{"id":2565,"date":"2004-09-20T20:56:59","date_gmt":"2004-09-20T23:56:59","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=2565"},"modified":"2023-03-27T17:44:19","modified_gmt":"2023-03-27T20:44:19","slug":"escola-e-familia-uma-parceria-que-rende-frutos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/jeitos-de-cuidar\/escola-e-familia-uma-parceria-que-rende-frutos\/","title":{"rendered":"Escola e fam\u00edlia: uma parceria que rende frutos"},"content":{"rendered":"<h5>A educa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a \u00e9 a\u00e7\u00e3o compartilhada entre educadores e familiares. Ningu\u00e9m discorda. Mas realizar isso de forma integrada e colaborativa n\u00e3o \u00e9 tarefa t\u00e3o simples. Veja neste artigo uma experi\u00eancia interessante de interc\u00e2mbio entre o pessoal de casa e a escola<\/h5>\n<div id=\"attachment_2569\" style=\"width: 612px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2569\" class=\"size-full wp-image-2569\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2004\/09\/avisala_20_jeitos1.jpg\" alt=\"avisala_20_jeitos1.jpg\" width=\"602\" height=\"401\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2004\/09\/avisala_20_jeitos1.jpg 602w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2004\/09\/avisala_20_jeitos1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><p id=\"caption-attachment-2569\" class=\"wp-caption-text\">Brincadeira de pe\u00e3o de boiadeiro durante os estudos de G\u00f3ias<\/p><\/div>\n<p>Tradicionalmente, a presen\u00e7a da fam\u00edlia em muitas escolas se restringe \u00e0s reuni\u00f5es de pais, festas previstas no calend\u00e1rio letivo ou conversas sobre o comportamento das crian\u00e7as. Essa situa\u00e7\u00e3o parece confirmar algo muito arraigado na educa\u00e7\u00e3o: quem tem sempre o que dizer \u00e9 a escola. Dessa maneira, os pais ficam numa posi\u00e7\u00e3o passiva, de quem precisa ouvir a escola ou ser avaliado por ela.<\/p>\n<p>Algumas escolas partilham de uma opini\u00e3o corrente de que a boa fam\u00edlia deve seguir um modelo, segundo uma vis\u00e3o bastante idealizada, cujo padr\u00e3o \u00e9 previamente estabelecido. H\u00e1 muitos preconceitos envolvidos, vis\u00f5es estereotipadas que contribuem para dificultar o di\u00e1logo entre a escola e a fam\u00edlia.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nA import\u00e2ncia desse di\u00e1logo e de um olhar acolhedor sobre as fam\u00edlias que considere suas caracter\u00edsticas, conhecimentos, valores e cultura, resulta uma aproxima\u00e7\u00e3o maior em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as, na medida em que elas t\u00eam em sua fam\u00edlia um ponto de refer\u00eancia fundamental. Abrir as portas da escola para os pais significa tamb\u00e9m acolher diferen\u00e7as, cren\u00e7as, valores e costumes distintos, conferindo valor e respeito \u00e0 diversidade, sem que um lado necessite aderir incondicionalmente aos valores do outro.<\/p>\n<p>As educadoras Daniela Storto, Marta Picchioni e Raquel Pereira, da Escola Recreio, em S\u00e3o Paulo, desenvolveram um projeto com seus alunos de tr\u00eas anos, a partir de um interc\u00e2mbio entre familiares e educadores. Explorando tanto os lugares j\u00e1 conhecidos pelas crian\u00e7as quanto os de origem dos pais e familiares, esse grupo de alunos partiu para uma longa \u201cviagem\u201d pelo Brasil, visitando diferentes regi\u00f5es e seus aspectos geogr\u00e1ficos e culturais.