{"id":2543,"date":"2004-07-19T23:03:16","date_gmt":"2004-07-20T02:03:16","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=2543"},"modified":"2023-03-27T17:38:42","modified_gmt":"2023-03-27T20:38:42","slug":"formacao-de-leitores-por-onde-comecar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/reflexoes-do-professor\/formacao-de-leitores-por-onde-comecar\/","title":{"rendered":"Forma\u00e7\u00e3o de leitores: por onde come\u00e7ar"},"content":{"rendered":"<h5>O que \u00e9 ser leitor? Como crian\u00e7as n\u00e3o alfabetizadas podem ler um texto? essas s\u00e3o algumas das perguntas que foram discutidas no encontro de forma\u00e7\u00e3o que voc\u00ea vai conhecer a seguir. Veja como a resolu\u00e7\u00e3o de problemas e a an\u00e1lise de situa\u00e7\u00f5es hom\u00f3logas de leitura ajudam o professor a construir novas pr\u00e1ticas educativas no campo da alfabetiza\u00e7\u00e3o inicial.<\/h5>\n<p><!--more--><\/p>\n<div id=\"attachment_2545\" style=\"width: 536px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2545\" class=\"size-full wp-image-2545\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisala_19_reflex1.jpg\" alt=\"avisala_19_reflex1.jpg\" width=\"526\" height=\"276\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisala_19_reflex1.jpg 526w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisala_19_reflex1-300x157.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 526px) 100vw, 526px\" \/><p id=\"caption-attachment-2545\" class=\"wp-caption-text\">Em subgrupos, os educadores discutem a proposta feita pela formadora<\/p><\/div>\n<p>Atualmente convivemos com muitas propostas de forma\u00e7\u00e3o de professores. No Brasil, s\u00e3o 328.093 professores de Educa\u00e7\u00e3o Infantil espalhados por todo o pa\u00eds, separados por grandes dist\u00e2ncias. Diante disso, todas as iniciativas s\u00e3o bem-vindas: forma\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia, semin\u00e1rios, projetos especiais etc. Mas n\u00e3o se pode esquecer, contudo, de um princ\u00edpio que deve orientar as a\u00e7\u00f5es formativas: \u00e9 a reflex\u00e3o sobre a pr\u00e1tica que devemos provocar, para que possamos ver transformadas as a\u00e7\u00f5es que se realizam junto \u00e0s crian\u00e7as nas institui\u00e7\u00f5es educativas.<\/p>\n<p>Esse foi um dos desafios que norteou o planejamento de um encontro dentro de um projeto de forma\u00e7\u00e3o em servi\u00e7o que articula os conte\u00fados desenvolvidos da forma\u00e7\u00e3o \u00e0s reais necessidades que o planejamento pedag\u00f3gico coloca aos professores, o que \u00e9 totalmente diferente dos cursos r\u00e1pidos ou palestras que apenas apresentam aos professores muitos conte\u00fados, deixando-lhes a dif\u00edcil tarefa de transpor esses conhecimentos para a pr\u00e1tica. Compartilho a seguir nossas reflex\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Contexto da forma\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nDurante dois anos desenvolvemos a forma\u00e7\u00e3o de dois grupos de educadores de creches das zonas sul e oeste da cidade de S\u00e3o Paulo<sup>1<\/sup>. Nos encontros de forma\u00e7\u00e3o mensais, reun\u00edamos todos os educadores e coordenadores pedag\u00f3gicos para discutir aspectos ligados ao trabalho com as crian\u00e7as. Uma supervis\u00e3o mensal dava continuidade ao trabalho dos educadores com apoio mais individualizado.<\/p>\n<p>Prop\u00fanhamos o desenvolvimento de alguns projetos definidos previamente de acordo com um diagn\u00f3stico do grupo. Naquele semestre, as creches desenvolviam projetos de pesquisa com vistas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da Pequena enciclop\u00e9dia dos animais, com cap\u00edtulos produzidos pelas pr\u00f3prias crian\u00e7as. Para aprender mais sobre os animais, as crian\u00e7as deveriam pesquisar em muitos livros, procurar informa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas sobre o modo como eles vivem, do que se alimentam etc.