{"id":324,"date":"2000-04-15T03:58:44","date_gmt":"2000-04-15T06:58:44","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=324"},"modified":"2023-03-27T10:22:06","modified_gmt":"2023-03-27T13:22:06","slug":"preservando-identidades-em-um-abrigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/jeitos-de-cuidar\/preservando-identidades-em-um-abrigo\/","title":{"rendered":"Preservando identidades em um abrigo"},"content":{"rendered":"<h5>Um dos desafios mais dif\u00edceis para todas as institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a privacidade das crian\u00e7as \u2013 um direito fundamental para a forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e de sua singularidade. Nos abrigos, por\u00e9m, as dificuldades s\u00e3o ainda maiores. Pensando em tornar observ\u00e1vel para as educadoras essa necessidade das crian\u00e7as e jovens, concebi um projeto que teve como produto a organiza\u00e7\u00e3o e o uso de uma caixa individual de segredos.<\/h5>\n<p><!--more--><\/p>\n<div id=\"attachment_333\" style=\"width: 279px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-333\" class=\"size-full wp-image-333\" title=\"avisala_03_jeitos1\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_jeitos1.jpg\" alt=\"Caixa de segredos\" width=\"269\" height=\"424\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_jeitos1.jpg 269w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_jeitos1-190x300.jpg 190w\" sizes=\"auto, (max-width: 269px) 100vw, 269px\" \/><p id=\"caption-attachment-333\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Pensando em tornar observ\u00e1vel para as educadoras essa necessidade das crian\u00e7as e jovens, concebi um projeto que teve como produto a organiza\u00e7\u00e3o e o uso de uma caixa individual de segredos.&#8221;<\/p><\/div>\n<p>Um dia, estava na institui\u00e7\u00e3o come\u00e7ando meu trabalho com as crian\u00e7as, quando encontrei um dos meninos. Ele me deu um porta-j\u00f3ias de presente. Perguntei se era seu e ele me disse que o havia encontrado no corredor e que o prov\u00e1vel dono n\u00e3o soubera guardar. Achei o fato curioso. Este epis\u00f3dio refor\u00e7ou a necessidade de tocar na quest\u00e3o do direito \u00e0 privacidade, ignorada pelos abrigos. L\u00e1, tudo costuma ser coletivo: as roupas, os sapatos, os brinquedos e at\u00e9 mesmo as camas. N\u00e3o h\u00e1 um lugar individualizado para dormir. Muitas vezes as crian\u00e7as fazem verdadeiros &#8220;malabarismos&#8221; para conseguir manter um objeto pessoal: inventam esconderijos, enrolam nos cobertores, nas roupas, escondem bem no fundo da mochila da escola. Tentam preservar algo pessoal, embora esta n\u00e3o seja uma tarefa f\u00e1cil. Acredito que a \u00fanica forma de revertermos esta l\u00f3gica \u00e9 tornar observ\u00e1vel a necessidade de privacidade das crian\u00e7as e dos jovens.<\/p>\n<p>Por isso, meu projeto nesse abrigo teve dupla intencionalidade: esclarecer e informar os educadores, ao mesmo tempo criar de forma efetiva um espa\u00e7o para cada crian\u00e7a guardar seus pertences, seus segredos, suas hist\u00f3rias e suas mem\u00f3rias, tudo enfim que julgassem importante naquele momento de vida. Por isso, tomei a decis\u00e3o de organizar com as crian\u00e7as as caixas de segredos . A ades\u00e3o foi imediata e come\u00e7amos a elaborar atividades com o objetivo de compor o conte\u00fado das caixas.<\/p>\n<p><strong>As Caixas de Segredos<\/strong><\/p>\n<p><em>(em setembro) <\/em><\/p>\n<p>Li o livro &#8220;Rei dos Cacos&#8221;, que trata de uma hist\u00f3ria na qual dois irm\u00e3os<br \/>\nbuscam cacos de lou\u00e7as no fundo de um rio e guardam esses cacos numa caixinha porque os julgam belos e valiosos, mesmo sabendo que s\u00e3o cacos. Eu tinha escondido um peda\u00e7o de caco azul no meio do livro e, quando terminei a leitura, o caco caiu! As crian\u00e7as adoraram a brincadeira e principalmente a hist\u00f3ria. Pedi que fizessem a capa de um caderno que seria um di\u00e1rio para