{"id":3358,"date":"2006-04-23T15:16:41","date_gmt":"2006-04-23T18:16:41","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=3358"},"modified":"2023-03-27T18:16:13","modified_gmt":"2023-03-27T21:16:13","slug":"pensamento-de-crianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/conhecendo-a-crianca\/pensamento-de-crianca\/","title":{"rendered":"Pensamento de crian\u00e7a"},"content":{"rendered":"<h5>Conhecer a forma como a crian\u00e7a pequena pensa pode contribuir decisivamente para transformar as famosas \u201crodas de conversa\u201d em espa\u00e7os reais de aprendizagem e intera\u00e7\u00e3o. Para nos ajudar, dois importantes te\u00f3ricos sobre o desenvolvimento humano: wallon<sup>1<\/sup> e vygotsky2.<\/h5>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3360\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_26_lua1.jpg\" alt=\"avisala_26_lua1\" width=\"272\" height=\"301\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_26_lua1.jpg 272w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_26_lua1-271x300.jpg 271w\" sizes=\"auto, (max-width: 272px) 100vw, 272px\" \/><br \/>\nTanto Wallon como Vygotsky constru\u00edram suas teorias sobre o desenvolvimento humano considerando a natureza, a cultura, as rela\u00e7\u00f5es sociais e as caracter\u00edsticas espec\u00edficas nos diferentes momentos da vida da pessoa. Segundo Wallon, o processo de desenvolvimento humano resulta tanto de seu potencial gen\u00e9tico, quanto das sucessivas situa\u00e7\u00f5es com as quais o sujeito se defronta e que lhe exigem uma resposta.<\/p>\n<p>Na rela\u00e7\u00e3o com o meio, o indiv\u00edduo assume determinadas a\u00e7\u00f5es usando os recursos que j\u00e1 construiu (suas compet\u00eancias motoras, sociais, ling\u00fc\u00edsticas, cognitivas) como condi\u00e7\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o de seus objetivos. Assim, a cada momento do desenvolvimento, aspectos espec\u00edficos do meio ambiente constituem recursos privilegiados para o desenvolvimento humano. Para o beb\u00ea, num primeiro momento, a figura materna ou de seu cuidador \u00e9 o recurso do qual disp\u00f5e para satisfazer suas necessidades e mobilizar sua a\u00e7\u00e3o. Em seguida, ser\u00e1 o mundo dos objetos colocados \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de sua atividade explorat\u00f3ria e depois, seus companheiros com os quais vai interagir e brincar.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nNa rela\u00e7\u00e3o entre Psicologia e Educa\u00e7\u00e3o, uma das principais contribui\u00e7\u00f5es de Vygotsky \u00e0s quest\u00f5es educacionais consistiu na concep\u00e7\u00e3o de que as fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas da crian\u00e7a (mem\u00f3ria, aten\u00e7\u00e3o, abstra\u00e7\u00e3o, fala) s\u00e3o constitu\u00eddas na medida em que s\u00e3o utilizadas, como s\u00e3o praticadas no contexto cultural de seu grupo social.<\/p>\n<p>O ingresso da crian\u00e7a numa institui\u00e7\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o Infantil \u2013 a depender da forma como ela est\u00e1 organizada \u2013 coloca-a diante da possibilidade de novas e variadas experi\u00eancias que promover\u00e3o avan\u00e7os e desenvolver\u00e3o a complexidade de seu pensamento e sua personalidade.