{"id":3701,"date":"2008-01-05T18:26:35","date_gmt":"2008-01-05T20:26:35","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=3701"},"modified":"2023-03-27T18:51:54","modified_gmt":"2023-03-27T21:51:54","slug":"cuidado-e-educacao-o-trabalho-com-bebes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/jeitos-de-cuidar\/cuidado-e-educacao-o-trabalho-com-bebes\/","title":{"rendered":"Cuidado \u00e9 Educa\u00e7\u00e3o: o trabalho com beb\u00eas"},"content":{"rendered":"<h5>\u201cCuidar \u00e9 mais que um ato; \u00e9 uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de aten\u00e7\u00e3o, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupa\u00e7\u00e3o, preocupa\u00e7\u00e3o, de responsabiliza\u00e7\u00e3o e de envolvimento afetivo com o outro\u201d, Leonardo Boff<sup>1<\/sup><\/h5>\n<div id=\"attachment_3705\" style=\"width: 322px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3705\" class=\"size-full wp-image-3705 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2008\/01\/avisala_33_jeitos21.jpg\" alt=\"avisala_33_jeitos21.jpg\" width=\"312\" height=\"211\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2008\/01\/avisala_33_jeitos21.jpg 312w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2008\/01\/avisala_33_jeitos21-300x202.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 312px) 100vw, 312px\" \/><p id=\"caption-attachment-3705\" class=\"wp-caption-text\">Fotos: Fernanda Carolina Dias Trist\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>A perspectiva moderna de compreender o ser humano em categorias estanques e j\u00e1 definidas implicou fragmenta\u00e7\u00f5es no modo de conceber homens, mulheres e crian\u00e7as. Herdamos a tradi\u00e7\u00e3o de binarismos, em que um componente do par seria mais importante do que o outro. Um exemplo disso \u00e9 a tend\u00eancia de privilegiar a racionalidade, e, conseq\u00fcentemente, as atividades e profiss\u00f5es que supostamente lidam com a mente, preterindo as emo\u00e7\u00f5es e tudo o que se refere ao corpo. Essas dicotomias fizeram-se presentes na hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as pequenas, quer sob a forma da exist\u00eancia de profissionais com fun\u00e7\u00f5es diferentes atuando junto \u00e0s crian\u00e7as, quer na estrutura\u00e7\u00e3o de formas de atendimento diferenciado para crian\u00e7as de meios socioecon\u00f4micos diferentes, ou, ainda, no privil\u00e9gio que as a\u00e7\u00f5es ditas educativas tiveram sobre as a\u00e7\u00f5es ditas de cuidados.<\/p>\n<p>A express\u00e3o cuidar\/educar foi uma tentativa de superar essas antinomias, sendo compreendidas como unidades indissoci\u00e1veis do trabalho pedag\u00f3gico em creches e pr\u00e9-escolas. Desde a d\u00e9cada de noventa, pesquisadores e professores v\u00eam afirmando que o bin\u00f4mio cuidar e educar \u00e9 definidor das a\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas com crian\u00e7as pequenas. Contudo, a pr\u00e1tica dessas institui\u00e7\u00f5es, que vem sendo colocada em evid\u00eancia por diversas pesquisas, mostra que esses termos ainda est\u00e3o entendidos e aplicados de forma dissociada. Assim, \u00e9 predominante a vis\u00e3o do cuidado resumida apenas \u00e0s atividades ligadas ao corpo, bem como da educa\u00e7\u00e3o como a necessidade de ensinar algo, revelando a incapacidade de perceber o ser humano constitu\u00eddo de muitos aspectos que n\u00e3o podem ser descolados uns dos outros.<\/p>\n<p>Em uma pesquisa realizada em uma creche do munic\u00edpio <!--more-->de Florian\u00f3polis, com o objetivo de melhor compreender as pr\u00e1ticas e as rela\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas que acontecem entre professoras e beb\u00eas (crian\u00e7as de at\u00e9 cerca de um ano de idade), foi necess\u00e1rio qualificar, adjetivar e problematizar o significado mais amplo das express\u00f5es cuidar e educar. Quanto menores s\u00e3o as crian\u00e7as, mais se destaca a dimens\u00e3o do cuidado no dia-a-dia das creches. S\u00e3o atos muitas vezes pouco valorizados, em muitos momentos automatizados, mas que n\u00e3o podem ser negligenciados, dada a sua import\u00e2ncia na rela\u00e7\u00e3o com os pequenos. Os cuidados com higiene, alimenta\u00e7\u00e3o, sono, prote\u00e7\u00e3o, amparo e aconchego podem ser ricos espa\u00e7os de trocas afetivas, inser\u00e7\u00e3o social e estimula\u00e7\u00e3o. No entanto, nem sempre essas ocasi\u00f5es s\u00e3o assim aproveitados.