{"id":3768,"date":"2008-04-07T12:32:22","date_gmt":"2008-04-07T15:32:22","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=3768"},"modified":"2023-03-27T18:55:54","modified_gmt":"2023-03-27T21:55:54","slug":"escrever-e-uma-aventura-que-vale-a-pena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/conteudo-por-edicoes\/revista-avisala-34\/escrever-e-uma-aventura-que-vale-a-pena\/","title":{"rendered":"Escrever \u00e9 uma aventura que vale a pena"},"content":{"rendered":"<p>Um olhar sens\u00edvel e informado sobre as primeiras escritas; preocupado com a autoria e constru\u00e7\u00e3o de significados pelas crian\u00e7as<\/p>\n<div id=\"attachment_3769\" style=\"width: 184px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3769\" class=\"size-full wp-image-3769 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo1.jpg\" alt=\"avisala_34_aprendendo1.jpg\" width=\"174\" height=\"257\" \/><p id=\"caption-attachment-3769\" class=\"wp-caption-text\">Produ\u00e7\u00f5es feitas pelos ex-alunos do Centro Educacional Monteiro Lobato, atual Coeducar &#8211; Vi\u00e7osa &#8211; MG<\/p><\/div>\n<p>Numa tarde ensolarada de domingo, Mayana, com seus cinco anos e meio, apanha uma rosa no jardim, arruma-a com cuidado num vaso com \u00e1gua, leva-a para o quarto, em seguida pega um papel e com os olhos brilhando, realiza a seguinte escrita:<!--more--><\/p>\n<p>\u201cRoza, xeroza, gostoza, voc\u00ea vai crescer demais, da\u00ed voc\u00ea vai ficar cada vez mais bonita\u201d.<\/p>\n<p>Miguel tem seis anos, e na sua turma a expectativa \u00e9 grande em torno de uns girinos que est\u00e3o na oficina de pesquisa e experi\u00eancias. Mas, um dia, um dos girinos aparece morto e, por conta disso, a discuss\u00e3o, na roda, \u00e9 animada. A solu\u00e7\u00e3o: comunicar o fato por escrito:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cMarita, n\u00f3s pedimos para voc\u00ea, precisa comprar comida para os girinos, porque os girinos est\u00e3o morrendo sem comida\u201d.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3770\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo2.jpg\" alt=\"avisala_34_aprendendo2\" width=\"359\" height=\"167\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo2.jpg 359w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo2-300x139.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 359px) 100vw, 359px\" \/><br \/>\nA paix\u00e3o pelo futebol e o trabalho desenvolvido pela turma tamb\u00e9m se mostra forte na escrita de Vitor que, com apenas cinco anos, faz a sua lista de coisas do futebol e ainda arrisca uma comunica\u00e7\u00e3o com um dos \u00eddolos deste esporte: \u201cPel\u00e9, eu gosto de voc\u00ea e quero que voc\u00ea vem aqui em Vi\u00e7osa para me ensinar a jogar Futebol\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Assim como Mayana, Miguel e Vitor, as crian\u00e7as que vivem numa sociedade grafoc\u00eantrica e convivem com uma cultura letrada ensaiam suas experi\u00eancias de leitura e escrita de forma curiosa, investigativa e at\u00e9 ousada. Nem sempre \u201cpedem permiss\u00e3o\u201d aos adultos alfabetizados para tentarem entender o que esse novo objeto de conhecimento representa. Quando Mayana fala da rosa que colheu no jardim, da \u201cROZA, XEROZA, GOSTOZA\u201d, ela transp\u00f5e para a express\u00e3o escrita aquilo que ela aprendeu antes de forma sincr\u00e9tica, pelos sentidos. Quando Miguel descobre uma maneira de dizer que \u00e9 preciso tomar provid\u00eancias \u201cporque os girinos est\u00e3o morrendo sem comida\u201d, ele tem consci\u00eancia da for\u00e7a que o pedido por escrito tem num ambiente fortemente mediado pela escrita, que \u00e9 a escola. J\u00e1 Vitor expressa, por meio do texto, um desejo t\u00e3o forte e, na sua fantasia, t\u00e3o simples de se realizar, como a vinda de seu \u00eddolo \u201cAQI EIN VISOSA\u201d<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3771\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo4.jpg\" alt=\"avisala_34_aprendendo4\" width=\"397\" height=\"196\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo4.jpg 397w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo4-300x148.