<\/p>\n<p>Os educadores precisariam, portanto, planejar situa\u00e7\u00f5es de pesquisa pelas crian\u00e7as, considerando suas compet\u00eancias e o que elas ainda poderiam aprender. Qual seria, ent\u00e3o, o conhecimento necess\u00e1rio aos educadores, o que apoiaria seu trabalho?<\/p>\n<p>Sabe-se que considerar como conte\u00fado de alfabetiza\u00e7\u00e3o apenas os aspectos formais da escrita, enquanto objeto de conhecimento, ou a diversidade de textos que se pode conhecer, n\u00e3o assegura que as crian\u00e7as usufruam da leitura. Se quisermos formar crian\u00e7as leitoras, precisaremos adotar uma outra perspectiva de trabalho que considere a intera\u00e7\u00e3o que o sujeito pode estabelecer nas dimens\u00f5es social (interpessoal, p\u00fablica) e psicol\u00f3gica (pessoal, privada).<\/p>\n<p>Para a pesquisadora argentina Delia Lerner, os conte\u00fados nesta nova perspectiva s\u00e3o os pr\u00f3prios comportamentos leitores (veja texto) envolvidos nos diferentes prop\u00f3sitos de leitura. Como tornar observ\u00e1vel tais aspectos do ensino da l\u00edngua pelos professores? Como apoi\u00e1-los no planejamento de boas situa\u00e7\u00f5es de leitura para crian\u00e7as que ainda n\u00e3o s\u00e3o leitoras convencionais?<\/p>\n<p>Para planejar momentos de leitura \u00e9 preciso, antes de mais nada, reconhecer os prop\u00f3sitos leitores envolvidos nessa atividade. Sabe-se que o que se l\u00ea depende dos olhos de quem l\u00ea. \u00c9 poss\u00edvel, por exemplo, ler uma letra de m\u00fasica para apreciar sua poesia ou para conhecer os h\u00e1bitos e costumes do tempo em que ela foi escrita.<\/p>\n<p>Podemos ler uma not\u00edcia para buscar uma informa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica ou simplesmente para ter uma id\u00e9ia geral a respeito do assunto. N\u00e3o \u00e9 o texto em si que move os leitores, mas sim seus prop\u00f3sitos diante dele. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m \u00e9 preciso ter clareza dos comportamentos leitores que se quer formar desde cedo, como buscar informa\u00e7\u00f5es e trocar impress\u00f5es sobre o que se aprendeu a partir dos textos.<\/p>\n<p>Definidos os conte\u00fados principais da forma\u00e7\u00e3o dos professores naquele momento, partimos para outras decis\u00f5es metodol\u00f3gicas envolvidas no planejamento.<\/p>\n<p><strong>Decis\u00f5es metodol\u00f3gicas<\/strong><br \/>\nPara tratar do assunto, propusemos um problema que seria resolvido pelos educadores. Mas n\u00e3o qualquer problema, pois sua escolha teria conseq\u00fc\u00eancias importantes para os resultados que se pretendia atingir. Uma boa situa\u00e7\u00e3o-problema deve reunir algumas condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas.<\/p>\n<p>Para Delia Lerner, \u201cdeve ter sentido no campo de conhecimento dos alunos, por\u00e9m n\u00e3o deve ser resol\u00favel s\u00f3 a partir dos conhecimentos que as crian\u00e7as j\u00e1 possuem. Em outras palavras, uma situa\u00e7\u00e3o- problema tem de permitir que os alunos ponham em pr\u00e1tica os esquemas de assimila\u00e7\u00e3o que j\u00e1 constru\u00edram e interpretem-na a partir dos mesmos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, estes conhecimentos pr\u00e9vios n\u00e3o devem ser suficientes para resolv\u00ea-la: a situa\u00e7\u00e3o deve exigir a constru\u00e7\u00e3o de novos conhecimentos ou de novas rela\u00e7\u00f5es entre os j\u00e1 elaborados. Tamb\u00e9m \u00e9 conveniente que o problema seja rico e aberto, que coloque os alunos diante da necessidade de tomar decis\u00f5es que lhes permitam escolher procedimentos ou caminhos diferentes (Douady, 1986; Inhelder, 1992)<sup>3<\/sup>\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, propusemos aos educadores a viv\u00eancia de uma situa\u00e7\u00e3o de leitura hom\u00f3loga a tantas outras que propor\u00edamos \u00e0s crian\u00e7as no desenvolvimento dos diferentes projetos. Escolhemos um problema que colocava os educadores diante da pr\u00f3pria pr\u00e1tica de leitura: dissemos que todos ganhariam viagens para algum lugar do mundo, com tudo pago, incluindo as compras de souvenir.