<\/p>\n<p>Todas as formas de cuidado s\u00e3o essenciais para a crian\u00e7a pequena, j\u00e1 que \u00e9 por meio do outro, daquele que dela cuida, que tomar\u00e1 contato com suas primeiras impress\u00f5es sobre o mundo, experimentando sensa\u00e7\u00f5es agrad\u00e1veis ou desagrad\u00e1veis. Desse modo, \u00e9 importante que sejam tocadas, acariciadas e respeitadas. A base do cuidado refere-se ao respeito \u00e0 crian\u00e7a, como ser \u00fanico e especial. Todas as crian\u00e7as pequenas t\u00eam o direito de serem educadas e cuidadas, sem hierarquias, pois as duas dimens\u00f5es s\u00e3o essenciais para a possibilidade de viver inf\u00e2ncias voltadas para a emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, contar uma historinha e trocar as fraldas de um beb\u00ea n\u00e3o s\u00e3o atividades incompat\u00edveis ou de valor diferenciado, mas complementares, em uma perspectiva de crian\u00e7a inteira, completa. A hora do banho na creche<sup>2<\/sup>, por exemplo, pode servir ao interesse pedag\u00f3gico\/educativo de reconhecer as partes do corpo, mas tamb\u00e9m pode ser um intenso momento de prazer, de sentir a \u00e1gua batendo no corpo, de estar limpo, de estar sem roupa, livre. Proporcionar situa\u00e7\u00f5es prazerosas \u00e9 (ou deveria ser) uma das especificidades da educa\u00e7\u00e3o dos pequenos:<\/p>\n<blockquote><p>A professora aproxima-se de Jo\u00e3o Victor, que est\u00e1 sentado no colchonete, e fala:<\/p>\n<p>&#8220;Vamos tirar essa roupa para tomar banho?\u201d, leva o menino para o banheiro, no qual a banheira j\u00e1 est\u00e1 preparada para o banho, e fala:<\/p>\n<p>\u201cQue \u00e1gua gostosa, que aguinha boa! T\u00e1 com cheiro de suado, Jo\u00e3o, vamos lavar esse pesco\u00e7o, o cabelo, o meio dos dedinhos, o p\u00e9, lavar atr\u00e1s agora&#8230; Tu gostas de tomar banho, n\u00e9, Jo\u00e3o? Eu s\u00f3 vou cuidar para n\u00e3o molhar o teu ouvido, porque tu est\u00e1s com dor de ouvido. Ai, que banho bem gostoso! Est\u00e1s me molhando toda&#8230;\u201d Altera a voz e fala: \u201cAi, que cheiroso que eu fiquei, eu gostei de tomar banho. Agora eu vou dormir um sono bem gostoso, antes eu n\u00e3o conseguia dormir, estava incomodado\u201d. Volta a falar com a sua voz: \u201cDeixa eu secar bem a tua cabe\u00e7a, o ouvido, debaixo do bra\u00e7o, o peruzinho&#8230; tu n\u00e3o trouxeste pomada hoje. Vamos vestir agora, a cabe\u00e7a&#8230; achou! Agora a m\u00e3o, a outra. Agora tu est\u00e1s feliz, deu, cara?\u201d Finaliza a higiene de Jo\u00e3o com um beijo na barriga do beb\u00ea.<br \/>\n(Registro no caderno de campo)<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9, pois, trabalho de professora reconhecer a crian\u00e7a como um ser inteiro, que precisa estabelecer com ela uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a, de forma a ter a certeza de que ser\u00e1 cuidada para se sentir confort\u00e1vel e segura. Cuidar de crian\u00e7as em ambientes coletivos n\u00e3o \u00e9 uma atividade simples, mas sim complexa e, como tal, exige preparo e compet\u00eancia profissional. \u00c9 importante ressaltar que a afetividade \u00e9 parte fundamental do cuidado, contudo, tem sido um empecilho para a profissionaliza\u00e7\u00e3o da professora de Educa\u00e7\u00e3o Infantil. Por ser a afetividade entendida como intr\u00ednseca ao cuidar, contrap\u00f5e-se ao racional e profissional, elementos extremamente valorizados nas sociedades modernas.