{"id":407,"date":"2000-04-17T01:32:01","date_gmt":"2000-04-17T04:32:01","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=407"},"modified":"2023-03-27T10:23:09","modified_gmt":"2023-03-27T13:23:09","slug":"bem-tracadas-linhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/conhecendo-a-crianca\/bem-tracadas-linhas\/","title":{"rendered":"Bem tra\u00e7adas linhas"},"content":{"rendered":"<h3><strong>Trajet\u00f3ria do desenho num percurso criador<\/strong><\/h3>\n<h5>A diversidade e a riqueza do desenho infantil t\u00eam sido objeto de muito estudo. Os professores procuram saber o que influencia a produ\u00e7\u00e3o de imagens da crian\u00e7a; o que essa produ\u00e7\u00e3o pode nos revelar; como as crian\u00e7as chegam a essas produ\u00e7\u00f5es. Conhecer a crian\u00e7a por meio de suas produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, na perspectiva de um percurso de cria\u00e7\u00e3o na \u00e1rea, \u00e9 o desafio que propomos.<\/h5>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>As crian\u00e7as pensam e pesquisam muito, quando t\u00eam oportunidade de desenhar freq\u00fcentemente. Alimentam a imagina\u00e7\u00e3o e o pensamento, apreciam, elaboram id\u00e9ias, projetos e pesquisas, aprendem a fazer escolhas, formam gostos, desenvolvem prefer\u00eancias e muitas compet\u00eancias. Mas, ao contr\u00e1rio do que muitos pensam, a produ\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as n\u00e3o \u00e9 espont\u00e2nea nem original: \u00e9 fruto de muito trabalho. Vamos acompanhar o desenvolvimento dos rabiscos de uma crian\u00e7a, Guilherme. Seus tra\u00e7os, dos 2 aos 6 anos, nos revelam muita pesquisa, pensamento e cria\u00e7\u00e3o envolvidos em anos de dedica\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que vamos conferir a seguir.<\/p>\n<p>Numa tarde na escola, Guilherme viu uma folha limpa sobre a mesa. Tinha apenas 2 anos. Com um giz que a professora lhe ofereceu e a vontade de experimentar, ele marcou a folha, num dos primeiros registros conseguidos na escola: uns rabiscos em ziguezague e outros em diagonais. Tamb\u00e9m arriscou um exerc\u00edcio circular. \u00c0 primeira vista, parecem parcos rabiscos, soltos \u00e0 toa. O que pouca gente sabe \u00e9 que todos esses rabiscos s\u00e3o alguns dos recursos gr\u00e1ficos que ele usar\u00e1 para o resto da vida. Aqueles rudimentares rabiscos diagonais j\u00e1 s\u00e3o um procedimento para preencher espa\u00e7os de cor e o exerc\u00edcio circular, um ensaio do que ser\u00e1 mais tarde a forma arredondada, c\u00e9lula inicial de muitas composi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_416\" style=\"width: 301px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-416\" class=\"size-full wp-image-416\" title=\"avisala_03_conhecendo1\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_conhecendo1.jpg\" alt=\"Guilherme, 2 anos\" width=\"291\" height=\"197\" \/><p id=\"caption-attachment-416\" class=\"wp-caption-text\">2 anos, hidrocor sobre papel camur\u00e7a,<br \/>31.5 x 21.5cm.<\/p><\/div>\n<p>Um m\u00eas depois, encontramos Guilherme bastante preocupado com a ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o: estuda o campo todo do papel, repetindo o exerc\u00edcio anterior. O movimento circular bem no centro da folha vai virando um ret\u00e2ngulo, explorando toda a borda do papel, reconhecendo seu per\u00edmetro. Guilherme se esfor\u00e7a para conquistar a forma, dominar o tra\u00e7o, saber fazer. Um tra\u00e7o simples e \u00fanico, de c\u00edrculo e de quase ret\u00e2ngulo tamb\u00e9m. Essas s\u00e3o as c\u00e9lulas iniciais do desenho de Guilherme. Nesse momento, sua trajet\u00f3ria se bifurca. Partindo dos mesmos rabiscos iniciais, Guilherme vai desenvolver duas vertentes de pesquisa gr\u00e1fica: uma delas trar\u00e1 como resultado figuras mais org\u00e2nicas e a outra, mais geom\u00e9tricas.