<\/p>\n<p>Mas para isso teriam de tomar, \u00e0s pressas, tr\u00eas provid\u00eancias: decidir dia e hor\u00e1rio de partida e de retorno e o que levar na bagagem, e deveriam elaborar um roteiro de passeios. Subdividimos os grupos para que houvesse maior intera\u00e7\u00e3o. Cada grupo foi sorteado com um dos cinco lugares do mundo escolhidos previamente por n\u00f3s: Salem, sul da Patag\u00f4nia, Jalap\u00e3o, Piren\u00f3polis e sert\u00e3o da Para\u00edba.<\/p>\n<p>A proposta era desafiadora porque os lugares escolhidos eram pouco conhecidos, exigindo que os educadores acionassem seus conhecimentos pr\u00e9vios e levantassem hip\u00f3teses na tentativa de resolu\u00e7\u00e3o desse problema. Ser\u00e1 que levariam biqu\u00edni? Roupa de frio? Ser\u00e1 que se programariam para passear em shoppings? Que informa\u00e7\u00f5es usariam para tomar as decis\u00f5es?<br \/>\n<!--more--><br \/>\nNum segundo momento, dando continuidade \u00e0 reflex\u00e3o, os grupos poderiam consultar revistas de turismo, suprindo assim a necessidade de saber mais. Como usariam essas revistas? O que procurariam? Que tipo de informa\u00e7\u00e3o buscariam? Usariam mais as informa\u00e7\u00f5es dos textos ou das imagens? Essas s\u00e3o quest\u00f5es interessantes porque refletem os conflitos que um leitor real encontra quando busca uma informa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica.<\/p>\n<p>Nos interessava explicitar os comportamentos que costumam aparecer nessas situa\u00e7\u00f5es. Como se tratava de uma situa\u00e7\u00e3o real de leitura, foi poss\u00edvel que os educadores explicitassem que conhecimentos did\u00e1ticos poderiam derivar de um evento como esse em que a leitura n\u00e3o era do tipo escolarizado, isto \u00e9, sem finalidade formal.<\/p>\n<p><strong>Um problema para resolver<\/strong><br \/>\nO grupo de educadores, animado e festeiro em qualquer situa\u00e7\u00e3o, com esse convite ficou em polvorosa. Em meio \u00e0s risadas e trocas de olhares e piadas, todos se envolveram na atividade, desafiados pelo problema: como tomar decis\u00f5es sobre algo que n\u00e3o se conhece? Como as pessoas pouco sabiam a respeito daqueles lugares, discutiam e procuravam articular informa\u00e7\u00f5es dispersas que vinham \u00e0 mente com uma dose de imagina\u00e7\u00e3o, lan\u00e7ando algumas hip\u00f3teses:<\/p>\n<p>\u2013 Salem? Onde \u00e9? Existe? Mas a gente nem sabe onde \u00e9, nem sabe o que levar &#8230; \u2013 dizia Daniela, numa afli\u00e7\u00e3o s\u00f3.<br \/>\n\u2013 Eu j\u00e1 ouvi falar, acho que \u00e9 no Oriente M\u00e9dio. Salim, Salem &#8230; deve ser l\u00e1 para os lados das Ar\u00e1bias! \u2013 associou N\u00edvea.<br \/>\n\u2013 A gente n\u00e3o sabe onde \u00e9, tem que levar roupa de tudo, de ver\u00e3o, de inverno, um kit higi\u00eanico &#8230; \u2013 completou a colega, cismada com a incerteza.<br \/>\n\u2013 Mas, Oriente M\u00e9dio! \u00c9 l\u00e1 onde est\u00e1 acontecendo a guerra! \u2013 lembrou a outra.<br \/>\n\u2013 Melhor olhar no mapa, cad\u00ea o mapa, N\u00edvea? \u2013 sugeriu Daniela, j\u00e1 convocando a necessidade de ler para saber mais.<\/p>\n<p>N\u00edvea foi at\u00e9 seu arm\u00e1rio e trouxe um pequenino globo, onde procurava, naqueles min\u00fasculos nomes, um lugar chamado Salem no mapa do Oriente. Depois de um longo tempo, j\u00e1 desistindo da empreitada, Dani lembrou:<br \/>\n\u2013 N\u00e3o, meninas, isso n\u00e3o vai dar certo porque no globo s\u00f3 est\u00e3o os nomes dos pa\u00edses, no m\u00e1ximo tem as capitais, mas e se Salem for uma cidade? N\u00e3o vai ter o nome a\u00ed.