{"id":4218,"date":"2009-11-18T18:42:54","date_gmt":"2009-11-18T20:42:54","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=4218"},"modified":"2023-03-27T19:45:09","modified_gmt":"2023-03-27T22:45:09","slug":"livros-e-brinquedos-com-muito-significado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/tempo-didadico\/livros-e-brinquedos-com-muito-significado\/","title":{"rendered":"Livros e brinquedos com muito significado"},"content":{"rendered":"<h5>Trabalho com obras liter\u00e1rias permite que crian\u00e7as pequenas construam conhecimentos sobre si e o entorno e fa\u00e7am parte do mundo contempor\u00e2neo<\/h5>\n<div id=\"attachment_4220\" style=\"width: 217px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4220\" class=\"size-full wp-image-4220 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo1.jpg\" alt=\"avisala_40_tempo1.jpg\" width=\"207\" height=\"281\" \/><p id=\"caption-attachment-4220\" class=\"wp-caption-text\">Hellen Jessica C. Souza, E.M. Cec\u00edlia Meireles, Juiz de Fora, MG<\/p><\/div>\n<p>O fil\u00f3sofo e historiador holand\u00eas Johan Huizinga<sup>1<\/sup> nos prop\u00f5e o interessante conceito de homo ludens para pensarmos naquela propriedade que caracteriza t\u00e3o bem a esp\u00e9cie humana e sua capacidade de tornar l\u00fadicas as rela\u00e7\u00f5es imediatamente percept\u00edveis. Para al\u00e9m do homo sapiens, para quem a intelig\u00eancia outorgava-lhe o status de ser superior aos demais, e do homo faber, para quem o trabalho operava de modo dial\u00e9tico como um instrumento humanizante, para Huizinga ser\u00e1 o conceito de homo ludens o que melhor definir\u00e1 nossas capacidades humanizantes e humanizadoras.<\/p>\n<p>O ludens refere-se \u00e0quilo que em n\u00f3s brinca, cria sentidos, opera magias e encantamentos e, para isso, n\u00e3o h\u00e1 faixa et\u00e1ria espec\u00edfica. O ludens refere-se, pois, \u00e0 capacidade de interpretar e de criar realidades. Estas \u00faltimas regidas n\u00e3o mais pela l\u00f3gica da causalidade e da funcionalidade, mas, se preferirmos, pela l\u00f3gica do absurdo, da imagina\u00e7\u00e3o, da representa\u00e7\u00e3o. Uma l\u00f3gica ludens opera com as mais diversas rela\u00e7\u00f5es in\u00fateis \u00e0 vida cotidiana, o que significa afirmar que n\u00e3o h\u00e1 l\u00f3gica nem serventia aparente e que s\u00e3o exatamente tais caracter\u00edsticas que definem sua magia.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nComo transpor todo esse saber para a Educa\u00e7\u00e3o Infantil? Como propor \u00e0s nossas crian\u00e7as a possibilidade de aprender a se relacionar com os objetos e com as pessoas de acordo com a l\u00f3gica ludens? Em uma forma\u00e7\u00e3o realizada com a rede de creches de Juiz de Fora, em Minas Gerais, nosso foco recaiu sobre o ler e o brincar, eixos que, por excel\u00eancia, possibilitam \u00e0s crian\u00e7as viajar por outros mundos poss\u00edveis e, assim, redimensionar as rela\u00e7\u00f5es que estabelecem com o cotidiano mais imediato, desempenhar pap\u00e9is, fazer de conta que&#8230;, experimentar modos de ser.<\/p>\n<div id=\"attachment_4221\" style=\"width: 297px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4221\" class=\"size-full wp-image-4221 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo2.jpg\" alt=\"avisala_40_tempo2.jpg\" width=\"287\" height=\"183\" \/><p id=\"caption-attachment-4221\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Marta Picchioni<\/p><\/div>\n<p><strong>O contexto <\/strong><br \/>\nFruto de uma parceria entre o Instituto Avisa L\u00e1, O Instituto C&amp;A de Desenvolvimento Social e a Associa\u00e7\u00e3o Municipal de Apoio Comunit\u00e1rio (AMAC), o projeto Brincar e Ler desenvolve-se h\u00e1 dois anos na cidade de Juiz de Fora (MG). O presente relato toma por refer\u00eancia o trabalho desenvolvido ao longo de 2008 em 23 creches daquele munic\u00edpio. O processo ocorreu ao mesmo tempo em quatro frentes: com os pequenos, com os professores, com os gestores e com a equipe t\u00e9cnica respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o das demais. As atua\u00e7\u00f5es foram mediadas por v\u00eddeos gravados na sala da turma de 2 a 3 anos. Esse material foi utilizado pela formadora do Instituto Avisa L\u00e1 para tematizar o brincar na creche.