potencial de percep\u00e7\u00e3o e de compreens\u00e3o do mundo, a partir do qual podemos agir de forma conseq\u00fcente. Ent\u00e3o, autoria pode ser entendida como tomada de consci\u00eancia e responsabilidade pela atribui\u00e7\u00e3o de sentido que a pessoa realiza ao tentar compreender determinado fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>A esta atribui\u00e7\u00e3o de sentido \u2013 que \u00e9 sempre transformadora \u2013 chamamos aprendizagem. E aprendizagem, por sua vez, depende fundamentalmente do nosso modo de olhar o mundo. Nada \u00e9 mais autorit\u00e1rio do que impor a uma situa\u00e7\u00e3o ou pessoa o meu pr\u00f3prio ponto de vista, ao passo que se deixar levar pelo olhar \u00e9 um ato de bondade, de liberta\u00e7\u00e3o, e de liberdade. O fil\u00f3sofo alem\u00e3o Walter Benjamin uma vez escreveu: \u201cSer feliz \u00e9 olhar para si mesmo sem susto\u201d.<\/p>\n<p>Talvez um modo de buscar a felicidade seja encontrar para si mesmo um lugar para o olhar \u2013 para celebrar a vis\u00e3o \u2013, o que corresponde \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o para sentir as coisas do mundo. Quanto ao sentimento de felicidade, podemos conceb\u00ea-lo como uma conjuga\u00e7\u00e3o de tempo e de espa\u00e7o, onde se est\u00e1 como que levitando em um instante que \u00e9, ao mesmo tempo, fugaz e eterno. Tudo se passa, ent\u00e3o, como uma festa dos sentidos, em que tudo dan\u00e7a, em que as coisas todas, ao mesmo tempo, t\u00eam mobilidade e se encaixam, e o indiv\u00edduo que olha para elas sente, est\u00e1. Isto \u00e9 liberdade.<\/p>\n<p>Aprendendo com Matheus: seria demasiado otimismo relacionar o olhar, a aprendizagem e a possibilidade de sentir felicidade?<\/p>\n<p>(Monique Deheinzelin, educadora, publicou Construtivismo, a po\u00e9tica das transforma\u00e7\u00f5es &#8211; \u00c1tica, 1996 -, entre outros livros)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>Pequeno peda\u00e7o de corda usado para peiar (amarrar) o boi ou bezerro no ch\u00e3o.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup>Macuna\u00edma, M\u00e1rio de Andrade. \u00c9 considerado um dos grandes romances modernistas do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4624\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/aprendendo2.jpg\" alt=\"aprendendo2\" width=\"400\" height=\"504\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/aprendendo2.jpg 400w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/aprendendo2-238x300.jpg 238w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<h4>Para saber mais<\/h4>\n<p>Construtivismo \u2013 a po\u00e9tica das transforma\u00e7\u00f5es, Monique Deheinzelin. Ed. \u00c1tica. Tel.: 0800 115 152<\/p>\n<div id=\"attachment_4626\" style=\"width: 362px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4626\" class=\"size-full wp-image-4626 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_33_aprendendo4.jpg\" alt=\"avisala_33_aprendendo4.jpg\" width=\"352\" height=\"502\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_33_aprendendo4.jpg 352w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/avisala_33_aprendendo4-210x300.jpg 210w\" sizes=\"auto, (max-width: 352px) 100vw, 352px\" \/><p id=\"caption-attachment-4626\" class=\"wp-caption-text\">Li\u00e7\u00f5es que Matheus fez sozinho. Acima, desenho do gato. No meio, Bar do Vicente, em que Priscila est\u00e1 no fog\u00e3o e Deus \u00e9 Pai de todos. Abaixo, autolinhas cridas por Matheus em seu trabalho de alfabetiza\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 comum uma fam\u00edlia receber queixas da escola sobre o aluno que mora em \u00e1rea rural. Muitas professoras possuem preconceitos em rela\u00e7\u00e3o a essas crian\u00e7as e, ignorando seus saberes, n\u00e3o conseguem faz\u00ea-los avan\u00e7ar naquilo que desconhecem. Mas isto pode ser muito diferente, como mostra este artigo. Por Monique Deheinzelin<\/p>\n","protected":false},"author":64,"featured_media":3702,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[756,394],"tags":[1109,228,920,919,295,461,42],"class_list":{"0":"post-4621","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-aprendendo-com-a-crianca","8":"category-revista-avisala-33","9":"tag-revista-avisa-la-2008","10":"tag-aprendizado","11":"tag-area-rural","12":"tag-felicidade","13":"tag-liberdade","14":"tag-monique-deheinzelin","15":"tag-preconceito","17":"post-with-thumbnail","18":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4621","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/64"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4621"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4621\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3702"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4621"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4621"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4621"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}