<\/p>\n<p><strong>Sincretismo e poesia<\/strong><br \/>\nOs trabalhos de Vygotsky e Wallon t\u00eam destacado que as crian\u00e7as pequenas possuem um pensamento sincr\u00e9tico<sup>3<\/sup>, com forte presen\u00e7a de conex\u00f5es subjetivas, plenas de significado e sentido. Isto quer dizer que nas respostas das crian\u00e7as n\u00e3o aparece a inclus\u00e3o do objeto em um determinado sistema de categorias. N\u00e3o h\u00e1 um significado est\u00e1vel que se pode encontrar em cada palavra que soa igual para todas as pessoas e \u00e9 a principal fun\u00e7\u00e3o da linguagem. Como diz Wallon: constituir-se em um ato de generaliza\u00e7\u00e3o uma vez que a linguagem \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o de instrumentos de uso coletivo.<\/p>\n<p>Ao enfatizar que a crian\u00e7a pequena tem condi\u00e7\u00f5es para elaborar \u201cequivalentes funcionais de conceitos\u201d, Vygotsky chama-nos a aten\u00e7\u00e3o para a condi\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a enquanto sujeito de seu processo e para a sua capacidade de abstra\u00e7\u00e3o, ainda que sincr\u00e9tica e \u00e0s vezes at\u00e9 mesmo po\u00e9tica. Emo\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e3o estreitamente ligadas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de sentidos e de conhecimentos. Possuem valor interpretativo e podem ser vistas como faculdades aliadas ao pensamento, constru\u00eddas a partir das intera\u00e7\u00f5es sociais que a crian\u00e7a estabelece com diferentes parceiros em situa\u00e7\u00f5es diversas.<\/p>\n<p>Quanto mais rica for a experi\u00eancia pessoal da crian\u00e7a, mais material sua imagina\u00e7\u00e3o ter\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para construir suas fantasias. Muitas vezes, por\u00e9m, os di\u00e1logos criados por educadores na Educa\u00e7\u00e3o Infantil orientam-se mais para impor uma vis\u00e3o \u00fanica dos fatos do que para comentar significados pessoais constru\u00eddos pelas crian\u00e7as por meio do di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Se a crian\u00e7a n\u00e3o tiver oportunidades para interagir, dialogar, confrontar pontos de vista, ela n\u00e3o estar\u00e1 suficientemente preparada para exercer seu pensamento e sua express\u00e3o. Sendo assim, o papel do educador infantil, como um adulto que passa de quatro at\u00e9 oito horas por dia com a crian\u00e7a, \u00e9 muito importante. A ele, cabe estimular a verbaliza\u00e7\u00e3o, compreendendo o modo sincr\u00e9tico de pensar e de se expressar dos beb\u00eas, outorgando sentido comunicativo desde suas mais simples enuncia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Terreno f\u00e9rtil<\/strong><br \/>\nA aus\u00eancia de uma l\u00f3gica formal no modo de raciocinar da crian\u00e7a n\u00e3o se constitui em obst\u00e1culo para uma intera\u00e7\u00e3o construtiva com ela, pelo menos por dois motivos. Primeiro, porque tamb\u00e9m o adulto n\u00e3o pensa conceitualmente o tempo todo e, muitas vezes, ele pr\u00f3prio \u00e9 fonte de fabula\u00e7\u00f5es, como lembra Wallon (1998). Em segundo lugar, \u00e9 considerando este car\u00e1ter provis\u00f3rio e limitado da raz\u00e3o que Wallon indica o aspecto positivo do sincretismo.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-3361\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_26_lua2.jpg\" alt=\"avisala_26_lua2\" width=\"269\" height=\"323\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_26_lua2.jpg 269w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_26_lua2-249x300.jpg 249w\" sizes=\"auto, (max-width: 269px) 100vw, 269px\" \/><br \/>\nEle \u00e9 necess\u00e1rio ao ato criador em todos os dom\u00ednios, essencial \u00e0 inven\u00e7\u00e3o verdadeiramente nova. Ao misturar e confundir id\u00e9ias, o sincretismo da crian\u00e7a possibilita o surgimento de rela\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas por livre associa\u00e7\u00e3o, analogias e met\u00e1foras, elementos vistos como importantes em v\u00e1rios terrenos das atividades humanas como a arte e a poesia.