<\/p>\n<p><strong>Afinando o olhar<\/strong><br \/>\nEm um primeiro momento procuramos contribuir para tornar observ\u00e1vel a todos os envolvidos como acontecia o brincar e o contato com os livros no cotidiano das institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o. Como era o acesso dos pequenos aos brinquedos e livros? Qual a qualidade desses objetos? Como os professores intervinham? Em seguida desenvolvemos pr\u00e1ticas desafiadoras com as crian\u00e7as e trabalhamos concomitantemente com a forma\u00e7\u00e3o dos professores, gestores e equipe t\u00e9cnica local a partir das situa\u00e7\u00f5es observadas. Ap\u00f3s elaborarmos em conjunto um diagn\u00f3stico da rede e discutirmos com as equipes locais os encaminhamentos mais produtivos, iniciamos a forma\u00e7\u00e3o em contexto de trabalho. Isto \u00e9, ao mesmo tempo que atu\u00e1vamos em um grupo refer\u00eancia, os demais participantes analisavam os filmes gerados na a\u00e7\u00e3o, refletiam, elaboravam seus projetos locais e desenvolviam suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_4222\" style=\"width: 321px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4222\" class=\"size-full wp-image-4222 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo3.jpg\" alt=\"avisala_40_tempo3.jpg\" width=\"311\" height=\"158\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo3.jpg 311w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo3-300x152.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 311px) 100vw, 311px\" \/><p id=\"caption-attachment-4222\" class=\"wp-caption-text\">Espa\u00e7o Mascarenhas, Juiz de Fora, MG<\/p><\/div>\n<p><strong>Aprender a fazer fazendo<\/strong><br \/>\nA primeira interven\u00e7\u00e3o foi organizar uma roda com o grupo de crian\u00e7as da sala de refer\u00eancia e ler a hist\u00f3ria do Sapo Bocarr\u00e3o, de Keith Faulkner na \u00edntegra. As crian\u00e7as participaram oralmente do enredo quando provocadas no decorrer da leitura: \u2013 Eu sou o Sapo Bocarr\u00e3o e como moscas! \u2013 disse o Sapo Bocarr\u00e3o. \u2013 E voc\u00ea, passarinho, come o qu\u00ea? Uma das provoca\u00e7\u00f5es feitas \u00e0s crian\u00e7as foi a pergunta: \u201cO que ser\u00e1 que come o passarinho?\u201d. E as crian\u00e7as puderam expressar suas hip\u00f3teses:<\/p>\n<p>\u2013 Arroz!<br \/>\n\u2013 Feij\u00e3o!<br \/>\n\u2013 Gu (Angu).<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o vamos ver!\u201d. Ao saber que o passarinho comia minhocas torcidas e lesmas as crian\u00e7as se divertiam. Ao avan\u00e7ar a leitura repetia a pergunta cada vez que o Sapo encontrava o pr\u00f3ximo animal da hist\u00f3ria. Foi interessante notar que algumas crian\u00e7as mantiveram suas hip\u00f3teses iniciais para cada animal encontrado pelo Sapo. Outras, gradativamente, se apropriavam do enredo, introduzindo um alimento preferido do animal anterior. Assim, diante de nova pergunta, repetiam:<\/p>\n<p>\u2013 Arroz!<br \/>\n\u2013 Feij\u00e3o!<\/p>\n<p>E acrescentavam:<\/p>\n<p>\u2013 Minhocas!