{"id":397,"date":"2000-04-16T20:40:31","date_gmt":"2000-04-16T23:40:31","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=397"},"modified":"2023-11-10T09:13:09","modified_gmt":"2023-11-10T12:13:09","slug":"o-que-os-muros-contam-sobre-a-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/sustanca\/o-que-os-muros-contam-sobre-a-cidade\/","title":{"rendered":"O que os muros contam sobre a cidade"},"content":{"rendered":"<h5>As cidades brasileiras convivem, nos \u00faltimos anos, com a polui\u00e7\u00e3o visual em seus muros.Tem de tudo: an\u00fancios, grafites e picha\u00e7\u00f5es as mais variadas. Estas \u00faltimas s\u00e3o as mais agressivas, feitas por gangues juvenis que buscam essa forma de express\u00e3o para dar vaz\u00e3o \u00e0 sua rebeldia. As casas, pr\u00e9dios e escolas tamb\u00e9m sofrem essa a\u00e7\u00e3o. Em um centro de juventude, no bairro de Pedreira, na cidade de S\u00e3o Paulo, depois que banheiros e demais depend\u00eancias amanheceram pichados, educadoras desenvolveram um projeto que buscou dar sentido e significado ao desejo de express\u00e3o dos jovens.<\/h5>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>Os muros do bairro<\/strong><\/p>\n<p>T\u00ednhamos como objetivo a valoriza\u00e7\u00e3o do ambiente do centro pelas crian\u00e7as e, por conseguinte, que elas pudessem respeitar e cuidar dos muros da cidade. Procuramos focar o trabalho na \u00e1rea de artes, com conte\u00fados espec\u00edficos, tais como: misturar e preparar tintas, ampliar desenhos, trabalhar esbo\u00e7os, estudar fundos, contornos. Al\u00e9m disso, buscamos ampliar o conhecimento das crian\u00e7as sobre as diferen\u00e7as entre pichar, grafitar e fazer pintura mural. Procuramos tamb\u00e9m introduzir informa\u00e7\u00f5es sobre artistas reconhecidos que usaram muros como suporte para suas obras. Como o objetivo compartilhado com as crian\u00e7as era pintar um dos muros do nosso C.J<sup>1<\/sup>, o S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, quisemos estudar mais sobre o uso desse suporte de pintura. Sa\u00edmos com as crian\u00e7as pelas ruas do bairro para pesquisar as imagens que apareciam nos muros. Cada grupo encarregou-se de fotografar o que encontrou. Discutimos as fotos nas rodas de conversa que temos usualmente. Descobrimos que existe uma grande diversidade de marcas e imagens nas paredes do nosso bairro. Fomos pesquisar as diferen\u00e7as entre elas e chegamos aos seguintes tipos: picha\u00e7\u00e3o, grafitagem, tags e outras pinturas. Levamos, ent\u00e3o, os livros sobre Diego Rivera e Siqueiros, grandes muralistas, para que pud\u00e9ssemos conhecer outros tipos de produ\u00e7\u00e3o em mural.<\/p>\n<p>Na verdade, educadores e crian\u00e7as se encantaram com suas obras, e decidimos em comum acordo que nosso muro teria uma pintura de cunho social, a exemplo da obra de Rivera. Portanto, precis\u00e1vamos escolher o assunto.<\/p>\n<p><strong>O povo nas ruas<\/strong><\/p>\n<p>Quer\u00edamos um projeto que pudesse contar as conquistas dos movimentos sociais que marcaram a hist\u00f3ria do nosso bairro, tal como fizeram os muralistas mexicanos. Realizamos, ent\u00e3o, um levantamento dos movimentos significativos que aconteceram aqui e escolhemos o Movimento Sa\u00fade Pedreira Cupec\u00ea. Para iniciar a pesquisa, mostramos \u00e0s crian\u00e7as alguns v\u00eddeos que contavam epis\u00f3dios da luta pelo hospital e propusemos a elabora\u00e7\u00e3o de roteiros de perguntas para entrevistar um dos membros do Movimento Sa\u00fade. Descobrimos que o primeiro movimento para a constru\u00e7\u00e3o desse hospital aconteceu