<\/p>\n<h4><strong>Vertente org\u00e2nica do desenho de Guilherme<\/strong><\/h4>\n<div id=\"attachment_417\" style=\"width: 247px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-417\" class=\"size-full wp-image-417\" title=\"avisala_03_conhecendo2\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_conhecendo2.jpg\" alt=\"Guilherme, 2 anos\" width=\"237\" height=\"317\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_conhecendo2.jpg 237w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_conhecendo2-224x300.jpg 224w\" sizes=\"auto, (max-width: 237px) 100vw, 237px\" \/><p id=\"caption-attachment-417\" class=\"wp-caption-text\">2 anos, guache e caneta hidrocor fina sobre cartolina, 30 x 24cm.<\/p><\/div>\n<p>Acompanhando um desses tra\u00e7os, o arredondado, encontramos uma seq\u00fc\u00eancia de ensaios que vai resultar em formas mais org\u00e2nicas. Numa atividade j\u00e1 iniciada<sup>1<\/sup> , Gui faz um verdadeiro ensaio sobre bolinhas. Ele quis primeiro pintar todo o fundo de guache e, s\u00f3 no dia seguinte, pensou a figura. Retomou a pintura e, com a caneta Futura, elaborou seu exerc\u00edcio, uma combina\u00e7\u00e3o de formas predominantemente circulares, quase um conjunto: bolinhas dentro de bolas, ocupando todo o espa\u00e7o do papel, como no desenho anterior<\/p>\n<p>Com 3 anos de idade, numa outra atividade j\u00e1 iniciada com um c\u00edrculo no centro da folha colado pela professora, Guilherme optou novamente por uma imagem circular. Mas, dessa vez, o vemos mais preocupado com as cores. Verde, cor-de-rosa\u2026 uma sobreposi\u00e7\u00e3o de todas elas.<\/p>\n<div id=\"attachment_418\" style=\"width: 302px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-418\" class=\"size-full wp-image-418\" title=\"avisala_03_conhecendo3\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_conhecendo3.jpg\" alt=\"Guilherme, 3 anos\" width=\"292\" height=\"200\" \/><p id=\"caption-attachment-418\" class=\"wp-caption-text\">3 anos, Hidrocor grossa e fina sobre papel sulfite, 31,5 x 21,5cm.<\/p><\/div>\n<p>Em outra oportunidade, diante de dois c\u00edrculos iguais sobre o papel, encontramos Guilherme trabalhando de outra maneira: usa formas para compor um desenho. V\u00e1rias formas interligadas. Ele vai separando-as pela linha e pela marca de cor. A aprendizagem do preenchimento vai aparecendo no seu percurso, sem que a professora precise criar uma atividade s\u00f3 para desenvolver essa habilidade, como v\u00edamos nos cl\u00e1ssicos exemplos das folhas mimeografadas com desenhos prontos para a crian\u00e7a pintar dentro. Ao contr\u00e1rio, Guilherme est\u00e1 aprendendo significativamente, dentro de um contexto, usando esse recurso na hora em que precisa dele. Nesse caso, existe para ele uma raz\u00e3o para preencher a forma com a cor, por isso empenha-se ao m\u00e1ximo para fazer de um jeito que resulte no efeito desejado: n\u00e3o deixa sair do tra\u00e7o, cobre com azul cada espacinho branco, at\u00e9 n\u00e3o sobrar nada. Podemos ver que est\u00e1 exercitando o conhecimento que tem da forma circular, combinando c\u00edrculos e rabiscos \u00fanicos, retos, at\u00e9 chegar \u00e0 representa\u00e7\u00e3o da figura humana, essas carinhas que aparecem no canto.<\/p>\n<p>Normalmente as professoras esperam que haja uma seq\u00fc\u00eancia linear das formas circulares para a figura humana porque pensam que esse \u00e9 um percurso natural. Na verdade, a crian\u00e7a rabisca, preenche o espa\u00e7o de cor, faz diferentes formas, podendo usar esses conhecimentos como quiser e n\u00e3o s\u00f3 no desenho figurativo. Veja a seguir, por exemplo, o desenho que Guilherme fez com 4 anos de idade. Olhando rapidamente, parece mesmo um rabisco rudimentar. Olhando melhor, podemos perceber a sobreposi\u00e7\u00e3o de cores e de formas: h\u00e1 um desenho