{"id":3054,"date":"2005-04-17T11:51:04","date_gmt":"2005-04-17T14:51:04","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=3054"},"modified":"2023-03-27T17:50:51","modified_gmt":"2023-03-27T20:50:51","slug":"as-criancas-e-o-universo-dos-cordeis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/tempo-didadico\/as-criancas-e-o-universo-dos-cordeis\/","title":{"rendered":"As crian\u00e7as e o universo dos cord\u00e9is"},"content":{"rendered":"<h5>Crian\u00e7as de 5 anos se entusiasmam com a leitura de cordel na escola. Conhecem n\u00e3o s\u00f3 o texto mas o contexto onde esta literatura est\u00e1 inserida e aproveitam o canto e encanto desta tradi\u00e7\u00e3o brasileira<\/h5>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3074\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_22_cordel4.jpg\" alt=\"avisala_22_cordel4\" width=\"335\" height=\"339\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_22_cordel4.jpg 335w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_22_cordel4-296x300.jpg 296w\" sizes=\"auto, (max-width: 335px) 100vw, 335px\" \/><br \/>\no processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o, o dom\u00ednio da escrita tem tido um papel preponderante, muitas vezes em detrimento do desenvolvimento da oralidade, t\u00e3o importante na Educa\u00e7\u00e3o Infantil. Este projeto, que aproxima as crian\u00e7as da literatura de cordel, possibilita uma uni\u00e3o saud\u00e1vel entre a oralidade e a escrita.<\/p>\n<p>No Brasil ainda h\u00e1 comunidades que pensam o mundo, transmitem conhecimentos e se expressam segundo a l\u00f3gica pr\u00f3pria da oralidade. Al\u00e9m disso, em algumas das capitais do nordeste, e mesmo em S\u00e3o Paulo, ainda podemos encontrar n\u00facleos que se preocupam com a divulga\u00e7\u00e3o do cordel por meio de material impresso, o que permite um conv\u00edvio harmonioso das duas linguagens, a escrita e a oral, sem que uma simplesmente substitua a outra.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nConsideramos importante ter essa perspectiva junto \u00e0s crian\u00e7as: diferentes linguagens precisam estimular o pensamento infantil. Esse \u00e9 um dos motivos pelos quais escolhemos trabalhar a l\u00edngua oral num momento em que normalmente se esperaria uma \u00eanfase na escrita. O outro motivo foi a continuidade do trabalho de literatura desenvolvido desde o ano anterior. Assim como foi importante ouvir e apreciar textos de qualidade, como contos de fadas tradicionais e suas diferentes vers\u00f5es, contos japoneses, cl\u00e1ssicos da literatura mundial (Gulliver, Sigfried, Mil e uma Noites&#8230;), literatura brasileira (de autores como Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade), consideramos importante conhecer uma modalidade oral da literatura.<\/p>\n<p><strong>Dos contadores para a sala de aula <\/strong><br \/>\nDentre os recortes poss\u00edveis, escolhemos algo pouco conhecido pelo p\u00fablico que atendemos nas escolas particulares de S\u00e3o Paulo: o cordel. O cordel prov\u00e9m da antiga tradi\u00e7\u00e3o ib\u00e9rica dos romanceiros, contadores das hist\u00f3rias de Carlos Magno e outras populares. Nas p\u00e1ginas dos \u201cfolhetos\u201d, dos \u201cABCs\u201d, como tamb\u00e9m s\u00e3o conhecidos os livrinhos de cordel, encontramos antigas hist\u00f3rias que vieram migrando e sendo modificadas ao sabor do contador local, que tratava de imprimir os toques da sua cultura.