{"id":3575,"date":"2007-04-29T19:34:02","date_gmt":"2007-04-29T22:34:02","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=3575"},"modified":"2023-03-27T18:45:25","modified_gmt":"2023-03-27T21:45:25","slug":"os-seis-desafios-do-formador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/reflexoes-do-professor\/os-seis-desafios-do-formador\/","title":{"rendered":"Os seis desafios do formador"},"content":{"rendered":"<h5>Formar professores exige saberes refinados, que a formadora Cristiane Pelissare traduziu em um conjunto integrado de desafios a serem continuamente perseguidos<\/h5>\n<p>Tornei-me formadora de professores um pouco por acaso. Esses acasos que com o tempo, e sem a gente perceber, ganham espa\u00e7o, despertam o desejo, provocam mudan\u00e7as e se transformam em casos definitivos. Com o tempo, descobri que ser formador de professores<sup>1<\/sup> n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil. O ato de formar \u00e9 complexo, nem sempre linear ou totalmente prescritivo. Constituir-se formador \u00e9 processual, o que significa, entre outras coisas, tempo, investimento pessoal e disponibilidade para rever-se. Aprender novas formas de ensinar professores pressup\u00f5e tempo para test\u00e1-las, avaliar seus efeitos, realizar ajustes, reavali\u00e1-las. \u00c9 preciso ter a oportunidade de trabalhar com seus pares \u2013 dentro e fora da escola \u2013 partilhar, al\u00e9m de id\u00e9ias e conhecimentos, os sucessos e as dificuldades desse of\u00edcio especializado em transformar pr\u00e1ticas de professores.<\/p>\n<p>Constituir-se formador implica desenvolver, progressivamente, um corpo espec\u00edfico de saberes. Saberes esses que nem sempre coincidem com aqueles do of\u00edcio de professor (origem profissional da maioria dos formadores de professores). E quais s\u00e3o esses saberes? Que compet\u00eancias, habilidades espec\u00edficas, capacidades necessitam desenvolver os formadores para que suas a\u00e7\u00f5es representem mudan\u00e7as efetivas dentro das institui\u00e7\u00f5es \u00e0s quais est\u00e3o vinculados? Na tentativa de dialogar com essas quest\u00f5es e com reflex\u00f5es de alguns formadores experientes, arriscome a elencar seis desafios que considero postos hoje ao contexto da forma\u00e7\u00e3o continuada de professores e, especialmente, aos formadores de professores.<br \/>\n<!--more--><br \/>\n<strong>1. Criar um contexto investigativo de forma\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nRecorrendo ao princ\u00edpio da homologia de processos (que busca coer\u00eancia entre a forma\u00e7\u00e3o recebida pelo professor e o tipo de educa\u00e7\u00e3o que posteriormente lhe ser\u00e1 pedido que desenvolva com seus alunos), entendo que a melhor maneira de formar professores investigativos, reflexivos e cr\u00edticos \u00e9 exp\u00f4-los a uma forma\u00e7\u00e3o mais dial\u00f3gica e menos transmissiva. Uma forma\u00e7\u00e3o que privilegie a an\u00e1lise da pr\u00e1tica pedag\u00f3gica por meio de uma metodologia por resolu\u00e7\u00e3o de problemas.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cUma capacidade que o formador precisa ter \u00e9 problematizar a situa\u00e7\u00e3o de aprendizagem com os professores.\u201d<sup>2<\/sup><\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u201c\u00c9 preciso que o formador tenha a capacidade de analisar as atividades dos professores, saber fazer interven\u00e7\u00f5es e dar devolutivas que auxiliem o professor na sua a\u00e7\u00e3o e na reflex\u00e3o sobre ela. Saber problematizar as situa\u00e7\u00f5es did\u00e1ticas, de forma que o professor possa pensar sobre seus saberes.