<br \/>\n\u2013 \u00c9. Mas \u00e9 nas Ar\u00e1bias \u2013 concordou N\u00edvea.<br \/>\n\u2013 Ent\u00e3o vamos nos arrumar para ir para l\u00e1.<\/p>\n<p><strong>A articula\u00e7\u00e3o de antigas informa\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nEnquanto isso, o grupo que viajaria para o sul da Patag\u00f4nia rapidamente organizou uma mala imagin\u00e1ria com vestidos para ir ao cassino, sapatos de salto para dan\u00e7ar numa boa casa noturna, maquiagem, mai\u00f4s e protetor solar. Verdadeiras f\u00e9rias!<\/p>\n<p>No grupo de Piren\u00f3polis, encontramos participantes com outros conhecimentos: Lisa se lembrou que o lugar \u00e9 citado na m\u00fasica de uma dupla sertaneja. A letra da m\u00fasica trouxe pistas mais seguras e logo imaginaram que poderia haver um rodeio ou um leil\u00e3o de gado.<\/p>\n<p>A turma que viajaria para o sert\u00e3o da Para\u00edba teve de ag\u00fcentar a panfletagem de Socorro, uma nordestina convicta e orgulhosa de suas origens. A princ\u00edpio, suas colegas estavam desgostosas porque imaginavam que no sert\u00e3o s\u00f3 encontrariam seca e mis\u00e9ria, calango e c\u00e1ctus. Mas Socorro insistia em dizer que a terra era boa e que poderiam fazer programas \u00f3timos.<\/p>\n<p>Mesmo assim, ningu\u00e9m acreditou, julgando ser mais uma de suas brincadeiras. O m\u00e1ximo que Socorro conseguiu convencer \u00e9 que deveriam se preparar para o forr\u00f3, levando tri\u00e2ngulo e zabumba, embora Helena insistisse na necessidade de levar estilingue:<\/p>\n<p>\u2013 Ah, sei l\u00e1, vai que eu t\u00f4 l\u00e1 perdida no deserto &#8230; \u2013 disse Helena.<br \/>\n\u2013 \u00c9, de repente pode vir uma ave de rapina e pular no seu pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>Pode aparecer um chupacabras, um ET! \u2013 provocou Socorro, fazendo men\u00e7\u00e3o \u00e0s pedras onde se encontram inscri\u00e7\u00f5es que alguns estudiosos juram ser de origem desconhecida, quem sabe de extraterrestres.<\/p>\n<p>E, finalmente, no grupo do Jalap\u00e3o, encontramos um integrante informado que assistira recentemente um document\u00e1rio na televis\u00e3o sobre, justamente, o Jalap\u00e3o: maravilhosa paisagem, lindas cachoeiras, um lago encantado onde ningu\u00e9m afunda, caminhadas na mata e muito mais, no Para\u00edso de Tocantins.<\/p>\n<p>Quando todos j\u00e1 tinham muitas quest\u00f5es e sabiam de que informa\u00e7\u00f5es precisavam para terminar a tarefa, retomaram as decis\u00f5es sobre a viagem a partir das revistas de turismo distribu\u00eddas previamente, que traziam artigos sobre aqueles lugares. O prop\u00f3sito dessa leitura estava claramente colocado pelo problema, pois cada grupo sabia exatamente o que deveria procurar nos artigos. Nos restava, ent\u00e3o, observar e, depois, explicitar os tantos modos usados por eles mesmos na busca de uma informa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica.<\/p>\n<p>Depois da leitura, os grupos poderiam, de posse das novas informa\u00e7\u00f5es, acrescentar coisas, mudar suas decis\u00f5es, justificando a partir do que descobriram. Ler para aprender o que interessa O grupo do Jalap\u00e3o n\u00e3o teve grandes surpresas. Como j\u00e1 sabiam um pouco mais, ao ler a mat\u00e9ria s\u00f3 confirmaram as informa\u00e7\u00f5es trazidas pelo colega e apreciaram as maravilhosas paisagens, tal como ele havia descrito. Um encanto s\u00f3.<\/p>\n<p>E com essa experi\u00eancia puderam tomar consci\u00eancia do papel que o conhecimento pr\u00e9vio e a informa\u00e7\u00e3o ocupam em nossas vidas. Reconheceram como \u00e9 poss\u00edvel aprender em tantos lugares al\u00e9m da creche ou da escola, e como faz diferen\u00e7a trabalhar em grupo e poder contar com saberes de seus pares.