<\/p>\n<p>A educadora da sala e a coordenadora observavam tudo e, em seguida, nos reun\u00edamos para analisar a a\u00e7\u00e3o. A leitura di\u00e1ria, e n\u00e3o apenas a conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria, era um dos temas recorrentes dessas conversas, assim como o fato de que \u00e9 poss\u00edvel ler uma obra na \u00edntegra sem cair na tenta\u00e7\u00e3o de simplificar a linguagem. Os textos liter\u00e1rios de boa qualidade permitem estabelecer muitas rela\u00e7\u00f5es, de modo que n\u00e3o comporta apenas um \u00fanico entendimento. As crian\u00e7as compreender\u00e3o os textos e se relacionar\u00e3o com ele de acordo com suas possibilidades, interesses e prefer\u00eancias. Nesse momento, n\u00e3o cabe ao professor intervir na tentativa de garantir o que o texto quis dizer porque ele fala por si.<\/p>\n<div id=\"attachment_4223\" style=\"width: 316px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4223\" class=\"size-full wp-image-4223 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo4.jpg\" alt=\"avisala_40_tempo4.jpg\" width=\"306\" height=\"202\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo4.jpg 306w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo4-300x198.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 306px) 100vw, 306px\" \/><p id=\"caption-attachment-4223\" class=\"wp-caption-text\">Acervo Equipe T\u00e9cnica Amac<\/p><\/div>\n<p><strong>Apropria\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias<\/strong><br \/>\nA a\u00e7\u00e3o formadora com todos os grupos de trabalho aconteceu mensalmente, durante oito meses. A cada encontro, escolh\u00edamos um livro para ler na \u00edntegra aos pequenos, para tematizar com as professoras e com a equipe t\u00e9cnica. Explicit\u00e1vamos os crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o e o porqu\u00ea das interven\u00e7\u00f5es. No intervalo entre uma reuni\u00e3o e outra, os professores liam diariamente \u00e0s suas turmas a obra eleita, bem como outras de livre escolha. Nossa inten\u00e7\u00e3o era ampliar o universo liter\u00e1rio de todos. Foram lidos ao grupo os seguintes livros: Sapo Bocarr\u00e3o; Grunter, a hist\u00f3ria de um porco insuport\u00e1vel, de Mike Jolley; A casa sonolenta; Bruxa Salom\u00e9, ambos de Audrey Wood; e Bruxa, Bruxa venha \u00e0 minha festa, de Arden Druce. No 5\u00ba encontro, em setembro de 2008, com a inten\u00e7\u00e3o de proporcionar interrela\u00e7\u00e3o entre a narrativa lida e o brincar, ap\u00f3s Bruxa, Bruxa venha \u00e0 minha festa, em que todas as crian\u00e7as v\u00e3o fantasiadas a uma grande festa, propusemos ao grupo realizar nosso pr\u00f3prio festejo. Para isso, j\u00e1 ha v\u00edamos planejado e organizado o espa\u00e7o com a professora da turma com massinha tingida de azul e forminhas de brigadeiro para enrolar os docinhos de bruxa. Eis que uma das crian\u00e7as negou a proposta, assumindo a autoria por seu enredo, propondo outro tipo de faz de conta: fazer bombons de chocolate para vender no mercado. Essa \u00e9 a magia do brincar: o educador planeja, prop\u00f5e, organiza, mas o enredo se cria em seu acontecer, e quem o dirige s\u00e3o os meninos e as meninas, os seres ludens que conferem sentido \u00e0 narrativa.<\/p>\n<p>Diversas hist\u00f3rias foram lidas, e o interesse de todos pelo universo liter\u00e1rio do prazer e da frui\u00e7\u00e3o foi crescendo a olhos vistos. Nesse percurso, as revistas j\u00e1 n\u00e3o eram mais oferecidas apenas como papel para ser rasgado. O trabalho com as concep\u00e7\u00f5es do que \u00e9 ler e escrever ampliou as possibilidades de as professoras entenderem que esse material \u00e9 portador textual e, como tal, caracteriza-se como importante fonte de informa\u00e7\u00e3o e leitura. Algumas crian\u00e7as j\u00e1 sinalizavam isso desde o primeiro encontro, quando, atentas, procuravam intencionalmente por imagens espec\u00edficas \u2013 carros, batons, brincos \u2013, \u201cliam\u201d seu conte\u00fado e interagiam entre si.