guardar desenhos, poemas, fotografias, colagem ou qualquer outra coisa que quisessem. Entreguei um papel cart\u00e3o, giz de cera, l\u00e1pis e canetinha, e todos capricharam muito nos seus desenhos. Colaram as capas nos respectivos cadernos para guard\u00e1-los nas caixas de segredos. Estes &#8220;ba\u00fas de mem\u00f3rias&#8221; cont\u00eam nossas quinquilharias mais importantes: fotos, velas de anivers\u00e1rio, cartas, lembran\u00e7as de passeios e outros momentos que desencadeiam belas recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como essas crian\u00e7as s\u00e3o despojadas de seus objetos pessoais, pensei que n\u00e3o teriam como juntar as quinquilharias. Levei v\u00e1rios cart\u00f5es-postais, desses que s\u00e3o distribu\u00eddos em restaurantes, cinemas, tipo cards, e disse que poderiam escolher um e guardar como lembran\u00e7a. Contei-lhes que \u00e0s vezes algumas pessoas colecionam coisas e que eu tenho mania desses cart\u00f5es. Sempre pego muitos de um mesmo tipo, porque penso em dar para as crian\u00e7as com quem trabalho, mas acabo esquecendo-os na minha casa; por isso tenho muitos cart\u00f5es repetidos. Eles adoraram e pediram para que eu autografasse. Escrevi coisas bem positivas e alegres. Eu me senti o m\u00e1ximo e eles tamb\u00e9m!<br \/>\n\u00c9 impressionante como trabalhar em abrigo pode fazer com que oscilemos de uma depress\u00e3o desalentadora a um otimismo desmedido. A gente at\u00e9 sai dando aut\u00f3grafo!!! Puxa, acho que extrapolei!<\/p>\n<p><strong>O grupo trabalha unido<\/strong><\/p>\n<p><em>(um dia, outubro)<\/em><\/p>\n<p>Chegou o dia de pintar as caixinhas de madeira que haviam sido confeccionadas especialmente para isso. As crian\u00e7as estavam super empolgadas. Todas ajudaram a organizar o espa\u00e7o, distribuir tintas em potinhos, forrar o ch\u00e3o etc. Durante a semana tinham feito estudos sobre como queriam enfeitar suas caixinhas; algumas seguiram \u00e0 risca, outras mudaram de id\u00e9ia. Foi uma del\u00edcia de atividade. As produ\u00e7\u00f5es ficaram maravilhosas! Tirei muitas fotos. Achei que n\u00e3o conseguiria trabalhar com tantas crian\u00e7as juntas, mas estava equivocada: todos se comportaram maravilhosamente bem e nos ajudaram muito. Que maravilha! Estou apaixonada novamente!<\/p>\n<p><strong>Quem pegou as argolas?<\/strong><\/p>\n<p><em>(outubro chega ao fim)<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_336\" style=\"width: 351px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-336\" class=\"size-full wp-image-336\" title=\"avisala_03_jeitos3\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_jeitos3.jpg\" alt=\"caixa de segredos\" width=\"341\" height=\"529\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_jeitos3.jpg 341w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_jeitos3-193x300.jpg 193w\" sizes=\"auto, (max-width: 341px) 100vw, 341px\" \/><p id=\"caption-attachment-336\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Quando todos estavam de posse de suas caixas e cadeados, subiram correndo e foram experimentando o que guardar, e eu vi de tudo: calcinhas, desenhos, balinhas, fotos, brinquedos, desodorante, figurinhas, pijama, meias, l\u00e1pis, tinta, documentos, dinheiro&#8230;&#8221;<\/p><\/div>\n<p>Depois de pintar as caixinhas, tentamos fazer os chaveiros, mas no dia previsto descobrimos que as argolinhas que eu comprei tinham<br \/>\nsumido.<\/p>\n<p>\u2013 Foi o A \u2013 disse um deles.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 mesmo, foi ele \u2013 continuou o amigo.<\/p>\n<p>\u2013 Esperem um pouco, vamos procurar primeiro. Que hist\u00f3ria \u00e9 essa de ficar acusando o amigo? \u2013 questionei.<\/p>\n<p>\u2013 Mas foi ele que eu vi. Ele estava dando para quem quisesse e at\u00e9 fez brinco \u2013 confirmou um do grupo.