<\/p>\n<p>Nesse trabalho, o di\u00e1logo com as fam\u00edlias foi um ponto crucial na escolha do que seria estudado pelas crian\u00e7as, assim como o acolhimento de diferentes culturas e jeitos de ser das fam\u00edlias. A seguir, elas relatam sua experi\u00eancia:<\/p>\n<p><strong>Viajando com as fam\u00edlias<\/strong><br \/>\nIniciamos nossa grande aventura a partir dos lugares que eram conhecidos pelas crian\u00e7as. Em um primeiro levantamento, elas conversaram sobre as viagens que j\u00e1 haviam realizado com a fam\u00edlia, sobre os lugares em que os pais nasceram ou onde moravam os parentes pr\u00f3ximos. E ent\u00e3o descobrimos av\u00f3s morando em Goi\u00e1s, pais cariocas, uma m\u00e3e que morou por muitos anos na Bahia, uma av\u00f3 mineira, amigos de pais ga\u00fachos e soubemos de diversas experi\u00eancias de viagens em fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed montamos nosso \u201croteiro de viagem\u201d, e definimos o per\u00edodo previsto para ela durante o semestre. \u201cCompramos passagem\u201d para Goi\u00e1s, Pantanal, Bahia e arredores, Rio de Janeiro, Minas Gerais, S\u00e3o Paulo e Sul do pa\u00eds. Pesquisar\u00edamos com as crian\u00e7as diferentes aspectos desses locais.<\/p>\n<p>Ach\u00e1vamos que uma boa forma de inaugurar os per\u00edodos de estudos dedicados a cada regi\u00e3o seria receber familiares e amigos para conversar conosco, responder quest\u00f5es e d\u00favidas, dar depoimentos. Dessa maneira, nosso projeto tamb\u00e9m promoveu um relacionamento mais intenso entre as viv\u00eancias escolares e em fam\u00edlia, e tamb\u00e9m das fam\u00edlias entre si. E como foi interessante! As crian\u00e7as, al\u00e9m de \u00f3timas anfitri\u00e3s, n\u00e3o se cansavam de elaborar perguntas; e, na medida em que o conhecimento delas sobre o Brasil aumentava, tinham mais quest\u00f5es a fazer, pois estabeleciam rela\u00e7\u00f5es com o que j\u00e1 sabiam a respeito das regi\u00f5es anteriormente estudadas.<\/p>\n<p>Holanda, m\u00e3e da Tarsila, por exemplo, nos contou que na Bahia as casas s\u00e3o muito coloridas, que existem muitas frutas diferentes das que n\u00f3s estamos acostumados a ver, que existem tantas igrejas em Salvador que se poderia visitar uma diferente a cada dia do ano (!) e que muitas pessoas negras moram l\u00e1. Essas informa\u00e7\u00f5es jamais foram esquecidas pela turma que, a cada nova visita, perguntava:<\/p>\n<p>\u201c\u2013 L\u00e1 as casas s\u00e3o coloridas?\u201d;<br \/>\n\u201c\u2013 Tem muitas igrejas?\u201d.<\/p>\n<p>Com o tempo, as crian\u00e7as passaram a perceber diferentes caracter\u00edsticas entre os Estados, do ponto de vista das etnias, da arquitetura, da paisagem. Outras perguntas tamb\u00e9m passaram a fazer parte do repert\u00f3rio das crian\u00e7as, como o jeito de falar de cada regi\u00e3o. Descobriram, entre outras coisas, que no Rio de Janeiro encanador \u00e9 o mesmo que bombeiro:<\/p>\n<p>\u201c\u2013 Ent\u00e3o l\u00e1 tem dois bombeiros?\u201d.<\/p>\n<p>Exatamente! H\u00e1 o bombeiro que apaga o fogo e aquele que concerta os canos!<\/p>\n<p>Divertiram-se bastante ao aprender que, enquanto em S\u00e3o Paulo falamos poRta e toRta, no Rio de Janeiro fala-se porrrta e torrrta; j\u00e1 em Minas, o modo de pronunciar o r assemelha-se ao do sotaque interiorano, al\u00e9m do divertido jeito que eles t\u00eam de falar os diminutivos: minerim, gostosim, meninim, em vez de usarem, como n\u00f3s, paulistas, o sufixo \u201cinho\u201d.