<\/p>\n<p>Pensamos que a prioridade na Educa\u00e7\u00e3o Infantil est\u00e1 no trabalho educativo intencional, planejado pelo educador de tal forma que as crian\u00e7as encontrem prazer no pr\u00f3prio processo de aprendizagem. Este processo \u00e9 basicamente l\u00fadico, na supera\u00e7\u00e3o de seus limites e na possibilidade de trabalharem, com confian\u00e7a, a autoria de seus pensamentos e a constru\u00e7\u00e3o de sua subjetividade.<\/p>\n<p><strong>Leis do afeto<\/strong><br \/>\nDe acordo com Wallon, o pensamento sincr\u00e9tico ocorre no est\u00e1gio denominado por ele de \u201cpersonalista\u201d (tr\u00eas a seis anos). Este momento do desenvolvimento infantil apresenta uma orienta\u00e7\u00e3o centr\u00edpeta, subjetiva e uma preponder\u00e2ncia das atividades pessoais de constru\u00e7\u00e3o do eu.<\/p>\n<p>Nesta fase a crian\u00e7a ainda n\u00e3o pode delimitar suficientemente a sua pr\u00f3pria personalidade, nem se apropriar das categorias usuais atrav\u00e9s das quais distribu\u00edmos os dados e os v\u00e1rios aspectos da experi\u00eancia. Em fun\u00e7\u00e3o disso, seu pensamento \u00e9 regido mais pelas leis afetivas que pelas leis da l\u00f3gica. Entretanto, o sincretismo \u00e9 um est\u00e1gio necess\u00e1rio para se chegar \u00e0 an\u00e1lise e \u00e0 s\u00edntese, que s\u00e3o duas opera\u00e7\u00f5es complementares. Afinal, a an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sem um todo bem definido e n\u00e3o h\u00e1 s\u00edntese sem elementos dissociados, que depois se combinam.<\/p>\n<p>O sincretismo da crian\u00e7a n\u00e3o acompanha este duplo movimento de dissocia\u00e7\u00e3o e recomposi\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, isto n\u00e3o torna o pensamento infantil deste n\u00edvel desorganizado, pelo contr\u00e1rio, ele tem a sua estrutura pr\u00f3pria e, segundo Wallon, j\u00e1 \u00e9 operat\u00f3rio apesar de as suas opera\u00e7\u00f5es n\u00e3o serem ainda l\u00f3gicas. Em fun\u00e7\u00e3o disso, \u00e9 que muitas vezes as crian\u00e7as estabelecem rela\u00e7\u00f5es entre objetos que s\u00f3 t\u00eam sentido para elas e que os adultos acham engra\u00e7adas ou absurdas.<\/p>\n<p>Na fase do sincretismo, \u00e9 poss\u00edvel constatar a exist\u00eancia de elementos aos pares na qual est\u00e3o inclu\u00eddas as rela\u00e7\u00f5es de analogia, que consistem numa aproxima\u00e7\u00e3o dos objetos ditada por um sentimento subjetivo de semelhan\u00e7a. Os pares formados pela crian\u00e7a s\u00e3o uma tentativa de encontrar a unidade no m\u00faltiplo, que, no entanto, continuam indiferenciados.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-3362\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_26_lua4.jpg\" alt=\"avisala_26_lua4\" width=\"295\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_26_lua4.jpg 295w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_26_lua4-264x300.jpg 264w\" sizes=\"auto, (max-width: 295px) 100vw, 295px\" \/><br \/>\nO sincretismo \u00e9 anterior ao pensamento categorial que ir\u00e1 advir da evolu\u00e7\u00e3o da matura\u00e7\u00e3o e das intera\u00e7\u00f5es sociais, principalmente aquelas mediadas pela linguagem, da experi\u00eancia pessoal da crian\u00e7a e da cultura do meio em que vive, uma vez que esta \u00e9 fonte de conhecimento e de representa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Roda de conversa<\/strong><br \/>\nA roda de conversa que passo a descrever ocorreu em um Centro de Educa\u00e7\u00e3o Infantil p\u00fablico, com crian\u00e7as de 4 anos, e teve a dura\u00e7\u00e3o de 20 minutos. Teve in\u00edcio com a seguinte pergunta da professora:<\/p>\n<p>Professora: \u2013 Quem quer contar alguma coisa?