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 397px) 100vw, 397px\" \/><br \/>\nCarlos Henrique e Kalina, mesmo com 4 anos apenas, reagem sabiamente diante de uma folha dividida em dois espa\u00e7os. Numa das partes \u201cdesenham\u201d, na outra, \u201cescrevem\u201d, embora nenhuma das representa\u00e7\u00f5es seja convencional. Amanda, com apenas 3 anos, faz a sua tentativa e diz: \u201cEu fiz escrita e desenho\u201d, anunciando a sua compreens\u00e3o acerca destas duas formas de express\u00e3o.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3772\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo5.jpg\" alt=\"avisala_34_aprendendo5\" width=\"276\" height=\"461\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo5.jpg 276w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo5-179x300.jpg 179w\" sizes=\"auto, (max-width: 276px) 100vw, 276px\" \/><br \/>\nBetina tem 4 anos e convive com os pais, que s\u00e3o alunos de uma universidade. Ambos est\u00e3o escrevendo suas disserta\u00e7\u00f5es de mestrado, enquanto a pequena Betina tamb\u00e9m experimenta a sensa\u00e7\u00e3o de \u201cfazer um trabalho\u201d. Chega euf\u00f3rica \u00e0 escola com uma folha de papel pautado no qual se l\u00ea a seguinte anota\u00e7\u00e3o<sup>1<\/sup>:<br \/>\n\u201cNo estudo da diverg\u00eancia gen\u00e9tica foram utilizadas t\u00e9cnicas combinadas da An\u00e1lise Multivariada. Estas t\u00e9cnicas apresentam procedimentos para avaliar &#8230;\u201d. Betina diz: \u201cMam\u00e3e come\u00e7ou e eu terminei\u201d.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3773\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo6.jpg\" alt=\"avisala_34_aprendendo6\" width=\"385\" height=\"476\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo6.jpg 385w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo6-242x300.jpg 242w\" sizes=\"auto, (max-width: 385px) 100vw, 385px\" \/><br \/>\nQue significado e que tipo de rela\u00e7\u00e3o com o mundo da escrita est\u00e3o construindo estas crian\u00e7as? Quero chamar a aten\u00e7\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o da escrita como forma de express\u00e3o, de constru\u00e7\u00e3o de significados, de representa\u00e7\u00e3o que o ser humano pode desenvolver e que, muitas vezes, \u00e9 impedida por in\u00fameros fatores: sociopol\u00edticos, sociais e principalmente pedag\u00f3gicos. A constru\u00e7\u00e3o do ser humano, como ser social e cultural, se faz na capacidade de forjar s\u00edmbolos, porque s\u00edmbolo \u00e9 o que significa e, de certa forma, ordena o real. A escrita \u00e9, talvez, o sistema de s\u00edmbolos mais complexo e convencional que a humanidade construiu.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria nos mostra a necessidade que temos de registrar nossa vida por meio de diferentes formas e materiais. J\u00e1 o ser humano primitivo, por meio de pictogramas, deixou sua hist\u00f3ria gravada na parede das cavernas. As crian\u00e7as nos mostram esta mesma necessidade pelos seus rabiscos, seus desenhos e suas escritas, nas paredes, nos brinquedos, nos pap\u00e9is. Isto porque est\u00e3o inseridas numa sociedade grafoc\u00eantrica, em que as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o intensamente mediadas pela escrita.<\/p>\n<p>Se algumas escolas n\u00e3o transformarem esta atividade em tarefa \u00e1rdua e enfadonha, a escrita poder\u00e1 ser vivenciada pela crian\u00e7a, de forma l\u00fadica e prazerosa, como meio de acesso e ressignifica\u00e7\u00e3o de culturas. \u00c9 valioso poder emoldurar momentos significativos por meio da escrita, ligados a acontecimentos verdadeiros e plenos de emo\u00e7\u00e3o, mesmo que faltem elementos formais da escrita ortogr\u00e1fica, espa\u00e7os entre as palavras, pontua\u00e7\u00e3o, omiss\u00e3o ou troca de letras.