{"id":4320,"date":"2010-05-23T14:13:30","date_gmt":"2010-05-23T17:13:30","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=4320"},"modified":"2023-03-27T19:48:29","modified_gmt":"2023-03-27T22:48:29","slug":"mordidas-na-primeira-infancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/jeitos-de-cuidar\/mordidas-na-primeira-infancia\/","title":{"rendered":"Mordidas na primeira inf\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<h5>Muito comuns no cotidiano escolar, as atitudes agressivas devem ser acompanhadas de perto pelos educadores para que aqueles que agridem encontrem outras maneiras de manifestar suas vontades e os agredidos se envolvam na situa\u00e7\u00e3o e se defendam<\/h5>\n<div id=\"attachment_4322\" style=\"width: 198px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_42_jeitos4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4322\" class=\"size-full wp-image-4322\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_42_jeitos4.jpg\" alt=\"avisala_42_jeitos4.jpg\" width=\"188\" height=\"226\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4322\" class=\"wp-caption-text\">Fotos: acervo da Escola Viva<\/p><\/div>\n<p>O tema mordida, na primeira inf\u00e2ncia (at\u00e9 3 anos), desperta nos cuidadores in\u00fameros sentimentos por envolver uma s\u00e9rie de desafios e de conquistas. A crian\u00e7a, nesse momento, \u00e9 apresentada ao mundo e, na institui\u00e7\u00e3o escolar, vai viver coletivamente pela primeira vez. Cabe ao educador introduzi-la na vida em grupo e gui\u00e1-la na forma de se relacionar e se comunicar com seus pares. A tarefa est\u00e1 repleta de obst\u00e1culos. Os pequenos trazem caracter\u00edsticas que amadurecem a partir da interfer\u00eancia com o meio social e que permitir\u00e3o ampliar o potencial para se relacionar com outros da mesma faixa et\u00e1ria et\u00e1ria, estimulados por estarem em uma escola de Educa\u00e7\u00e3o Infantil. Oferecer um espa\u00e7o favor\u00e1vel ao desenvolvimento deles \u00e9 responsabilidade do educador e, para isso, se faz ne cess\u00e1rio o conhecimento das caracter\u00edsticas dessa faixa et\u00e1ria, assim como um repert\u00f3rio variado de atividades, como mostra o relato a seguir da professora Zita de Barros Garcia:<\/p>\n<p>As mordidas est\u00e3o presentes cotidianamente no nosso trabalho com crian\u00e7as de 1 a 3 anos. Pode parecer estranho, mas, de algum modo, temos de nos conformar com essa premissa, bem como nos acostumar com ela, por mais dif\u00edcil que seja a tarefa. Por\u00e9m, isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o h\u00e1 o que fazer em rela\u00e7\u00e3o ao tema. Pelo contr\u00e1rio, ao perguntarmos a qualquer professor sobre as dificuldades que ele tem de enfrentar no seu dia a dia, que o deixam nervoso, cansado e desanimado, ele responder\u00e1 que uma parte delas diz respeito \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es de agressividade, como os empurr\u00f5es, apert\u00f5es, chutes e, \u00e9 claro, as mordidas. Essas s\u00e3o as mais dif\u00edceis de lidar, porque, al\u00e9m do desgaste que provocam em todos no momento em que ocorrem, ainda s\u00e3o perpetuadas, pois ficam marcas \u2013 e bem evidentes.<\/p>\n<p>Quando vemos uma crian\u00e7a ser mordida, temos de lidar com uma s\u00e9rie de sentimentos que a cena nos suscita. Ficamos, primeiramente, muito chateados com a situa\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m somos tomados por uma sensa\u00e7\u00e3o de arrependimento, como se pud\u00e9ssemos ter feito algo para impedir que o incidente ocorresse. Podemos ficar com raiva, bravos, inconformados, com receio de dar a not\u00edcia aos pais etc. Esses sentimentos se intensificam quando, por exemplo, alguma crian\u00e7a que j\u00e1 foi mordida outras vezes recebe uma nova agress\u00e3o. Como lidamos com a situa\u00e7\u00e3o e com as nossas emo\u00e7\u00f5es? O que nos conforta \u00e9 que essas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o v\u00eam sozinhas. S\u00e3o acompanhadas por um saber que nos tranquiliza. Assim, acabamos sabendo lidar com elas. O conhecimento vem n\u00e3o s\u00f3 de embasamento te\u00f3rico, mas, tamb\u00e9m e, principalmente, de nossa pr\u00e1tica, de uma viv\u00eancia cotidiana com os pequenos. Isso nos d\u00e1 confian\u00e7a para cuidarmos das diferentes situa\u00e7\u00f5es, para assumirmos nossas a\u00e7\u00f5es e para ajudarmos as crian\u00e7as e os pais a lidar com as mordidas.