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Essas afirma\u00e7\u00f5es revelam um desafio cotidiano da profiss\u00e3o de formador: planejar situa\u00e7\u00f5es-problema<sup>3<\/sup> que se convertam, de fato, em momentos de aprendizagem para os professores. Problematizar uma situa\u00e7\u00e3o de aprendizagem com os professores significa intervir na inten\u00e7\u00e3o de destituir certezas, abalar convic\u00e7\u00f5es, instaurar d\u00favidas, desestabilizar. Gosto de pensar com Lino de Macedo<sup>4<\/sup> quando diz que \u201ca situa\u00e7\u00e3o-problema pede um posicionamento, pede um arriscar-se, coordenar fatores em um contexto delimitado, com limita\u00e7\u00f5es que nos desafiam a superar obst\u00e1culos, a pensar em um outro plano ou n\u00edvel. Trata-se, portanto, de uma altera\u00e7\u00e3o criadora de um contexto que problematiza, perturba, desequilibra\u201d.<\/p>\n<p>Isso pressup\u00f5e uma metodologia que, diferente dos modelos tradicionais de forma\u00e7\u00e3o, privilegie a constru\u00e7\u00e3o e o uso de conhecimentos, em vez de apenas a transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3579\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2007\/04\/avisala_30_reflex.jpg\" alt=\"avisala_30_reflex\" width=\"279\" height=\"377\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2007\/04\/avisala_30_reflex.jpg 279w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2007\/04\/avisala_30_reflex-222x300.jpg 222w\" sizes=\"auto, (max-width: 279px) 100vw, 279px\" \/><br \/>\n<strong>2. Analisar as necessidades formativas dos professores <\/strong><br \/>\nPara diminuirmos o descompasso entre os programas de forma\u00e7\u00e3o e as necessidades dos professores, \u00e9 preciso conhecer com maior seriedade e crit\u00e9rio as necessidades formativas. N\u00e3o me refiro aqui apenas \u00e0queles levantamentos de demandas em que os formadores inicialmente \u201couvem\u201d os professores para depois delinearem os objetivos da forma\u00e7\u00e3o, as estrat\u00e9gias a serem utilizadas, os conte\u00fados a serem ensinados, etc. Ou seja, um movimento de ajuste entre a \u201cprocura\u201d de forma\u00e7\u00e3o e a \u201coferta\u201d da mesma. Analisar as necessidades formativas \u00e9 ir muito al\u00e9m desse primeiro diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>Parece-me que nem sempre \u00e9 poss\u00edvel \u201cdelegar\u201d a esse diagn\u00f3stico inicial toda a condu\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o formativa subseq\u00fcente. \u00c9 preciso ultrapass\u00e1-lo.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEu achava que tinha que desvelar essas necessidades para os professores. Quando voc\u00ea est\u00e1 l\u00e1, no dia-a-dia, as coisas ficam meio obscuras. Um olhar diferente, algu\u00e9m que est\u00e1 afastado do fazer consegue enxergar coisas n\u00e3o-\u2018normais\u2019. Eu tento mostrar para elas a necessidade, mas n\u00e3o dizer diretamente. Eu tinha que fazer com que elas pensassem sobre o problema.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Na maioria das vezes, as necessidades formativas dos professores encontram-se, tamb\u00e9m para eles, oculta. Ent\u00e3o, como eles podem identificar um problema de que n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia ainda? A experi\u00eancia com a forma\u00e7\u00e3o de professores tem me mostrado que a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o \u00e9 um ve\u00edculo desencadeador de novas necessidades. Em outras palavras: um dos objetivos da forma\u00e7\u00e3o \u2013 pautada em uma perspectiva reflexiva \u2013 deveria ser a possibilidade de provocar nos professores a \u201cconstru\u00e7\u00e3o\u201d de suas necessidades ou, ainda, de novas necessidades. Tornar o que era inconsciente em um objeto de reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico das necessidades de um grupo de professores n\u00e3o se esgota no momento inicial da forma\u00e7\u00e3o. Ele se estende, se configura e se reconfigura no \u201cdurante\u201d, ao longo da forma\u00e7\u00e3o. Estar atento ao movimento do grupo \u00e9 tarefa do formador. Provocar e ler essas necessidades desencadeadas pela pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o \u00e9 um saber espec\u00edfico a ser, progressivamente, desenvolvido pelos formadores. A observa\u00e7\u00e3o criteriosa e a escuta \u2013 n\u00e3o qualquer escuta \u2013 representam aliados nessa perspectiva.