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3706 alignright\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2008\/01\/avisala_33_jeitos3.jpg\" alt=\"avisala_33_jeitos3\" width=\"280\" height=\"201\" \/><br \/>\nEssa dicotomia levaria a uma incompatibilidade entre a forma\u00e7\u00e3o profissional e o prover o cuidado do outro. Entendo que \u00e9 poss\u00edvel e necess\u00e1rio educar para o cuidado. A professora do ber\u00e7\u00e1rio da creche pesquisada acreditava que a afetividade era essencial no seu trabalho com os beb\u00eas:<\/p>\n<p>\u201cEm primeiro lugar a afetividade, para mim, que me ajuda nisso. A intera\u00e7\u00e3o deles comigo, com os outros. \u00c9 isso que eu acho que faz o trabalho andar, em primeiro lugar, o carinho que eu dou para eles, que eles me d\u00e3o, que eu acho que fortalece bastante a gente. Tu chega, pega, eles n\u00e3o choram, d\u00e3o tchau para a m\u00e3e, ficam numa boa. Isso \u00e9 sinal de que eles gostam, que s\u00e3o bem tratados aqui. A afetividade est\u00e1 em primeiro lugar. Na minha rela\u00e7\u00e3o com eles eu tenho que ser afetiva, tenho que ser carinhosa para conseguir alguma coisa deles, \u00e9 atrav\u00e9s da afetividade que eu vou contribuir para o desenvolvimento deles.\u201d (Entrevista)<\/p>\n<p>Na verdade, pensando na educa\u00e7\u00e3o, especialmente na Educa\u00e7\u00e3o Infantil, \u00e9 importante ter a clareza de que incorporar atributos afetivos na atua\u00e7\u00e3o profissional n\u00e3o retira dela as caracter\u00edsticas de desempenho t\u00e9cnico necess\u00e1rias para a sua valoriza\u00e7\u00e3o. Certamente ser afetiva \u00e9 uma caracter\u00edstica importante para as professoras de crian\u00e7as pequenas. Paulo Freire<sup>3<\/sup> (1996) j\u00e1 dizia que precisamos descartar como falsa a separa\u00e7\u00e3o entre seriedade docente e afetividade.<\/p>\n<p>Entendendo que o cuidado possui componentes racionais e cognitivos e que, dessa forma, pode ser constru\u00eddo em processos formativos, e considerando que a afetividade est\u00e1 contida no cuidado, podemos afirmar que tamb\u00e9m ela pode ser constru\u00edda, aprendida, de modo que este atributo n\u00e3o pode ser considerado natural, um dom de algumas pessoas.<\/p>\n<p>Numa perspectiva mais ampla, busco um redirecionamento do conceito de cuidar, compreendendo-o em seus aspectos afetivo-emocionais, mas tamb\u00e9m cognitivos, entendendo que incluir atributos afetivos na a\u00e7\u00e3o docente n\u00e3o dispensa a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Compreendendo o cuidado como uma atitude com um prisma racional, podemos afirmar que pensar, refletir e planejar podem ser inclu\u00eddos nesse conceito e, assim, educar para o cuidado torna-se efetivamente poss\u00edvel. No ber\u00e7\u00e1rio pesquisado estas atividades n\u00e3o eram contempladas no planejamento da professora. Os momentos de alimenta\u00e7\u00e3o e de higiene n\u00e3o eram pensados previamente de forma sistematizada No entanto, neste ber\u00e7\u00e1rio houve v\u00e1rias cenas em que as crian\u00e7as \u2013 meninas e meninos \u2013 eram estimuladas a cuidar dos outros beb\u00eas. Percebemos que, desde muito pequenos, podemos educar para o cuidado, para a disponibilidade para com o outro:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cKalil come\u00e7a a chorar, Lucas coloca o bico na boca do outro menino. A professora percebe e diz a Lucas que ele j\u00e1 sabe cuidar do nen\u00ea.\u201d (Registro no caderno de campo)<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201c<\/p>\n<blockquote><p>Samanta senta-se ao lado de Maria Victoria, que est\u00e1 deitada no colchonete, e fica olhando-a atentamente. A professora pede para Samanta fazer carinho na bebezinha, fala para ela cuidar direitinho da pequena. Samanta passa a m\u00e3o na cabe\u00e7a da menina menor. A professora entrega um chocalho para Samanta e diz que ela pode chacoalhar para Victoria e que pode entregar na m\u00e3ozinha dela para ela brincar. Samanta sacode o chocalho na frente da pequena, esta esbo\u00e7a um sorriso e pega o brinquedo da m\u00e3o da menina maior.