<\/p>\n<p>Existe no sujeito uma necessidade de escrever, de dar forma e sentido \u00e0s imagens, aos sentimentos, \u00e0s id\u00e9ias, de objetivar aquilo que parece ca\u00f3tico, desordenado, de dizer algo para si e para os outros. Essa escrita verdadeira \u00e9 invariavelmente afastada da escrita escolar em que predominam as marcas da corre\u00e7\u00e3o, do treino, do tra\u00e7ado leg\u00edvel das letras em detrimento do sentido que pode ter para uma crian\u00e7a escrever sobre si, sobre sua vida, tornar-se autora da sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Valorizar a express\u00e3o infantil<\/strong><br \/>\nLuiza, aos 5 anos, preocupa-se em transpor para o papel a sonoridade da l\u00edngua. Est\u00e1 descobrindo que nem sempre a mesma letra possui o mesmo som nas palavras; ent\u00e3o, arrisca o uso do til para apontar essa diferen\u00e7a. \u201cA menina estava passeando quando o cachorro pulou do muro e jogou o sorvete no ch\u00e3o. A menina ficou a vida toda brigando com o cachorro. Fim feliz\u201d.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3774\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo8.jpg\" alt=\"avisala_34_aprendendo8\" width=\"297\" height=\"217\" \/><br \/>\nAndr\u00e9 fala de si, das suas luvas e do sentido que possuem no compartilhamento das amizades. Revela-se pela escrita, mostra como se sente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s luvas, artefato diferente, provavelmente estranho ao ambiente escolar, ao objeto da cobi\u00e7a dos colegas e merecedor desta escrita. Andr\u00e9 utiliza-se de um recurso, comum \u00e0s crian\u00e7as que est\u00e3o resolvendo os usos que fazem dos sinais convencionais da escrita, que \u00e9 o de colocar um ponto para separar as palavras entre si. Percebe-se tamb\u00e9m a utiliza\u00e7\u00e3o de pronome para se referir \u00e0s luvas, misturando a linguagem coloquial com o que poder\u00edamos chamar de linguagem formal. \u201cEu tinha um par de luvas e com essa luva eu ia pra escola. Meus amigos estavam querendo us\u00e1-las e o Guilherme toda hora queria us\u00e1-las. Eu vinha com elas e jogava futebol\u201d.<\/p>\n<p>C\u00e9lestin Freinet, educador franc\u00eas, ferido e profundamente marcado pela I Guerra Mundial, ao iniciar suas atividades pedag\u00f3gicas em 1920, percebe que as crian\u00e7as possuem necessidades vitais que precisam ser respeitadas. Ao romper com as estruturas do ensino formal e propor uma pedagogia voltada para a livre express\u00e3o, Freinet abre caminho para verdades que ainda temos medo de encarar. Cabe observar que Freinet introduziu no espa\u00e7o escolar os recursos t\u00e9cnicos da \u00e9poca, como o tip\u00f3grafo, que permitiu desenvolver a imprensa escolar e dar sentido \u00e0 produ\u00e7\u00e3o escrita das crian\u00e7as, uso dos recursos que a modernidade oferecia privilegiando, acima de tudo, o ser humano. Ele acreditava que n\u00e3o h\u00e1 vida separada da escola; as crian\u00e7as vivem a vida; a escrita \u00e9 a express\u00e3o livre da crian\u00e7a, \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o da alegria, da preocupa\u00e7\u00e3o, da emo\u00e7\u00e3o, dos acontecimentos em formas e estilos diversos.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-3775\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo9.jpg\" alt=\"avisala_34_aprendendo9\" width=\"208\" height=\"298\" \/><br \/>\n<strong>A descoberta da escrita<\/strong><br \/>\nComo potencializar a dimens\u00e3o est\u00e9tica da escrita considerando, sim, que desenhos e escritas possuem diferen\u00e7as, e que nem sempre uma forma pode dispensar a outra, porque escrita e desenho n\u00e3o precisam se separar no decorrer dos anos. Manter a po\u00e9tica da representa\u00e7\u00e3o da vida, embora nem sempre possamos mant\u00ea-la na pr\u00f3pria vida, deveria ser uma das mais importantes metas da escola. Escrever e ler coisas que tocam a alma, que alimentam a cria\u00e7\u00e3o e estimulam a inven\u00e7\u00e3o de novas formas de ser, fazem diferen\u00e7a no mundo. Acredito que, com a escolariza\u00e7\u00e3o tornando-se cada vez mais sin\u00f4nimo de compet\u00eancia, de acelera\u00e7\u00e3o de conhecimentos de uma cultura escolar, n\u00e3o podemos esquecer o que dizia Freinet. \u00c9 preciso buscar o sentido verdadeiro da escrita e da leitura na escola. Partir da atividade espont\u00e2nea das