<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o de que esse tipo de agress\u00e3o faz parte do <!--more-->desenvolvimento infantil est\u00e1 presente em todos n\u00f3s e tem import\u00e2ncia fundamental na nossa sobreviv\u00eancia, pois nos coloca em uma posi\u00e7\u00e3o de saber e, consequentemente, de agir. Primeiro, \u00e9 importante ressaltar que n\u00e3o h\u00e1 regras. Cada caso \u00e9 um caso. Pensamos na situa\u00e7\u00e3o que desencadeou a mordida e avaliamos o que pode ser feito para que a situa\u00e7\u00e3o possa ser evitada. Pensamos na crian\u00e7a que mordeu e na que foi mordida: quem s\u00e3o elas? Cuidamos dos dois lados, pois ambas necessitam de ajuda. Auxiliamos a agressora a encontrar outras maneiras de manifestar suas vontades. Ajudamos a agredida a encontrar outras maneiras de se posicionar e se defender, envolvendo-a tamb\u00e9m na situa\u00e7\u00e3o. Geralmente, relatamos aos pais da v\u00edtima a cena em que tudo ocorreu, mas, n\u00e3o necessariamente, divulgamos o nome do mordedor, uma vez que essa informa\u00e7\u00e3o, na maioria dos casos, \u00e9 a que tem menos relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, temos a preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o expor ningu\u00e9m \u00e0 toa. Trata-se de uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es que temos de tomar para cuidar dessa situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o dolorida para muitos e, ao mesmo tempo, t\u00e3o comum no cotidiano escolar. Por mais que enfrentemos essa situa\u00e7\u00e3o muitas vezes, cada mordida ir\u00e1 repercutir diferentemente em todos n\u00f3s e, por isso, n\u00e3o h\u00e1 caminho certeiro a seguir. Deve haver bom senso, sensibilidade, compreens\u00e3o e cuidado para darmos conta da situa\u00e7\u00e3o. Essa reflex\u00e3o pode ser compreendida de maneira exemplar com o caso de uma menina, que chamarei aqui de Ana. Ela era uma das mais novas do grupo, um encanto, e conquistava quem a visse. Certo dia, levou uma dentada.<\/p>\n<div id=\"attachment_4323\" style=\"width: 216px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/jeitos32.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4323\" class=\"size-full wp-image-4323\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/jeitos32.jpg\" alt=\"jeitos32.jpg\" width=\"206\" height=\"273\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4323\" class=\"wp-caption-text\">As crian\u00e7as amadurecem com as situa\u00e7\u00f5es de conflito<\/p><\/div>\n<p>Depois de uma semana levou mais uma e, tr\u00eas dias depois, outra. No fim do m\u00eas, o pai quis falar comigo na porta da sala. Muito bravo e, com todo o direito, veio tirar satisfa\u00e7\u00e3o. Queria saber o que estava acontecendo para que sua filha voltasse marcada para casa tantas vezes. Entendia seu nervosismo e sua intoler\u00e2ncia diante daquela situa\u00e7\u00e3o, mas, ao mesmo tempo, tinha um conhecimento que ele n\u00e3o possu\u00eda. Eu sabia o que acontecia com aquela crian\u00e7a no cotidiano escolar. Ana era muito esperta, viva e se atirava nas situa\u00e7\u00f5es sem nenhum receio. Caracter\u00edsticas muito importantes e, a meu ver, at\u00e9 certo ponto, saud\u00e1veis para uma crian\u00e7a em desenvolvimento. Por\u00e9m, seu jeito trazia alguns efeitos colaterais, os quais sabia que