<\/p>\n<p>Assim, os cl\u00e1ssicos contos de fadas, as f\u00e1bulas de esopo, contos de animais encantados, de assombra\u00e7\u00e3o, bem como os \u201ccausos\u201d e pelejas foram ganhando caracter\u00edsticas muito peculiares na voz daquele que contava ou cantava as estrofes, acompanhado da viola ou sem ela. Essas hist\u00f3rias se perpetuaram por gera\u00e7\u00f5es, por meio da divulga\u00e7\u00e3o oral, at\u00e9 ganharem a forma gr\u00e1fica, impressas em papel jornal, em tamanho pequeno, acompanhadas de gravuras feitas, em geral, pelo pr\u00f3prio autor do registro.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3075\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_22_cordel1.jpg\" alt=\"avisala_22_cordel1\" width=\"248\" height=\"258\" \/><br \/>\n<strong>Apresentando o cordel para as crian\u00e7as <\/strong><br \/>\nOs folhetos de cordel foram trazidos para a sala e passaram a \u201cmorar\u201d ao lado da estante dos demais livros. A hist\u00f3ria que escolhemos para iniciar o projeto foi Jo\u00e3o Valente e o Drag\u00e3o da Montanha, uma vers\u00e3o de Jo\u00e3o e Maria transferida para o contexto do sert\u00e3o. Fizemos essa escolha porque quer\u00edamos liberar as crian\u00e7as do esfor\u00e7o de entender uma hist\u00f3ria nova para centrar a aten\u00e7\u00e3o nas peculiaridades do contexto e da mudan\u00e7a estrutural que esse portador de texto produz.<\/p>\n<p>A primeira rea\u00e7\u00e3o \u00e0 escuta do cordel foi a gargalhada, pr\u00f3pria de quem percebe a estranheza. As crian\u00e7as ouviam e riam muito, trocando olhares uns com os outros, surpresos pela novidade de ver os professores cantando daquele jeito. Como a hist\u00f3ria \u00e9 longa, tivemos que contar em cap\u00edtulos, pois quer\u00edamos que eles tivessem a vers\u00e3o original, e n\u00e3o um reconto da professora.<\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, estabeleciam-se semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as que rapidamente eram identificadas:<\/p>\n<p>&#8220;Entraram no mato adentro,<br \/>\nPor\u00e9m Jo\u00e3o n\u00e3o cochilava:<br \/>\nUma por\u00e7\u00e3o de pipocas<br \/>\nEle escondido levava<br \/>\nNos dois bolsinhos da velha<br \/>\nCal\u00e7a suja que trajava.<br \/>\nO velho, puxando a frente<br \/>\nCom o machado era o guia<br \/>\nSeguido pela menina,<br \/>\nE Jo\u00e3o, atr\u00e1s da Maria,<br \/>\nMarcava com as pipocas<br \/>\nA trilha que o pai abria.<br \/>\nMaria n\u00e3o entendia<br \/>\nComo sair do deserto,<br \/>\nPor\u00e9m seguiu o irm\u00e3o<br \/>\nAcompanhando de perto;<br \/>\nJo\u00e3o, avistando as pipocas,<br \/>\nSeguia o caminho certo.&#8221;<\/p>\n<p>A bruxa do cordel morre da mesma forma que a dos irm\u00e3os Grimm<sup>1<\/sup>, mas depois da morte da megera \u00e9 que s\u00e3o elas. Quando se pensa que a hist\u00f3ria acabou, come\u00e7a a parte mais fant\u00e1stica, surreal:<\/p>\n<p>&#8220;Quando ela subir \u00e0 t\u00e1bua,<br \/>\nQue for come\u00e7ando o jogo,<br \/>\nUm de voc\u00eas se aproxima<br \/>\nEmpurra a velha no fogo;<br \/>\ndeixe que se vire em cinza,<br \/>\nN\u00e3o atendam nenhum rogo.<br \/>\nSurgir\u00e3o da cinza dela<br \/>\nDois cachorros vigilantes<br \/>\n(duas feras verdadeiras),<br \/>\nAl\u00e9m de grandes, possantes,<br \/>\nQue servir\u00e3o a voc\u00eas<br \/>\nSempre em todos os instantes.