{"id":3107,"date":"2005-07-18T10:53:30","date_gmt":"2005-07-18T13:53:30","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=3107"},"modified":"2023-03-27T18:02:03","modified_gmt":"2023-03-27T21:02:03","slug":"o-universo-ludico-do-conhecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/reflexoes-do-professor\/o-universo-ludico-do-conhecimento\/","title":{"rendered":"O universo l\u00fadico do conhecimento"},"content":{"rendered":"<h5>O universo cient\u00edfico est\u00e1 intrinsecamente relacionado ao l\u00fadico. Ambos s\u00e3o espa\u00e7os de possibilidades, investiga\u00e7\u00e3o, autoria, autonomia, constru\u00e7\u00e3o de conhecimento e subjetividade. \u00c9 cada vez mais urgente que a escola de educa\u00e7\u00e3o infantil assuma uma concep\u00e7\u00e3o de ensino que n\u00e3o separe o racioc\u00ednio da imagina\u00e7\u00e3o. \u00c9 esse o objetivo do projeto homem das cavernas: uma viagem no tempo<\/h5>\n<div id=\"attachment_3110\" style=\"width: 432px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3110\" class=\"size-full wp-image-3110\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_23_reflex1.jpg\" alt=\"avisala_23_reflex1.jpg\" width=\"422\" height=\"356\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_23_reflex1.jpg 422w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_23_reflex1-300x253.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 422px) 100vw, 422px\" \/><p id=\"caption-attachment-3110\" class=\"wp-caption-text\">Grafismos encontrados na regi\u00e3o de S\u00e3o Raimundo Nonato \u2013 PI<br \/>Ilustra\u00e7\u00f5es: A Arte Rupestre no Brasil<\/p><\/div>\n<p>Encarar o estudo na escola de Educa\u00e7\u00e3o Infantil por meio de uma perspectiva l\u00fadica do conhecimento implica n\u00e3o apenas fazer associa\u00e7\u00f5es dos projetos de pesquisa com brincadeiras, como tamb\u00e9m propor situa\u00e7\u00f5es nas quais o aprendizado seja uma aventura de conhecimento em conson\u00e2ncia com a forma de pensar das crian\u00e7as e seu pensamento sincr\u00e9tico que mescla fantasia e realidade.<\/p>\n<p>No projeto Homem das Cavernas: Uma Viagem no Tempo, do qual tive a oportunidade de participar enquanto coordenadora, dialogando com a professora Andr\u00e9a Campidelli<sup>1<\/sup>, pude observar com aten\u00e7\u00e3o seu grupo de \u201cpesquisadores mirins\u201d, entre 4 e 5 anos. Foi poss\u00edvel investigar muitas situa\u00e7\u00f5es de aprendizagem que realmente fazem sentido na Educa\u00e7\u00e3o Infantil, as quais pretendo aqui partilhar com o leitor.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nNo planejamento, a professora e eu pensamos que uma forma interessante de desenvolver o projeto seria conhecer, informar-se para produzir uma fita de v\u00eddeo que explicitasse alguns conhecimentos adquiridos sobre os povos das cavernas. Sabemos que as crian\u00e7as dessa faixa et\u00e1ria demonstram, quase sempre, por meio do jogo simb\u00f3lico, o que entendem daquilo que conhecem, sejam as rela\u00e7\u00f5es sociais e\/ou os mais diferentes aspectos culturais.<\/p>\n<p>Portanto, oferecer a possibilidade de brincar de homem das cavernas, assim como ajudar a construir o roteiro do filme retratando o tempo estudado, com cen\u00e1rios, explicitando as rela\u00e7\u00f5es sociais, as cenas cotidianas e produtos culturais, pareceu-nos uma \u00f3tima estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>O objetivo era que as crian\u00e7as se apropriassem dos conhecimentos de forma bastante participativa, elaborando as aprendizagens de forma din\u00e2mica, observando imagens, discutindo com o grupo, alimentando suas brincadeiras a partir do estudo, precisando, sobretudo, pesquisar para aprender e obter informa\u00e7\u00f5es que seriam utilizadas com uma finalidade muito clara.<\/p>\n<p><strong><br \/>\n\u201cVamos fazer fogo?