organizado nesses tra\u00e7os cor-de-rosa que est\u00e3o no centro. N\u00e3o quer dizer que ele n\u00e3o saiba figurar, mas sim que decidiu preencher o espa\u00e7o de uma maneira diferente dos outros: antes preenchia cobrindo quase toda a cor do papel e aqui preenche com rabiscos circulares, ziguezague de novo e diagonais, formando texturas que deixam aparecer a cor do papel, mostrando que existe mais de um jeito de ocupar o espa\u00e7o delimitado. Como j\u00e1 sabe muitas coisas, pode optar. \u00c9 o que vemos nesse trabalho, j\u00e1 iniciado com os ret\u00e2ngulos:ele optou por fazer algo que n\u00e3o sa\u00edsse do papel nem riscasse sobre as imagens existentes, usando apenas o espa\u00e7o que sobrou<\/p>\n<div id=\"attachment_419\" style=\"width: 208px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-419\" class=\"size-full wp-image-419\" title=\"avisala_03_conhecendo4\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_conhecendo4.jpg\" alt=\"Guilherme, 4 anos\" width=\"198\" height=\"146\" \/><p id=\"caption-attachment-419\" class=\"wp-caption-text\">4 anos, Hidrocor fina sobre papel sulfite (caderno de desenho), 27,5 x 20cm.<\/p><\/div>\n<p>No pr\u00f3ximo desenho, vemos que ele volta a preencher o campo inteiro do papel, j\u00e1 com muito conhecimento de formas, figuras e de combina\u00e7\u00e3o: faz carrinhos, foguetes, combinando ret\u00e2ngulos e c\u00edrculos, dispondo o c\u00edrculo por todo o papel, usando apenas algumas cores.<\/p>\n<p>Mais tarde, aos 5 anos, vemos Guilherme usando a forma circular de outro jeito: faz combina\u00e7\u00f5es de retas com as bolinhas. Trata-se de um trabalho muito mais org\u00e2nico que se repete aqui: vemos uma imagem muito bonita, em forma de ameba em dois tons de azul.<\/p>\n<div id=\"attachment_420\" style=\"width: 244px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-420\" class=\"size-full wp-image-420\" title=\"avisala_03_conhecendo5\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_conhecendo5.jpg\" alt=\"Guilherme, 5 anos\" width=\"234\" height=\"161\" \/><p id=\"caption-attachment-420\" class=\"wp-caption-text\">5 anos, Hidrocor sobre papel sulfite, 31,5 x 21,5cm.<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_421\" style=\"width: 275px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-421\" class=\"size-full wp-image-421\" title=\"avisala_03_conhecendo66\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_conhecendo66.jpg\" alt=\"Guilherme, 6 anos\" width=\"265\" height=\"197\" \/><p id=\"caption-attachment-421\" class=\"wp-caption-text\">6 anos, Hidrocor fina sobre papel sulfite, 31,5 x 21,5cm.<\/p><\/div>\n<p>Finalmente, um dos pontos de chegada, quatro anos depois dos primeiros rabiscos. Uma produ\u00e7\u00e3o feita por Guilherme aos 6 anos mostra todo o conhecimento que construiu. Usando tudo o que aprendeu a fazer, ele ocupa o campo inteiro do papel com c\u00edrculos e com tantos outros jeitos de preencher o espa\u00e7o que experimentou na escola, ao longo dos anos.<\/p>\n<p>Vale lembrar que ele n\u00e3o terminou esse trabalho num \u00fanico dia, porque \u00e9 muito cansativo. Ali\u00e1s, o desenvolvimento de um percurso exige tempo; isso ele aprendeu na escola. H\u00e1 artistas, por exemplo, que demoram muito tempo para concluir uma \u00fanica obra, e anos para desenvolver uma pesquisa. \u00c0s crian\u00e7as tamb\u00e9m deveria ser oferecida a oportunidade de retomar o trabalho em um outro dia, acrescentar elementos e reelaborar a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Vertente geom\u00e9trica do desenho de Guilherme<\/strong><\/p>\n<p>Daqueles primeiros rabiscos iniciais tamb\u00e9m surgiram outras imagens,<br \/>\nmais geom\u00e9tricas, mostrando a diversidade da produ\u00e7\u00e3o infantil numa mesma \u00e9poca. Reencontramos Guilherme, no desenho seguinte, novamente preocupado com o tamanho do suporte: ele reproduz seu formato num esfor\u00e7o motor, tentativa de dominar o gesto. Sua professora n\u00e3o precisou propor exerc\u00edcios de coordena\u00e7\u00e3o motora para que ele conseguisse fechar essas formas. Aqui ele est\u00e1 investindo nesse exerc\u00edcio de outra forma, com mais envolvimento, colocando em jogo o melhor que pode fazer, porque isso tem um sentido para ele, dentro de sua trajet\u00f3ria de pesquisa.