era de minha responsabilidade cuidar. Ela subia no brinqued\u00e3o, por exemplo, sem medo nenhum e, muitas vezes, queria escorregar de modo perigoso sem se ater ao risco que corria. Nessas situa\u00e7\u00f5es, eu estava sempre ao seu lado para, primeiro, garantir que ela n\u00e3o se machucasse e, segundo, para mostrar a ela que teria de ter cuidado e, assim, ajud\u00e1-la a enxergar que nossas a\u00e7\u00f5es trazem consequ\u00eancias. Dessa maneira, eu estaria ajudando-a tamb\u00e9m a reconhecer aquelas atitudes que s\u00e3o perigosas e as que n\u00e3o s\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o do brinqued\u00e3o era clara. Sabia exatamente o que e como fazer para que nenhum incidente ocorresse. Entretanto, nem todas as outras crian\u00e7as apresentavam a mesma clareza. Ela gostava muito de brincar com os colegas e os procurava com frequ\u00eancia. Estava aprendendo a se relacionar com eles. Muitas vezes, gostava de provoc\u00e1-los para ver suas rea\u00e7\u00f5es. Mas ela come\u00e7ou a procurar sempre um menino da sala ao lado e ele correspondeu \u00e0 sua aproxima\u00e7\u00e3o. Os dois passaram a estar sempre juntos, procuravam-se o tempo todo e n\u00e3o queriam se desgrudar. Ele come\u00e7ou, ent\u00e3o, a morder a amiga e, em vez de ela querer permanecer longe do mordedor ou at\u00e9 mesmo ficar com medo dele \u2013 o que muitas vezes acontece \u2013, procurava-o ainda mais. Com as outras crian\u00e7as, muitas vezes, comportava-se do mesmo modo. Portanto, podemos pensar que ela n\u00e3o era apenas uma v\u00edtima das situa\u00e7\u00f5es porque tinha uma certa responsabilidade (ou irresponsabilidade) diante do que acontecia.<\/p>\n<p>A partir dessa reflex\u00e3o, o meu trabalho era, al\u00e9m de cuidar das situa\u00e7\u00f5es para que elas n\u00e3o mais ocorressem, fazer com que essa garotinha se desse conta das consequ\u00eancias de suas a\u00e7\u00f5es e, dessa maneira, pudesse encontrar outra maneira de se posicionar em rela\u00e7\u00e3o ao outro e ao mundo. Um modo que fosse menos nocivo para ela. Diante do contexto, havia coisas que eu tinha a obriga\u00e7\u00e3o de evitar; outras, ela teria de aprender. Depois de uma hora de conversa na porta da sala com o pai, ele me fez a exig\u00eancia de que sua filha n\u00e3o recebesse mais nenhuma mordida ou arranh\u00e3o. Expliquei que n\u00e3o mediria esfor\u00e7os para que seus pedidos fossem atendidos, mas que eu n\u00e3o poderia dar cem por cento de certeza em rela\u00e7\u00e3o a esse assunto, a n\u00e3o ser que eu a privasse de qualquer contato com outra crian\u00e7a, fato que, a\u00ed sim, seria prejudicial \u00e0 menina. Ofereci a op\u00e7\u00e3o de uma reuni\u00e3o comigo ou com a coordena\u00e7\u00e3o para discutir melhor o assunto, se ele sentisse necessidade. O pai continuou irredut\u00edvel e me respondeu dizendo que n\u00e3o aceitaria mais nenhuma ocorr\u00eancia do tipo e que n\u00e3o havia mais o que discutir, encerrando a conversa. Fiquei tensa e nervosa, mas sabia que estava cuidando da melhor maneira da situa\u00e7\u00e3o e esperava, de algum jeito, ter conseguido transmitir isso para o respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Algumas semanas se passaram e, no dia da reuni\u00e3o de pais, Ana foi arranhada. Ent\u00e3o pensei: \u201cEstou perdida! Justo hoje! Esse pai vai me fuzilar!\u201d. Mas foi exatamente ao contr\u00e1rio. Ao fim do encontro, ele me agradeceu e disse que agora se dava conta do meu amor pelo meu trabalho e da seriedade com que eu o realizava. Ele, ent\u00e3o, se tranquilizou e, aos poucos, Ana foi percebendo outras maneiras de se envolver com os amigos e de se proteger deles sem perder a espontaneidade e a coragem. Acredito que, por meio de muita conversa e reflex\u00e3o, tanto eu, professora, quanto o pai pudemos suportar (e entender) as mordidas que Ana recebeu e ajud\u00e1-la, assim, a reconhecer a agressividade do outro e dela, assim como a lidar com esse sentimento.