\u201d<\/strong><br \/>\nEra assim que as crian\u00e7as participantes do projeto, freq\u00fcentemente nos hor\u00e1rios de p\u00e1tio, convidavam umas as outras para brincar. A brincadeira consistia em selecionar gravetos pelo p\u00e1tio e, como assistiram no filme Guerra do Fogo, que retrata o per\u00edodo pr\u00e9-hist\u00f3rico, friccion\u00e1-los na tentativa de produzir o conhecimento que revolucionou a hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p>O interessante quando se pensa numa abordagem l\u00fadica \u00e9 que, al\u00e9m de alimentar o faz-de-conta com a produ\u00e7\u00e3o de outros contextos para sua realiza\u00e7\u00e3o, existe a possibilidade de que a crian\u00e7a possa, na repeti\u00e7\u00e3o e usufruto da brincadeira, entrar em contato com o que estuda formalmente, numa perspectiva informal. Integrar aspectos formais com n\u00e3o formais \u00e9 a sa\u00edda para promover espa\u00e7os educativos adequados \u00e0 inf\u00e2ncia.<\/p>\n<div id=\"attachment_3113\" style=\"width: 516px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3113\" class=\" wp-image-3113 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex2.jpg\" alt=\"avisala_23_reflex2.jpg\" width=\"506\" height=\"578\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex2.jpg 723w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex2-262x300.jpg 262w\" sizes=\"auto, (max-width: 506px) 100vw, 506px\" \/><p id=\"caption-attachment-3113\" class=\"wp-caption-text\">Crian\u00e7a em plena produ\u00e7\u00e3o do filme<\/p><\/div>\n<p><strong>\u201cO filme vai ter que ser mudo!\u201d<\/strong><br \/>\nQuando as crian\u00e7as foram decidir juntamente com a professora como seria o filme, tiveram de imediato um problema a resolver, pois n\u00e3o poderiam usar a fala, j\u00e1 que esta n\u00e3o era a forma de comunica\u00e7\u00e3o usual na \u00e9poca. Se a informa\u00e7\u00e3o de que naquele tempo n\u00e3o se usava a fala tal como hoje conhecemos fosse oferecida apenas de forma transmissiva, corria-se o risco da n\u00e3o apropria\u00e7\u00e3o desse conhecimento.<\/p>\n<p>Mas como tinham que produzir um v\u00eddeo a partir de um \u201cproblema\u201d a resolver (filmar sem usar a linguagem), a situa\u00e7\u00e3o de aprendizagem foi muito diferente do jeito tradicional de trabalhar os conte\u00fados na escola. O problema em quest\u00e3o colocou as crian\u00e7as para pensar, refletir, se colocar no lugar dos povos primitivos. A rela\u00e7\u00e3o que estabeleceram com o conhecimento foi mais complexa e elaborada e passou a ocupar o imagin\u00e1rio das crian\u00e7as, que passaram a crivar os adultos de quest\u00f5es:<\/p>\n<p>\u201cComo ser\u00e1 que eles se entendiam?\u201d<br \/>\n\u201cE quando queriam algo, como faziam?\u201d<br \/>\n\u201cSe precisassem contar pra algu\u00e9m um acontecimento, como seria?\u201d<br \/>\n\u201cComo pediriam socorro?\u201d<br \/>\n\u201cComo os povos que vieram depois dos homens das cavernas aprenderam a falar, se antes ningu\u00e9m falava?\u201d<\/p>\n<div id=\"attachment_3114\" style=\"width: 330px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3114\" class=\"size-full wp-image-3114\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex3.jpg\" alt=\"&quot;Brincar \u00e9 a mais elevada forma de   Pesquisa.&quot; Albert Einstein (1879\u20131955)\" width=\"320\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex3.jpg 320w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex3-286x300.jpg 286w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><p id=\"caption-attachment-3114\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Brincar \u00e9 a mais elevada forma de Pesquisa.&#8221; Albert Einstein (1879\u20131955)<\/p><\/div>\n<p>Enfim, come\u00e7aram a ter quest\u00f5es para pensar acionando uma profus\u00e3o de id\u00e9ias inter-relacionadas, na tentativa de compreender a natureza dos fen\u00f4menos. Propusemos um jogo que consistia em ficar uma parte do dia se comunicando sem falar. Depois discutimos a experi\u00eancia vivida, as dificuldades que enfrentaram.