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cSe eu tivesse que tra\u00e7ar um perfil de formador eu diria que teria que ser observador, ouvinte. N\u00e3o ouvinte de cabeceira, mas um ouvinte atento, que busca conhecimento, um pesquisador. Que goste de aprender junto.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>A escuta aqui apontada n\u00e3o tem car\u00e1ter avaliativo e, sim, formativo. O material da observa\u00e7\u00e3o, da escuta, deve estar a servi\u00e7o da atua\u00e7\u00e3o do formador e, principalmente, da aprendizagem dos professores.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cOuvir o professor \u00e9 uma coisa que aprendi e acho que \u00e9 uma compet\u00eancia que a gente tem que desenvolver cada vez mais. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 escutar. Eu tenho que escutar com compreens\u00e3o. Eu tenho que ter a compet\u00eancia de organizar essa escuta para que ela alimente a minha atua\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>3. Analisar as pr\u00e1ticas dos professores em sala de aula<\/strong><br \/>\nPara se fazer formador, \u00e9 preciso ter claro o olhar com que se olha, o modo pelo qual se olha e, ainda, considerar o lugar a partir de onde se olha para determinadas realidades<sup>5<\/sup>. Chamo aqui de \u201crealidades\u201d a sala de aula, a pr\u00e1tica do professor. O saber did\u00e1tico necessita ser observado, analisado, discutido.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cFalta ao formador uma compet\u00eancia que permita ajudar o professor a olhar para sua pr\u00e1tica. Essa \u00e9 uma compet\u00eancia de formador: saber trabalhar com o fazer did\u00e1tico, com os conte\u00fados procedimentais.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Se acreditamos que \u00e9 atrav\u00e9s da reflex\u00e3o sobre sua pr\u00f3pria pr\u00e1tica que o professor avan\u00e7a e que a a\u00e7\u00e3o reflexiva pode ser mais bem realizada pela media\u00e7\u00e3o de um formador, ent\u00e3o, rapidamente se conclui que tomar a aula como objeto de an\u00e1lise \u00e9 um saber imprescind\u00edvel a ser desenvolvido pelos formadores.<\/p>\n<blockquote><p>\u201c\u00c9 preciso que o formador tenha capacidade de analisar as atividades dos professores, saber fazer interven\u00e7\u00f5es e dar devolutivas que os auxiliem.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Analisar as pr\u00e1ticas docentes implica buscar respostas para algumas quest\u00f5es, como, por exemplo: Quais s\u00e3o as situa\u00e7\u00f5es de classe mais produtivas para uma an\u00e1lise? As \u201cboas\u201d ou as \u201cm\u00e1s\u201d? O que observar? O quanto \u00e9 poss\u00edvel abordar na devolutiva ao professor? Como colocar os resultados da an\u00e1lise a servi\u00e7o da aprendizagem do grupo de professores pelo qual o formador \u00e9 respons\u00e1vel? Ou melhor: quais partes de uma an\u00e1lise s\u00e3o generaliz\u00e1veis para outras situa\u00e7\u00f5es?<br \/>\nAcredito que s\u00f3 a discuss\u00e3o coletiva e a reflex\u00e3o sistem\u00e1tica nos ajudar\u00e3o a, progressivamente, encontrar respostas para essas quest\u00f5es. Por\u00e9m, uma coisa \u00e9 certa: \u00e9 preciso entrar nas salas de aula, desvelar esse espa\u00e7o \u201csacralizado\u201d, tom\u00e1-lo como precioso objeto de reflex\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1rio compreender tanto a pr\u00e1tica declarada como aquela desenvolvida pelos professores.