<\/p>\n<p><strong>A sistematiza\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nPara al\u00e9m das entrevistas, continu\u00e1vamos nossas pesquisas consultando coletivamente, em roda, ou individualmente, nos cantos, livros informativos que foram trazidos de casa pelas crian\u00e7as e tamb\u00e9m por n\u00f3s educadores. Tivemos em m\u00e3os um material rico, no qual as crian\u00e7as obtinham informa\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de imagens de qualidade (principalmente fotografias) e onde l\u00edamos para elas sobre costumes da popula\u00e7\u00e3o, hist\u00f3ria, festas e arte popular, sobre a natureza (meio ambiente, animais)&#8230;<\/p>\n<p>Abord\u00e1vamos as categorias de informa\u00e7\u00f5es que melhor caracterizam a cultura t\u00edpica de cada um dos locais estudados. Combinamos com as crian\u00e7as que far\u00edamos cartazes para registrar tudo o que aprendiam. Assim, poderiam consult\u00e1-los sempre que precisassem recorrer a alguma informa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, esses cartazes seriam expostos aos pais, que assim ficariam a par dos conhecimentos constru\u00eddos. Gradativamente, confeccionamos com as crian\u00e7as os cartazes com informa\u00e7\u00f5es a respeito de cada uma das regi\u00f5es estudadas. Eram compostos por figuras de revistas, fotografias e textos produzidos<br \/>\noralmente pelas crian\u00e7as e registrados por n\u00f3s, professoras e escribas do grupo.<\/p>\n<p>Ao lado dos cartazes, montamos caixas que continham objetos, brinquedos, recortes de jornal trazidos de casa e enfeites comprados pelas fam\u00edlias das crian\u00e7as em suas viagens, referentes a cada regi\u00e3o estudada. Assim, desenrolaram-se v\u00e1rios momentos de brincadeiras de faz-de-conta, nos quais as crian\u00e7as, a partir do material de cada caixa, inventavam enredos, brincadeiras e personagens.<br \/>\n<strong><br \/>\nO Brasil que canta, dan\u00e7a e brinca<\/strong><br \/>\nAs conversas sobre as regi\u00f5es estudadas proliferavam, tanto as promovidas por n\u00f3s como outras, ocorrendo espontaneamente entre as crian\u00e7as ou entre elas e seus pais, quando eles entravam em sala para deix\u00e1-las ou busc\u00e1-las. \u201c\u2013 Sabia que a minha bab\u00e1 tamb\u00e9m nasceu na Bahia? Vou chamar ela pra contar na roda da cidade dela!\u201d; ou, de uma crian\u00e7a para sua m\u00e3e: \u201cSabia, m\u00e3e, que muito antigamente tinham os \u2018cravos\u2019 (escravos) mas que agora n\u00e3o pode mais?\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, v\u00edamos realizarem-se dois de nossos principais objetivos: as crian\u00e7as exercitavam, de diversas maneiras, a linguagem oral e, al\u00e9m disso, estavam em contato constante e significativo com outras formas de representa\u00e7\u00e3o como, por exemplo, a linguagem escrita. Mapas, mitos e lendas brasileiras passaram a fazer parte do faz-de-conta espont\u00e2neo. Embora lobisomem fosse o personagem mais disputado, amedrontador mas paradoxalmente adorado por todos, apareciam tamb\u00e9m a cuca, o curupira, o saci e a mula-sem-cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>As rodas de hist\u00f3ria deixavam todos com um \u201cmedinho\u201d gostoso no ar e, nas partes de maior suspense, as crian\u00e7as se davam as m\u00e3os ou pediam para sentar no colo. Foi interessante perceber que quando a hist\u00f3ria n\u00e3o tinha esse suspense ou n\u00e3o dava um \u201cmedinho\u201d as crian\u00e7as logo pediam: \u201cAh, agora l\u00ea a do lobisomem!\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos momentos de pesquisa, entrevista, hist\u00f3ria e registro, tivemos muitos outros, descontra\u00eddos, de brincadeiras, canto e dan\u00e7a. A m\u00fasica esteve presente no grupo praticamente todos os dias, e as crian\u00e7as conheceram int\u00e9rpretes de diferentes g\u00eaneros musicais brasileiros. \u00c9 claro que, ao escolher o repert\u00f3rio de m\u00fasicas, dada a tamanha diversidade de bons int\u00e9rpretes e compositores, realizamos um entre muitos recortes poss\u00edveis, sempre tentando apresentar aqueles que mais traduzissem o esp\u00edrito do Estado ou regi\u00e3o estudada.