\u201d<br \/>\n(Registro no caderno de campo)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u201cA professora estava recebendo as crian\u00e7as dos ber\u00e7\u00e1rios I e II, j\u00e1 que hoje \u00e9 o dia da reuni\u00e3o com as fam\u00edlias do ber\u00e7\u00e1rio II. Maria Victoria chega, a professora coloca-a deitada de bru\u00e7os no colchonete. Camila (BII) fala: \u2018Nen\u00ea?\u2019, a professora responde: \u2018\u00c9 a nen\u00ea, Camila, o nome dela \u00e9 Maria Victoria. Cuida dela para mim?\u2019. A menina passa a m\u00e3o no corpinho da pequena, a professora comenta: \u2018Isso, Camila, faz carinho na Victoria\u2019. Victoria (BII) e Samanta tamb\u00e9m se aproximam da nen\u00ea e a professora fala: \u2018Viu, Victoria, a beb\u00ea \u00e9 Victoria igual a voc\u00ea\u2019. A menina maior ri.\u201d (Registro no caderno de campo)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Cuidado, educa\u00e7\u00e3o e cultura<\/strong><br \/>\nUma compreens\u00e3o reducionista do cuidado relaciona-o apenas com o corpo f\u00edsico, afastando a id\u00e9ia de sujeito integral. O cuidado \u00e9 uma caracter\u00edstica intr\u00ednseca \u00e0s rela\u00e7\u00f5es humanas e, portanto, constitutiva da educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas da Educa\u00e7\u00e3o Infantil. Tentando elucidar em linhas gerais a no\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o e pensando em termos hist\u00f3ricos, podemos afirmar que a educa\u00e7\u00e3o, entendida em um amplo espectro, que engloba todos os processos de aquisi\u00e7\u00e3o do conhecimento, independentemente da escola e da educa\u00e7\u00e3o escolar, sempre fez parte da hist\u00f3ria da humanidade. Nesse sentido, torna-se poss\u00edvel pensar a educa\u00e7\u00e3o ligada ao processo de inser\u00e7\u00e3o social e de humaniza\u00e7\u00e3o de pessoas, um processo fundamental para aprender a viver em sociedade.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-3707\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2008\/01\/avisala__jeitos33.jpg\" alt=\"avisala__jeitos33\" width=\"313\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2008\/01\/avisala__jeitos33.jpg 313w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2008\/01\/avisala__jeitos33-300x210.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 313px) 100vw, 313px\" \/><br \/>\nEducar algu\u00e9m, assim, vai muito al\u00e9m do repasse de conte\u00fados, ou de uma preocupa\u00e7\u00e3o exclusiva com o intelecto, j\u00e1 que deve englobar os diversos elementos presentes na cultura e contemplar aspectos referentes, al\u00e9m do cognitivo, ao corpo e \u00e0 moral \u2013 que aqui estou entendendo como as regras de conviv\u00eancia entre humanos. Assim, podemos afirmar que o educar necessariamente inclui o cuidar. Os beb\u00eas do ber\u00e7\u00e1rio em quest\u00e3o tiveram contato com diversos elementos da nossa cultura, por interm\u00e9dio do outro, dos adultos. Relacionaram-se com diferentes formas de linguagem, com a brincadeira, com a fantasia, com o afeto, com o cuidado, com regras de conviv\u00eancia, com a m\u00fasica, a dan\u00e7a, a literatura, o teatro, e as festas da nossa tradi\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Certamente os pequenos n\u00e3o se relacionaram de forma passiva com todos os elementos culturais com os quais conviveram \u2013 tamb\u00e9m experimentaram a sua forma particular de brincar, de dan\u00e7ar, de se comunicar, como co-construtoras sociais e culturais que s\u00e3o. Todas estas experi\u00eancias est\u00e3o impressas em cada uma daquelas crian\u00e7as, marcando-as como pertencentes a um dado tempo hist\u00f3rico, a uma classe social, \u00e0quela comunidade espec\u00edfica e a determinada institui\u00e7\u00e3o educativa, como indiv\u00edduos sociais que recebem e produzem cultura.