em 1984. Como a prefeitura ainda n\u00e3o havia assumido nenhum compromisso, no dia 20 de setembro de 1987 o povo acampou no local onde deveria ser constru\u00eddo o hospital: homens, mulheres e crian\u00e7as deram as m\u00e3os, conseguindo cercar o local onde seria constru\u00eddo o hospital, gritando o lema &#8220;povo unido, jamais ser\u00e1 vencido&#8221;. Dois anos depois, iniciaram-se as obras, num ritmo bastante lento. Em 1995, o movimento conseguiu que as autoridades respons\u00e1veis assinassem uma carta de compromisso que garantisse a constru\u00e7\u00e3o do hospital. Essa obra s\u00f3 foi conclu\u00edda em 1998, 14 anos depois da primeira reivindica\u00e7\u00e3o. No dia 26 de junho desse mesmo ano a popula\u00e7\u00e3o comemorou a inaugura\u00e7\u00e3o da t\u00e3o esperada obra: Hospital Pedreira Cupec\u00ea. T\u00ednhamos ent\u00e3o nosso tema para o mural.<\/p>\n<div id=\"attachment_401\" style=\"width: 297px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-401\" class=\"size-full wp-image-401 \" title=\"avisala_03_sustanca2\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_sustanca2.jpg\" alt=\"mural do CJ\" width=\"287\" height=\"232\" \/><p id=\"caption-attachment-401\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Povo unido jamais ser\u00e1 vencido&#8221; Detalhe do mural do CJ<\/p><\/div>\n<p><strong>O povo no muro<\/strong><\/p>\n<p>Numa visita ao hospital, as crian\u00e7as puderam trabalhar seus esbo\u00e7os tendo em vista aquele espa\u00e7o e sua hist\u00f3ria. A pr\u00e1tica do esbo\u00e7o nos pareceu uma boa maneira de ajudar as crian\u00e7as a analisar as pr\u00f3prias produ\u00e7\u00f5es, podendo errar, corrigir, ensaiar e melhorar. Nos desenhos que elas fizeram, dos momentos da hist\u00f3ria do hospital, puderam experimentar algumas das t\u00e9cnicas que Diego Rivera e Siqueiros utilizavam nos muros que pintavam. O estudo do volume da figura foi fundamental. Tamb\u00e9m pedimos ao artista pl\u00e1stico Carlos Alonso que fizesse uma oficina ensinando o grupo a elaborar moldes e outras t\u00e9cnicas usadas nesse suporte. Conclu\u00edda a fase dos esbo\u00e7os, pedimos ao grupo que seq\u00fcenciasse todos os desenhos, recontando, por meio deles, a hist\u00f3ria da luta do povo pelo hospital. Propusemos ainda a an\u00e1lise daquelas produ\u00e7\u00f5es para que pudessem escolher algumas que seriam transpostas do papel para o muro. Divididas em subgrupos, as crian\u00e7as se organizaram para preparar a tinta, ampliar o desenho na parede e, finalmente, concluir os murais.<\/p>\n<p>O resultado final agradou a todos, crian\u00e7as, educadores e visitantes. O projeto Pintura Total ofereceu in\u00fameros conhecimentos sobre pintura mural e possibilitou \u00e0s crian\u00e7as o contato com as organiza\u00e7\u00f5es de bairro e os movimentos sociais. Elas puderam conhecer as maneiras pelas quais os cidad\u00e3os lutam e reivindicam seus direitos e ainda puderam comunicar todas essas id\u00e9ias por meio da express\u00e3o pl\u00e1stica.<\/p>\n<p><sup>1<\/sup> Centros de Juventude s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es educativas que atendem crian\u00e7as de 7 a 14 anos, com fun\u00e7\u00e3o complementar \u00e0 escola.<\/p>\n<p><strong>Vocabul\u00e1rio pesquisado pelas crian\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p><em>Picha\u00e7\u00e3o: <\/em>\u00e9 a marca na parede, sem nenhuma elabora\u00e7\u00e3o, em geral com uma \u00fanica cor. S\u00e3o nomes de gangues, palavras, rabiscos etc. N\u00e3o tem prop\u00f3sitos art\u00edsticos, seu principal objetivo \u00e9 desafiar a ordem social, viver uma aventura enfrentando perigos, por isso seus autores buscam lugares proibidos e in\u00f3spitos, como pr\u00e9dios altos e pontes.