<\/p>\n<p>Assim, o grupo ouviu, dan\u00e7ou e cantou ao som de Gal Costa, Caetano Veloso, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Elza Soares, Ney Matogrosso, Leandro e Leonardo, Itamar Assun\u00e7\u00e3o, Milton Nascimento, Raul Seixas, Rita Lee, Arnaldo Antunes, S\u00e9rgio Reis, Noel Rosa, Braguinha, grupo Olodum, entre outros.<\/p>\n<p>As marchinhas de carnaval antigas como \u201cMam\u00e3e eu Quero\u201d, \u201cPirata da Perna-de-Pau\u201d e \u201cChiquita Bacana\u201d fizeram tanto sucesso que as crian\u00e7as as elegeram para serem cantadas na apresenta\u00e7\u00e3o de fim de ano, para os pais. Como n\u00e3o poderia deixar de ser, outro produto do projeto, al\u00e9m dos cartazes produzidos em conjunto, foi um CD com as m\u00fasicas preferidas do grupo \u2013 que atravessava todo nosso itiner\u00e1rio e, desse modo, funcionou como um instrumento de sistematiza\u00e7\u00e3o de tudo aquilo que estudamos ao longo desse delicioso semestre de viagens pelo Brasil.<\/p>\n<p>O projeto foi um sucesso com as crian\u00e7as e com suas fam\u00edlias, comprovando que os conhecimentos familiares s\u00e3o poderosos aliados da escola e colaboram para dar significado a in\u00fameras aprendizagens.<\/p>\n<p>(Por Daniela N. Storto, Marta S. Y. Picchioni e Raquel T. M. Pereira, Respectivamente orientadora e professoras da Escola de Educa\u00e7\u00e3o Infantil Recreio em S\u00e3o Paulo)<\/p>\n<div id=\"attachment_2571\" style=\"width: 612px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2571\" class=\"size-full wp-image-2571\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2004\/09\/avisala_20_jeitos2.jpg\" alt=\"avisala_20_jeitos2.jpg\" width=\"602\" height=\"385\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2004\/09\/avisala_20_jeitos2.jpg 602w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2004\/09\/avisala_20_jeitos2-300x191.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><p id=\"caption-attachment-2571\" class=\"wp-caption-text\">Visita de Holanda, m\u00e3e de Tarsila, contando sobre a Bahia<\/p><\/div>\n<h4>Madalena Freire<\/h4>\n<p>Na d\u00e9cada de 80, Madalena Freire trabalhou como professora de pr\u00e9-escola, em Vila Helena, bairro do munic\u00edpio de Carapicu\u00edba, S\u00e3o Paulo. No relato que fez deste trabalho, chama aten\u00e7\u00e3o a forma como incluiu a fam\u00edlia das crian\u00e7as no cotidiano escolar.<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria do meu processo como professora em Vila Helena <\/strong><br \/>\nTrabalhei sempre (19 anos) com crian\u00e7as de classe m\u00e9dia, na faixa dos 2 aos 8 anos. Sempre acreditei que fosse poss\u00edvel viver com as crian\u00e7as da periferia (exploradas, e n\u00e3o carentes) dentro de uma mesma concep\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o, uma pr\u00e1tica criadora, transformadora, que partisse da apropria\u00e7\u00e3o dos sujeitos, crian\u00e7a-professor, do seu processo de conhecimento. Conhecimento de si e do mundo.<\/p>\n<p>Todas as vezes que escutei: \u201c\u2013 Voc\u00ea consegue trabalhar assim porque essas crian\u00e7as s\u00e3o ricas, s\u00e3o bem alimentadas&#8230;\u201d ou: \u201c \u2013 Essa pr\u00e1tica s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque voc\u00ea tem 20 crian\u00e7as por classe&#8230;\u201d ou ainda: \u201c\u2013 Quero ver voc\u00ea trabalhar sem material\u2026\u201d, e tamb\u00e9m: \u201c\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o tinha os pais ignorantes contra voc\u00ea&#8230;\u201d, duvidei, neguei todas essas afirma\u00e7\u00f5es, mas como n\u00e3o estava com as pr\u00e1ticas nas m\u00e3os, minhas contesta\u00e7\u00f5es valiam pouco.