<\/p>\n<p>Percebendo os v\u00e1rios elementos culturais com os quais os beb\u00eas deste grupo tiveram contato, tendo a possibilidade de explor\u00e1-los, de forma a ressignific\u00e1- los, afirmo o papel das professoras de crian\u00e7as desta faixa et\u00e1ria como impulsionadoras e instigadoras da experi\u00eancia de conhecer e desfrutar dos elementos culturais constru\u00eddos pela humanidade. Na concep\u00e7\u00e3o de Charlot<sup>4<\/sup> a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo pelo qual a crian\u00e7a, que n\u00e3o nasce pronta, constr\u00f3i-se como ser humano, singular e social, que ingressar\u00e1 em uma hist\u00f3ria que \u00e9 individual, enquanto representante \u00fanico da esp\u00e9cie, e tamb\u00e9m coletiva, dos humanos. Isso s\u00f3 pode acontecer pela media\u00e7\u00e3o do outro, no \u00e2mago das rela\u00e7\u00f5es sociais \u2013 s\u00f3 h\u00e1 educa\u00e7\u00e3o onde h\u00e1 troca entre as pessoas e o mundo.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a inser\u00e7\u00e3o dos pequenos no seio de uma cultura entendida de forma ampla. Portanto, o trabalho de uma professora que atua com esta faixa et\u00e1ria \u00e9 proporcionar os primeiros contatos delas com uma cultura diferente da familiar, com experi\u00eancias que n\u00e3o lhes seriam proporcionadas no ambiente dom\u00e9stico. Esses beb\u00eas experimentaram e se aproximaram de v\u00e1rios objetos culturais. Certamente h\u00e1 questionamentos cerca, por exemplo, das m\u00fasicas ou dos livros que foram oferecidos. Esses, geralmente, n\u00e3o eram escolhidos a priori, ou seja, esses recursos n\u00e3o foram selecionados, refletidos e estudados antes e serem utilizados.<\/p>\n<p>Penso, no entanto, que, nesse momento, \u00e9 importante frisar que este oferecimento n\u00e3o \u00e9 neutro, mas parte de modelos culturais pertencentes ao repert\u00f3rio dos adultos. Portanto, \u00e9 importante o papel de uma s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o cultural das professoras da Educa\u00e7\u00e3o Infantil, entendendo ser fundamental que esses profissionais tenham acesso aos conhecimentos produzidos pela humanidade, podendo escolher aquilo que acreditam que realmente vai produzir significado para aquele grupo infantil.<\/p>\n<p>Exp\u00f5e-se, assim, uma concep\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o humana que vai muito al\u00e9m da instru\u00e7\u00e3o e da transmiss\u00e3o de conte\u00fados. O pensamento que da\u00ed adv\u00e9m \u00e9: ser\u00e1 que ainda faz sentido falarmos em educar\/cuidar se n\u00e3o queremos uma inf\u00e2ncia e uma educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o integradas? Em contrapartida, n\u00e3o me parece que as dicotomias hist\u00f3ricas da Educa\u00e7\u00e3o Infantil, e qui\u00e7\u00e1 da constitui\u00e7\u00e3o da sociedade moderna, ir\u00e3o desaparecer pelo simples fato de mudarmos a terminologia: em vez de educar e cuidar, falarmos apenas em educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-3708\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2008\/01\/avisala_33_jeitos4.jpg\" alt=\"avisala_33_jeitos4\" width=\"302\" height=\"197\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2008\/01\/avisala_33_jeitos4.jpg 302w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2008\/01\/avisala_33_jeitos4-300x195.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><br \/>\nPenso que o mais importante este momento seria incluir reflex\u00f5es e problematiza\u00e7\u00f5es s\u00e9rias do bin\u00f4mio educar e cuidar na forma\u00e7\u00e3o das professoras, para que este n\u00e3o seja apenas mais um termo repetido e n\u00e3o entendido. Apenas com a mudan\u00e7a de postura das profissionais da educa\u00e7\u00e3o em enxergar as crian\u00e7as e a si pr\u00f3prias como seres completos, inteiros, nos quais h\u00e1 muitas dimens\u00f5es para se prestar aten\u00e7\u00e3o e para se educar cuidando, \u00e9 que poderemos finalmente afirmar que educa\u00e7\u00e3o \u00e9 cuidado.<\/p>\n<p>(Fernanda Carolina Dias Trist\u00e3o, psic\u00f3loga, pedagoga, mestre em Educa\u00e7\u00e3o pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Santa Catarina)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>Leonardo Boff, te\u00f3logo brasileiro, escritor e professor universit\u00e1rio.