<\/p>\n<p>Num outro dia, Gui desenvolveu uma proposta de colagem. Vemos que ele tem aqui uma preocupa\u00e7\u00e3o com a estrutura. Ele optou por formas mais retas, compondo elementos em blocos, o mesmo princ\u00edpio que vai predominar nos trabalhos dessa seq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<div id=\"attachment_422\" style=\"width: 294px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-422\" class=\"size-full wp-image-422 \" title=\"avisala_03_conhecendo3a\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_conhecendo3a.jpg\" alt=\"Guilherme, 3 anos\" width=\"284\" height=\"197\" \/><p id=\"caption-attachment-422\" class=\"wp-caption-text\">3 anos, Hidrocor fina sobre papel sulfite, 31,5 x 21,5cm.<\/p><\/div>\n<p>Guilherme trabalha linhas, formas, cores, compondo blocos diversos, organizando em figuras. Seu tema preferido s\u00e3o os carros e outros meios de transporte. Faz um caminh\u00e3o-trem, transpondo as figuras em diferentes suportes. Figuras circulares coladas numa folha, como proposta de trabalho j\u00e1 iniciada pela professora, sugeriram a ele as rodas do trem.<\/p>\n<p>No dia seguinte, experimenta um outro tema: dessa vez, os dois recortes retangulares sugeriram uma repeti\u00e7\u00e3o. Estudou o contorno, percorrendo com a canetinha toda a volta do papel, desenvolvendo um outro tema que n\u00e3o tinha aparecido e que n\u00e3o sabemos se poderia um dia aparecer sem a interven\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica da professora ao dar esse papel, recortado dessa forma. Ele fez uma moradia. Essa composi\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o tinha aparecido no seu percurso. Preocupado com sua pesquisa de transporte, encontra nessa proposta um novo problema, num papel recortado. Guilherme teve de pensar como resolver: uma casa lhe pareceu um bom jeito.<\/p>\n<p>O conhecimento que temos acerca da produ\u00e7\u00e3o do Guilherme, at\u00e9 o momento, nos permite ver que ele vai e volta, e que nessa trajet\u00f3ria, como na de todas as crian\u00e7as, n\u00e3o existe uma linearidade. Ao analisarmos o desenho abaixo dir\u00edamos, se n\u00e3o conhec\u00eassemos toda a pesquisa de Guilherme, que ele n\u00e3o figurou nada. Isoladamente parece at\u00e9 uma crian\u00e7a que n\u00e3o sabe figurar. Por\u00e9m, o que vemos ali \u00e9 uma imagem muito bonita, uma tremenda organiza\u00e7\u00e3o de formas, de texturas e uma preocupa\u00e7\u00e3o com o equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>Atenta ao trabalho que essa crian\u00e7a vem desenvolvendo, a professora continua propondo desafios. O tamanho do suporte e a qualidade do papel imp\u00f5em pensar em alternativas gr\u00e1ficas que ele talvez n\u00e3o dominasse<sup>2<\/sup> Num papel muito comprido (0,66 m x 0,12 m), estica o desenho o m\u00e1ximo poss\u00edvel, porque gosta de aproveitar todo o papel. Depois, num fundo preto, precisa resolver a proposta usando apenas a tinta branca. Esse exerc\u00edcio trabalha um contraste do negativo para o positivo que possibilita \u00e0 crian\u00e7a a constru\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de fundo. Essa foi, sem d\u00favida, uma proposta bastante interessante, j\u00e1 que, sem a refer\u00eancia de outros fundos, ele provavelmente n\u00e3o teria como comparar e distinguir.