<\/p>\n<p><strong>O que diz Winnicott<\/strong><br \/>\nDiferentes te\u00f3ricos e pesquisadores sobre desenvolvimento abordam a quest\u00e3o da agressividade infantil. Entre eles, destaco o pediatra e psicanalista ingl\u00eas Donald Woods Winnicott (1896-1971)<sup>1<\/sup>, por sua abordagem centrada nas rela\u00e7\u00f5es sociais e culturais. Segundo ele, cada ser humano traz potencial inato para amadurecer e se integrar. Por\u00e9m, o fato de essa tend\u00eancia ser inata n\u00e3o garante que ela realmente ocorra. Isso depender\u00e1 de um ambiente facilitador que forne\u00e7a cuidados suficientemente bons, e, no in\u00edcio, ele \u00e9 representado pela m\u00e3e ou pelo cuidador. \u00c9 importante ressaltar, por um lado, que esses cuidados dependem da necessidade de cada ser humano, que responder\u00e1 ao ambiente de maneira pr\u00f3pria, apresentando, a cada momento, condi\u00e7\u00f5es, potencialidades e dificuldades diversas. \u201cAmor e \u00f3dio constituem os dois principais elementos a partir dos quais se constroem as rela\u00e7\u00f5es humanas. Mas amor e \u00f3dio envolvem agressividade. Por outro, a agress\u00e3o pode ser um sintoma de medo\u201d, dizia Winnicott. \u201cDe todas as tend\u00eancias humanas, a agressividade, em especial, \u00e9 escondida, disfar\u00e7ada, desviada, atribu\u00edda a agentes externos, e quando se manifesta \u00e9 sempre uma tarefa dif\u00edcil identificar suas origens.\u201d<sup>2<\/sup> A partir da agressividade, \u00e9 poss\u00edvel:<\/p>\n<ul>\n<li>alimentar-se e reproduzir-se;<\/li>\n<li>buscar conhecimento;<\/li>\n<li>desenvolver-se.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Nos aspectos citados anteriormente, a agressividade \u00e9 o que impulsiona o ser humano a crescer!<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_42_jeitos1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4324\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_42_jeitos1.jpg\" alt=\"avisala_42_jeitos1\" width=\"197\" height=\"227\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>De onde vem essa necessidade?<\/strong><br \/>\nA raiz da manifesta\u00e7\u00e3o da agressividade \u00e9 sempre origin\u00e1ria de energias mal direcionadas? Segundo os estudos de Winnicott, \u201c(&#8230;) O que logo ser\u00e1 comportamento agressivo n\u00e3o passa, no in\u00edcio, de um simples impulso que leva a um movimento e aos primeiros passos de uma explora\u00e7\u00e3o. A agress\u00e3o est\u00e1 sempre ligada, dessa maneira, ao estabelecimento de uma distin\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 e o que n\u00e3o \u00e9 o eu\u201d<sup>3<\/sup>:<\/p>\n<ul>\n<li>a mordida \u00e9 um comportamento esperado em crian\u00e7as na faixa dos 2 anos;<\/li>\n<li>sem d\u00favida, \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o agressiva;<\/li>\n<li>agress\u00e3o que machuca e intimida, por\u00e9m, pode ser entendida tamb\u00e9m como uma a\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o, reconhecimento e experimenta\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Ao derrubar uma torre de blocos, rasgar pap\u00e9is ou espirrar \u00e1gua durante o banho, os pequenos t\u00eam a oportunidade de expressar a pr\u00f3pria for\u00e7a e seu impulso agressivo. Nessas ocasi\u00f5es, eles podem vivenciar internamente fantasias de destrui\u00e7\u00e3o, por\u00e9m essas manifesta\u00e7\u00f5es, por serem aceitas socialmente, n\u00e3o trazem consequ\u00eancias e permitem que eles exprimam de maneira organizada conte\u00fados de suas fantasias agressivas. Ao oferecermos \u00e0s crian\u00e7as situa\u00e7\u00f5es em que a agressividade pode ser manifestada em condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis, permitimos que n\u00e3o se desorganizem emocionalmente, pois mantemos a integridade delas e do ambiente. A viv\u00eancia de uma frustra\u00e7\u00e3o ou raiva pode desencadear rea\u00e7\u00f5es control\u00e1veis ou descontrol\u00e1veis, dependendo do n\u00edvel interno de tens\u00f5es existentes na fantasia inconsciente.