crian\u00e7as; partir de suas atividades mentais, de suas afei\u00e7\u00f5es, de seus interesses, de seus gostos predominantes; partir de suas manifesta\u00e7\u00f5es morais e sociais tais como se apresentam na vida, todos os dias, segundo as circunst\u00e2ncias, os acontecimentos previstos ou imprevistos que sobrev\u00eam, eis o ponto inicial da educa\u00e7\u00e3o. (Freinet, 1979). Eis o suporte para as atividades de produ\u00e7\u00e3o de textos. Respeitar as diferentes experi\u00eancias infantis e transform\u00e1-las em atividades com significado, ricas de sentido, torna-se um desafio para a cultura escolar. Crian\u00e7as como Juliana, Lina e seus colegas de turma fazem listas dos seus gostos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-3776\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo11.jpg\" alt=\"avisala_34_aprendendo11\" width=\"269\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo11.jpg 269w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo11-242x300.jpg 242w\" sizes=\"auto, (max-width: 269px) 100vw, 269px\" \/><\/p>\n<blockquote><p>Eu gosto de:<br \/>\nDa Dani, de tomar sorvete de morango com cobertura de chocolate, de chupar sorvete de uva. Eu adoro a natureza e os bichos. De cachorro. De brincar andando na moto. Gosto do Kaco e do Leco. Que o papai faz gracinha, gosto que mi balan\u00e7a. Eu gosto de pescar. E tamb\u00e9m gosto de ver os cavalos. Eu tamb\u00e9m gosto de quando minha m\u00e3e faz torta de morango de&#8230; Eu gosto da minha cachorra e ela se chama SASCHA e eu tamb\u00e9m gosto do meu outro cachorro e eu tamb\u00e9m gosto da minha m\u00e3e e do meu pai. Ganhar presente que os meus av\u00f3s d\u00e3o.<br \/>\nJuliana, 6 anos<\/p><\/blockquote>\n<p>Enquanto isso, crian\u00e7as como Alfredo e Gabriel brincam com as perip\u00e9cias da \u201cBruxinha\u201d, de Eva Furnari<sup>2<\/sup>, deslocando seus quadrinhos e criando textos para os seus desenhos, ou seja, fazendo leituras de imagens. Embora os dois meninos n\u00e3o possuam um mesmo entendimento de como se estrutura a nossa l\u00edngua portuguesa em toda a sua complexidade, podem expressar o que entendem ou o que lhes faz sentido, mesmo que para isso n\u00e3o se utilizem de todos os signos em sua ordem.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Podemos muito bem ler o que Alfredo escreve, mesmo que utilize \u201cFS\u201d para grafar FEZ, ou que utilize as letras \u201c MAGCA\u201d para escrever M\u00c1GICA e \u201cCDRA\u201d para CADEIRA. Crian\u00e7as, mesmo pequenas, demonstram que a escrita pode ser um ato de prazer, de surpresas, que muitas vezes passam despercebidos pelos professores t\u00e3o preocupados com a certeza, com o acerto, que n\u00e3o conseguem acompanhar a aventura da descoberta.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-3777\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo12.jpg\" alt=\"avisala_34_aprendendo12\" width=\"238\" height=\"356\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo12.jpg 238w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo12-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 238px) 100vw, 238px\" \/><br \/>\nPedro, 5 anos, ainda est\u00e1 explorando sua capacidade de representar o mundo por desenhos como este, cujo tra\u00e7o revela um \u00f4nibus cheio de bancos viajando pelo mundo da sua imagina\u00e7\u00e3o. Logo acima, escreve: \u201cOIUIF~\u201d e l\u00ea: \u201c\u00d4nibus infantil\u201d. \u00c9 gratificante perceber que Pedro ainda n\u00e3o consegue um resultado de escrita nos moldes adultos, mas j\u00e1 \u00e9 capaz de perceber que um til pode ser uma parte de uma palavra. Brincar com palavras \u00e9 poesia, \u00e9 poder movimentar imagens, mem\u00f3rias, transformando palavras em linguagem viva, fecunda, aberta a outras formas e sentidos. Para Gaston Bachelard<sup>3<\/sup> (2001), isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, que pode nos liberar da realidade e permite-nos experimentar o lirismo t\u00e3o necess\u00e1rio \u00e0 vida. Bachelard afirma: Para bem sentir o papel imaginante da linguagem, \u00e9 preciso procurar pacientemente, a prop\u00f3sito de todas as palavras, os desejos de alteridade, os desejos de duplo sentido, os desejos da met\u00e1fora (2001). As crian\u00e7as vivem no mundo da po\u00e9tica movendo-se de maneira leve, solta, at\u00e9 serem engessadas pelas pr\u00f3prias palavras e seus significados.