<br \/>\nJuliana: \u2013 Minha m\u00e3e vai comprar um gatinho pra mim!<br \/>\nWelington: \u2013 Oh! Tia\u2026 Minha m\u00e3e n\u00e3o consegue dormir porque tem um cachorro que late e ela fica com medo.<br \/>\nLuana: \u2013 Eu durmo no ber\u00e7o.<br \/>\nJuliana: \u2013 A m\u00e3e da Gl\u00e1ucia teve um beb\u00ea.<br \/>\nGl\u00e1ucea: \u2013 Ele dorme de chupetinha. Ele tem duas chupetinhas.<br \/>\nWelington: \u2013 Saaabe&#8230; o Deic pegou o meu tio e levou pra cadeia, pegou ele e zuuumm (gesto) p\u00f4s no carro.<br \/>\nNaiara: \u2013 Regiiiina&#8230; eu tenho uma calcinha da M\u00f4nica.<br \/>\nJuliana: \u2013 Eu vou no parque da M\u00f4nica!<br \/>\nProfessora (para Juliana): \u2013 Pergunte para a Ingrid se ela tem um bichinho na casa dela.<br \/>\nGl\u00e1ucea: \u2013 Meu tio jogou a porta no rio, tava quebrada.<br \/>\nDanilo: \u2013 A porta do carro do meu pai nunca quebrou.<br \/>\nProfessora (para Danilo): \u2013 Pergunte para o Isaque se o pai dele tem carro.<br \/>\nDanilo: \u2013 Tem?<br \/>\nIsaque: \u2013 N\u00e3o.<br \/>\nWelington: \u2013 Eu fui de carro com meu tio na casa da Mariana.<br \/>\nJuliana: \u2013 Eu, meu pai, minha m\u00e3e e minha irm\u00e3 foi na praia.<br \/>\nProfessora: \u2013 Que legal!<br \/>\nDanilo: \u2013 Ontem, minha m\u00e3e foi pra praia e tinha um peixe e eu tinha uma ca\u00e7amba e eu fui l\u00e1 e enchi de areia.<br \/>\nProfessora: \u2013 Quem j\u00e1 foi para a praia?<br \/>\nV\u00e1rias crian\u00e7as: \u2013 Eu! Eu! Eu!<br \/>\nWelington: \u2013 Eu fui na Praia Grande.<br \/>\nProfessora: \u2013 \u00c9 bonita a Praia Grande?<br \/>\nWelington: \u2013 \u00c9, \u00e9 grande a praia. Eu fiquei com medo e da\u00ed eu fui pra praia pequena e a\u00ed eu fui na \u00e1gua e n\u00e3o fiquei com medo. A \u00e1gua \u00e9 salgada.<br \/>\nProfessora: \u2013 A \u00e1gua do mar \u00e9 salgada?<br \/>\nV\u00e1rias crian\u00e7as: \u2013 \u00c9\u00e9\u00e9\u00e9!<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel analisar muitas das caracter\u00edsticas da narrativa infantil a partir do registro desta roda de conversa. As crian\u00e7as constroem suas verbaliza\u00e7\u00f5es a partir dos enunciados dos colegas, embora com liga\u00e7\u00f5es subjetivas, anal\u00f3gicas e sempre ligadas a uma situa\u00e7\u00e3o vivida ou imaginada, fen\u00f4meno que Wallon chama de \u201cviscosidade\u201d, pois \u00e9 o retorno da palavra recentemente pronunciada a prop\u00f3sito de outros termos.<\/p>\n<p>Essa manifesta\u00e7\u00e3o pode tornar incompreens\u00edveis certas falas infantis quando desligadas de sua seq\u00fc\u00eancia. Por isso, \u00e0 primeira vista, pode parecer que cada uma das crian\u00e7as falava uma coisa que n\u00e3o tinha nada a ver com o que as outras haviam falado anteriormente. Vamos buscar as prov\u00e1veis conex\u00f5es e altern\u00e2ncias de temas surgidos em fun\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as nos antecedentes: do gato para o cachorro, do dormir para o ber\u00e7o, do ber\u00e7o para o nen\u00ea que nasceu, do nen\u00ea para a chupeta, at\u00e9 desembocar no assunto do tio, do carro, do passeio e finalmente da praia.