<\/p>\n<p><em>Tag: <\/em>termo surgido entre os grafiteiros americanos que serve para designar a pesquisa gr\u00e1fica sobre as letras.<\/p>\n<p><em>Grafitagem:<\/em> \u00e9 uma marca mais elaborada, que tem prop\u00f3sitos art\u00edsticos. Origina-se nos anos 80, atendendo ao objetivo de tirar a arte dos museus e coloc\u00e1-la na rua, garantindo o acesso a todos. Geralmente \u00e9 colorida, feita com tinta spray e m\u00e1scara (molde vazado), que permitem uma r\u00e1pida aplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Diego Rivera e a Pintura Muralista Mexicana<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_402\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-402\" class=\"size-full wp-image-402\" title=\"avisala_03_sustanca\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_sustanca.jpg\" alt=\"Sexta-feira Santa no Canal de Santa Anita, Rivera\" width=\"270\" height=\"343\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_sustanca.jpg 270w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_sustanca-236x300.jpg 236w\" sizes=\"auto, (max-width: 270px) 100vw, 270px\" \/><p id=\"caption-attachment-402\" class=\"wp-caption-text\">Rivera, do ciclo Vis\u00e3o Pol\u00edtica do Povo Mexicano: Sexta-feira Santa no Canal de Santa Anita, 1923-1924. Um dos 235 murais do edif\u00edcio da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica, Cidade do M\u00e9xico; 456 x 356cm.<\/p><\/div>\n<p>A pintura em paredes tem suas origens num tempo remoto, desde a pr\u00e9-hist\u00f3ria, nas cavernas. Na Antiguidade e Idade M\u00e9dia, essas pinturas ocupavam aposentos e fachadas de pal\u00e1cios, p\u00f3rticos e tetos de igrejas. Essas produ\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o encontradas na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>No M\u00e9xico, a pintura muralista ganhou muita for\u00e7a com o crescimento dos movimentos sociais do in\u00edcio do s\u00e9culo. Em meio a efervesc\u00eancia revolucion\u00e1ria, surge Diego Rivera (1886-1957), artista de forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, engajado em seu tempo, que se dedicou \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de enormes pain\u00e9is cuja fun\u00e7\u00e3o era exaltar o povo mexicano e os ideais socialistas e humanit\u00e1rios das revolu\u00e7\u00f5es populares. Seus murais, medindo de 2 a 6 metros, aproximadamente, est\u00e3o em muitos lugares p\u00fablicos, como a fachada de um teatro no M\u00e9xico, fachadas e alas internas de pr\u00e9dios onde funcionam o poder p\u00fablico, museus, centros culturais, etc.<\/p>\n<h5><strong>Ficha T\u00e9cnica<\/strong><\/h5>\n<p>Esse projeto foi elaborado e desenvolvido por Am\u00e9lia de Oliveira Mello e Natil Fernandes Rafael, realizado no Centro Educacional S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, da Obra Social Santa Rita, no segundo semestre de 98, e dele participaram crian\u00e7as de 10 a 14 anos. Apoio: Instituto C&amp;A.<\/p>\n<h4><strong>Para saber mais:<\/strong><\/h4>\n<ul>\n<li>http:\/\/mexico.udg.mx\/arte<\/li>\n<li>Rivera, ed. Taschen<\/li>\n<\/ul>\n<h6><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> Em um centro de juventude, no bairro de Pedreira, na cidade de S\u00e3o Paulo, depois que banheiros e demais depend\u00eancias amanheceram pichados, educadoras desenvolveram um projeto que buscou dar sentido e significado ao desejo de express\u00e3o dos jovens. 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