<\/p>\n<p>Ao fazer o filme, puderam entender melhor outras formas de comunica\u00e7\u00e3o, e se conscientizaram dos benef\u00edcios desta constru\u00e7\u00e3o cultural que \u00e9 a l\u00edngua que se fala. Afinal, estudar a hist\u00f3ria de um povo serve para que tenhamos a no\u00e7\u00e3o de processo, a compreens\u00e3o de que o mundo nem sempre foi como este que conhecemos.<\/p>\n<p><strong>\u201cNas cavernas n\u00e3o tinha baldinho\u201d<\/strong><br \/>\nEsta fala de uma crian\u00e7a do grupo surgiu no momento de arrumar o espa\u00e7o para a filmagem. Preocupadas em construir um cen\u00e1rio condizente com o per\u00edodo hist\u00f3rico estudado, as crian\u00e7as se ocuparam com cada detalhe: cobriram o port\u00e3o de ferro, recolheram os objetos estranhos \u00e0 filmagem e tiveram, sobretudo, um cuidado especial com o pr\u00f3prio figurino, que obviamente n\u00e3o poderia ser o uniforme escolar!<\/p>\n<p>Tudo isso s\u00f3 teve sentido porque as crian\u00e7as pesquisavam muito nos livros e todo o empenho das descobertas tinha um uso social que era a produ\u00e7\u00e3o da fita de v\u00eddeo. O conhecimento adquirido servia para confeccionarem cen\u00e1rios, figurinos, objetos produzidos na \u00e9poca, tais como machadinhas, pedras lascadas e outras curiosidades que iam descobrindo.<\/p>\n<p><strong>\u201cMas eles nem sabiam escrever!\u201d<\/strong><br \/>\nInteressante a constata\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a, quando a professora pediu que registrassem seus respectivos nomes em pequenas placas de pedra m\u00e1rmore que serviam como suporte para pinturas rupestres feitas pelo grupo. Imediatamente uma crian\u00e7a lembrou que seria incoerente escreverem na pedra que comporia a exposi\u00e7\u00e3o para os pais realizada na sala para retrarar o per\u00edodo estudado. \u201cComo escrever se os homens da caverna s\u00f3 desenhavam?\u201d<\/p>\n<p>Esta no\u00e7\u00e3o de tempo hist\u00f3rico, proporcionada pelo conhecimento em a\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a (a necessidade de retratar de forma mais fiel poss\u00edvel um momento hist\u00f3rico), fez com que ela redobrasse sua aten\u00e7\u00e3o e percebesse a incoer\u00eancia hist\u00f3rica de escrever numa pedra que representa o per\u00edodo pr\u00e9-hist\u00f3rico e, portanto, anterior ao aparecimento da escrita.<\/p>\n<p>A professora, orgulhosa do conhecimento de seu aluno, prop\u00f5e ent\u00e3o que coloquem os nomes em plaquetas separadas, tal como observaram em um museu de arqueologia visitado. O conhecimento ganhou sentido para as crian\u00e7as quando, al\u00e9m de conhecerem e apreciarem as pinturas rupestres por meio de slides, filmes e livros, puderam tamb\u00e9m vivenciar uma situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 dos povos primitivos, fazendo inclusive tintas com materiais org\u00e2nicos, tais como carv\u00e3o, diferentes tipos de terras e corantes naturais.<\/p>\n<div id=\"attachment_3115\" style=\"width: 714px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3115\" class=\" wp-image-3115 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex4.jpg\" alt=\"avisala_23_reflex4.jpg\" width=\"704\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex4.jpg 1006w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex4-300x227.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 704px) 100vw, 704px\" \/><p id=\"caption-attachment-3115\" class=\"wp-caption-text\">Ensaiando caras e bocas na caverna<\/p><\/div>\n<p><strong>\u201cE os Flintstones eram das cavernas?\u201d<\/strong><br \/>\nTenho percebido, pelos trabalhos que j\u00e1 realizei com crian\u00e7as e naqueles nos quais oriento professores, que \u00e9 sempre muito instigante em projetos deste tipo mesclar textos cient\u00edficos, liter\u00e1rios e filmes que dizem respeito ao assunto. O universo liter\u00e1rio encanta as crian\u00e7as justamente pela abund\u00e2ncia de conex\u00f5es subjetivas que proporciona. \u00c9 uma linguagem muito pr\u00f3xima delas.