<\/p>\n<p>A professora \u2013 como principal interlocutora da crian\u00e7a \u2013 tem um papel primordial no encaminhamento de uma roda de conversa, principalmente com crian\u00e7as pequenas. Deve interferir, formular perguntas, para que as crian\u00e7as possam ampliar suas id\u00e9ias e organizar melhor as verbaliza\u00e7\u00f5es.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3363\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_26_lua3.jpg\" alt=\"avisala_26_lua3\" width=\"302\" height=\"349\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_26_lua3.jpg 302w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_26_lua3-259x300.jpg 259w\" sizes=\"auto, (max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><br \/>\n<strong>Explica\u00e7\u00f5es do c\u00e9u<\/strong><br \/>\nVamos analisar um outro exemplo, realizado com crian\u00e7as de 5 anos. Vejam como as explica\u00e7\u00f5es de uma crian\u00e7a, em uma conversa com sua professora, contribuem para nosso entendimento da evolu\u00e7\u00e3o de seu pensamento:<\/p>\n<p>Professora: \u2013 Como a Lua aparece durante o dia?<br \/>\nCrian\u00e7a: \u2013 A Lua&#8230; ela sempre queria estar de dia&#8230;\u00d3&#8230; primeiro os dois brigaram, n\u00e9. Porque a Lua queria ser de dia, o Sol tamb\u00e9m&#8230; A\u00ed quem parou a briga foi as estrelas. A\u00ed, n\u00e9&#8230; as estrelas n\u00e9&#8230; pararam, n\u00e9. A\u00ed as estrelas resolveram que o Sol era de dia, mas a Lua at\u00e9 agora sente vontade de ir. Por isso ela aparece de vez em quando.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a n\u00e3o distingue o c\u00e9u m\u00edstico (dos deuses, dos mortos) do c\u00e9u vis\u00edvel (das nuvens, do azul) e, em uma caracter\u00edstica muito pr\u00f3pria do animismo infantil, dota de vida os astros. Neste epis\u00f3dio, podemos observar como a fabula\u00e7\u00e3o \u00e9 freq\u00fcente nos relatos e explica\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a, quando ela tenta completar as lacunas imaginando, ampliando, inventando. A fabula\u00e7\u00e3o traduz o esfor\u00e7o que faz para justificar suas id\u00e9ias, para evitar as contradi\u00e7\u00f5es que surgem e principalmente para dar \u00e0 sua verbaliza\u00e7\u00e3o uma apar\u00eancia de autenticidade.<\/p>\n<p>Professora: \u2013 Por que a Lua n\u00e3o cai em cima da Terra?<br \/>\nCrian\u00e7a: \u2013 \u201cA Lua&#8230; n\u00e9&#8230; ela j\u00e1 foi impedida muitas vezes&#8230; \u00e9&#8230; com o Sol. A\u00ed a Lua fica mais alta que o Sol pra poder os dois n\u00e3o brigarem. Porque&#8230;\u00e9&#8230; a Lua j\u00e1 tinha nascido antes do Sol&#8230;a\u00ed come\u00e7ou uma briga de quem era mais velho&#8230;da\u00ed&#8230; por isso que a Lua foi pra cima.<br \/>\nProfessora: \u2013 E como ela foi impedida?<br \/>\nCrian\u00e7a: \u2013 Impedida pela m\u00e3e do Sol&#8230; falou que ele era mais velho e a\u00ed a m\u00e3e do Sol arrastou muitas vezes a Lua, n\u00e9&#8230; a\u00ed a Lua se machucou e n\u00e3o p\u00f4de mais andar&#8230; a\u00ed ela ficou l\u00e1 no mesmo lugar.<\/p>\n<p><strong>\u201c\u00c0s vezes\u201d<\/strong><br \/>\nNeste pr\u00f3ximo epis\u00f3dio, temos outra crian\u00e7a respondendo \u00e0s mesmas quest\u00f5es sobre a Lua:<br \/>\nProfessora: \u2013 Por que a Lua n\u00e3o cai em cima da Terra?<br \/>\nCrian\u00e7a: \u2013 Tem algu\u00e9m l\u00e1 em cima, que \u00e9 os deuses da Lua e os deuses da Lua cuidam da Lua e n\u00e3o deixam ela cair.<br \/>\nProfessora: \u2013 A Lua do Guaruj\u00e1 \u00e9 a mesma daqui?<br \/>\nCrian\u00e7a: \u2013 N\u00e3o. A Lua de l\u00e1 \u00e9 outra coisa&#8230; A Lua de l\u00e1&#8230; ela \u00e9 igual mas n\u00e3o \u00e9 a mesma. Ela faz a mesma coisa do que essa daqui, mas n\u00e3o \u00e9 essa daqui.