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3778\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo14.jpg\" alt=\"avisala_34_aprendendo14\" width=\"363\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo14.jpg 363w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo14-300x218.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 363px) 100vw, 363px\" \/><br \/>\nGabriela, 6 anos, resolveu fazer um livro. Seu livro compunha-se de duas partes: a capa e uma folha interna com a sua pesquisa. Ela demorou um bom tempo para realizar a obra, mas partindo da sua vontade e interesse, viveu uma aventura pelo mundo das palavras.<\/p>\n<p><strong>A poesia da escrita<\/strong><br \/>\nDificilmente encontraremos a base para este tipo de trabalho nos receitu\u00e1rios de ensino, nos m\u00e9todos ou cartilhas, pois est\u00e1 assentado em algo bem mais profundo, em uma proposta de educa\u00e7\u00e3o voltada para a pedagogia da intera\u00e7\u00e3o e da livre express\u00e3o, para o desenvolvimento da autonomia, da coopera\u00e7\u00e3o, da criatividade, para o desenvolvimento constru\u00eddo na a\u00e7\u00e3o e na rela\u00e7\u00e3o. Cora\u00e7\u00f5es e estrelas podem substituir os pingos dos \u201cis\u201d, \u201cjotas\u201d podem se parecer com gatos, mesmo que n\u00e3o fa\u00e7am parte da grafia deles. Coroas e s\u00f3is precisam brilhar entre as duras letras que a escola nos apresenta e muitas vezes nos faz repetir de maneira mec\u00e2nica.<\/p>\n<p>Aprendemos cedo a \u201cfala\u201d dos desenhos nos dizendo que um cora\u00e7\u00e3o vem sempre acompanhando atos de afeto entre as pessoas, que estrelas n\u00e3o est\u00e3o somente no c\u00e9u, mas fazem tamb\u00e9m brilhar os olhos, e que mesmo que a escola nos ensine a grafia correta das letras, faz diferen\u00e7a endere\u00e7ar uma mensagem cujos entre-lugares das letras estejam repletos de met\u00e1foras, recheados de sentidos. Por isso, Poliana, aos 5 anos, j\u00e1 \u00e9 capaz de fazer um poema e afirmar que n\u00e3o bastam somente as coisas da terra e do ar para que uma planta se transforme em flor: \u00e9 preciso \u201cDI AMOR\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A poesia da flor<br \/>\nA flor precisa de \u00e1gua<br \/>\nE precisa de terra<br \/>\nE precisa de amor<br \/>\n\u00c8 tudo que precisa<br \/>\nPara uma flor<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3779\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo13.jpg\" alt=\"avisala_34_aprendendo13\" width=\"220\" height=\"344\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo13.jpg 220w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo13-191x300.jpg 191w\" sizes=\"auto, (max-width: 220px) 100vw, 220px\" \/><br \/>\nPena que nem sempre consigamos continuar brincando com as palavras depois de passarmos pela escola. S\u00f3 alguns conseguem guardar suas estrelinhas e cora\u00e7\u00f5es para continuar arriscando viver num mundo com as palavras ao contr\u00e1rio. Mas para isso precisam acreditar que existe \u201cuma cidade muito grande\u201d, onde o imprevis\u00edvel ainda pode acontecer, como na hist\u00f3ria da Narah, de 7 anos.<\/p>\n<p><strong>O cachorrinho falante<\/strong><br \/>\nEra uma vez uma cidade muito grande. E na cidade tinha um cachorro que s\u00f3 sabia latir. Um dia um homem pegou o cachorro e fez o cachorro falar. E todo mundo ficou falando:<\/p>\n<p>\u2013 Olha, olha s\u00f3 um cachorro que fala! E o cachorro virou um artista. E o cachorro ficou feliz para sempre. Fim.