<br \/>\nCada cachorro ter\u00e1<br \/>\nPara si mesmo um crit\u00e9rio<br \/>\nNo nome em que cumprir\u00e1<br \/>\nO seu compromisso s\u00e9rio,<br \/>\nUm ser\u00e1 CONTRAVENENO<br \/>\nE o outro QUEBRA-MIST\u00c9RIO.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Um mundo a conhecer<\/strong><br \/>\nAs crian\u00e7as reconheceram o conto logo nas primeiras sextilhas e detectaram rapidamente as altera\u00e7\u00f5es. A primeira delas \u00e9 o jeito como se l\u00ea, acentuando os versos ou cantando de diferentes maneiras, a depender do ritmo que se quer imprimir \u00e0s estrofes. Elas repetiam sempre:<\/p>\n<p>\u201cRimou!\u201d, \u201cT\u00e1 rimando\u201d, \u201cRima sempre?\u201d, \u201c\u00c9, vai rimando\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o texto trazia mudan\u00e7as no cen\u00e1rio e nos detalhes da narrativa. Por exemplo, Jo\u00e3o e Maria n\u00e3o se perdem na floresta, e sim na vereda; Jo\u00e3o n\u00e3o joga migalhas de p\u00e3o para marcar o caminho, e sim pipoca; n\u00e3o s\u00e3o os p\u00e1ssaros que comem os gr\u00e3os, e sim Maria, para enganar a barriga. Diante da estranheza, muitas risadas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-3076\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_22_cordel10.jpg\" alt=\"avisala_22_cordel10\" width=\"112\" height=\"234\" \/>As caracter\u00edsticas dessa linguagem s\u00e3o tamb\u00e9m caracter\u00edsticas da cultura nordestina. H\u00e1 um saber popular que se expressa nessas rimas ing\u00eanuas, nesse vocabul\u00e1rio cheio de imagens. Pena (ou sorte!) que nem tudo o que diz o cordel n\u00f3s podemos entender. Esses termos regionais como \u201cboca espumada\u201d, \u201carriado\u201d, \u201cventa\u201d, \u201cmarmota\u201d, n\u00e3o est\u00e3o no nosso cotidiano e muitas vezes nem mesmo no dicion\u00e1rio. Esse nosso desconhecimento resultou num trabalho de pesquisa, cujo produto final foi o Dicion\u00e1rio das Palavras Dif\u00edceis do Cordel, que serviu para ajudar-nos a entender um pouco o universo do norte e nordeste do nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>As fontes de pesquisa foram os dicion\u00e1rios de express\u00f5es regionais e as pessoas da nossa escola que tiveram contato com esses folhetos na inf\u00e2ncia ou pouco antes de vir para S\u00e3o Paulo e ainda guardam na mem\u00f3ria e no uso cotidiano muitas dessas express\u00f5es. Elas nos ensinaram n\u00e3o s\u00f3 algumas palavras como tamb\u00e9m a cantar o cordel, j\u00e1 que n\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos.<\/p>\n<p><strong>Os folhetos preferidos e seus leitores <\/strong><br \/>\nNa seq\u00fc\u00eancia do trabalho, apresentamos textos bem pequenos e muito diferentes dos que eles vinham ouvindo, obras de um autor de cordel contempor\u00e2neo, ali\u00e1s, o mais velho cordelista vivo: J. Borges. O autor intitulou essa cole\u00e7\u00e3o de \u201cCordel para Crian\u00e7as\u201d. O favorito da turma foi a hist\u00f3ria A Cachorra Matraca e O Galo de Hon\u00f3rio, e Th\u00e9o, uma das crian\u00e7as, morria de rir ao ouvir as passagens que apresentava palavras que para eles eram \u201cpalavr\u00f5es\u201d, termos que n\u00e3o se usam normalmente no cotidiano.