<\/p>\n<p>Os demais grupos, como n\u00e3o possu\u00edam tantas informa\u00e7\u00f5es como o grupo do Jalap\u00e3o, tiveram um confronto maior. Em cada grupo uma nova mudan\u00e7a, uma reestrutura\u00e7\u00e3o, a come\u00e7ar pelos viajantes para Salem:<\/p>\n<p>\u2013 Salem \u00e9 na Am\u00e9rica!!! Olha s\u00f3, Estados Unidos!<br \/>\n\u2013 N\u00e3o acredito! N\u00e3o tem sult\u00e3o? A gente n\u00e3o vai mais casar no har\u00e9n?<br \/>\n\u2013 Poxa! A cidades das bruxas, como no filme, As Bruxas de Salem, como eu n\u00e3o me lembrei disso? \u2013 disse Michele.<br \/>\n\u2013 Mas ent\u00e3o existem as bruxas de Salem?<br \/>\n\u2013 Existem, olha aqui! Tem at\u00e9 museu de bruxas, as pessoas v\u00e3o ao cemit\u00e9rio \u00e0 noite!<br \/>\n\u2013 Cruz credo, eu, heim! Vamos trocar os vestidos por capas pretas e crucifixos!<br \/>\n\u2013 \u00c9, n\u00e3o vai mais precisar levar roupa de tudo. Rose, sua filha que foi para os Estados Unidos, que temperatura t\u00e1 fazendo l\u00e1 nessa \u00e9poca? \u2013 perguntou Daniela, relacionando os saberes presentes entre suas colegas, procurando novas fontes de informa\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do texto, como estrat\u00e9gia de complementar o que j\u00e1 sabiam.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia dos educadores deste grupo explicitou algumas das sa\u00eddas que as crian\u00e7as encontram para resolver os problemas que lhes s\u00e3o colocados. Michele, por exemplo, ao lembrar tardiamente do nome do filme, As Bruxas de Salem, nos brinda com um exemplo de como um dado novo pode ressignificar uma antiga informa\u00e7\u00e3o que estava distante, por\u00e9m, n\u00e3o esquecida.<\/p>\n<p>E N\u00edvea, em outro grupo, ao associar o nome Salem a Salim, traz a correspond\u00eancia por asson\u00e2ncia, usual entre os pequenos, no lugar da correspond\u00eancia com a informa\u00e7\u00e3o que, naquele momento, ela ainda n\u00e3o tinha. Esses casos ilustram como conhecer pode ser uma experi\u00eancia t\u00e3o generosa e acess\u00edvel: sempre \u00e9 poss\u00edvel pensar, a partir de in\u00fameros pontos de partida, mesmo quando sabemos pouco sobre um conte\u00fado espec\u00edfico.<\/p>\n<p>A turma que leu sobre o sul da Patag\u00f4nia mudou consideravelmente suas decis\u00f5es iniciais a partir das imagens e dos textos a que tiveram acesso:<\/p>\n<p>\u2013 Mas \u00e9 s\u00f3 isso? \u00d4, Silvana! \u2013 disse Solange indignada. \u2013 N\u00e3o pode trocar, n\u00e3o? Olha isso aqui, o sul da Patag\u00f4nia \u00e9 s\u00f3 uma rua! Um frio de rachar, e s\u00f3 tem baleias para ver. N\u00e3o tem mais nada! S\u00f3 esta\u00e7\u00e3o de pesquisa. E eu achando que ia para festas, cassinos, bares, restaurantes, bailes&#8230; podemos trocar os sapatos de salto, os vestidos todos por baralho e jogos, que \u00e9 s\u00f3 isso que vai ter para fazer \u00e0 noite. Nem precisa ficar uma semana inteira! Dois dias j\u00e1 t\u00e1 bom, j\u00e1 d\u00e1 para ver bastante baleia, o que a gente vai ficar fazendo l\u00e1? Se n\u00e3o pode trocar de viagem, pelo menos vamos alugar um jipe para conhecer outros lugares na Argentina.<\/p>\n<p>J\u00e1 o grupo premiado com passagens para a Para\u00edba, descobriu um sert\u00e3o totalmente diferente, como j\u00e1 dizia Socorro:<\/p>\n<p>\u2013 Olha aqui a Para\u00edba, minha terra querida, n\u00e3o falei que era \u00f3timo! \u00c9 o melhor lugar! Olha aqui a praia, n\u00e3o falei que era perto, a gente pode alugar um jipe! Olha aqui, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 desgra\u00e7a n\u00e3o, s\u00f3 seca e sert\u00e3o, tem forr\u00f3!! Tem at\u00e9 cachoeiras.