<\/p>\n<p>Neste sentido, ler hist\u00f3rias que falam do assunto estudado, mesmo que ficcionais, torna-se interessante, pois tem a ver com o jeito como a crian\u00e7a concebe o mundo. \u00c9 claro que se pode aproveitar tamb\u00e9m para realizar uma \u201can\u00e1lise cr\u00edtica\u201d, identificando o que tem e o que n\u00e3o tem a ver com a Hist\u00f3ria de fato.<\/p>\n<p>Este elo entre a subjetividade do universo liter\u00e1rio e a objetividade do conhecimento cient\u00edfico pode, num primeiro momento, causar espanto aos educadores por parecer que se est\u00e1 fugindo do campo da Ci\u00eancia. Entretanto, ao dar a oportunidade do estabelecimento de uma ponte entre os conceitos espont\u00e2neos das crian\u00e7as e os conceitos cient\u00edficos, o educador oferece a si mesmo a chance de conhecer melhor seus alunos.<\/p>\n<p>No caso do estudo do projeto em quest\u00e3o, as crian\u00e7as puderam conversar muito com a professora a respeito do embasamento ou n\u00e3o na realidade de hist\u00f3rias e v\u00eddeos assistidos, tais como os desenhos animados Flintstones e Capit\u00e3o Caverna, o que n\u00e3o deixou de ser uma forma de perceberem as influ\u00eancias culturais contempor\u00e2neas na produ\u00e7\u00e3o da m\u00eddia.<\/p>\n<p><strong>O l\u00fadico como motor do aprendizado<\/strong><br \/>\nColocar em pr\u00e1tica uma abordagem l\u00fadica para o conte\u00fado Natureza e Sociedade, que diz respeito \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos agrupamentos, seu modo de ser, viver e trabalhar<sup>3<\/sup>, nos d\u00e1 a perspectiva de vislumbrar uma forma de considerar os espa\u00e7os para brincar integrados e articulados com os espa\u00e7os de aprendizagem. Quando isto ocorre de fato, acontece uma comunica\u00e7\u00e3o eficaz entre o conhecimento cient\u00edfico e a natureza l\u00fadica de pensar, agir e sentir pr\u00f3pria da crian\u00e7a.<\/p>\n<div id=\"attachment_3116\" style=\"width: 383px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3116\" class=\" wp-image-3116 \" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex5.jpg\" alt=\"avisala_23_reflex5.jpg\" width=\"373\" height=\"493\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex5.jpg 533w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex5-226x300.jpg 226w\" sizes=\"auto, (max-width: 373px) 100vw, 373px\" \/><p id=\"caption-attachment-3116\" class=\"wp-caption-text\">Crian\u00e7as brincam com bonecos pr\u00e9-hist\u00f3ricos e cavernas confeccionados com papel mach\u00ea<\/p><\/div>\n<p>As crian\u00e7as est\u00e3o sempre inaugurando experi\u00eancias acerca do mundo e encarando tais aprendizados com muita curiosidade e dedica\u00e7\u00e3o. Formulam constantemente hip\u00f3teses, fruto de suas observa\u00e7\u00f5es, explora\u00e7\u00f5es e contato com o ambiente que as cerca. Quando t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de compartilhar tais aprendizados nas brincadeiras, ocorre uma integra\u00e7\u00e3o muito maior com o que est\u00e3o aprendendo. A socializa\u00e7\u00e3o das aprendizagens nestas situa\u00e7\u00f5es se mostra muito eficaz e at\u00e9 mesmo contribui para uma maior circula\u00e7\u00e3o do conhecimento em diferentes momentos e situa\u00e7\u00f5es da vida das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>(Adriana Klisys, formadora no Instituto Avisa L\u00e1 e coordenadora da Caleidosc\u00f3pio Brincadeira e Arte, em S\u00e3o Paulo)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>Professora da Escola Criarte, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup>Henri Wallon (1872\u20131962), educador franc\u00eas.