<\/p>\n<div id=\"attachment_4224\" style=\"width: 193px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4224\" class=\"size-full wp-image-4224 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo5.jpg\" alt=\"avisala_40_tempo5.jpg\" width=\"183\" height=\"246\" \/><p id=\"caption-attachment-4224\" class=\"wp-caption-text\">Ana Carolina da Silva Pereira, E.M. Mar\u00edlia de Dirceu, Juiz de Fora, MG<\/p><\/div>\n<p><strong>Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 qualidade<\/strong><br \/>\nA sele\u00e7\u00e3o dos livros se baseou em crit\u00e9rios discutidos em nossas reuni\u00f5es formativas. Na hora da escolha, o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 a linguagem simples, as frases curtas ou a garantia de um entendimento un\u00edvoco por parte das crian\u00e7as, mas a exist\u00eancia de um enredo interessante e inteligente, a presen\u00e7a de ricas ilustra\u00e7\u00f5es \u2013 que tamb\u00e9m comp\u00f5em o texto \u2013 e que se afastam das imagens, muitas vezes estereotipadas, que julgamos ser do agrado do p\u00fablico infantil \u2013 al\u00e9m, \u00e9 claro, da presen\u00e7a de autoria. Isso porque sabemos que h\u00e1 publica\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em pequenas cole\u00e7\u00f5es que t\u00eam como intuito adaptar grandes cl\u00e1ssicos e, quase sempre, incorrem no erro de simplificar demais a linguagem, fazer uso de ilustra\u00e7\u00f5es pobres e, assim, subtrair a riqueza do original.<\/p>\n<p>Possibilitar aos pequenos o acesso a materiais impressos de primeira qualidade \u00e9 imprescind\u00edvel \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do leitor. N\u00e3o basta dar livrinhos, mas sim livros! Obras bem feitas, pensadas, cuidadas, que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, agradem a todos, pois a boa obra liter\u00e1ria n\u00e3o se dirige apenas \u00e0 determinada faixa et\u00e1ria.<\/p>\n<div id=\"attachment_4225\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4225\" class=\"size-full wp-image-4225 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo6.jpg\" alt=\"Marta Picchioni \" width=\"300\" height=\"208\" \/><p id=\"caption-attachment-4225\" class=\"wp-caption-text\">Marta Picchioni<\/p><\/div>\n<p><strong>Papel do educador<\/strong><br \/>\nNesse processo de forma\u00e7\u00e3o conjunta, cada quest\u00e3o formulada pelos grupos participantes da forma\u00e7\u00e3o nos levava a aprofundar e a ampliar a abordagem. Assim, tivemos a oportunidade de discutir em nossas reuni\u00f5es mensais sobre o que quer dizer acesso aos livros e como isso se caracteriza na pr\u00e1tica. Basta ter livros ao alcance das crian\u00e7as? \u00c9 apenas permitir que elas folheiem o livro com relativa liberdade?<\/p>\n<p>Pensar nessa quest\u00e3o nos remete \u00e0 reflex\u00e3o sobre v\u00e1rios aspectos, pois o acesso envolve mais de uma inst\u00e2ncia. Passa pela possibilidade de pegar no livro, folhear suas p\u00e1ginas, recontar seu enredo, pelo modelo leitor que o educador oferece aos pequenos \u2013 demonstrando prazer em ler \u2013, por um espa\u00e7o que comporte a possibilidade de fazer interven\u00e7\u00f5es individualizadas e tamb\u00e9m coletivas. Sabemos que a presen\u00e7a de publica\u00e7\u00f5es \u00e9 importante para garantir o acesso, mas por si s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 o bastante. Nesse processo, enfatizamos a import\u00e2ncia do professor, que ajuda a promover, a dar sentido a esse objeto \u00e0 medida que ele \u00e9 o elemento-piv\u00f4 que medeia a rela\u00e7\u00e3o. Essa a\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental na concep\u00e7\u00e3o de acesso que objetivamos construir ao longo da forma\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria do educador e sua constitui\u00e7\u00e3o como leitor s\u00e3o outros dois elementos que marcam o modo pelo qual se dar\u00e1 o acesso de suas turmas ao mundo dos livros, reconhecendo-se, portanto, que essa experi\u00eancia pregressa tamb\u00e9m \u00e9 parte constitutiva daquilo que aqui denominamos acesso.