<\/p>\n<p>O adulto tem o papel primordial de impedir que a agressividade fuja ao controle, garantindo, entretanto, que ela possa ser expressa sem causar danos \u00e0 pr\u00f3pria crian\u00e7a e ao seu ambiente. Ao aceitarmos esse comportamento e lhe dar sentido, devolvendo para a crian\u00e7a a possibilidade de repara\u00e7\u00e3o e restitui\u00e7\u00e3o do controle, contribu\u00edmos para a constitui\u00e7\u00e3o de um ser produtivo e consciente.<\/p>\n<p><strong>Papel da institui\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nO repert\u00f3rio dos educadores se enriquecer\u00e1 \u00e0 medida que, ao cuidar das crian\u00e7as, investir na qualidade da intera\u00e7\u00e3o, que se ap\u00f3ia na possibilidade de oferecer um ambiente organizado, aten\u00e7\u00e3o individualizada e riqueza nas propostas. O investimento afetivo que destinamos nas diferentes atividades ir\u00e1 confirmar para a crian\u00e7a o lugar que ela ocupa na institui\u00e7\u00e3o, sua import\u00e2ncia e o direito de ser atendida em suas necessidades. Demonstramos afeto ao oferecermos um material adequado e ao fazermos o planejamento com anteced\u00eancia. A aprendizagem \u00e9 movida pelo afeto, pela identifica\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com seu educador. A constru\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas sociais \u00e9 feita diariamente, em uma constru\u00e7\u00e3o demorada e repetitiva, que a levar\u00e1 a dar sentido aos significados de sua cultura.<\/p>\n<p>Frequentemente, uma produ\u00e7\u00e3o mais lenta ou sem envolvimento por parte das crian\u00e7as \u00e9 interpretada como uma dificuldade de ordem cognitiva. Por\u00e9m, elas precisam estar organizadas emocionalmente para produzir. Conhecer cada uma, sua hist\u00f3ria e o momento que est\u00e1 vivendo s\u00e3o ferramentas \u00fateis ao educador para interagir com o grupo e estimul\u00e1-lo, conhecendo os limites e as potencialidades individuais. O beb\u00ea utiliza seu pr\u00f3prio corpo para aprender. Para que isso aconte\u00e7a, \u00e9 necess\u00e1rio que ele esteja em harmonia consigo e com o ambiente, o que proporciona que sua aten\u00e7\u00e3o se volte para a explora\u00e7\u00e3o de seus movimentos, reconhecendo suas des trezas e exercitando a coordena\u00e7\u00e3o motora. As brincadeiras e intera\u00e7\u00f5es com os adultos favorecem o desenvolvimento de express\u00f5es e c\u00f3digos de comunica\u00e7\u00e3o. Por meio de atividades de relaxamento, do brincar e da alimenta\u00e7\u00e3o, a crian\u00e7a adquire os s\u00edmbolos e os significados da estrutura de comunica\u00e7\u00e3o de seu meio.<\/p>\n<div id=\"attachment_4325\" style=\"width: 252px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/jeitos22.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4325\" class=\"size-full wp-image-4325\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/jeitos22.jpg\" alt=\"jeitos22.jpg\" width=\"242\" height=\"353\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/jeitos22.jpg 242w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/jeitos22-205x300.jpg 205w\" sizes=\"auto, (max-width: 242px) 100vw, 242px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4325\" class=\"wp-caption-text\">As atividades bem planejadas incentivam a<br \/>explora\u00e7\u00e3o de movimentos em diferentes ambientes<\/p><\/div>\n<p>Uma institui\u00e7\u00e3o com rotina e estrutura que atenda \u00e0 inf\u00e2ncia favorece a autonomia e permite o movimento de reconhecimento desse ambiente. Isso ocorre pela possibilidade de familiariza\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o. As crian\u00e7as se sentem seguras para investir nas rela\u00e7\u00f5es