{"id":3939,"date":"2009-05-10T15:08:43","date_gmt":"2009-05-10T18:08:43","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=3939"},"modified":"2023-03-27T19:10:27","modified_gmt":"2023-03-27T22:10:27","slug":"pensamento-sincretico-em-conversas-infantis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisala-38\/pensamento-sincretico-em-conversas-infantis\/","title":{"rendered":"Pensamento sincr\u00e9tico em conversas infantis"},"content":{"rendered":"<h5>Compreender as falas das crian\u00e7as \u00e9 tarefa fundamental dos profissionais da educa\u00e7\u00e3o infantil<\/h5>\n<div id=\"attachment_3941\" style=\"width: 258px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3941\" class=\"size-full wp-image-3941 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/aprendendo2.jpg\" alt=\"aprendendo2.jpg\" width=\"248\" height=\"280\" \/><p id=\"caption-attachment-3941\" class=\"wp-caption-text\">Luciano, 5 anos (borboletas vermelhas) \/ Ingrid, 5 anos (borboleta azul)<\/p><\/div>\n<p>Neste artigo, s\u00e3o apresentadas an\u00e1lises de conversas entre crian\u00e7as de 4 a 6 anos<sup>1<\/sup>, todas elas apoiadas nas teorias do psic\u00f3logo e fil\u00f3sofo franc\u00eas Henri Wallon (1879-1962) e do psic\u00f3logo bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934) sobre o pensamento sincr\u00e9tico e suas manifesta\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que \u00e9 precisamente entre 3 e 7 anos que esse pensamento se evidencia em crian\u00e7as. Esse tema foi escolhido pelo interesse que as falas dos pequenos podem despertar em quem os observa ou os acompanha. Antes, por\u00e9m, uma r\u00e1pida explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sincretismo \u00e9 uma qualidade do pensamento infantil, que imprime \u00e0 linguagem caracter\u00edsticas \u00fanicas, bem pr\u00f3ximas da estrutura po\u00e9tica. Por essa raz\u00e3o, parece leg\u00edtimo refletir sobre como os adultos atuam diante dessas manifesta\u00e7\u00f5es. Tive a oportunidade de observar diferentes rodas de conversas, de participar de algumas delas e de elaborar outras tantas durante os tr\u00eas anos de faculdade. Esses momentos foram poss\u00edveis por conta dos est\u00e1gios de observa\u00e7\u00e3o, pela possibilidade de acompanhar a elabora\u00e7\u00e3o dessas aulas pelas professoras dos cursos e, mais recentemente, pela minha atua\u00e7\u00e3o como professora de Educa\u00e7\u00e3o Infantil.<\/p>\n<p>Com isso, pude observar maneiras e procedimentos distintos de educadores ao conduzirem as conversas propostas \u00e0 roda, estimuladas pelos mais variados acontecimentos cotidianos t\u00e3o caracter\u00edsticos dessa etapa da educa\u00e7\u00e3o: o desenvolvimento de projetos, interesses compartilhados entre as crian\u00e7as ou novidades, temperados pela individualidade de cada participante. Sentia certo inc\u00f4modo ao ver desperdi\u00e7adas ou descartadas falas infantis interessantes apenas por parecerem fora de contexto ou por suscitarem d\u00favidas quanto \u00e0 sua veracidade. E ao tomar conhecimento acerca das caracter\u00edsticas do pensamento sincr\u00e9tico, minha inquieta\u00e7\u00e3o aumentou.<!--more--><\/p>\n<p><strong>Tipos de pensamento<\/strong><br \/>\n\u00c9 importante prestar aten\u00e7\u00e3o aos enunciados e \u00e0s conversas das crian\u00e7as para que possam perceber a coer\u00eancia e a beleza de suas manifesta\u00e7\u00f5es orais. Um exemplo<sup>2<\/sup>:<\/p>\n<p>Professora \u2013 Ma, o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo?<br \/>\nMariana \u2013 Um Pin\u00f3quio.<br \/>\nProfessora \u2013 E como \u00e9 isso?<br \/>\nCarlos \u2013 N\u00e3o \u00e9 Pin\u00f3quio, Mariana. Eu j\u00e1 falei. \u00c9 um bin\u00f3culo.<br \/>\nMarcela (rindo) \u2013 Pin\u00f3quio \u00e9 do desenho.<br \/>\nJonas \u2013 Ontem o Pin\u00f3quio veio buscar meu dente.<\/p>\n<p>Nesse caso, \u00e9 poss\u00edvel notar como \u201cbin\u00f3culo\u201d e \u201cPin\u00f3quio\u201d se misturam pela semelhan\u00e7a sonora. Perceber isso nos faz pensar na import\u00e2ncia da qualidade da escuta e da media\u00e7\u00e3o do adulto nessas situa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o raras vezes o falar de uma crian\u00e7a pequena pode desconcertar o professor, principalmente se ele, ao se relacionar com ela, esperar que seu pensamento seja organizado e objetivo. Isso \u00e9 exigir algo que a crian\u00e7a n\u00e3o pode dar por n\u00e3o ter ainda a estrutura e a l\u00f3gica do adulto.<\/p>\n<p>Segundo Wallon, podemos identificar quatro caracter\u00edsticas referentes ao pensamento sincr\u00e9tico: fabula\u00e7\u00e3o, tautologia, elis\u00e3o e contradi\u00e7\u00e3o. Fabula\u00e7\u00e3o refere-se \u00e0 inven\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias e conceitos: No meu pr\u00e9dio pegou muito fogo e queimou gente. Queimou eu e o meu irm\u00e3o. Tautologia \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o de palavras com vistas a uma defini\u00e7\u00e3o: O Sol \u00e9 uma bola que (&#8230;) muito Sol nele e fica calor, porque o Sol fica no alto.<\/p>\n<p>A elis\u00e3o pode ser percebida em conversas nas quais parece n\u00e3o haver muito sentido, d\u00e3o a impress\u00e3o de estarem incompletas ou pela aus\u00eancia de respostas \u00e0s perguntas formuladas. Observamos isso no seguinte di\u00e1logo:<\/p>\n<p>\u2013 Do que voc\u00ea est\u00e1 brincando?<br \/>\n\u2013 Eu n\u00e3o estou gritando.<br \/>\n\u2013 Mas eu perguntei do que voc\u00ea est\u00e1 brincando.<br \/>\n\u2013 U\u00e9, de gritar e cantar e ser alto.<\/p>\n<p>E contradi\u00e7\u00e3o, muito comum no pensamento infantil, \u00e9 uma ideia usada para definir ou explicar algo que n\u00e3o se conserva, sendo rapidamente substitu\u00edda por outra, contradit\u00f3ria, na express\u00e3o oral. Podemos constat\u00e1-la na seguinte fala:<\/p>\n<p>\u2013 Nikollas, me empresta qualquer caneta, mas eu quero azul.<\/p>\n<p><strong>Livre para fabular<\/strong><br \/>\nTranscrevemos a seguir a conversa entre Mariana (5 anos e 6 meses), Marcela (5 anos e 7 meses), Jonas (4 anos e 11 meses) e Amanda (5 anos) durante uma atividade diversificada:<\/p>\n<p>Mariana \u2013 Eu vou contar tudo de novo que ningu\u00e9m escutou. Pra Gabi agora. \u00d4 Gabi, vem escutar o que aconteceu comigo l\u00e1 na praia.<br \/>\nProfessora \u2013 O qu\u00ea?<br \/>\nMariana \u2013 Deixa eu te contar o que aconteceu l\u00e1 na praia.<br \/>\nProfessora \u2013 H\u00e3?<br \/>\nMariana \u2013 Sabe, eu tava brincando com a Sofia l\u00e1 na praia, pertinho l\u00e1 do fundo. Eu tava brincando.<\/p>\n<p>A\u00ed, eu sa\u00ed do mar pra pegar pipoca com o meu irm\u00e3o. A\u00ed, o mar cobriu a Sofia, que a Sofia se afogou. A\u00ed, eu e o meu irm\u00e3o acabamos de comer tudo a pipoca, a gente pulou l\u00e1 no fundo do mar e o jacar\u00e9 queria comer eu, meu irm\u00e3o e a Sofia. A\u00ed, eu salvei a Sofia. A Sofia foi no hospital, eu acordei e a gente fez as pazes e viveram felizes para sempre. Foi assim.