<\/p>\n<div id=\"attachment_423\" style=\"width: 308px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-423\" class=\"size-full wp-image-423\" title=\"avisala_03_conhecendo77\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_conhecendo77.jpg\" alt=\"Guilherme, 7 anos\" width=\"298\" height=\"221\" \/><p id=\"caption-attachment-423\" class=\"wp-caption-text\">7 anos, Giz de cera, l\u00e1pis de cor, esferogr\u00e1fica, hidrocor grossa e fina sobre papel sulfite (caderno de desenho), 20 x 27,5cm.<\/p><\/div>\n<p>Mais uma vez, ao final dessa seq\u00fc\u00eancia, vemos todo o conhecimento que Guilherme adquiriu em seus rabiscos, experimenta\u00e7\u00e3o de texturas, as bolinhas e, como n\u00e3o poderia deixar de ser, um meio de transporte tamb\u00e9m. Ele j\u00e1 tem 7 anos e desenha o Titanic, na \u00e9poca em que o filme estava em cartaz. Inevit\u00e1vel aceitar o repert\u00f3rio que as crian\u00e7as trazem de casa, afinal elas se alimentam de tudo! Pais, escola, rua, televis\u00e3o\u2026Com os elementos que v\u00ea no mundo, com o que aprendeu na escola e com a paci\u00eancia que desenvolveu, Guilherme elaborou uma figura com fundo numa abrangente pesquisa de materiais: usa caneta hidrogr\u00e1fica grossa e fina, caneta esferogr\u00e1fica, pastel oleoso, l\u00e1pis de cor, numa composi\u00e7\u00e3o rica, interessante, bonita.<\/p>\n<p>Resta ainda dizer que Guilherme, assim como todas as crian\u00e7as, n\u00e3o sabia, obviamente, aonde iria chegar com seus tra\u00e7os, ou seja, ele n\u00e3o teve a inten\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de chegar aonde chegou. Contudo, n\u00e3o nos permite concluir que sua cria\u00e7\u00e3o vem do nada ou que foi feita por acaso. \u00c9 importante, como se v\u00ea, levar em considera\u00e7\u00e3o todo o conhecimento pr\u00e9vio que a crian\u00e7a possui, ensinando-a a ver o que criou, educando seu olhar e alimentando o seu fazer, componentes imprescind\u00edveis num processo de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em><em>(Agradecemos ao Guilherme por ter cedido sua produ\u00e7\u00e3o, \u00e0 escola Verde Que Te Quero Verde por ter organizado todo esse material e, finalmente, \u00e0 Maria Teresa, m\u00e3e do Guilherme que, com seu cuidado em guardar tudo isso durante anos, nos possibilitou saber tanto sobre o desenho infantil.)<\/em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>(Val\u00e9ria Pimentel, professora de artes visuais, coordenadora de \u00e1rea na Escola Verde Que Te Quero Verde<sup>3<\/sup>, formadora e consultora de escolas de educa\u00e7\u00e3o infantil.)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup> A atividade iniciada \u00e9 um tipo de proposta em que a crian\u00e7a continua o trabalho iniciado anteriormente. Em outros casos, a pr\u00f3pria professora inicia algo que a crian\u00e7a dever\u00e1 concluir, desafiando-a a buscar solu\u00e7\u00f5es para resolver problemas. Podem apresentar desafios uma figura colada sobre um canto do papel, um papel vazado, uma figura colada, um trabalho iniciado por outra crian\u00e7a, entre outros.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup> A escolha de tipos, tamanhos, formas e cores de pap\u00e9is ou de outros suportes, bem como a escolha e a oferta de diferentes materiais, s\u00e3o possibilidade de interfer\u00eancias que ajudam as crian\u00e7as a avan\u00e7ar no seu percurso de cria\u00e7\u00e3o, aprendendo mais sobre os materiais e seu pr\u00f3prio desenho.