<br \/>\n<sup>2<\/sup>A creche em que essa pesquisa foi realizada pertence a uma institui\u00e7\u00e3o que coordena e mant\u00e9m tr\u00eas creches conveniadas com a Prefeitura de Florian\u00f3polis. A fim de conhecer essa institui\u00e7\u00e3o, foram realizadas entrevistas com o diretor geral e a coordenadora geral, bem como buscas em documentos cedidos pela pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<sup>3<\/sup>Educador brasileiro, considerado um dos grandes pedagogos da atualidade, escreveu Pedagogia do Oprimido, livro que o tornou conhecido mundialmente (1921-1997).<br \/>\n<sup>4<\/sup>Veja, ao final deste artigo, as refer\u00eancias sobre as obras citadas.<\/p>\n<h4>Ficha t\u00e9cnica<\/h4>\n<ul>\n<li>E-mail: fefetristao@hotmail.com<\/li>\n<\/ul>\n<h4>Para saber mais<\/h4>\n<ul>\n<li>Saber cuidar: \u00e9tica do humano, compaix\u00e3o pela terra, Leonardo Boff. Ed.Vozes. Tel.: (24) 2246-5552.<\/li>\n<li>Da rela\u00e7\u00e3o com o saber: Elementos para uma teoria, Bernard Charlot. Tradu\u00e7\u00e3o de Bruno Magne. Ed. Artes M\u00e9dicas Sul. Tel.: (51)3330-3444.<\/li>\n<li>Pedagogia da autonomia: Saberes necess\u00e1rios \u00e0 pr\u00e1tica educativa, Paulo Freire. Ed. Paz e Terra. Tel.: (11) 3337-8399<\/li>\n<li>O cuidado e a forma\u00e7\u00e3o moral na Educa\u00e7\u00e3o Infantil, Thereza Montenegro. EDUC \u2013 Editora da PUC-SP. Tel.: (11) 3670-8558.<\/li>\n<li>\u201cO cuidado como elo entre a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o\u201d, Damaris Gomes Maranh\u00e3o, in Cadernos de pesquisa, n.111, p\u00e1gs. 115-133. Ed. Autores Associados Ltda.Tel.: (19) 3289-5930. Resumo dispon\u00edvel nos endere\u00e7os eletr\u00f4nicos: http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/cp\/n111\/n111a06.pdf e http:\/\/www.ced.ufsc.br\/~nee0a6\/dama.html<\/li>\n<li>Ser professora de beb\u00eas: um estudo de caso em uma creche conveniada, Fernanda Carolina Dias Trist\u00e3o \u2013 Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado. 2004. Dispon\u00edvel no endere\u00e7o eletr\u00f4nico: http:\/\/www.ced.ufsc.br\/~nee0a6\/teses.html<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3709\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2008\/01\/avisala_33_jeitos5.jpg\" alt=\"avisala_33_jeitos5\" width=\"326\" height=\"234\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2008\/01\/avisala_33_jeitos5.jpg 326w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2008\/01\/avisala_33_jeitos5-300x215.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 326px) 100vw, 326px\" \/><\/p>\n<h6><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apenas com a mudan\u00e7a de postura das profissionais da educa\u00e7\u00e3o em enxergar as crian\u00e7as e a si pr\u00f3prias como seres completos, inteiros, nos quais h\u00e1 muitas dimens\u00f5es para se prestar aten\u00e7\u00e3o e para se educar cuidando, \u00e9 que poderemos finalmente afirmar que educa\u00e7\u00e3o \u00e9 cuidado. Por Fernanda Carolina Dias Trist\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":135,"featured_media":3702,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,394],"tags":[1109,737,137,542,766,764,765,767],"class_list":{"0":"post-3701","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-jeitos-de-cuidar","8":"category-revista-avisala-33","9":"tag-revista-avisa-la-2008","10":"tag-atencao","11":"tag-cuidado","12":"tag-educacao","13":"tag-educadoras","14":"tag-fernanda-carolina-dias-tristao","15":"tag-postura","16":"tag-profisisonais","18":"post-with-thumbnail","19":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3701","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/135"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3701"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3701\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3702"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3701"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3701"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3701"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}