<\/p>\n<p>Professora \u2013 Nossa, que aventura!<\/p>\n<p>Mariana se dirige ao colega que est\u00e1 sentado numa cadeira pr\u00f3xima e diz \u2013 \u00d3, posso te contar um a coisa: \u00c9 l\u00e1 na praia.<br \/>\nJonas \u2013 O qu\u00ea?<br \/>\nMariana \u2013 Sabe, Jonas, \u00e9 assim: eu tava l\u00e1 na praia brincando com a minha amiga. A\u00ed, o meu irm\u00e3o estava brincando com um amigo dele e eu com a minha amiga. A\u00ed, o mar, ele cobriu o amigo do Gui e a Sofia. A\u00ed, a gente pulou no fundo do mar, a gente tava brincando pertinho do fundo. A\u00ed, a gente comeu uma pipoquinha, eu e o meu irm\u00e3o. A\u00ed, a gente pulou no fundo do mar pra salvar o amigo do Gui. A\u00ed, o Gui fez as pazes com o amigo e eu fiz as pazes com a minha amiga. A\u00ed, foi assim. A\u00ed, nunca mais aconteceu isso.<\/p>\n<p>Amanda (que se aproxima para ouvir a conversa) \u2013 Voc\u00ea nunca mais viu seus amigos?<br \/>\nMariana \u2013 Claro, \u00f3, deixa eu te contar que eu acho que voc\u00ea n\u00e3o entendeu. \u00c9 assim, o Guilherme tava brincando com o amigo dele e eu tava brincando com a Sofia. A\u00ed, a gente saiu para comprar uma pipoquinha. A\u00ed, quando a gente voltamos cad\u00ea o amigo do Gui e a Sofia? Eles estavam afogados l\u00e1 no fundo do mar. A\u00ed, a gente foi corajosos e a gente pulamos no fundo do mar e a gente salvou nosso amigo. A\u00ed, a Sofia falou assim. A\u00ed ela foi no m\u00e9dico e j\u00e1 sarou o amigo do Gui e a minha amiga. A\u00ed, viveu muito bem. A\u00ed, tirei foto da Sofia, o Guilherme tirou foto do amigo e eu tirei foto da Sofia e eu ficava vendo, a\u00ed a Sofia um dia, ela vai vim aqui outro dia eu vim na&#8230; outro dia o Guilherme ia dormir na casa do amigo e na Sofia foi muito divertido essa hist\u00f3ria, muito divertido isso. Olha, eu nunca acreditei, a minha m\u00e3e nunca ia acreditou que eu ia, eu e o Gui salvar um amigo. O Gui ia salvar um amigo e eu ia salvar uma amiga, voc\u00ea acha? Ent\u00e3o foi assim. E a\u00ed, viveram felizes para sempre.<br \/>\nAmanda \u2013 S\u00f3 que voc\u00eas, voc\u00eas nunca mais se viram?<br \/>\nMariana \u2013 N\u00e3o, a gente se viu. Todo dia, a Sofia me via, todo dia. Todo dia a gente ia brincar, s\u00f3 que no rasinho.<br \/>\nJonas \u2013 At\u00e9 agora que voc\u00ea cresceu?<br \/>\nMariana \u2013 N\u00e3o agora a gente n\u00e3o se v\u00ea mais porque eu mudei de escola, n\u00e9? A gente se v\u00ea hoje no meu anivers\u00e1rio a gente se v\u00ea todo dia. O Gui v\u00ea o amigo e eu vejo&#8230;<br \/>\nAmanda \u2013 \u00c9 todo dia o seu anivers\u00e1rio?<br \/>\nMariana \u2013 \u00c0s vezes.<br \/>\nMarcela entra na conversa \u2013 Todo dia?<br \/>\nMariana \u2013 N\u00e3o, n\u00e3o. Deixa eu terminar. A\u00ed eu convido a minha amiga, o Gui convida o amigo, a gente canta parab\u00e9ns, termina o parab\u00e9ns. A\u00ed, demora muito, mais muito, para fazer anivers\u00e1rio de novo. D\u00e1 um sorriso, voc\u00eas tr\u00eas. Ficou legal, muito legal (referindo-se \u00e0 foto imagin\u00e1ria que tirou).