<\/p>\n<p><sup>3<\/sup>Organiza\u00e7\u00e3o dos Grupos e seu modo de ser, viver e trabalhar:<\/p>\n<ul>\n<li>Participa\u00e7\u00e3o em atividades que envolvam hist\u00f3rias, brincadeiras, jogos e can\u00e7\u00f5es que digam respeito \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es culturais de sua comunidade e de outras;<\/li>\n<li>Conhecimento de modos de ser, viver e trabalhar de alguns grupos sociais do presente e do passado;<\/li>\n<li>Identifica\u00e7\u00e3o de alguns pap\u00e9is sociais existentes em seus grupos de conv\u00edvio, dentro e fora da institui\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>Valoriza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio cultural do seu grupo social e interesse por conhecer diferentes formas de express\u00e3o cultural.<\/li>\n<\/ul>\n<p>(Referencial Curricular Nacional para a Educa\u00e7\u00e3o Infantil. MEC.)<\/p>\n<h4>Nem todo homem pr\u00e9-hist\u00f3rico habitava as cavernas<\/h4>\n<p>\u00c9 bom que se diga que muitos grupos humanos desse per\u00edodo da Hist\u00f3ria n\u00e3o habitavam s\u00f3 cavernas. Nas regi\u00f5es mais frias da terra, al\u00e9m de morarem em cavernas, os homens constru\u00edam cabanas de peles e ossos.<\/p>\n<p>Em pa\u00edses tropicais h\u00e1 vest\u00edgios de locais habitados pelos pr\u00e9-hist\u00f3ricos em beiras de lagoas e praias, chamados de sambaquis. Mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que os homens pr\u00e9-hist\u00f3ricos se utilizavam das cavernas como abrigo, moradia ou local para os seus rituais. Essa pr\u00e1tica pode ser comprovada em v\u00e1rios locais do Brasil e do mundo pelos vest\u00edgios e, principalmente, pela arte rupestre encontrada. As cavernas s\u00e3o excelentes locais para a preserva\u00e7\u00e3o desse passado remoto.<\/p>\n<p>Na serra da Capivara, no Piau\u00ed, h\u00e1 500 s\u00edtios arqueol\u00f3gicos com mais de 360 pain\u00e9is de pintura rupestre. Algumas com mais de 12 mil anos, outras mais \u201crecentes\u201d com 3,5 mil anos. Vale a pena conferir no site: www.icomos.org.br\/patrimonio_brasileiro.<\/p>\n<div id=\"attachment_3117\" style=\"width: 478px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3117\" class=\"size-full wp-image-3117\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex6.jpg\" alt=\"avisala_23_reflex6.jpg\" width=\"468\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex6.jpg 468w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex6-300x192.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 468px) 100vw, 468px\" \/><p id=\"caption-attachment-3117\" class=\"wp-caption-text\">18 mil anos atr\u00e1s abrigos feitos de ossos de mamute e pele de animais<\/p><\/div>\n<h4>O Pensamento Sincr\u00e9tico<\/h4>\n<p>De acordo com Wallon<sup>2<\/sup>, o pensamento sincr\u00e9tico \u00e9 o da crian\u00e7a no est\u00e1gio denominado por ele de Personalista (3 a 6 anos), momento do desenvolvimento infantil que apresenta uma orienta\u00e7\u00e3o centr\u00edpeta e subjetiva e uma preponder\u00e2ncia das atividades pessoais de constru\u00e7\u00e3o do Eu.<\/p>\n<p>Nesta fase, a crian\u00e7a ainda n\u00e3o pode delimitar suficientemente a sua pr\u00f3pria personalidade, nem apropriar-se das categorias usuais atrav\u00e9s das quais distribu\u00edmos os dados e os v\u00e1rios aspectos da experi\u00eancia. Em fun\u00e7\u00e3o disso, seu pensamento \u00e9 regido mais pelas leis afetivas do que pelas leis da l\u00f3gica.<\/p>\n<p>O Sincretismo \u00e9 um est\u00e1gio necess\u00e1rio para se chegar \u00e0 an\u00e1lise e \u00e0 s\u00edntese, duas opera\u00e7\u00f5es complementares, j\u00e1 que a an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sem um todo bem definido, e n\u00e3o h\u00e1 s\u00edntese sem elementos dissociados e depois combinados. O sincretismo da crian\u00e7a n\u00e3o acompanha este duplo movimento de dissocia\u00e7\u00e3o e recomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, isto n\u00e3o torna o pensamento infantil deste n\u00edvel desorganizado. Pelo contr\u00e1rio, ele tem a sua estrutura pr\u00f3pria e, segundo Wallon, j\u00e1 \u00e9 operat\u00f3rio, apesar das suas opera\u00e7\u00f5es n\u00e3o serem ainda l\u00f3gicas. Em fun\u00e7\u00e3o disso \u00e9 que, muitas vezes, as crian\u00e7as estabelecem rela\u00e7\u00f5es entre objetos que s\u00f3 t\u00eam sentido para elas e que os adultos acham engra\u00e7adas ou absurdas.