<\/p>\n<p>Ao longo do processo de forma\u00e7\u00e3o, procuramos favorecer o olhar das educadoras para as manifesta\u00e7\u00f5es l\u00fadicas, tanto durante as leituras, como nas brincadeiras. \u00c9 certo que esse processo correu paralelamente em grande parte do ano, ou seja, as crian\u00e7as aprenderam a brincar, a desempenhar pap\u00e9is, a se fantasiar e a imaginar ao mesmo tempo que se maravilhavam com o mundo paralelo contido em cada livro de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Integrando ler e brincar<\/strong><br \/>\nNo 6\u00ba encontro, ap\u00f3s uma vota\u00e7\u00e3o, lemos ao grupo o livro A verdadeira hist\u00f3ria dos tr\u00eas porquinhos, de Jon Scieszka. A narrativa d\u00e1 voz ao Lobo Mau que, segundo sua vers\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o ruim quanto parece ou como os porquinhos nos fizeram acreditar. Os pequenos ouviram com muita aten\u00e7\u00e3o. Logo ap\u00f3s a leitura, fomos aos cantos, que estavam arrumados com muitas caixas de papel\u00e3o vazias. Segue o relato retirado do di\u00e1rio, em outubro de 2008, que revela como se deu a apropria\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e de suas propostas: de in\u00edcio, todos pararam na casinha explorando as novas frutas de pl\u00e1stico e fazendo comidinhas. O canto dos livros tamb\u00e9m foi logo requisitado. As caixas, de in\u00edcio, n\u00e3o chamaram a aten\u00e7\u00e3o do grupo. Talvez n\u00e3o soubessem muito bem como brincar com elas&#8230; Eis que elas escutaram \u201ctoc, toc, toc\u201d como se algu\u00e9m batesse \u00e0 porta. Pedi uma x\u00edcara de a\u00e7\u00facar para o bolo de minha vovozinha, como na hist\u00f3ria do lobo. Foi uma boa interven\u00e7\u00e3o: todos foram \u00e0s caixas brincar de bater \u00e0 porta e de esconder-se dentro delas. Ap\u00f3s um tempo de explora\u00e7\u00e3o, as crian\u00e7as se apropriaram daquele canto de diferentes maneiras: uma delas entrou numa caixa com diversos livros e ficou um temp\u00e3o lendo suas hist\u00f3rias. Outras duas entraram numa caixa com duas bonecas e as ninavam cantando Boi da cara preta.<\/p>\n<div id=\"attachment_4226\" style=\"width: 175px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4226\" class=\"size-full wp-image-4226 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo7.jpg\" alt=\"avisala_40_tempo7.jpg\" width=\"165\" height=\"226\" \/><p id=\"caption-attachment-4226\" class=\"wp-caption-text\">Alisson Aparecido da Silva, E.M. Mar\u00edlia de Dirceu, Juiz de Fora, MG<\/p><\/div>\n<p>Houve, ainda, a L\u00edvia e outros pequenos que queriam se cobrir com panos e fazer de conta que eram bruxas para bater nas casas das colegas. Em meio aos brinquedos novos, as caixas com os tecidos fizeram sucesso, e minha inten\u00e7\u00e3o foi mostrar que n\u00e3o s\u00e3o somente os objetos sofisticados que podem render boas brincadeiras. Tudo \u00e9 uma quest\u00e3o de olhar, observar, planejar e intervir. Esse relato evidencia bem que, junto aos brinquedos novos rec\u00e9m-chegados \u00e0s unidades, havia muitas caixas, aparentemente sem muita serventia a n\u00e3o ser guardar coisas. Quando transpostos \u00e0 l\u00f3gica do brincar, por\u00e9m, eis que a magia se operou: papel\u00f5es e panos de diversos tamanhos serviram de base para as hist\u00f3rias. Dessa vez, a narrativa liter\u00e1ria invadiu a l\u00f3gica brincante e diversos enredos coexistiram em um mesmo cen\u00e1rio: as bruxas assustadoras, os lobos soltos, as mam\u00e3es ninando seus beb\u00eas na casinha, o canto resguardado para ler livros.