com os adultos e os colegas. O adulto pode estar presente. Por\u00e9m nem sempre sua atua\u00e7\u00e3o ir\u00e1 se dar diretamente. A crian\u00e7a precisa do apoio de seu cuidador e tamb\u00e9m descobrir suas possibilidades em um movimento mais solit\u00e1rio (de vez em quando). Para que isso ocorra com seguran\u00e7a, os espa\u00e7os carecem dos cuidados de um educador que valorize a sua organiza\u00e7\u00e3o e estrutura. A aus\u00eancia dele pode gerar sentimento de desamparo nos pequenos. As situa\u00e7\u00f5es novas precisam ser introduzidas pelo cuidador de refer\u00eancia, caso contr\u00e1rio podem ocasionar comportamentos gerados pela tens\u00e3o e impulsividade. \u00c9 poss\u00edvel que essas atitudes desorganizadas sejam frequentes caso n\u00e3o esteja assegurado o bem-estar. A crian\u00e7a ainda se comunica com dificuldade, em geral n\u00e3o \u00e9 entendida pelo adulto e \u00e9 frequente que se sinta frustrada. Uma rotina bem estruturada e atividades sequenciadas em que a crian\u00e7a possa antecipar o que est\u00e1 por vir s\u00e3o fatores que favorecem o dom\u00ednio sobre o ambiente, amenizando o sentimento de frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(Denise Argolo Estill, psic\u00f3loga e psicopedagoga. Atua em consult\u00f3rio particular, com atendimento psicol\u00f3gico e orienta\u00e7\u00e3o familiar, e \u00e9 tesoureira do Instituto Avisa L\u00e1, em S\u00e3o Paulo-SP). Tamb\u00e9m \u00e9 membro efetivo do Entre La\u00e7os \u2013 N\u00facleo de Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Primeira Inf\u00e2ncia! e Zita de Barros Garcia, \u00e9 professora de Educa\u00e7\u00e3o Infantil da Escola Viva, em S\u00e3o Paulo-SP).<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>Donald Woods Winnicott (1896-1971) trabalhou no Paddington Green Children\u00b4s Hospital, em Londres (Inglaterra), e foi presidente da Sociedade Brit\u00e2nica de Psican\u00e1lise. Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou como consultor psiqui\u00e1trico no tratamento de crian\u00e7as mentalmente transtornadas e de suas m\u00e3es, o que lhe permitiu elaborar a maioria de suas originais teorias.<br \/>\n<sup>2<\/sup>Priva\u00e7\u00e3o e delinqu\u00eancia, de Donald Woods Winnicott, cap.10 \u2013 Ra\u00edzes da agress\u00e3o.<br \/>\n<sup>3<\/sup>Idem<\/p>\n<h4>Mordidas, arranh\u00f5es, e m purr\u00f5es e tapas<\/h4>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos enfrentamentos que ocorrem com as crian\u00e7as, confort\u00e1-las, cuidar das les\u00f5es e dos sentimentos, dar a not\u00edcia para a fam\u00edlia, todos esses aspectos envolvem cobran\u00e7as pessoais e de terceiros (pais indignados e situa\u00e7\u00f5es de confronto, por exemplo). O professor e a coordena\u00e7\u00e3o s\u00e3o chamados a responder por tudo isso. Como enfrentar tantas animosidades estando-se fr\u00e1gil e impotente? At\u00e9 onde vai a responsabilidade da institui\u00e7\u00e3o? Como um profissional, sentindo-se t\u00e3o desconfort\u00e1vel, pode dar continuidade ao trabalho, garantindo \u00e0s crian\u00e7as a seguran\u00e7a e a autoridade de que elas tanto precisam? Como manter a boa rela\u00e7\u00e3o com as fam\u00edlias, estimulando a participa\u00e7\u00e3o no dia a dia da institui\u00e7\u00e3o? O que a escola pode fazer para intervir e minimizar essa situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<ul>\n<li>Incentivar atitudes de preven\u00e7\u00e3o, como uma aten\u00e7\u00e3o redobrada no sentido de impedir situa\u00e7\u00f5es que levem a crian\u00e7a a se machucar, agredir ou ser agredida por um colega.<\/li>\n<li>A presen\u00e7a de um adulto perto dos pequenos deve ser constante. Eles se desorganizam muito r\u00e1pido quando se percebem sozinhos.<\/li>\n<li>Aceitar a exist\u00eancia de conflitos entre as crian\u00e7as como uma caracter\u00edstica natural da idade;<\/li>\n<li>Estimular, por meio de um modelo de interven\u00e7\u00e3o, formas verbais de resolu\u00e7\u00e3o do conflito.