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do que, a hist\u00f3ria, na verdade, \u00e9 um caso engra\u00e7ado. E logo virou uma febre, a ponto de me cansar de tanto ler a mesma coisa. Come\u00e7aram a apelar para os amigos que tinham autonomia para ler o texto para um pequeno grupo que se aboletava diante do cord\u00e3o estendido no canto da sala, onde deix\u00e1vamos pendurados os cord\u00e9is.<\/p>\n<p>Diogo, Noah e Ricardo passaram a ser freq\u00fcentadores ass\u00edduos das sess\u00f5es de leitura, e em pouco tempo a hist\u00f3ria foi memorizada. Th\u00e9o e Maur\u00edcio passaram a improvisar outras hist\u00f3rias partindo daquela estrutura r\u00edtmica e do mote principal, com eventos engra\u00e7ados e constrangedores. J\u00e1 Mariana, Bruna e Marina gostavam de repetir as hist\u00f3rias de princesas, como a da linda Creusa, que presa na torre s\u00f3 aparece na janela uma vez por ano para mostrar toda sua beleza, ou ainda a da Princesa da Pedra Fina, cujo encanto foi quebrado por um valente pr\u00edncipe.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-3077\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_22_cordel5.jpg\" alt=\"avisala_22_cordel5\" width=\"219\" height=\"170\" \/><br \/>\nMas claro que se houvesse uma rodinha em que algu\u00e9m prometesse cantar O Galo de Hon\u00f3rio, l\u00e1 estariam elas. Continuamos ampliando o repert\u00f3rio do grupo, apresentando hist\u00f3rias bem mais complexas. Durante a cantoria, as crian\u00e7as separavam palavras que n\u00e3o conheciam, palavras que n\u00e3o s\u00e3o muito freq\u00fcentes no nosso vocabul\u00e1rio, tais como: candeeiro, caba\u00e7a, vereda, catinga e outras que foram compondo uma grande lista no dicion\u00e1rio de cordel.<\/p>\n<p><strong>Cordel: porta para um universo imagin\u00e1rio <\/strong><br \/>\nFoi muito importante compartilhar com esse grupo de crian\u00e7as algumas das hist\u00f3rias que mais gostamos. Mais importante ainda foi v\u00ea-las apreciando esse jeito de contar hist\u00f3ria, t\u00e3o estranho no in\u00edcio. O trabalho com os cord\u00e9is possibilitou ao mesmo tempo uma maior aproxima\u00e7\u00e3o e aprecia\u00e7\u00e3o da express\u00e3o oral, e um grande investimento no imagin\u00e1rio dessas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Os seres fant\u00e1sticos como Pav\u00e3o Misterioso, Boi Misterioso, os drag\u00f5es e os monstros, de todas as hist\u00f3rias que cantamos, povoaram a imagina\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Ainda serviram de gancho para uma pesquisa das ilustra\u00e7\u00f5es, para conhecermos representa\u00e7\u00f5es variadas desses seres. Apareceram imagens nos desenhos, mas tamb\u00e9m nas esculturas e nas gravuras. Chico, que \u00e9 um especialista no desenho de dinossauros e outros seres afins, passou a desenhar os drag\u00f5es dessas hist\u00f3rias e brincar com as representa\u00e7\u00f5es do Pav\u00e3o. Maur\u00edcio e Caio seguiram o mesmo caminho e espalharam seus pav\u00f5es nos cadernos, nas pinturas, em momentos de desenho livre.