<\/p>\n<p>De acordo com os estudos feitos por Wallon, a fala de Mariana revela forte carga afetiva. Ao recontar a hist\u00f3ria, sempre com muita propriedade, a menina faz pequenas altera\u00e7\u00f5es, mas preserva a ess\u00eancia do que deseja contar aos demais, a saber: sua grande aventura, da qual participam o irm\u00e3o g\u00eameo, refer\u00eancia forte em diversas situa\u00e7\u00f5es do cotidiano, uma amiga de sua antiga escola e, mais tarde, um novo amigo de seu irm\u00e3o. A fabula\u00e7\u00e3o \u00e9 marcante. Ao longo das varia\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria, a garotinha relata que sua amiga e o amigo de seu irm\u00e3o se afogam, mas depois tudo fica bem, fim caracter\u00edstico de muitas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel observar que a sequ\u00eancia dos fatos torna-se cada vez mais elaborada. Isso nos faz pensar que a rela\u00e7\u00e3o de Mariana com a leitura de hist\u00f3rias e sua estrutura narrativa acaba impregnando sua express\u00e3o oral. Ela tem gosto e interesse por ouvir, por ler e por escrever hist\u00f3rias, claramente percept\u00edveis em alguns momentos de seu dia, como na roda de hist\u00f3rias e nos in\u00edcios de aula em que ela nos conta sobre leituras que fez. Igualmente prova de seu interesse s\u00e3o os livrinhos que ela mesma constr\u00f3i e ilustra. Caracter\u00edsticas da elis\u00e3o e da contradi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m podem ser constatadas em sua fala: N\u00e3o agora a gente n\u00e3o se v\u00ea mais porque eu mudei de escola, n\u00e9? A gente se v\u00ea hoje no meu anivers\u00e1rio a gente se v\u00ea todo dia.<\/p>\n<p>Em determinado momento, a menina menciona que ela \u2013 ou sua m\u00e3e \u2013 nunca acreditaria que seria capaz de viver o que est\u00e1 contando. Por um lado, isso ilustra o quanto, no pensamento sincr\u00e9tico, realidade e fantasia podem se misturar. Por outro, Mariana segue afirmando a veracidade da aventura, fabulando ao mesmo tempo em que fala, e conseguindo responder sem vacilar \u00e0s perguntas dos colegas. Esses s\u00e3o ouvintes atentos, que escutam e conversam com mais qualidade at\u00e9 que o adulto, que, por ter responsabilidades com todo o grupo, perde a oportunidade de se envolver na conversa. Ali\u00e1s, Mariana parece conseguir fabular e se colocar da maneira que faz justamente por ter um p\u00fablico que a ouve com aten\u00e7\u00e3o. Por encontrar espa\u00e7o \u00e9 que ela tem liberdade de construir um percurso no qual pode atuar sem restri\u00e7\u00f5es, apesar dos desafios das respostas aos colegas. O ambiente n\u00e3o tem a inten\u00e7\u00e3o de desmenti-la ou provar que a sua narrativa nunca aconteceu, nem por parte dos adultos, nem por parte das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar aqui a fun\u00e7\u00e3o fundamental das interven\u00e7\u00f5es que faz o professor. Quaisquer que sejam elas, certamente, provocar\u00e3o efeitos, quer seja no sentido de estimular a capacidade de express\u00e3o da crian\u00e7a, quer seja reprimindo manifesta\u00e7\u00f5es de fantasia, entendendo-as como mentiras. O adulto deve levar em considera\u00e7\u00e3o esse momento do pensamento infantil, de maneira que n\u00e3o sejam desprezadas falas e manifesta\u00e7\u00f5es relevantes para o narrador de uma hist\u00f3ria e at\u00e9 mesmo para o grupo. Um espa\u00e7o acolhedor e democr\u00e1tico, e que respeite a din\u00e2mica do pensamento infantil, \u00e9 fundamental para que os pequenos se sintam seguros e estimulados para o desafio de se comunicar, um dos principais objetivos de uma Educa\u00e7\u00e3o Infantil de qualidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_3942\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3942\" class=\"size-full wp-image-3942 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/aprendendo1.jpg\" alt=\"aprendendo1.jpg\" width=\"450\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/aprendendo1.jpg 450w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/aprendendo1-300x160.