<\/p>\n<p>Parte do roteiro de viagem do grupo foi alterado porque ningu\u00e9m queria deixar de conhecer o parque dos dinossauros para ver as pegadas que ficaram marcadas naquele peda\u00e7o de sert\u00e3o.<\/p>\n<p>E, finalmente, os grupos sorteados com as viagens para Piren\u00f3polis e Jalap\u00e3o fizeram somente pequenos ajustes, pois as decis\u00f5es que eles haviam tomado foram de fato confirmadas na leitura dos artigos, exigindo mudan\u00e7as apenas na data da viagem.<\/p>\n<p>\u2013 Olha, tem festa folcl\u00f3rica em Piren\u00f3polis! Chegamos perto. N\u00e3o tem rodeio, mas podemos ver essa festa, a cavalhada.<br \/>\n\u2013 \u00c9, ent\u00e3o \u00e9 melhor trocar o dia da nossa viagem, quando \u00e9 a festa? L\u00ea de novo a\u00ed \u2013 disse um componente do grupo explicitando a interlocu\u00e7\u00e3o do leitor atento com o texto informativo.<\/p>\n<p>Ao final, depois das mudan\u00e7as de rumos, Bete e Daniela conclu\u00edram:<br \/>\n\u2013 Eu notei que todo mundo que ficou no Brasil se deu melhor.<br \/>\n\u2013 Olha! \u00c9 verdade! Isso mesmo, vamos todos para as piscinas naturais do Jalap\u00e3o, l\u00e1 todos n\u00f3s seremos felizes \u2013 disse Daniela, se despedindo de vez da vassoura de bruxa.<\/p>\n<p>De maneira geral, os educadores afirmaram que foi gostoso aprender, saber onde ficam todos esses lugares e matar a curiosidade. No in\u00edcio da atividade, as pessoas pouco sabiam sobre o assunto em pauta, e por isso ficaram t\u00e3o inseguras ao tomar as decis\u00f5es. Conclu\u00edram que aprender amplia nossas experi\u00eancias e que esse sentido deve estar presente no trabalho com as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>A exemplo do que acontece com os adultos, nessa nova perspectiva de leitura, o que as crian\u00e7as descobrem e aprendem \u00e9 o que diz respeito \u00e0 modalidade de leitura que melhor se aproxima do prop\u00f3sito leitor presente em sua a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre os educadores, por exemplo, alguns comportamentos puderam ser claramente observados: raramente algu\u00e9m partia diretamente para o texto sem antes ver as imagens. Isso ocorre porque tamb\u00e9m as imagens informam e antecipam muito do que ser\u00e1 explicitado por meio das palavras. Essa observa\u00e7\u00e3o nos leva a pensar sobre como as caracter\u00edsticas do texto podem trabalhar a favor de determinados prop\u00f3sitos de leitura.<\/p>\n<p>O mesmo ocorre com as crian\u00e7as: o texto que apresentamos a elas faz diferen\u00e7a na qualidade da leitura que elas poder\u00e3o realizar. Imagens infantilizadas e empobrecidas podem levar que tipo de informa\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as? Como elas poder\u00e3o antecipar significados quando as imagens n\u00e3o ampliam o que v\u00e3o aprender e, muitas vezes, refor\u00e7am enganos e id\u00e9ias preconceituosas ou estereotipadas? \u00c9 importante escolher textos que possibilitem \u00e0s crian\u00e7as, leitoras n\u00e3o convencionais, esta primeira leitura, se antecipando ao professor.<\/p>\n<p>Voltando para a an\u00e1lise do que ocorreu com o grupo, pode-se notar que ningu\u00e9m lia os artigos aleatoriamente, como fazemos com as revistas na sala de espera do dentista, por exemplo. Todos buscavam a mesma coisa, por isso as descobertas eram compartilhadas com interesse. Ao ler os diferentes artigos das revistas de turismo, todos j\u00e1 sabiam o que estavam procurando: as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para programar uma viagem a determinados lugares, desconhecidos do grupo: clima, localiza\u00e7\u00e3o, aspectos tur\u00edsticos etc.