<\/p>\n<blockquote><p>\u201c\u00c0s vezes, o professor tem um discurso articulado, mas a sua pr\u00e1tica ainda n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o boa e, \u00e0s vezes, o contr\u00e1rio, o professor n\u00e3o tem um discurso teoricamente t\u00e3o adequado, mas as crian\u00e7as est\u00e3o muito bem na sala de aula. Se voc\u00ea n\u00e3o entrar na sala de aula n\u00e3o funciona.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>4. Atuar em tr\u00e2nsito entre o papel de professor e de formador <\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 raro ouvir dizer que para ser um bom formador \u00e9 preciso ter sido um (bom) professor para, assim, conseguir pensar como eles, colocar-se no lugar deles, sensibilizar-se com seus problemas. Longe de negar a leg\u00edtima import\u00e2ncia da influ\u00eancia da condi\u00e7\u00e3o de professor para a de formador, suspeito que \u00e9 preciso assumir a diferen\u00e7a entre o professor e o formador. Exatamente por terem fun\u00e7\u00f5es diferentes, saberes diferentes, posturas diferentes, \u00e9 que o formador pode propor um outro jeito de olhar, de analisar ou conduzir uma a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cTemos que nos colocar ora muito pr\u00f3ximos da sala de aula, ora distantes, para assim compreender a complexidade desse trabalho com o professor. Quando eu coloco estar distante, \u00e9 voc\u00ea conseguir olhar e perceber aquilo em que o professor precisa melhorar em sua pr\u00e1tica, e a\u00ed falar com ele. Ao mesmo tempo, voc\u00ea precisa estar pr\u00f3ximo da sala de aula para compreender quais s\u00e3o as dificuldades dele, seus conhecimentos pr\u00e9vios.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Em outras palavras, o formador deve ser um componente do grupo, estar pr\u00f3ximo dele e, ao mesmo tempo, ser um outro. Isto porque, nessa posi\u00e7\u00e3o, corremos menos riscos de emba\u00e7ar nosso olhar, de deixar escapar pistas e sinais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica dos professores, suas representa\u00e7\u00f5es, suas teorias impl\u00edcitas. Ser um outro possibilita distanciar-se, analisar a situa\u00e7\u00e3o sob pontos de vista muitas vezes ocultos para o professor.<\/p>\n<p>Ainda que o fato de o formador sensibilizar-se com os problemas do professor, olhar para determinada problem\u00e1tica com olhos de professor ou lhes oferecer sugest\u00f5es de atividades ajude no estabelecimento de v\u00ednculos e na cria\u00e7\u00e3o de um clima de empatia e credibilidade, esse tipo de colabora\u00e7\u00e3o dificilmente ajudar\u00e1 o professor a avan\u00e7ar, de fato, em sua pr\u00e1tica educativa.<\/p>\n<p><strong>5. Compreender os processos de aprendizagem do adulto-professor<\/strong><br \/>\nComo os professores aprendem? Como se d\u00e1 o processo de conhecer desse sujeito-adulto, portador de representa\u00e7\u00f5es sobre escola, sobre como se ensina, como se aprende, qual o papel do aluno, qual o do professor? O que influencia sua aprendizagem? Ser\u00e1 que ensinar adultos \u00e9 como ensinar crian\u00e7as? A an\u00e1lise da maneira como os professores aprendem \u00e9 ainda uma quest\u00e3o pouco debatida no cen\u00e1rio da forma\u00e7\u00e3o docente.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA gente sabe um pouco sobre como as crian\u00e7as aprendem e eu acho que os professores aprendem da mesma forma, assim, fazendo jogos com o conhecimento, fazendo liga\u00e7\u00f5es com aquilo que j\u00e1 sabem.