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as nos mostraram que, de acordo com a l\u00f3gica ludens, tudo pode ser brinquedo: \u00e9 o significado atribu\u00eddo por aquele que brinca que outorgar\u00e1 aos objetos seus pap\u00e9is na a\u00e7\u00e3o brincante. E assim que, numa mesma situa\u00e7\u00e3o objetiva, uma caixa de papel\u00e3o pode ser casinha, esconderijo, ber\u00e7o ou simplesmente uma caixa de papel\u00e3o. O papel do educador \u00e9 auxiliar os pequenos a participar, a criar e desempenhar pap\u00e9is imersos em certo enredo. A articula\u00e7\u00e3o do universo liter\u00e1rio com o universo brincante em Juiz de Fora foi uma bonita tentativa de operar na intersec\u00e7\u00e3o entre esses dois universos: o fant\u00e1stico mundo do faz de conta e a poesia do mundo das palavras!<\/p>\n<div id=\"attachment_4227\" style=\"width: 269px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4227\" class=\"size-full wp-image-4227 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo8.jpg\" alt=\"avisala_40_tempo8.jpg\" width=\"259\" height=\"190\" \/><p id=\"caption-attachment-4227\" class=\"wp-caption-text\">Acervo Equipe T\u00e9cnica Amac<\/p><\/div>\n<p><strong><br \/>\nAvaliando o processo<\/strong><br \/>\nEm nossos \u00faltimos encontros, na hora da roda de hist\u00f3ria, duas op\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas foram oferecidas \u00e0s crian\u00e7as no intuito de possibilitar o aprendizado da escolha. \u201cQual narrativa gostariam de ouvir?\u201d, perguntamos. Interessante notar que, nas primeiras tentativas, n\u00e3o foi nada f\u00e1cil. Ap\u00f3s uma r\u00e1pida vota\u00e7\u00e3o, aqueles que n\u00e3o tiveram sua hist\u00f3ria escolhida ouviam a outra com aten\u00e7\u00e3o e, em seguida, cobravam a leitura eleita. A sa\u00edda foi ler o livro mais votado no in\u00edcio da tarde; o outro, ao fim do dia. A paix\u00e3o foi fomentada e, nesse grupo de crian\u00e7as, ficou cada vez mais expl\u00edcita: a hora da hist\u00f3ria era uma grande festa! No \u00faltimo encontro, um dos livros lidos foi OH!, de Josse Goffin. Seu texto \u00e9 puramente imag\u00e9tico. N\u00e3o h\u00e1 escrita. A obra brinca com os sentidos das imagens e, portanto, toda interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida. Diante de uma imagem amarela em forma de meialua, algumas crian\u00e7as diziam: \u201cUma banana!\u201d, e havia quem a identificasse com uma lua. Em outra, um navio com um cachimbo na \u201cboca\u201d, elas rapidamente associaram-na ao seu repert\u00f3rio mais pr\u00f3ximo e enunciaram: \u201cO \u2018bico\u2019 do barco!\u201d, fazendo refer\u00eancia \u00e0s suas chupetas. Recontar hist\u00f3rias, se apropriar dos enredos \u00e9 isso mesmo: projetar significados de acordo com as viv\u00eancias e repert\u00f3rios constitutivos de cada um.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que as crian\u00e7as fazem quando s\u00e3o convidadas a interagir com os livros, ao mesmo tempo que, a partir do contato com outros pontos de vista, ampliar\u00e3o seu pr\u00f3prio repert\u00f3rio inicial. A literatura nos ajuda a entender a n\u00f3s mesmos e o mundo em volta, e relativiza o pr\u00f3prio lugar no mundo. Isso as crian\u00e7as fazem desde cedo, ao descobrir, por exemplo, que o \u201cbico do barco\u201d daquela imagem chama-se cachimbo. N\u00e3o havia a preocupa\u00e7\u00e3o com o certo ou errado. Os pequenos projetavam aquilo que podiam ou identificavam em determinado momento. Foi muito interessante observar o quanto a linguagem oral evoluiu nesses meses de interven\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Se no in\u00edcio a voz das narrativas morava na boca do adulto, ao final do ano eles se tornaram protagonistas das pr\u00f3prias hist\u00f3rias, e essa troca foi riqu\u00edssima para o grupo, pois permitiu identificar muito dos repert\u00f3rios social e cultural de cada um dos presentes.