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-3942\" class=\"wp-caption-text\">Desenho feito por Isabel, 8 anos<\/p><\/div>\n<p><strong>Forma\u00e7\u00e3o de conceitos<\/strong><br \/>\nDurante as observa\u00e7\u00f5es, havia um grupo que se dedicava a estudar o espa\u00e7o sideral. Em um determinado momento as crian\u00e7as ficaram sabendo que o Sol \u00e9 uma estrela, e o impacto da descoberta foi grande. Transcrevemos a seguir a fala de F\u00e1bio (5 anos e 4 meses):<\/p>\n<p>F\u00e1bio \u2013 Quando o Sol bate numa estrela, pode cair, fazer ficar queimado, mas sempre nasce outra.<br \/>\nProfessora \u2013 Como nasce a estrela?<br \/>\nF\u00e1bio \u2013 Eu sei. Quando o Sol. O espa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 escuro? O Sol vai para outro espa\u00e7o. Tem um morro que ele sempre vai. Na minha casa eu sempre vejo igual num livro de m\u00e1gica.<\/p>\n<p>Como \u00e9 caracter\u00edstico das crian\u00e7as pequenas, F\u00e1bio revela descontinuidades em seu pensamento. Essa maneira de pensar aos pares \u00e9 verificada quando duas palavras se ligam \u2013 por coer\u00eancia de significado, pela carga afetiva ou por sonoridade. Os pequenos encontram a rela\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria e a tomam por verdade. Isso n\u00e3o significa, por\u00e9m, que a hip\u00f3tese n\u00e3o possa ser reformulada ao longo da conversa. H\u00e1 an\u00e1lises em que eles se contradizem e n\u00e3o veem nisso nenhum problema. Assim, podemos perceber na fala do garoto esse instrumento intelectual de que disp\u00f5e nessa fase: os pares. S\u00e3o exemplos da estrutura bin\u00e1ria do pensamento as associa\u00e7\u00f5es estabelecidas por F\u00e1bio, como Sol e estrela.<\/p>\n<p>O menino tenta se apropriar do conte\u00fado estudado, o que se verifica quando ele responde \u00e0 quest\u00e3o. Com isso, podemos perceber tamb\u00e9m a qualidade afetiva da descoberta empregada. No momento em que a conversa foi registrada, al\u00e9m de estudar o espa\u00e7o sideral em livros e em outras fontes com teor cient\u00edfico, as crian\u00e7as eram ao mesmo tempo apresentadas a hist\u00f3rias fict\u00edcias e liter\u00e1rias<br \/>\ncom o mesmo tema. Ao tentar responder \u00e0 quest\u00e3o, F\u00e1bio mescla ideias das diferentes fontes consultadas.<\/p>\n<p>Acompanhemos agora a elabora\u00e7\u00e3o de conceitos durante o faz-de-conta na brincadeira de Mariana (5 anos e 6 meses) e J\u00falia (5 anos e 8 meses):<br \/>\nMariana \u2013 Coloca em mim o vestido da princesa? Ai, que bonita. Ainda bem que eu n\u00e3o tenho mais bab\u00e1, porque eu sou fogo, mesmo. Cris, olha meu beb\u00ea doentinho, t\u00e1 t\u00e3o magrinho.<br \/>\nJ\u00falia \u2013 Vai ao m\u00e9dico.<br \/>\nMariana \u2013 Tem inje\u00e7\u00e3o?<br \/>\nJ\u00falia \u2013 N\u00e3o.<br \/>\nMariana \u2013 Cris, ela n\u00e3o sabe que \u00e9 de mentira? Agora vou colocar uma fantasia.