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u201cDe certa forma, quando voc\u00ea lida com crian\u00e7a, voc\u00ea \u00e9 detentora do saber, n\u00e3o h\u00e1 um julgamento por parte deles. Quando voc\u00ea passa para a fun\u00e7\u00e3o de formadora, voc\u00ea est\u00e1 lidando com parceiros iguais. Eles t\u00eam a mesma forma\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Caminhamos por um terreno ainda pouco explorado, mas arrisco dizer que gerenciar um grupo de professores em forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o mesmo que gerenciar uma classe. Atuar como formador de sujeitos adultos (e professores) n\u00e3o consiste simplesmente em p\u00f4r em pr\u00e1tica as habilidades que desenvolveu em sua origem profissional, mas, sim, adquirir outras que, em geral, o trabalho como professor n\u00e3o exigiu.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAssim como os professores precisam olhar para seus alunos e trabalhar a partir dos conhecimentos pr\u00e9vios deles, o formador tamb\u00e9m precisa olhar para o professor.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u201cUma compet\u00eancia que o formador precisa ter \u00e9 pensar como meu aluno aprende, como ele se aproxima dos objetos de conhecimento.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Conhecer tais processos poder\u00e1 estabelecer de melhor forma as fronteiras entre essas duas dimens\u00f5es: ser-professor e ser-formador, dando, assim, maior visibilidade \u00e0s especificidades de cada fun\u00e7\u00e3o. Considerando o n\u00famero de professores que anualmente participa de a\u00e7\u00f5es formativas e os gastos p\u00fablicos que os programas de forma\u00e7\u00e3o representam, penso que esse \u00e9 um tema que precisa ser investigado urgentemente, pois novas descobertas sobre as atitudes dos professores frente \u00e0 forma\u00e7\u00e3o recebida podem possibilitar reorienta\u00e7\u00f5es consistentes no terreno da pol\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estudar, investigar profundamente essas concep\u00e7\u00f5es que orientam as pr\u00e1ticas dos professores permitir\u00e1 criar dispositivos formativos que favore\u00e7am o processo de identifica\u00e7\u00e3o das mesmas. N\u00e3o que, ingenuamente, devamos acreditar que reconhecer as pr\u00f3prias concep\u00e7\u00f5es signifique substitu\u00ed-las, automaticamente, por outras mais coerentes com o conhecimento dispon\u00edvel. Mas, certamente, identific\u00e1-las j\u00e1 representa uma maior possibilidade de, por meio do autoconhecimento e da auto-avalia\u00e7\u00e3o, reconceitualizar pr\u00e1ticas at\u00e9 ent\u00e3o cristalizadas.<br \/>\n<strong><br \/>\n6. Fazer parte de um coletivo de formadores: o trabalho colaborativo<\/strong><br \/>\nAqui gostaria de destacar a necessidade de se instaurar um trabalho de elabora\u00e7\u00e3o colaborativa do conhecimento dentro dos grupos de formadores. \u00c9 preciso considerar que os formadores tamb\u00e9m s\u00e3o sujeitos em forma\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m vivem um processo de desenvolvimento profissional.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cComecei a pensar mais nesse papel de formadora e ter instrumentos para atuar como formadora \u00e0 medida que eu encontrei um grupo de pessoas que faziam a mesma coisa que eu e ali a gente tinha um espa\u00e7o para discutir o que est\u00e1vamos fazendo.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u201cN\u00e3o \u00e9 intuitivo, existe estudo. Ver esse lado da forma\u00e7\u00e3o que eu n\u00e3o via. A gente achava que s\u00f3 conhecer o conte\u00fado que ia ser discutido bastava. Achava que isso era suficiente para ser formador, mas descobri que n\u00e3o \u00e9.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u201c\u00c9 importante encontrar pessoas que possam direcionar seu olhar para alguns aspectos. Eu me lembro que quando eu fazia relat\u00f3rios, eu tinha uma pessoa que me indagava, me ajudava a ver as coisas.