<\/p>\n<p>Essa clareza facilitou n\u00e3o s\u00f3 a busca como tamb\u00e9m a organiza\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es e a intera\u00e7\u00e3o dos grupos no trabalho coletivo. O sentimento de realiza\u00e7\u00e3o, a alegria pela resolu\u00e7\u00e3o dos problemas e a curiosidade por aprender ao final da leitura, foram not\u00e1veis. Com as crian\u00e7as, ocorre o mesmo. Por isso, precisamos criar contextos, explicitar suas perguntas e propor outras que sejam bons motivos para compartilhar leituras.<\/p>\n<p>Por fim, pode-se perceber que as pessoas n\u00e3o leram o artigo inteiro, da primeira \u00e0 \u00faltima linha: o t\u00edtulo foi a \u00fanica parte do texto lida por todos. Algumas pessoas foram direto \u00e0s legendas, outras escolheram os boxes, etc. Com as crian\u00e7as algo semelhante acontece. Portanto, \u00e9 importante que elas tamb\u00e9m tenham acesso aos livros pesquisados: se o livro \u00e9 sempre do professor e apenas ele controla a leitura, desperdi\u00e7amos in\u00fameras oportunidades e descobertas das pr\u00f3prias crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Isso mudou totalmente a perspectiva do planejamento dos educadores, que puderam, a partir desse encontro e com o acompanhamento da supervis\u00e3o, planejar boas oportunidades de pesquisa e de leitura em todas as creches. Esse foi um investimento formativo que chegou \u00e0s crian\u00e7as.<\/p>\n<p>(Silvana Augusto, Formadora do Instituto Avisa L\u00e1)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup> Programa Capacitar Educadores \u2013 Iniciativa: Instituto C&amp;A. Responsabilidade T\u00e9cnica: Instituto Avisa L\u00e1. D\u00e9bora Rana foi minha parceira durante os dois anos de dura\u00e7\u00e3o deste projeto e \u00e9 co-autora de todos os planejamentos, tanto dos encontros de forma\u00e7\u00e3o quanto das supervis\u00f5es realizadas durante esse per\u00edodo.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup>Novas contribui\u00e7\u00f5es para o debate, p\u00e1g3 Delia Lerner. O ensino e o aprendizado escolar. Piaget-Vigotsky.. 88. Editora \u00c1tica<\/p>\n<h4>Comportamentos de leitores<\/h4>\n<p>\u201cEntre os comportamentos do leitor que implicam intera\u00e7\u00f5es com outras pessoas acerca dos textos, encontram-se, por exemplo, as seguintes: comentar ou recomendar o que se leu, compartilhar a leitura, confrontar com outros leitores as interpreta\u00e7\u00f5es geradas por um livro ou uma not\u00edcia, discutir sobre as inten\u00e7\u00f5es impl\u00edcitas nas manchetes de certo jornal&#8230; Entre os mais privados, por outro lado, encontram-se comportamentos como: antecipar o que segue no texto, reler um fragmento anterior para verificar o que se compreendeu, quando se detecta uma incongru\u00eancia, saltar o que n\u00e3o se entende ou n\u00e3o interessa e avan\u00e7ar para compreender melhor, identificar-se com o autor ou distanciar-se dele assumindo uma posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, adequar a modalidade de leitura \u2014 explorat\u00f3ria ou exaustiva, pausada ou r\u00e1pida, cuidadosa ou descompromissada&#8230; \u2014 aos prop\u00f3sitos que se perseguem e ao texto que se est\u00e1 lendo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>(Ler e escrever na escola \u2013 O real, o poss\u00edvel e o necess\u00e1rio, Delia Lerner, p\u00e1g. 62)<\/p>\n<div id=\"attachment_2546\" style=\"width: 287px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2546\" class=\"size-full wp-image-2546\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisala_19_reflex3.jpg\" alt=\"avisala_19_reflex3.jpg\" width=\"277\" height=\"227\" \/><p id=\"caption-attachment-2546\" class=\"wp-caption-text\">A an\u00e1lise de situa\u00e7\u00f5es de leitura hom\u00f3logas \u00e0s que as crian\u00e7as vivem nos ajudam a compreender as condi\u00e7\u00f5es did\u00e1ticas necess\u00e1rias para a atividade (Centro de Participa\u00e7\u00e3o Popular do Jardim Veloso)<\/p><\/div>\n<p>&lt;h4 &lt;\/h4<\/p>\n<p>Nossas inten\u00e7\u00f5es formativas se efetivaram naquele encontro n\u00e3o