<br \/>\nProfessora \u2013 Voc\u00ea vai trocar a fantasia?<br \/>\nMariana \u2013 N\u00e3o, vou colocar uma mesmo, de verdade. Ai, que dif\u00edcil colocar. \u00c9 que \u00e9 para gente magrinha.<br \/>\nMariana coloca uma fantasia de super-hero\u00edna. Sai para brincar, volta e reclama \u2013 Cris, o Carlos me derreteu.<br \/>\nProfessora \u2013 Uau, como ele conseguiu derreter voc\u00ea?<br \/>\nMariana \u2013 Ah, fazendo, \u00e9 s\u00f3 de faz-de-conta, calma. (Depois de alguns instantes) Botei meu filhinho num bercinho, vou cobrir com um paninho para ningu\u00e9m roubar o meu beb\u00ea.<br \/>\nUma crian\u00e7a desavisada pega o paninho.<br \/>\nMariana \u2013 Ai meu Deus, quem roubou um paninho de nen\u00ea, que tristeza. Agora meu beb\u00ea vai ficar roxinho.<\/p>\n<p>Nesse momento, Mariana apresenta novas e interessantes informa\u00e7\u00f5es. Sua fala revela discernimento entre o que \u00e9 faz-de-conta e o que \u00e9 realidade. Atendo-se ao coment\u00e1rio sobre a dificuldade de vestir a fantasia, podemos considerar que a garota ouviu algu\u00e9m dizer que roupas de tamanho menor s\u00e3o feitas para gente magra em algum dos muitos ambientes nos quais convive e rapidamente incorporou essa informa\u00e7\u00e3o ao seu pr\u00f3prio discurso. Iguais considera\u00e7\u00f5es podem ser feitas a partir de seus coment\u00e1rios dram\u00e1ticos sobre o roubo do paninho de seu nen\u00ea e o fato de que ele ficar\u00e1 roxinho.<\/p>\n<p>Mesmo que Mariana ainda n\u00e3o tenha se apropriado dos significados de muitas palavras ou express\u00f5es, ela j\u00e1 \u00e9 capaz de utiliz\u00e1-las com propriedade. Ela consegue fazer coincidir o contexto social da brincadeira com a vida real, vivendo um processo dial\u00e9tico que permite que j\u00e1 se expresse e se comunique no meio social, mesmo que ainda tenha um longo caminho pela frente no que diz respeito \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de conceitos, que, vale ressaltar, \u00e9 similar \u00e0 brincadeira infantil. Na brincadeira, as crian\u00e7as sempre agem como se fossem mais velhas do que s\u00e3o, fazendo coisas que ainda n\u00e3o podem fazer, como dirigir um carro, cuidar de um beb\u00ea, trabalhar num escrit\u00f3rio etc. Por isso, quando brincam, os pequenos imitam o mundo adulto e se projetam nessas atividades de gente grande, exercitando pap\u00e9is sociais que impulsionam seu desenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>Conhecimento b\u00e1sico<\/strong><br \/>\nAs observa\u00e7\u00f5es e as an\u00e1lises feitas a partir das falas das crian\u00e7as revelaram que, nessa faixa et\u00e1ria, o pensamento \u00e9 marcado por particularidades e possui uma qualidade que n\u00e3o podem ser ignoradas pelos professores de Educa\u00e7\u00e3o Infantil. Da mesma forma, proporcionar momentos em que as crian\u00e7as conversem e responder \u00e0s suas perguntas de forma interessada e desafiadora deveriam ser procedimentos comuns na escola. Isso quer dizer que um bom educador precisa ter o desenvolvimento infantil e suas caracter\u00edsticas entre seus conhecimentos b\u00e1sicos. Saber as fases de desenvolvimento dos pequenos, segundo a perspectiva de v\u00e1rios autores, \u00e9 importante para preparar o profisional para refletir sobre o que \u00e9 realmente Educa\u00e7\u00e3o, ajudando a planejar boas interven\u00e7\u00f5es e fazer com que as intera\u00e7\u00f5es entre crian\u00e7as, bem como delas com adultos, consistam em momentos de aprendizagem.