<\/p>\n<p>Agora, com a pr\u00e1tica nas m\u00e3os, constato, no meu dia-a-dia na Vila Helena, o que j\u00e1 acreditava: essas afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o cren\u00e7as de quem tem um outro tipo de concep\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o, de vis\u00e3o de mundo. Porque alimentadas minhas crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o, mas t\u00eam toda a capacidade de pensar sobre a realidade da Vila Helena, sobre o que tem significado para elas.<\/p>\n<p>Pensar sobre algo que n\u00e3o lhes diz nada n\u00e3o \u00e9 pensar. O erro n\u00e3o est\u00e1 nas crian\u00e7as, mas sim na escola alienada da realidade das crian\u00e7as. N\u00e3o s\u00e3o as crian\u00e7as que est\u00e3o despreparadas para a escola, mas sim a escola que desconsidera as diferen\u00e7as de classe social e suas reais necessidades&#8230; A seguir, um trecho do relato dessa experi\u00eancia, em que o interc\u00e2mbio e a valoriza\u00e7\u00e3o dos saberes dos pais ficam explicitados.<\/p>\n<p>Certo dia, Pedro entra carregado com dois vidros: uma cobra viva e outra morta.<\/p>\n<p>\u2013 Meu pai pegou, Madalena!<br \/>\n\u2013 Como ele pegou? \u2013 perguntaram as crian\u00e7as.<br \/>\n\u2013 Pedro, pergunta pro seu pai se ele pode vir aqui contar pra n\u00f3s como ele pegou as cobras&#8230;<br \/>\n\u2013 T\u00e1 bom.<\/p>\n<p>No dia seguinte chega Pedro com seu pai pela m\u00e3o:<br \/>\n\u2013 Ele veio contar&#8230;<\/p>\n<p>E assim, \u201cPedr\u00e3o\u201d, pai de Pedro, com as crian\u00e7as em volta, come\u00e7a a contar a sua hist\u00f3ria:<br \/>\n\u2013 Eu tava ro\u00e7ando o mato quando vi essa da\u00ed drumindo, da\u00ed eu lembrei que voc\u00eas gostam de bicho, dei uma paulada e pus ela no vidro. Acho que essa \u00e9 jararaca&#8230; A outra quietinha da\u00ed, eu pus o vidro e ela entrou, da\u00ed tampei r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Gl\u00f3ria, m\u00e3e do Alexandre, que escutava a hist\u00f3ria, deu um palpite:<br \/>\n\u2013 Acho que essa da\u00ed (apontando para a cobra morta) \u00e9 igual a uma cobra que tem l\u00e1 em Minas, chamada surucucu.<br \/>\n\u2013 Qual ser\u00e1 ent\u00e3o, surucucu ou jararaca? Vou trazer um livro amanh\u00e3, pra gente procurar saber&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte, Gl\u00f3ria me cumprimenta com a pergunta:<br \/>\n\u2013 Trouxe o livro, Madalena?<\/p>\n<p>Digo-lhe que sim e comunico ao grupo que trouxe um livro para a Gl\u00f3ria que entende (sabe) de cobras. Quis com esse encaminhamento explicitar que o saber de Gl\u00f3ria era t\u00e3o importante quanto o saber dos livros. E assim come\u00e7amos a estudar cobras, eu, as crian\u00e7as e algumas m\u00e3es lideradas pela Gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>(Madalena Freire, Cadernos de Pesquisa (56): 82-105, fev. 1986 Editora Autores Associados Ltda. Tel.: (19) 3289-5930)<\/p>\n<h4>Ficha T\u00e9cnica:<\/h4>\n<p>Escola de Educa\u00e7\u00e3o Infantil Recreio \u2013 Rua Mourato Coelho, 1390 \u2013 Pinheiros S\u00e3o Paulo \u2013 Tel.: (11) 3032-6488<br \/>\nEquipe: Daniela N. Storto. E-mail: danistorto@hotmail.com,<br \/>\nMarta S. Y. Picchioni. E-mail: martasyp@terra.com.br<br \/>\nRaquel T. M. Pereira. E-mail: keleju@ig.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A educa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a \u00e9 a\u00e7\u00e3o compartilhada entre educadores e familiares. Ningu\u00e9m discorda. Mas realizar isso de forma integrada e colaborativa n\u00e3o \u00e9 tarefa t\u00e3o simples. Veja neste artigo uma experi\u00eancia interessante de interc\u00e2mbio entre o pessoal de casa e a escola. Por Daniela N. 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