<\/p>\n<p>Realmente as argolinhas haviam sumido, e descobrimos mais tarde que uma das crian\u00e7as havia pego o material de dentro do arm\u00e1rio e o distribu\u00eddo para todo mundo. O mais incr\u00edvel \u00e9 que todas as crian\u00e7as sabiam do acontecido, mas nenhum adulto tinha qualquer informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCoisas de abrigo.<\/p>\n<p>Na falta das argolas, confeccionamos os chaveiros de borracha. Eram lindos, mas sem a tal argolinha e a correntinha ficaram presos na chave e assim perderam o balan\u00e7o, mas cumpriram o seu papel de identifica\u00e7\u00e3o. Cada um ganhou a sua caixinha e seu respectivo chaveirinho, e foi uma grande alegria. A coordenadora contou-me que nessa noite todos andavam com seus chaveiros no pesco\u00e7o e suas caixas nas m\u00e3os, e por diversas vezes ela presenciou uma mesma crian\u00e7a mexendo em suas lembran\u00e7as e trocando os objetos que guardara por outros. Quando todos estavam de posse de suas caixas e cadeados, subiram correndo e foram experimentando o que guardar, e eu vi de tudo: calcinhas, desenhos, balinhas, fotos, brinquedos, desodorante, figurinhas, pijama, meias, l\u00e1pis, tinta, documentos, dinheiro, perfume e muitas outras coisas.<\/p>\n<p>Uma cena foi inesquec\u00edvel: T., que \u00e9 um menino da p\u00e1 virada, com seus 13 anos, foi guardar, imaginem, seu patinho de pel\u00facia! Eu vi a crian\u00e7a que se escondia naquele adolescente rebelde!<\/p>\n<p><strong>Pactos de confian\u00e7a entre as turmas<\/strong><\/p>\n<p><em>(in\u00edcio de novembro) <\/em><\/p>\n<p>De repente, ai! Vi um menino abrindo a caixinha de uma colega com sua chave e me deu um grande desespero, e a coordenadora avisou-me que esquecera de comprar os cadeados diferentes, conforme eu havia solicitado. Isso rapidamente foi descoberto por todos. A privacidade tinha ido para as &#8220;cucuias&#8221;! Chamei todos e fizemos um pacto de n\u00e3o abrir as caixas dos outros. Sa\u00ed de l\u00e1 com o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o. J\u00e1 estava vendo uma invas\u00e3o total, roubos, sumi\u00e7os; mas quando retornei, no encontro seguinte, descobri que nada disso acontecera. As crian\u00e7as que tinham os cadeados com os mesmos segredos passaram a ser guardi\u00e3s das caixas dos outros companheiros, e isso fez com que alian\u00e7as se formassem: &#8220;as turmas dos cadeados iguais&#8221;. Contaram-me que uma vez um menino foi tomar banho e pediu para o outro pegar o seu sabonete, dizendo-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 Vai l\u00e1 na minha caixinha e pegue meu sabonete.<\/p>\n<p>\u2013 Mas ele n\u00e3o pode mexer na sua caixa! \u2013 comentou uma crian\u00e7a que ouvira o papo.<\/p>\n<p>\u2013 Mas ele \u00e9 da minha turma do cadeado e estou pedindo para ele abrir.<\/p>\n<p>Eis um novo pacto dentro da institui\u00e7\u00e3o, o pacto da confian\u00e7a. O projeto valeu por isso! Tomara que tenha tamb\u00e9m contribu\u00eddo para que as crian\u00e7as gravem em suas mem\u00f3rias afetivas a possibilidade de confiar umas nas outras.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 d\u00e1 para ver as mudan\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p><em>(chegou dezembro, finalmente) <\/em><\/p>\n<p>Uma coisa bacana que aconteceu no final foi que a coordenadora come\u00e7ou a perceber a import\u00e2ncia da escolha por parte das crian\u00e7as. Isso se tornou vis\u00edvel na atividade de confec\u00e7\u00e3o de bijuterias para guardar na caixa:<br \/>\n\u2013 Eu percebi que elas podiam escolher, porque voc\u00ea dava algumas op\u00e7\u00f5es e a partir disso elas escolhiam, nunca tinha pensado assim. A gente escolhe a partir de algumas coisas e somos n\u00f3s, educadores, quem temos que ofertar essas coisas para as crian\u00e7as e deixar que elas optem\u2026<br \/>\nA partir disso ela come\u00e7ou a organizar a sess\u00e3o de v\u00eddeos da seguinte maneira: tr\u00eas crian\u00e7as v\u00e3o \u00e0 locadora uma vez por semana e escolhem tr\u00eas fitas para quem quiser assistir. H\u00e1 um rod\u00edzio semanal de crian\u00e7as. O mais bacana \u00e9 que elas est\u00e3o indo sozinhas \u00e0 locadora.