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o podem ser ambientes privilegiados para a observa\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos ligados ao pensamento sincr\u00e9tico, pois \u00e9 o lugar onde as crian\u00e7as s\u00e3o estimuladas a narrar acontecimentos, a interagir com os demais, a formular hip\u00f3teses e criar v\u00ednculos afetivos. Por isso, compreend\u00ea-las e fazer com que elas se expressem, mesmo fabulando e se contradizendo, significa instigar a criatividade e o questionamento. N\u00e3o se pode esquecer que, aos 5 anos, as crian\u00e7as passam por in\u00fameras transforma\u00e7\u00f5es, fazem descobertas importantes acerca de si mesmas e come\u00e7am a desenvolver novas habilidades. O sincretismo de seu pensamento nos revela caracter\u00edsticas fundamentais sobre essa fase. Ignor\u00e1-las ou n\u00e3o consider\u00e1-las impedir\u00e1 o professor de conhecer essas crian\u00e7as como sujeitos singulares.<\/p>\n<p>O pensamento sincr\u00e9tico n\u00e3o \u00e9 um acidente, nem um momento que se deve esperar passar. Ele \u00e9 leg\u00edtimo e tem sua dura\u00e7\u00e3o. Mas cabe aos educadores fazer com que as crian\u00e7as sejam capazes, ao longo de sua forma\u00e7\u00e3o, de conceituar, definir, comparar. A caminhada \u00e9 longa, exige investimento, credibilidade, argumenta\u00e7\u00e3o, respeito, companheirismo e sensibilidade. Sem o gosto pela pesquisa, sem o interesse genu\u00edno pela busca de sentidos e de significado na fala das crian\u00e7as fica dif\u00edcil ser um bom educador.<\/p>\n<p>(Cristiane Abrah\u00e3o, pedagoga pelo Instituto Superior de Educa\u00e7\u00e3o Vera Cruz, em S\u00e3o Paulo \u2013 SP)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>A coleta de dados foi feita a partir das grava\u00e7\u00f5es de \u00e1udio referentes \u00e0s situa\u00e7\u00f5es observadas enquanto as crian\u00e7as estavam envolvidas em diversas situa\u00e7\u00f5es da rotina escolar \u2013 como rodas de conversa e momento de atividade diversificada \u2013 em que elas podiam escolher o canto do qual desejavam participar (pintura, massinha, livros e jogos). A turma contava com 23 crian\u00e7as e duas professoras e as observa\u00e7\u00f5es foram feitas em uma escola particular de Educa\u00e7\u00e3o Infantil da zona oeste da cidade de S\u00e3o Paulo durante o primeiro semestre de 2008<br \/>\n<sup>2<\/sup>Os nomes grafados aqui s\u00e3o fict\u00edcios a fim de preservar a identidade de seus autores.<\/p>\n<h4>Ficha t\u00e9cnica<\/h4>\n<p>Cristiane Abrah\u00e3o &#8211; E-mail: crisa0112@yahoo.com.br<\/p>\n<h4>Para saber mais<\/h4>\n<p><strong>Livros<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>As origens do car\u00e1ter na crian\u00e7a, de Henri Wallon. Ed. Nova Alexandria. Tel.: (11) 5571-5637.<\/li>\n<li>Henri Wallon: uma concep\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica do desenvolvimento infantil, de Izabel Galv\u00e3o. Ed. Vozes. Tel.: (24) 2246-5552.<\/li>\n<li>Pensamento e linguagem, de Lev Semenovich Vygotsky. Ed. Martins Fontes. Tel.: (11) 3241-3677.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compreender as falas das crian\u00e7as \u00e9 tarefa fundamental dos profissionais da educa\u00e7\u00e3o infantil. 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