<\/p>\n<p>Fonte: O Sincretismo do Pensamento da Crian\u00e7a \u00e0 Luz das Teorias Walloniana e Vygotskyana, de Regina Scarpa.<\/p>\n<div id=\"attachment_3118\" style=\"width: 398px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3118\" class=\"size-full wp-image-3118\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex7.jpg\" alt=\"avisala_23_reflex7.jpg\" width=\"388\" height=\"475\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex7.jpg 388w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex7-245x300.jpg 245w\" sizes=\"auto, (max-width: 388px) 100vw, 388px\" \/><p id=\"caption-attachment-3118\" class=\"wp-caption-text\">Grafismos da tradi\u00e7\u00e3o agreste. S\u00edtio Pedra Redonda, Pedra \u2013 PE<\/p><\/div>\n<h4>Jogo Simb\u00f3lico<\/h4>\n<p>Os jogos simb\u00f3licos caracterizam-se pela assimila\u00e7\u00e3o deformante (Piaget, 1945). Deformante porque nessa situa\u00e7\u00e3o a realidade (social, f\u00edsica, etc.) \u00e9 assimilada por analogia, como a crian\u00e7a pode ou deseja. Isto \u00e9, os significados que ela atribui aos conte\u00fados de suas a\u00e7\u00f5es, quando joga, s\u00e3o deforma\u00e7\u00f5es \u2013 maiores ou menores \u2013 dos significados correspondentes na vida social ou f\u00edsica.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a isso, pode compreender as brincadeiras, afetiva ou cognitivamente, segundo os limites de seu sistema cognitivo. As fantasias ou mitos, que a crian\u00e7a inventa ou que escuta tantas vezes e que tanto a encantam, s\u00e3o igualmente express\u00f5es dessa assimila\u00e7\u00e3o deformante. E t\u00eam, al\u00e9m disso, uma fun\u00e7\u00e3o explicativa: fantasiando ou mitificando, a crian\u00e7a pode compreender, a seu modo, os temas presentes nessas fantasias. Isso favorece a integra\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a a um mundo social cada vez mais complexo (adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 escola, h\u00e1bitos de higiene e alimenta\u00e7\u00e3o, etc).<\/p>\n<p>Em outras palavras, os significados das brincadeiras podem ser, por intui\u00e7\u00e3o, inventados pela crian\u00e7a. Essas constru\u00e7\u00f5es realizadas no contexto dos jogos simb\u00f3licos e as regularidades adquiridas nos jogos de exerc\u00edcio ser\u00e3o fontes das futuras opera\u00e7\u00f5es mentais.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a import\u00e2ncia da assimila\u00e7\u00e3o deformante na constru\u00e7\u00e3o do conhecimento na escola? De um ponto de vista funcional, a crian\u00e7a \u2013 assimilando o mundo como pode ou deseja, criando analogias, fazendo inven\u00e7\u00f5es, mitificando \u2013 torna-se produtora de linguagens, criadora de conven\u00e7\u00f5es. Gra\u00e7as a essas constru\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, pode submeter-se \u00e0s regras de funcionamento de sua casa ou escola.<\/p>\n<p>Esta, como sabemos, costuma ensinar os conte\u00fados das mat\u00e9rias por um conjunto de signos, conven\u00e7\u00f5es, regras ou leis. Mais que isso, como as analogias que possibilitam os jogos simb\u00f3licos s\u00e3o conven\u00e7\u00f5es motivadas, ou seja, como nelas o representado relaciona-se com o representante, a crian\u00e7a pode firmar um v\u00ednculo entre objetos ou acontecimentos e suas poss\u00edveis representa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim poder\u00e1, talvez, na sua escola prim\u00e1ria, compreender e utilizar conven\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o signos arbitr\u00e1rios, isto \u00e9, cuja rela\u00e7\u00e3o representante- representado n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o