<\/p>\n<p>Um outro ponto importante \u00e9 que trabalhamos juntas com a nova organiza\u00e7\u00e3o do guarda-roupa das crian\u00e7as, para ver se finalmente acab\u00e1vamos com a rouparia coletiva, permitindo que finalmente as crian\u00e7as pudessem escolher suas pr\u00f3prias roupas. Quando est\u00e1vamos discutindo isso, a coordenadora pesquisou e descobriu que as crian\u00e7as n\u00e3o tinham pijamas e nenhuma outra pe\u00e7a que fizesse as vezes disso. Ou seja, s\u00f3 trocavam de roupa na hora de ir para a escola. Ela nunca tinha prestado aten\u00e7\u00e3o nisso, mas decidiu investir na desmontagem da rouparia e no uso dos guardaroupas que as crian\u00e7as j\u00e1 tinham mas n\u00e3o utilizavam. O trabalho no abrigo continua, ainda h\u00e1 muito o que fazer. Temos enfrentado os dias apostando que nossos esfor\u00e7os s\u00e3o importantes, porque resultam num melhor atendimento.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as podem esperar pela decis\u00e3o da justi\u00e7a, mas n\u00e3o podem esperar para aprender e serem vistas como pessoas capazes, interessantes, aptas, desde j\u00e1, a intervir nesse mundo e melhorar sensivelmente sua qualidade de vida.<\/p>\n<div id=\"attachment_337\" style=\"width: 381px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-337\" class=\"size-full wp-image-337\" title=\"avisala_03_jeitos2\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_jeitos21.jpg\" alt=\"caixa de segredos\" width=\"371\" height=\"289\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_jeitos21.jpg 371w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/avisala_03_jeitos21-300x233.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 371px) 100vw, 371px\" \/><p id=\"caption-attachment-337\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Eis um novo pacto dentro da institui\u00e7\u00e3o, o pacto da confian\u00e7a. O projeto valeu por isso! Tomara que tenha tamb\u00e9m contribu\u00eddo para que as crian\u00e7as gravem em suas mem\u00f3rias afetivas a possibilidade de confiar umas nas outras&#8221;<\/p><\/div>\n<p>(M\u00e1rcia Cristina da Silva)<\/p>\n<h4><strong>O que s\u00e3o abrigos<\/strong><\/h4>\n<p>Os abrigos se caracterizavam pelo acolhimento das crian\u00e7as de forma prec\u00e1ria. Chamados de orfanatos, lares substitutos, essas institui\u00e7\u00f5es, muitas vezes, possu\u00edam um funcionamento similar ao das pris\u00f5es ou hospitais psiqui\u00e1tricos, onde crian\u00e7a, \u2013 assim como presos e pessoas com necessidades especiais \u2013 eram trancafiadas e isoladas do mundo. A tend\u00eancia era que a crian\u00e7a tivesse o menor contato com o mundo externo, inclusive, com sua fam\u00edlia. A separa\u00e7\u00e3o da vida externa inclu\u00eda tamb\u00e9m a elimina\u00e7\u00e3o dos objetos pessoais. Muitos abrigos guardam, ainda hoje, resqu\u00edcios desse passado ainda recente. As crian\u00e7as que moram nos abrigos, em geral, carregam consigo hist\u00f3rias pessoais marcadas por traumas, por quebras abruptas de v\u00ednculos e, por isso, apresentam grandes dificuldades em confiar no outro. Como, no mais das vezes, foram v\u00edtimas de situa\u00e7\u00f5es profundamente desrespeitosas, desconhecem o que \u00e9 respeito. Os v\u00ednculos que conseguem estabelecer quase sempre s\u00e3o marcados pela agress\u00e3o. Mais do que qualquer outra, essa crian\u00e7a precisa ser compreendida pelo educador e levada em conta na hora dele planejar suas propostas.