por causa da brincadeira de viajar, arrumar as malas, fazer os roteiros etc., mas, sobretudo, pelas discuss\u00f5es geradas em virtude da an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o vivenciada, como sugerem Alarc\u00e3o e Sch\u00f6n. A problematiza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o homol\u00f3gica exige do formador ir al\u00e9m do vivido, do simples exemplo, como lembra Isabel Alarc\u00e3o: \u201c&#8230;a estrat\u00e9gia homol\u00f3gica \u2013 proposta por Sch\u00f6n sob a metaf\u00f3rica designa\u00e7\u00e3o de hall of mirror \u2013 n\u00e3o consiste em criar no formando uma viv\u00eancia semelhante a outras que dever\u00e1 proporcionar \u00e0s pessoas com quem vai interagir; o processo que prop\u00f5e faz um apelo \u00e0 reflex\u00e3o e exige do formador uma extraordin\u00e1ria capacidade de interpreta\u00e7\u00e3o, compreens\u00e3o do outro e capacidade de questionamento\u201d.<sup>3<\/sup><\/p>\n<p>Assim, nas discuss\u00f5es presentes em todos os momentos, desde o trabalho de subgrupos at\u00e9 o fechamento da atividade, ajud\u00e1vamos o grupo a elaborar uma dupla conceitualiza\u00e7\u00e3o: pensar a respeito de seus pr\u00f3prios comportamentos para aprender sobre leitura e os conhecimentos referentes \u00e0s condi\u00e7\u00f5es did\u00e1ticas necess\u00e1rias para que as crian\u00e7as pudessem se apropriar das pr\u00e1ticas de leitura.<\/p>\n<p><sup>3<\/sup>Reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre o pensamento de D. Sch\u00f6n e os programas de forma\u00e7\u00e3o de professores. Isabel Alarc\u00e3o in Forma\u00e7\u00e3o reflexiva de professores estrat\u00e9gias de supervis\u00e3o. Ed. Porto, p\u00e1g. 30.<\/p>\n<div id=\"attachment_2547\" style=\"width: 240px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2547\" class=\"size-full wp-image-2547\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisala_19_reflex4.jpg\" alt=\"avisala_19_reflex4.jpg\" width=\"230\" height=\"214\" \/><p id=\"caption-attachment-2547\" class=\"wp-caption-text\">Ana Creche Na Sra. Aparecida \u00e0 leitura \u00e9 um h\u00e1bito incorporado com prazer pelas crian\u00e7a (Sheila Alves de Oliveira \u2013 Centro Comunit\u00e1rio Jardim Aut\u00f3dromo)<\/p><\/div>\n<h4>Uma nova perspectiva da leitura<\/h4>\n<p>Ao final do encontro, montamos uma bancada com livros, p\u00f4steres e outros materiais portadores de bons textos informativos para que os educadores pudessem se inspirar, levantar id\u00e9ias, exemplos de fontes de informa\u00e7\u00e3o e de assuntos que podiam ser explorados pelas crian\u00e7as. Os educadores, sobretudo os que tinham o h\u00e1bito de trabalhar com os temas cl\u00e1ssicos da escola tradicional, como os meios de transporte, o corpo humano, as profiss\u00f5es etc., puderam repensar seus trabalhos.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos temas, aprenderam o que \u00e9 mais importante: que as crian\u00e7as s\u00e3o capazes de pesquisar diretamente nos textos e que para isso \u00e9 preciso criar um bom contexto e definir os prop\u00f3sitos e as modalidades de leitura que se quer que as crian\u00e7as aprendam, oferecendo sempre bons textos, boas fontes de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4>Ficha T\u00e9cnica<\/h4>\n<p>Programa Capacitar Educadores.<br \/>\nIniciativa: Instituto C&amp;A<br \/>\nEquipe: Creches Dom Jos\u00e9 Gaspar, Papa Jo\u00e3o XXIII, S\u00e1 Francisco e S\u00e3o Sebasti\u00e3o<br \/>\nResponsabilidade T\u00e9cnica: Instituto Avisa L\u00e1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Veja como a resolu\u00e7\u00e3o de problemas e a an\u00e1lise de situa\u00e7\u00f5es hom\u00f3logas de leitura ajudam o professor a construir novas pr\u00e1ticas educativas no campo da alfabetiza\u00e7\u00e3o inicial. 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