<\/p>\n<p>Conclu\u00edmos que um projeto com objetivos claros e com foco definido nos possibilitou olhar mais atentamente para os saberes que necessitavam ser constru\u00eddos pelos membros da equipe como um todo (professores, gestores e equipe t\u00e9cnica). Nesse caso, o trabalho com a leitura e com o brincar nos mostrou que as crian\u00e7as, mesmo muito pequenas, apreciam, apreendem e recontam diferentes tipos de hist\u00f3rias. A despeito da ideia corrente de que elas t\u00eam concentra\u00e7\u00e3o reduzida e, por isso, participam pouco de rodas, o que observamos com o grupo de crian\u00e7as de 2 anos no qual ocorreram todas as interven\u00e7\u00f5es \u00e9 que elas se emocionam, se concentram, antecipam o enredo da narrativa e nomeiam fatos e personagens \u00e0 medida que se apropriam do enredo. Sendo assim, pensamos que os livros podem e devem habitar o cen\u00e1rio das creches. O contato com esse recurso liter\u00e1rio far\u00e1 com que as crian\u00e7as, assim como n\u00f3s, acessem outros mundos, distantes e pr\u00f3ximos, construam conhecimentos sobre si e sobre o entorno e fa\u00e7am parte da cultura da escrita que comp\u00f5e o mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>(Marta Picchioni, professora e formadora e Denise Nalini, formadora. Ambas s\u00e3o do Instituto Avisa L\u00e1, em S\u00e3o Paulo)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>Johan Huizinga (1872-1945) foi um professor e historiador holand\u00eas, autor da obra Homo Ludens, escrita no ano de 1938 sobre o papel da ludicidade no processo de humaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_4228\" style=\"width: 413px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4228\" class=\"size-full wp-image-4228 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo9.jpg\" alt=\"avisala_40_tempo9.jpg\" width=\"403\" height=\"283\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo9.jpg 403w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo9-300x210.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 403px) 100vw, 403px\" \/><p id=\"caption-attachment-4228\" class=\"wp-caption-text\">Marta Picchioni<\/p><\/div>\n<h4>Ficha t\u00e9cnica<\/h4>\n<p>Projeto Brincar e Ler<br \/>\nCoordenadora: Denise Nalini<br \/>\nFormadora: Marta Picchioni (na ocasi\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o)<br \/>\nResponsabilidade T\u00e9cnica: Instituto Avisa L\u00e1<br \/>\nParceiro: Instituto C&amp;A de Desenvolvimento Social<br \/>\nDesenvolvimento: Associa\u00e7\u00e3o Municipal de Apoio Comunit\u00e1rio (AMAC)<br \/>\nEndere\u00e7o: Rua Halfeld, 450, Juiz de Fora \u2013 MG, CEP 36070-010 &#8211; Tel.: (32) 3235-2668 \/ 3690-7322<\/p>\n<h4>Para saber mais<\/h4>\n<p><strong>Livros<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Homo ludens, de Johan Huizinga. Editora Perpectiva. Tel.: (11) 3885-8388.<\/li>\n<li>A forma\u00e7\u00e3o social da mente, de Lev S. Vygotsky. Editora Martins Fontes.Tel.: (11) 3106-9133.<\/li>\n<\/ul>\n<div id=\"attachment_4229\" style=\"width: 244px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4229\" class=\"size-full wp-image-4229 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_40_tempo10.jpg\" alt=\"avisala_40_tempo10.jpg\" width=\"234\" height=\"183\" \/><p id=\"caption-attachment-4229\" class=\"wp-caption-text\">Marta Picchioni<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trabalho com obras liter\u00e1rias permite que crian\u00e7as pequenas construam conhecimentos sobre si e o entorno e fa\u00e7am parte do mundo contempor\u00e2neo. 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