<\/p>\n<p><sup>3<\/sup>Escola Verde Que Te Quero Verde, Rua Pero Correia, 533 &#8211; Itarar\u00e9 &#8211; S\u00e3o Vicente &#8211; CEP 11320-140 &#8211; Tel: (0xx13) 468-9370 &#8211; www.verde.com.br<\/p>\n<h4><strong>A influ\u00eancia da cultura<\/strong><\/h4>\n<p>A arte da crian\u00e7a, desde cedo, sofre influ\u00eancia da cultura, seja atrav\u00e9s de materiais e suportes com que faz seus trabalhos, seja atrav\u00e9s de imagens e atos de produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica que observa na TV, computador, gibis, r\u00f3tulos,<br \/>\nestampas, obras de arte, v\u00eddeo, trabalhos art\u00edsticos de outras crian\u00e7as etc. A crian\u00e7a \u00e9 aut\u00f4noma ao fazer seus trabalhos art\u00edsticos, embora os fa\u00e7a de maneira cultivada, ou seja, denotando a influ\u00eancia cultural que recebe e revelando:<br \/>\na) o local e a \u00e9poca hist\u00f3rica em que vive;<br \/>\nb) suas oportunidades de aprendizagem;<br \/>\nc) suas id\u00e9ias ou representa\u00e7\u00f5es sobre o trabalho art\u00edstico que realiza e sobre a produ\u00e7\u00e3o de arte \u00e0 qual tem acesso;<br \/>\nd) seu potencial para fazer trabalhos art\u00edsticos e refletir sobre a produ\u00e7\u00e3o de arte.<br \/>\nA crian\u00e7a tem suas pr\u00f3prias id\u00e9ias, interpreta\u00e7\u00f5es, representa\u00e7\u00f5es ou teorias sobre a produ\u00e7\u00e3o de arte e o fazer art\u00edstico. Tais constru\u00e7\u00f5es s\u00e3o edificadas a partir de experi\u00eancias \u2013 que tem ao longo de sua vida \u2013 que envolvem a rea\u00e7\u00e3o com a produ\u00e7\u00e3o de arte, com o mundo f\u00edsico e com<br \/>\no seu pr\u00f3prio fazer. A crian\u00e7a age, reflete, abstrai sentidos de sua experi\u00eancia. A partir disso constr\u00f3i significa\u00e7\u00f5es sobre como se faz,<br \/>\no que \u00e9, para que serve e sobre outros conhecimentos a respeito de arte.<\/p>\n<h4><strong>A import\u00e2ncia da orienta\u00e7\u00e3o educativa<\/strong><\/h4>\n<p>O papel da escola \u00e9 fundamental na forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica, pois favorece para a crian\u00e7a a ordena\u00e7\u00e3o e a continuidade da experi\u00eancia com a arte. Sabemos que a orienta\u00e7\u00e3o educativa \u00e9 um fator de aprendizagem que promove o desenvolvimento do aluno na \u00e1rea, e que a falta de oportunidades educativas adequadas gera diferen\u00e7as qualitativas na produ\u00e7\u00e3o e na reflex\u00e3o sobre a arte entre crian\u00e7as com o mesmo potencial para aprender e criar. Em outras palavras, a orienta\u00e7\u00e3o educativa transforma, dinamiza e promove o desenvolvimento art\u00edstico da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>(Rosa Iavelberg: Pedagogia da Arte ou Arte Pedag\u00f3gica: um alerta para a recupera\u00e7\u00e3o das oficinas de percurso de cria\u00e7\u00e3o pessoal no ensino da arte. P\u00e1tio, revista pedag\u00f3gica, ano I, n\u00ba 1, maio \/ junho de 1997, ed.Artes M\u00e9dicas).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trajet\u00f3ria do desenho num percurso criador. Conhecer a crian\u00e7a por meio de suas produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, na perspectiva de um percurso de cria\u00e7\u00e3o na \u00e1rea, \u00e9 o desafio que propomos. Por Val\u00e9ria Pimentel<\/p>\n","protected":false},"author":23,"featured_media":2962,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,99],"tags":[1101,28,124,32,126,33,125,123],"class_list":{"0":"post-407","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-conhecendo-a-crianca","8":"category-revista-avisala-03","9":"tag-revista-avisa-la-2000","10":"tag-arte","11":"tag-criacao","12":"tag-desenho","13":"tag-desenho-infantil","14":"tag-pintura","15":"tag-rabiscos","16":"tag-tracos","18":"post-with-thumbnail","19":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/407","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/23"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=407"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/407\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2962"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=407"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=407"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=407"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}