<\/p>\n<p><strong>Uma banca de cordel<\/strong><br \/>\nParte dessa produ\u00e7\u00e3o foi exposta no Cordel Gigante\u201d, jun\u00e7\u00e3o dos fragmentos preferidos das crian\u00e7as. A outra parte, numa bonita banca de cordel, como as que se faz em Pernambuco, recheadas com os textos e as ilustra\u00e7\u00f5es, impress\u00f5es t\u00edpicas, tais como as xilogravuras dos originais que mant\u00ednhamos na sala. Para essa produ\u00e7\u00e3o, pesquisamos muitas imagens, cenas das festas populares, dos personagens das hist\u00f3rias, dos santos e do cotidiano do povo. Al\u00e9m da aprecia\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, as crian\u00e7as tamb\u00e9m precisaram fazer as imagens, e por isso estudamos, numa breve seq\u00fc\u00eancia de atividades, as t\u00e9cnicas de impress\u00e3o mais usadas pelos mestres. (veja em Sustan\u00e7a as etapas).<\/p>\n<p><strong>Sa\u00edda a campo<\/strong><br \/>\nEm meio a tantos estudos tivemos a sorte de participar do evento Encontro da Cultura Brasileira, que aconteceu na cidade de S\u00e3o Paulo no in\u00edcio de novembro, com nossa visita \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o O Cordel e a Arte dos Livros. Todos queriam ver os cord\u00e9is e principalmente comprar alguns, pois sabem que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encontr\u00e1-los por a\u00ed, nas livrarias. Era uma chance de adquiri-los.<\/p>\n<p>De todos os que encontramos, escolhemos um de cada tipo para a escola e depois cada um escolheu um para si. Foi bonito ver o cuidado que as crian\u00e7as tiveram com esse material simples, sem grandes sofistica\u00e7\u00f5es, mas que para eles j\u00e1 havia adquirido grande import\u00e2ncia. Por pouco pudemos conhecer pessoalmente o mestre Borges, o autor que veio de Pernambuco vender seu trabalho.<\/p>\n<p>O monitor da exposi\u00e7\u00e3o nos contou algumas coisas sobre esse autor, mas as crian\u00e7as, um pouco frustradas por n\u00e3o poder v\u00ea-lo, descobriram o endere\u00e7o no verso do cordel e pediram para que lhe escrev\u00eassemos uma carta. Gostaram da id\u00e9ia, e analisaram folheto por folheto na tentativa de ler os nomes dos autores, insistindo para eu anotar! Por eles eu certamente passaria o m\u00eas escrevendo cartas para o nordeste pedindo cordel.<\/p>\n<div id=\"attachment_3078\" style=\"width: 437px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3078\" class=\"size-full wp-image-3078\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_22_cordel6.jpg\" alt=\"avisala_22_cordel6.jpg\" width=\"427\" height=\"356\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_22_cordel6.jpg 427w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_22_cordel6-300x250.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 427px) 100vw, 427px\" \/><p id=\"caption-attachment-3078\" class=\"wp-caption-text\">Tudo o que est\u00e1 pendurado aqui \u00e9 cordel, se voc\u00ea n\u00e3o sabe o que \u00e9 cordel, cordel \u00e9 uma hist\u00f3ria que se l\u00ea cantando<\/p><\/div>\n<p><strong>Compartilhando interesses reais<\/strong><br \/>\nComo pode se notar, os objetivos do projeto de cordel s\u00e3o essencialmente os relacionados \u00e0 linguagem. Mas a linguagem acabou nos servindo como ve\u00edculo para saber muitas outras coisas&#8230; Por meio do cordel, fomos nos inserindo nos demais aspectos da cultura brasileira, tais como a m\u00fasica e a arte das gravuras.