<\/p>\n<p>A colet\u00e2nea de textos produzidos por essas crian\u00e7as nos ajudam a desvendar a artistagem das escritas, n\u00e3o raras vezes encoberta pela linguagem convencional que aprendemos a ver, ouvir e repetir. Talvez precisemos mudar as formas de linguagem para falar outras l\u00ednguas, deixando que nosso lado sens\u00edvel aflore, nos tire da anestesia da convecionalidade, para dar voz \u00e0 po\u00e9tica da inf\u00e2ncia. Quando as crian\u00e7as mant\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o significativa com o objeto de conhecimento, sabemos que a escrita se mostra muito mais reveladora. Estas crian\u00e7as est\u00e3o trabalhando para al\u00e9m das diferentes fun\u00e7\u00f5es sociais da escrita e, neste contexto, as quest\u00f5es ortogr\u00e1ficas se tornam irrelevantes. Est\u00e3o descobrindo que, mesmo sem dominar a forma convencional de escrita, s\u00e3o capazes de registrar suas experi\u00eancias de maneira criativa, sem press\u00e3o, sem massacre, sem modelos estereotipados e est\u00e9reis. E o mais importante: est\u00e3o descobrindo que suas experi\u00eancias cotidianas merecem ser registradas em papel. Ent\u00e3o o ato de escrever se transforma numa aventura que vale a pena ser vivida.<\/p>\n<p>(Marita Martins Redin, professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos \u2013 Unisinos \u2013 S\u00e3o Leopoldo \u2013 RS)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><sup>1<\/sup> Esse material foi recolhido na d\u00e9cada de 1980, tempo em que os pesquisadores ainda se utilizavam de rascunhos para escrever seus textos, posteriormente digitalizados ou datilografados.<br \/>\n<sup>2<\/sup>Escritora e ilustradora de livros infantis.<br \/>\n<sup>3<\/sup>Fil\u00f3sofo e ensa\u00edsta franc\u00eas<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3780\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo7.jpg\" alt=\"avisala_34_aprendendo7\" width=\"372\" height=\"227\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo7.jpg 372w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo7-300x183.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 372px) 100vw, 372px\" \/><\/p>\n<h4>Ficha t\u00e9cnica<\/h4>\n<p>O texto original foi publicado no Jornal \u201cFolha da Mata\u201d, de Vi\u00e7osa, Minas Gerais, em 1993, a partir das reflex\u00f5es sobre a proposta<br \/>\npedag\u00f3gica do Centro Educacional Monteiro Lobato, Escola de Educa\u00e7\u00e3o Infantil e Ensino Fundamental. Este artigo \u00e9 um recorte da<br \/>\nminha tese de doutorado sobre as mem\u00f3rias dos ex-alunos dessa escola.<\/p>\n<h4>Para saber mais<\/h4>\n<ul>\n<li>A terra e os devaneios da vontade. Ensaio sobre a imagina\u00e7\u00e3o das for\u00e7as, Gaston Bachelard. Ed. Martins Fontes. Tel.: (11) 3241-3677<\/li>\n<li>O itiner\u00e1rio de C\u00e9lestin Freinet: a livre express\u00e3o na pedagogia de Freinet, \u00c9lise Freinet. Ed. Francisco Alves. Tel.: (11) 2240-7989<\/li>\n<li>Formando crian\u00e7as leitoras. Josette Jolibert e colaboradores. Ed. Artes M\u00e9dicas. Tel.: 0800 559033<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3781\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo3.jpg\" alt=\"avisala_34_aprendendo3\" width=\"261\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo3.jpg 261w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/avisala_34_aprendendo3-232x300.jpg 232w\" sizes=\"auto, (max-width: 261px) 100vw, 261px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um olhar sens\u00edvel e informado sobre as primeiras escritas; preocupado com a autoria e constru\u00e7\u00e3o de significados pelas crian\u00e7as. Por Marita Martins Redin<\/p>\n","protected":false},"author":140,"featured_media":3754,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[756,395],"tags":[1109,1325,228,87,32,21,779],"class_list":{"0":"post-3768","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-aprendendo-com-a-crianca","8":"category-revista-avisala-34","9":"tag-revista-avisa-la-2008","10":"tag-alfabetizacao","11":"tag-aprendizado","12":"tag-comunicacao","13":"tag-desenho","14":"tag-escrita","15":"tag-marita-martins-redin","17":"post-with-thumbnail","18":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/140"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3768"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3768\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3754"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}