pr\u00f3xima como nos jogos simb\u00f3licos. De um ponto de vista estrutural, os jogos simb\u00f3licos t\u00eam, igualmente, uma import\u00e2ncia capital para a produ\u00e7\u00e3o do conhecimento na escola. O sentido e a necessidade de teoria (do esfor\u00e7o humano de explicar as coisas, de dar respostas, ainda que provis\u00f3rias, \u00e0s perguntas que nos faz o jogo da vida) formulam-se e ganham contexto nos jogos simb\u00f3licos. Em outras palavras, as fantasias, as mitifica\u00e7\u00f5es, os modos deformantes de pensar ou inventar a realidade s\u00e3o uma esp\u00e9cie de prel\u00fadio para futuras teoriza\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as na escola prim\u00e1ria e mesmo dos futuros cientistas.<\/p>\n<p>Fonte: \u201cOs Jogos e sua Import\u00e2ncia na Escola\u201d, Cap. VI, por Lino de Macedo. Em 4 Cores, Senha e Domin\u00f3, de Lino de Macedo, Ana L\u00facia S. Petty, Norimar Christie Passos. Casa do Psic\u00f3logo.<\/p>\n<div id=\"attachment_3119\" style=\"width: 538px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3119\" class=\"size-full wp-image-3119\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex8.jpg\" alt=\"avisala_23_reflex8.jpg\" width=\"528\" height=\"614\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex8.jpg 528w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2005\/07\/avisala_23_reflex8-257x300.jpg 257w\" sizes=\"auto, (max-width: 528px) 100vw, 528px\" \/><p id=\"caption-attachment-3119\" class=\"wp-caption-text\">Grupo de figuras humanas, caracter\u00edstico da tradi\u00e7\u00e3o nordeste<\/p><\/div>\n<h4>Para saber mais<\/h4>\n<ul>\n<li>A Arte Rupestre no Brasil, de Madu Gaspar. Ed. Jorge Zahar. Tel.: (21) 2108-0808<\/li>\n<li>A Escalada do Homem, de J.B. Bronowski. Ed. Martins Fontes. Tel.: (11) 3241-3677<\/li>\n<li>O Mundo Assombrado pelos Dem\u00f4nios: A Ci\u00eancia Vista como uma Vela no Escuro, de Carl Sagan. Ed. Companhia das Letras. Tel.: (11) 3707-3501<\/li>\n<li>Referencial Curricular Nacional para a Educa\u00e7\u00e3o Infantil. MEC<\/li>\n<li>Pensamento e Linguagem, de Vygotsky. Ed. Martins Fontes. Tel.: (11) 3241-3677<\/li>\n<li>Revista avisa l\u00e1, edi\u00e7\u00e3o no 12, outubro\/02<\/li>\n<li>Revista Crian\u00e7a, edi\u00e7\u00e3o no 35, dezembro\/01. MEC<\/li>\n<li>Revista P\u00e1tio, ano 1, edi\u00e7\u00e3o no 3, novembro\/97. Ed. Artmed. Tel.: 0800-7033444<\/li>\n<li>Caleidosc\u00f3pio Brincadeira e Arte Site: www.caleido.com.br. E-mail. caleido@caleido.com.br<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O universo cient\u00edfico est\u00e1 intrinsecamente relacionado ao l\u00fadico. Ambos s\u00e3o espa\u00e7os de possibilidades, investiga\u00e7\u00e3o, autoria, autonomia, constru\u00e7\u00e3o de conhecimento e subjetividade. \u00c9 cada vez mais urgente que a escola de educa\u00e7\u00e3o infantil assuma uma concep\u00e7\u00e3o de ensino que n\u00e3o separe o racioc\u00ednio da imagina\u00e7\u00e3o. \u00c9 esse o objetivo do projeto homem das cavernas: uma viagem no tempo. Por Adriana Klisys<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":3096,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22,384],"tags":[1106,437,247,648,109,645,188,646,214,647,649],"class_list":{"0":"post-3107","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-reflexoes-do-professor","8":"category-revista-avisala-23","9":"tag-revista-avisa-la-2005","10":"tag-adriana-klisys","11":"tag-ciencias","12":"tag-fantasia","13":"tag-historia","14":"tag-investigacao","15":"tag-ludico","16":"tag-passado","17":"tag-pesquisa","18":"tag-pre-historia","19":"tag-realidade","21":"post-with-thumbnail","22":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3107","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3107"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3107\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3096"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}