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o escondo que adorei este trabalho, porque al\u00e9m de gostar de viajar pelo Brasil, me divirto muito, dou boas risadas com as aventuras do Jo\u00e3o Valente, com as hist\u00f3rias do Pav\u00e3o Misterioso, do Pr\u00edncipe do Barro Branco, a da Princesa do Vai n\u00e3o Torna e todas as outras, em que h\u00e1 sempre muita ironia, como no caso de Satan\u00e1s Invade a Terra em Discos Voadores ou o Casamento da Porca com Z\u00e9 da Lasca. Gosto mesmo da id\u00e9ia de adultos dividindo seus interesses com as crian\u00e7as, interesses reais, os da vida, e n\u00e3o aqueles feitos exclusivamente para fins escolares.<\/p>\n<p>(Por Silvana Augusto, professora de Filosofia e formadora do Instituto Avisa L\u00e1. Na \u00e9poca do projeto era professora de Educa\u00e7\u00e3o Infantil da Escola Logos, de S\u00e3o Paulo)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup> Os irm\u00e3os Grimm foram os alem\u00e3es Jacob (1785\u20131863) e Wilhelm (1786\u20131859), e \u00e9 deles a vers\u00e3o que conhecemos de Jo\u00e3o e Maria<\/p>\n<h4>Como \u00e9 um folheto de cordel<\/h4>\n<p>Um folheto de cordel \u00e9 um livro pequeno (geralmente 16 cm x 10 cm) e muito fino (a maioria tem 8, 16 ou 32 p\u00e1ginas). \u00c9 impresso em papel barato, e nas capas aparecem xilogravuras (gravuras entalhadas em madeira), reprodu\u00e7\u00f5es de cart\u00f5es-postais antigos, ou fotos mostrando cenas de filmes.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-3079\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_22_cordel7.jpg\" alt=\"avisala_22_cordel7\" width=\"267\" height=\"138\" \/>Em geral, os folhetos s\u00e3o narrados em versos chamados \u201csextilhas\u201d. A sextilha tem um esquema fixo de rimas; na transcri\u00e7\u00e3o de versos, costuma-se usar um sistema de nota\u00e7\u00e3o onde cada letra equivale a uma linha da estrofe. A sextilha, portanto, usa o esquema que \u00e9 chamado de ABCBDB. Portanto, a segunda, a quarta e a sexta linha rimam entre si, e as demais n\u00e3o. Alguns autores usam outra nota\u00e7\u00e3o, e descrevem esse esquema de rimas como XAXAXA, onde o \u201cX\u201d indica as linhas que tem rima livre, e o \u201cA\u201d as linhas que rimam entre si.<\/p>\n<p>Quando os violeiros repentistas est\u00e3o \u201ctrocando sextilhas\u201d durante uma cantoria, existe a obriga\u00e7\u00e3o de \u201cpegar a deixa\u201d, ou seja, a primeira linha do verso, em vez de ter rima livre, tem que rimar com a rima principal (linhas 2,4 e 6) do verso do oponente. Nos folhetos narrativos, isso n\u00e3o acontece. O escritor tem apenas a obriga\u00e7\u00e3o de rimar a linha 2, 4 e a 6.<\/p>\n<p>Fonte: A Pedra do Meio-Dia ou Artur e Isadora \u2013 Literatura de Cordel, Br\u00e1ulio Tavares<\/p>\n<h4>A contagem das s\u00edlabas do verso<\/h4>\n<p>A sextilha \u00e9 feita de seis versos de sete s\u00edlabas. A contagem de s\u00edlabas num verso varia grandemente, de acordo com a habilidade de quem o recita. O bom leitor de versos em voz alta percebe instintivamente, mesmo num texto que v\u00ea pela primeira vez, que s\u00edlabas devem ser elididas, ou \u201cengolidas\u201d, para que o verso encaixe na m\u00e9trica. O poema de Castro Alves O Navio Negreiro! come\u00e7a com uma elis\u00e3o desse tipo: \u201cStamos em pleno mar!&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>O verso de sete s\u00edlabas tem algumas acentua\u00e7\u00f5es mais freq\u00fcentes, mais t\u00edpicas. Devemos lembrar que os folhetos nascem dentro de uma cultura que os identifica fortemente com os cantadores de viola ou repentistas (um escritor de folhetos n\u00e3o \u00e9 necessariamente um violeiro, e vice-versa). O fato de o cordel ser rigidamente escrito em sextilhas faz com que qualquer melodia (ou \u201ctoada\u201d, como dizem os cantadores) feita para uma sextilha possa ser usada para \u201ccantar\u201d os folhetos.