<br \/>\nProfessora: \u2013 Quantas luas tem a Terra?<br \/>\nCrian\u00e7a: \u2013 Depende de quantos pa\u00edses que tem. Porque cada lua fica num pa\u00eds.<br \/>\nProfessora: \u2013 Voc\u00ea j\u00e1 viu a Lua acompanhando o carro na estrada? Como isso acontece?<br \/>\nCrian\u00e7a: \u2013 Porque os deuses falam pra ela ir acompanhando o carro pra saber que lugar que \u00e9. Porque os deuses v\u00e3o l\u00e1 na casa do Papai Noel deixar o recado pra ele. Pra ele saber onde \u00e9 que s\u00e3o as casas. Porque \u00e0s vezes o Papai Noel&#8230; ele sabe onde s\u00e3o as casas, mas quando n\u00e3o sabe, a Lua vai acompanhando&#8230; Deus que<br \/>\ndirige a Lua vai acompanhando at\u00e9 chegar na casa.<br \/>\nProfessora: \u2013 Qual a cor da Lua?<br \/>\nCrian\u00e7a: \u2013 Eu penso que a Lua \u00e0s vezes muda e vira cores diferentes. Mas a Lua acontece isso l\u00e1 no Jap\u00e3o, quando a lua est\u00e1 l\u00e1 no Jap\u00e3o, acontece que ela muda de cor e vira amarelo, verde, castanho&#8230;<br \/>\nProfessora: \u2013 Voc\u00ea gosta da Lua? Por qu\u00ea?<br \/>\nCrian\u00e7a: \u2013 Porque ela d\u00e1 descanso. Eu tamb\u00e9m gosto das estrelas porque ela tamb\u00e9m d\u00e1 descanso. Porque elas fazem de noite.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s vezes\u201d \u00e9 uma locu\u00e7\u00e3o muito presente nas verbaliza\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as. Por\u00e9m, em geral, \u00e9 utilizada de forma atemporal e revela somente um desejo de atenuar algumas afirma\u00e7\u00f5es demasiadamente marcadas para que n\u00e3o pare\u00e7am absolutas. Marca ao mesmo tempo a sua incerteza e a pura sucess\u00e3o. \u201c\u00c0s vezes\u201d indica eventualidade oposta \u00e0 necessidade, o que equivale a dizer que neste momento a crian\u00e7a n\u00e3o distingue o fortuito do necess\u00e1rio e trata um como se fosse o outro.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a termina o di\u00e1logo dizendo que a Lua d\u00e1 descanso e que a Lua e as estrelas fazem a noite, construindo uma imagem po\u00e9tica porque viu no sincronismo do par Lua e noite uma raz\u00e3o, e nessa coincid\u00eancia uma finalidade: \u201ca noite \u00e9 pra descansar\u201d. As crian\u00e7as n\u00e3o registram passivamente os dados que lhe v\u00eam do exterior. Ao contr\u00e1rio: reconstroem, reinterpretam, reagem a eles a partir de suas pr\u00f3prias possibilidades e necessidades e, sobretudo, denunciam de diversas maneiras a inadequa\u00e7\u00e3o quando algo n\u00e3o vai bem. Assim, o necess\u00e1rio respeito ao processo de desenvolvimento da crian\u00e7a e \u00e0 forma pr\u00f3pria de ela pensar \u00e9 o desafio do educador compromissado com sua aprendizagem.<\/p>\n<p>(Regina L\u00facia Scarpa, psic\u00f3loga, mestre em educa\u00e7\u00e3o e Coordenadora Pedag\u00f3gica da Funda\u00e7\u00e3o Victor Civita)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>M\u00e9dico e psic\u00f3logo franc\u00eas (1879-1962)<br \/>\n<sup>2<\/sup>Professor e pesquisador russo (1896-1934)<br \/>\n<sup>3<\/sup>O Dicion\u00e1rio Houaiss da L\u00edngua Portuguesa explica o termo \u201csincretismo\u201d, em psicologia, da seguinte forma: apreens\u00e3o global, mais ou menos confusa, de um todo; apreens\u00e3o global, indiferenciada, que precede a percep\u00e7\u00e3o e o pensamento em rela\u00e7\u00e3o a objetos nitidamente distintos uns dos outros.