<\/li>\n<li>Valorizar a diversidade de linguagens \u2013 gestos, palavras, sons, desenhos, escrita \u2013 como instrumentos para a crian\u00e7a pensar o mundo e em si.<\/li>\n<li>Lembrar que as brincadeiras s\u00e3o poderosas ferramentas para express\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do mundo interno.<\/li>\n<li>Reservar longos per\u00edodos di\u00e1rios para o brincar.<\/li>\n<\/ul>\n<h4>Ficha t\u00e9cnica<\/h4>\n<p>Denise Argolo Estill<br \/>\nEmail: deniseae@globo.com<br \/>\nEntre La\u00e7os \u2013 N\u00facleo de Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Primeira Inf\u00e2ncia!<br \/>\nSite: www.entrelacos.org.br<\/p>\n<p>Escola Viva<br \/>\nEndere\u00e7o: Rua Prof. Vahia de Abreu, 664 \u2013 Vila Ol\u00edmpia \u2013 S\u00e3o Paulo \u2013 SP \u2013 CEP 04549-003 &#8211; Tel.: (11) 3040-2250 &#8211; Site: www.escolaviva.com.br<br \/>\nProfessora: Zita de Barros Garcia<br \/>\nEmail: zitagarcia@yahoo.com.br<\/p>\n<h4>Para saber mais<\/h4>\n<p><strong>Livros<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Cole\u00e7\u00e3o Proinfantil \u2013 m\u00f3dulo II, unidade 2, livro de estudos vol. 2, de Karina R. Lopes, Roseana P. Mendes e Vit\u00f3ria L. B. Faria (orgs.). MEC. Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica e Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia. Dispon\u00edvel em: http\/\/portal.mec.gov.br\/seb\/arquivos\/pdf\/Educinf\/mod_iv_vol2unid6.pdf<\/li>\n<li>Priva\u00e7\u00e3o e delinqu\u00eancia, de Donald Woods Winnicott. Ed. Martins Fontes. S\u00e3o Paulo. Tel.: (11) 3082-8042.<\/li>\n<li>Seis estudos de psicologia, de Jean Piaget. Ed. Forense Universit\u00e1ria. Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2516-2581.<\/li>\n<li>Sexualidade infantil, de Sigmund Freud. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas, vol. VII. Ed. Imago. Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2242-0627.<\/li>\n<\/ul>\n<div id=\"attachment_4326\" style=\"width: 283px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/jeitos5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4326\" class=\"size-full wp-image-4326\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/jeitos5.jpg\" alt=\"jeitos5.jpg\" width=\"273\" height=\"169\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4326\" class=\"wp-caption-text\">As crian\u00e7as aprendem a se relacionar e a viver em grupo<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito comuns no cotidiano escolar, as atitudes agressivas devem ser acompanhadas de perto pelos educadores para que aqueles que agridem encontrem outras maneiras de manifestar suas vontades e os agredidos se envolvam na situa\u00e7\u00e3o e se defendam. Por Denise Argolo Estill e Zita de Barros Garcia<\/p>\n","protected":false},"author":179,"featured_media":4307,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,403],"tags":[1111,745,875,97,54,876,873,874],"class_list":{"0":"post-4320","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-jeitos-de-cuidar","8":"category-revista-avisala-42","9":"tag-revista-avisa-la-2010","10":"tag-acompanhamento","11":"tag-agressoes","12":"tag-aprendizagem","13":"tag-cuidados","14":"tag-defesa","15":"tag-denise-argolo-estill","16":"tag-zita-de-barros-garcia","18":"post-with-thumbnail","19":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4320","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/179"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4320"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4320\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4307"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4320"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4320"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4320"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}