<\/p>\n<p>Quem recita ou l\u00ea uma sextilha j\u00e1 tem na mem\u00f3ria o ritmo sugerido por essas \u201ctoadas\u201d, e tenta fazer a leitura de modo a acomodar os versos dentro dessa cad\u00eancia musical. Veja-se por exemplo a primeira sextilha do Pav\u00e3o Misterioso:<\/p>\n<p>&#8220;Eu vou contar a hist\u00f3ria<br \/>\nDo pav\u00e3o misterioso<br \/>\nQue levantou v\u00f4o da Gr\u00e9cia<br \/>\nCom um rapaz corajoso,<br \/>\nRaptando uma condessa<br \/>\nFilha de um conde orgulhoso&#8221;<\/p>\n<p>Destacando-se as s\u00edlabas fortes, podemos ler o verso assim, em voz alta:<\/p>\n<p>eu-vou-con-TAR, a-his-T\u00d3 (ria)<br \/>\ndum-pa-V\u00c3O, mis-te-ri-\u00d4 (so)<br \/>\nque-le-van-TOU, vou-da GR\u00c9 (cia)<br \/>\ncom-um-ra-PAZ, co-ra-J\u00d4 (so)<br \/>\nra-pi-TAN, du-ma-con-D\u00eas (as)<br \/>\nfi-lha-DUN, con-d\u00f3r-gu-LH\u00d4 (so)<\/p>\n<p>Algumas liberdades est\u00e3o a\u00ed bem vis\u00edveis. Na terceira linha, a palavra \u201cv\u00f4o\u201d tem de ser pronunciada \u201cvou\u201d, sen\u00e3o complica. E pronunciar \u201crapitando\u201d pode ser inc\u00f4modo para alguns ouvidos, mas desde que no folheto a palavra esteja escrita direito, pode-se for\u00e7ar um pouco a pron\u00fancia e invocar licen\u00e7a po\u00e9tica.<\/p>\n<p>Deve-se observar tamb\u00e9m que a contagem das s\u00edlabas dos versos \u201cacaba\u201d na s\u00edlaba t\u00f4nica da \u00faltima palavra da linha. Desse modo, o n\u00famero de s\u00edlabas gramaticais e de s\u00edlabas m\u00e9tricas de qualquer verso quase nunca coincide: as s\u00edlabas gramaticais s\u00e3o em geral bem mais numerosas.<\/p>\n<p>Fonte: A Pedra do Meio-Dia ou Artur e Isadora \u2013 Literatura de Cordel, Br\u00e1ulio Tavares.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3080\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_22_cordel2.jpg\" alt=\"avisala_22_cordel2\" width=\"192\" height=\"186\" \/><\/p>\n<h4>Para Saber Mais<\/h4>\n<ul>\n<li>A Pedra do Meio-Dia ou Artur e Isadora \u2013 Literatura de Cordel, Br\u00e1ulio Tavares. Ed. 34. Tel.: (11) 3032-6755<\/li>\n<li>Assim Falava Lampi\u00e3o, Fred Navarro. Ed. Esta\u00e7\u00e3o Liberdade. Tel. (11) 3661-2881<\/li>\n<li>A Not\u00edcia na Literatura de Cordel, Joseph M. Luyten. Ed. Esta\u00e7\u00e3o Liberdade. Tel. (11) 3661-2881<\/li>\n<li>Lagartixas Verdinhas pelo Ch\u00e3o, Patativa do Assar\u00e9. Ed. Cortez. Tel.: (11) 3864-0404<\/li>\n<li>Patativa do Assar\u00e9 \u2013 O Poeta Passarinho, Fabiano dos Santos. Ed. Dem\u00f3crito Rocha. Tel.: (85) 255-6176<\/li>\n<li>Hist\u00f3ria do Brasil em Cordel, Mark Curran. Ed. da Universidade de S\u00e3o Paulo (EDUSP). Tel.: (11) 3091-2911<\/li>\n<li>Cordel na Sala de Aula, H\u00e9lder Pinheiro e Ana Cristina Marinho L\u00facio. Livraria Duas Cidades. Tel.: (11) 3331-5134 \/ 3331-4702<\/li>\n<li>Biblioteca de Cordel, v\u00e1rios autores. Ed. Hedra. Tel.: (11) 3097-830412<\/li>\n<li>Folhetos de Cordel, Marcelo Soares. E-mail: marceloalvessoares@yahoo.com.br<\/li>\n<\/ul>\n<h4>Onde encontrar cordel<\/h4>\n<ul>\n<li>Bezerros \u2013 PE Jos\u00e9 Borges. Av. Major Apr\u00edgio da Fonseca, 