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3364\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_26_lua5.jpg\" alt=\"avisala_26_lua5\" width=\"291\" height=\"242\" \/><\/p>\n<h4>Lenda do Sol e da Lua<\/h4>\n<p>A partir de a\u00e7\u00f5es de seres her\u00f3icos ou encantat\u00f3rios de origem humana, as lendas, narrativas do imagin\u00e1rio popular, freq\u00fcentemente explicam fen\u00f4menos da natureza de forma n\u00e3o cient\u00edfica. Nesse sentido, se aproximam dos jeitos como as crian\u00e7as pensam. A seguir, uma lenda esquim\u00f3 sobre a origem do Sol e da Lua. H\u00e1 muitos e muito anos, em uma pequena aldeia da costa, viviam um homem e sua mulher.<\/p>\n<p>Depois de um longo per\u00edodo, o casal teve dois filhos: um menino e uma menina. Os irm\u00e3os se davam muito bem, para a alegria dos pais. Um n\u00e3o se separava do outro. O tempo foi passando e as crian\u00e7as crescendo. Quando os dois irm\u00e3os se tornaram adultos, aconteceu algo surpreendente: eles n\u00e3o paravam de brigar. Na verdade, era o filho que tinha inveja da beleza da irm\u00e3 e por isso vivia a persegui-la. Mas um dia ela teve uma id\u00e9ia:<\/p>\n<p>\u2013 Vou fugir para o c\u00e9u. S\u00f3 assim escaparei do meu irm\u00e3o. A menina ent\u00e3o se transformou em lua.<\/p>\n<p>Quando o rapaz descobriu que a irm\u00e3 tinha fugido, ficou muito triste e arrependido.<\/p>\n<p>\u2013 Se ela foi para o c\u00e9u, eu irei tamb\u00e9m. N\u00e3o posso ficar sem minha irm\u00e3.<\/p>\n<p>E foi isso que aconteceu. O rapaz conseguiu ir para o c\u00e9u, s\u00f3 que em forma de sol, e n\u00e3o parou de correr atr\u00e1s da menina. \u00c0s vezes, ele a alcan\u00e7a e consegue abra\u00e7\u00e1-la, causando ent\u00e3o um eclipse lunar.<\/p>\n<h4>Para Saber Mais<\/h4>\n<ul>\n<li>Est\u00e9tica da Cria\u00e7\u00e3o Verbal, Mikhail Bakthin. Ed. Martins Fontes. Tel.: (11) 3241-3677<\/li>\n<li>A Inf\u00e2ncia da Raz\u00e3o. Heloysa Dantas Ed. Manole. Tel.: (11) 4196-6000<\/li>\n<li>A Forma\u00e7\u00e3o Social da Mente, Lev Seminovitch Vygotsky, Ed. Martins Fontes.Tel.: (11) 3241-3677<\/li>\n<li>Pensamento e Linguagem, Lev Seminovitch Vygotsky. Ed. Martins Fontes. Tel.: (11) 3241-3677<\/li>\n<li>As Origens do Pensamento na Crian\u00e7a, Henri Wallon. Ed. Manole. Tel.: (11) 4196-6000<\/li>\n<li>Quest\u00f5es de linguagem, Maria Helena Martins (org). Ed. Contexto. Tel.: (11) 3832-5838<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhecer a forma como a crian\u00e7a pequena pensa pode contribuir decisivamente para transformar as famosas \u201crodas de conversa\u201d em espa\u00e7os reais de aprendizagem e intera\u00e7\u00e3o. Por Regina L\u00facia Scarpa<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":3359,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,387],"tags":[1107,665,683,681,678,682,680,679],"class_list":{"0":"post-3358","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-conhecendo-a-crianca","8":"category-revista-avisala-26","9":"tag-revista-avisa-la-2006","10":"tag-pensamento","11":"tag-perguntas","12":"tag-questionamentos","13":"tag-regina-lucia-scarpa","14":"tag-respostas","15":"tag-teorias","16":"tag-universo","18":"post-with-thumbnail","19":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3358","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3358"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3358\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3359"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3358"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3358"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3358"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}