<\/p>\n<h4><strong>O que caracteriza o trabalho dos abrigos<\/strong><\/h4>\n<p>Ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o do Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente, o abrigo, que acolhe a crian\u00e7a 24 horas por dia, deve desempenhar a fun\u00e7\u00e3o familiar e, ao mesmo tempo, a educativa. Deve possibilitar o acesso das crian\u00e7as aos recursos da comunidade, como escolas, centros esportivos etc, e precisa contemplar as necessidades de uma crian\u00e7a que est\u00e1 em sua casa \u2013 o pr\u00f3prio abrigo \u00e9 \u2013 e que tem alguns deveres: estudar, fazer li\u00e7\u00f5es, organizar suas coisas. As crian\u00e7as precisam ter tamb\u00e9m um tempo livre para escolher fazer ou n\u00e3o determinadas atividades. Os adultos podem lhes oferecer op\u00e7\u00f5es as mais diversas, entre livros, gibis, bons v\u00eddeos, materiais de arte, para expressarem o que quiserem, brinquedos, TV livre (com acompanhamento do adulto na escolha da programa\u00e7\u00e3o adequada \u00e0 idade), jogos de mesa, culin\u00e1ria, ir \u00e0 casa de amigos, dormir, ouvir e fazer m\u00fasica, dan\u00e7ar, praticar esportes, passear pela comunidade, enfim, atividades que a crian\u00e7a possa escolher fazer pelo simples desejo. Al\u00e9m disso, um abrigo pode oferecer um trabalho sistem\u00e1tico com o grupo que, de forma l\u00fadica, possa tocar nas quest\u00f5es delicadas que as crian\u00e7as enfrentam.<\/p>\n<p>Penso que as atividades a serem desenvolvidas pelos educadores que trabalham em abrigos devem propiciar a constru\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo com o outro, a constru\u00e7\u00e3o do respeito m\u00fatuo, auxiliar o desenvolvimento da singularidade de cada crian\u00e7a e a observ\u00e2ncia de valores essenciais para a conviv\u00eancia. Mas, para tudo isso acontecer, \u00e9 preciso que o educador e demais funcion\u00e1rios promovam um ambiente de respeito pelas individualidades e que isso apare\u00e7a nas a\u00e7\u00f5es cotidianas, na rela\u00e7\u00e3o com as pr\u00f3prias crian\u00e7as. Tamb\u00e9m \u00e9 essencial que todos possibilitem e valorizem o que essas crian\u00e7as t\u00eam a dizer sobre o que as rodeia e mantenham, de fato, uma atitude compreensiva para com suas emo\u00e7\u00f5es e sentimentos.<\/p>\n<h4><strong>Para saber mais:<\/strong><\/h4>\n<ul>\n<li>\u2022 Febem, Fam\u00edlia e Identidade, o Lugar do Outro. Isabel da Silva Kahn Marin, ed. Escuta, S\u00e3o Paulo, fone: (0XX11) 3865.8950 \/3675.1190.<\/li>\n<li>S\u00e9rie Defesa dos Direitos da Crian\u00e7a e do Adolescente. IEE<br \/>\n(Instituto dos Estudos Especiais) \u2013 PUC e CBIA (Centro Brasileiro<br \/>\npara Inf\u00e2ncia e Adolesc\u00eancia). S\u00e3o Paulo, fone: (0XX11) 3871-4429<\/li>\n<li>S\u00e9rie Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente, Cadernos de A\u00e7\u00e3o,<br \/>\nIEE-PUC e CBIA.<\/li>\n<li>Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente Comentado, Coment\u00e1rios Jur\u00eddicos e Sociais, coord. por Munir Cury, Ant\u00f4nio Fernando do Amaral e Silva e Em\u00edlio Garcia Mendez, ed. Malheiros, S\u00e3o Paulo, fone: (0XX11) 3842-9205.<\/li>\n<\/ul>\n<h6><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos desafios mais dif\u00edceis para todas as institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a privacidade das crian\u00e7as \u2013 um direito fundamental para a forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e de sua singularidade. Nos abrigos as dificuldades s\u00e3o ainda maiores. Por M\u00e1rcia Cristina da Silva<\/p>\n","protected":false},"author":19,"featured_media":2962,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,99],"tags":[1101,85,103,100,101,102,104],"class_list":{"0":"post-324","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-jeitos-de-cuidar","8":"category-revista-avisala-03","9":"tag-revista-avisa-la-2000","10":"tag-abrigo","11":"tag-individuo","12":"tag-marcia-cristina-da-silva","13":"tag-privacidade","14":"tag-privado","15":"tag-singularidade","17":"post-with-thumbnail","18":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/324","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=324"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/324\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2962"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=324"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=324"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=324"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}