420. CEP: 55660-000<\/li>\n<li>Campina Grande \u2013 PB Apol\u00f4nio Alves dos Santos. Rua Eduardo Correia Lima, 12 \u2013 Quadra 95 \u2013 Conjunto \u00c1lvaro Gaud\u00eancio de Queiroz \u2013 Bodocong\u00f3. CEP: 58108-325<\/li>\n<li>Caruaru \u2013 PE Oleg\u00e1rio Fernandes da Silva. Museu do Cordel \u2013 Feira de Caruaru<\/li>\n<li>Crato \u2013 CE Josenir Lacerda. Rua Jos\u00e9 Carvalho, 168<\/li>\n<li>Fortaleza \u2013 CE Tupynanquim Editora. Caixa Postal 717 \u2013 Ag\u00eancia Central. CEP 60001-970. Tel (85) 217-2891. E-mail: kleviana@ig.com.br<\/li>\n<li>Patos \u2013 PB Ant\u00f4nio Am\u00e9rico de Medeiros. Barraca Santo Ant\u00f4nio, 267 \u2013 Mercado Central de Patos. CEP: 58700-120<\/li>\n<li>Recife \u2013 PE Folhateria Cordel. Rua Jo\u00e3o Samuel da Costa, 13 \u2013 Cohab \u2013 Timba\u00faba. CEP: 55870-000 E-mail: marceloalvessoares@yahoo.com.br<\/li>\n<li>Rio de Janeiro \u2013 RJ: Academia Brasileira de Cordel. Rua Leopoldo Fr\u00f3es, 37 \u2013 Santa Teresa. CEP: 20241-330 Tels.: (21) 2232-4801 \/ 2221-1077 \/\/ Feira de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. Campo de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. Tels.: (21) 3860-9976 \/ (21) 3860-9862 Site: www.feiradesaocristovao.art.br. E-mail: marketing@feiradesaocristovao.com.br<\/li>\n<li>S\u00e3o Paulo \u2013 SP:Editora Luzeiro. Rua Almirante Barroso, 730. CEP: 03025-001. Tels.: (11) 292-3188 \/ 6292-3188 \/\/ Boulevard S\u00e3o Jo\u00e3o. Rua S\u00e3o Bento, 465 \u2013 Pra\u00e7a do Correio \u2013 Centro. Com o cantador e cordelista Jo\u00e3o Cabeleira<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>CDs<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Na Pancada do Ganz\u00e1, Antonio N\u00f3brega<\/li>\n<li>Mocinha de Passira &amp; Valdir Teles, Mocinha de Passira e Valdir Teles<\/li>\n<\/ul>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3081\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/avisala_22_cordel3.jpg\" alt=\"avisala_22_cordel3\" width=\"188\" height=\"236\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Crian\u00e7as de 5 anos se entusiasmam com a leitura de cordel na escola. Conhecem n\u00e3o s\u00f3 o texto mas o contexto onde esta literatura est\u00e1 inserida e aproveitam o canto e encanto desta tradi\u00e7\u00e3o brasileira. Por Silvana Augusto<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":3252,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[383,34],"tags":[1106,1325,638,196,21,151,508,639,214,53],"class_list":{"0":"post-3054","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-revista-avisala-22","8":"category-tempo-didadico","9":"tag-revista-avisa-la-2005","10":"tag-alfabetizacao","11":"tag-cordel","12":"tag-cultura","13":"tag-escrita","14":"tag-leitura","15":"tag-literatura","16":"tag-oralidade","17":"tag-pesquisa","18":"tag-silvana-augusto","20":"post-with-thumbnail","21":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3054","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3054"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3054\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3252"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3054"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3054"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3054"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}