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>As falas dos formadores evidenciam a import\u00e2ncia do coletivo na constru\u00e7\u00e3o do conhecimento. A intera\u00e7\u00e3o \u00e9 a engrenagem do saber, exatamente porque nos permite (re) pensar nossas id\u00e9ias \u00e0 luz das dos outros.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA gente sozinho n\u00e3o consegue. A gente acaba se isolando cada um com seus saberes e a\u00ed d\u00e1 impress\u00e3o que n\u00e3o d\u00e1 para compartilhar com o outro. Mas uma coisa que acho fundamental \u00e9 estar refletindo, \u00e9 essa busca.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Viver o coletivo nessa perspectiva \u00e9 trabalhoso, frustrante, \u00e0s vezes, pois envolve a disponibilidade para viver o conflito, a diferen\u00e7a de opini\u00f5es. Exige deslocar-se, sair de si mesmo para considerar o outro. Como diz Saramago<sup>6<\/sup>, \u201cse n\u00e3o sais de ti, n\u00e3o chegas a saber quem \u00e9s&#8230; \u00e9 necess\u00e1rio sair da ilha para ver a ilha&#8230;\u201d Entendo que sair de n\u00f3s, no contexto da forma\u00e7\u00e3o, significa ser co-respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o dos seus pares, do grupo ao qual pertence. Antes de finalizar, gostaria, ainda, de ressaltar que se constituir formador de professores pressup\u00f5e desejar aprender, e n\u00e3o apenas ensinar. Assumir que \u00e9 preciso estudar, dialogar com o conhecimento dispon\u00edvel sobre o assunto, investir na pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o, reivindicar espa\u00e7os de reflex\u00e3o para o desenvolvimento dos saberes espec\u00edficos necess\u00e1rios a sua fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(Cristiane Pelissari, formadora do Instituto Avisa L\u00e1 e do Programa de Forma\u00e7\u00e3o de Professores Alfabetizadores \u2013 Letra e Vida)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>Refiro-me a todos os profissionais que assumiram como uma das suas principais tarefas a forma\u00e7\u00e3o de professores, sejam coordenadores pedag\u00f3gicos, diretores de escola, supervisores, t\u00e9cnicos de secretarias p\u00fablicas e assessores pedag\u00f3gicos<\/p>\n<p><sup>2<\/sup>As falas de educadores que aparecem nesse artigo fazem parte da disserta\u00e7\u00e3o de mestrado: A forma\u00e7\u00e3o dos professores: um tema em discuss\u00e3o. A forma\u00e7\u00e3o dos formadores de professores: um tema em suspens\u00e3o \u2013 Um estudo sobre os saberes dos formadores de professores. Cristiane Pelissari, Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo UMESP, abril de 2005.<\/p>\n<p><sup>3<\/sup>\u201cAs compet\u00eancias para ensinar no s\u00e9culo XXI\u201d \u2013 Philippe Perrenoud e M\u00f4nica Thurler (org.). In Situa\u00e7\u00e3o-problema: forma e recurso de avalia\u00e7\u00e3o, desenvolvimento de compet\u00eancias e aprendizagem escolar. Artmed, 2002.<\/p>\n<p><sup>4<\/sup>Lino de Macedo \u00e9 Professor Titular de Psicologia do Desenvolvimento do Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP. \u00c9 membro do Conselho Consultivo da Revista avisa l\u00e1.<\/p>\n<p><sup>5<\/sup>Trecho da pesquisa \u201cCaminhos, procedimentos, armadilhas&#8230;\u201d, Neusa M. Mendes de Gusm\u00e3o. In: Desafios da pesquisa em Ci\u00eancias Sociais. Centro Rural e Urbano \u2013 CERU, n0 8, S\u00e9rie 2. S\u00e3o Paulo,Humanitas, FFLCH\/USP, 2001, pp. 73-87.<\/p>\n<p><sup>6<\/sup>In O conto da ilha desconhecida, Companhia das Letras, 1999, pp. 16-17.<\/p>\n<h4>As \u201cboas\u201d situa\u00e7\u00f5es de classe<\/h4>\n<p>As situa\u00e7\u00f5es de classe que s\u00e3o mais produtivas de se analisar s\u00e3o as que podem ser caracterizadas como \u201cboas\u201d, porque s\u00e3o estas situa\u00e7\u00f5es que permitem explicitar o modelo did\u00e1tico com que se trabalha; porque a reflex\u00e3o sobre elas torna poss\u00edvel discutir a respeito das condi\u00e7\u00f5es did\u00e1ticas requeridas para o ensino da leitura e da escrita; porque as interroga\u00e7\u00f5es que o capacitador apresenta sobre seu desenvolvimento levam a elaborar conclus\u00f5es positivas acerca da natureza do conte\u00fado que se est\u00e1 ensinando e aprendendo nessa classe e a respeito das interven\u00e7\u00f5es do professor e dos efeitos produzidos por cada uma delas; porque a an\u00e1lise da apresenta\u00e7\u00e3o do conte\u00fado e dos pressupostos que se p\u00f5em em evid\u00eancia sobre o processo de aprendizagem realizado pelas crian\u00e7as gera, nos professores, a necessidade de aprofundar seus conhecimentos tanto sobre o conte\u00fado ling\u00fc\u00edstico em quest\u00e3o como sobre a aprendizagem desse conte\u00fado. Optar por apresentar situa\u00e7\u00f5es \u201cboas\u201d n\u00e3o significa pretender encontrar ou produzir registros de classes \u201cperfeitas\u201d.<\/p>\n<p>(Ler e escrever na escola, o real, o poss\u00edvel e o necess\u00e1rio. Delia Lerner, p.111. Ed. Artmed)<\/p>\n<h4>Para saber mais<\/h4>\n<p><strong>Livros<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>\u201cDiz-me como ensinas, dir-te-ei quem \u00e9s e vice-versa\u201d, A. N\u00f3voa. In: A pesquisa em educa\u00e7\u00e3o e as transforma\u00e7\u00f5es do conhecimento. Ed. Papirus. Tel.: (19) 3272.4500.<\/li>\n<li>A profissionaliza\u00e7\u00e3o dos formadores de professores, Marguerite Altet, L\u00e9opold Paquay e Philippe Perrenoud. Ed. Artmed. Tel.: 0800.703.3444.<\/li>\n<li>Era assim, agora n\u00e3o&#8230; \u2013 uma proposta de forma\u00e7\u00e3o de professores leigos, Regina Scarpa. Ed. Casa do Psic\u00f3logo. Tel.: (11) 3034-3600.<\/li>\n<li>Ler e escrever na escola, o real, o poss\u00edvel e o necess\u00e1rio, Delia Lerner. Ed. Artmed. Tel.: 0800.703.3444.<\/li>\n<li>O conto da ilha desconhecida, Jos\u00e9 Saramago. Ed. Cia. das Letras. Tel.: 11 3707-3500.<\/li>\n<li>Processos formativos da doc\u00eancia: Conte\u00fados e pr\u00e1ticas, Maria da Gra\u00e7a Nicoletti Mizukami &amp; Aline M. de Medeiros R. Reali. Ed. UFSCAR. Tel.: (016) 3351-8014<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Sites<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>O conto da ilha desconhecida, Jos\u00e9 Saramago. http:\/\/www.releituras.com\/jsaramago_conto.asp<\/li>\n<li>Programa Letra e Vida \u2013 Forma\u00e7\u00e3o de Professores Alfabetizadores. http:\/\/cenp.edunet.sp.gov.br\/letravida<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Formar professores exige saberes refinados e desafios a serem continuamente perseguidos. Por Cristiane Pelissari<\/p>\n","protected":false},"author":120,"featured_media":3564,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22,391],"tags":[1108,727,725,726,607,70,318,464],"class_list":{"0":"post-3575","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-reflexoes-do-professor","8":"category-revista-avisala-30","9":"tag-revista-avisa-la-2007","10":"tag-cotidiano","11":"tag-cristiane-pelissari","12":"tag-desafios","13":"tag-formacao","14":"tag-professor","15":"tag-receita","16":"tag-trabalho","18":"post-with-thumbnail","19":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3575","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/120"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3575"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3575\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3564"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3575"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3575"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3575"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}