{"id":2500,"date":"2004-04-17T18:34:28","date_gmt":"2004-04-17T21:34:28","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=2500"},"modified":"2023-03-27T17:34:56","modified_gmt":"2023-03-27T20:34:56","slug":"o-diario-da-vida-na-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/tempo-didadico\/o-diario-da-vida-na-escola\/","title":{"rendered":"O di\u00e1rio da vida na escola"},"content":{"rendered":"<h5>O presente e o passado se encontram nas p\u00e1ginas dos di\u00e1rios. Conhe\u00e7a a experi\u00eancia de uma professora e um grupo de crian\u00e7as de 5 anos em busca da mem\u00f3ria e da constru\u00e7\u00e3o de reais leitores.<\/h5>\n<p>Gostaria de contar sobre nosso encontro com Helena Morley e os desdobramentos que ele teve, tanto no que diz respeito aos conhecimentos sobre a l\u00edngua portuguesa, as pr\u00e1ticas de leitura, de escrita e a narrativa, quanto aos conhecimentos gerais, em especial um interessante estudo sobre o cotidiano e os modos de vida do passado.<\/p>\n<div id=\"attachment_2502\" style=\"width: 458px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2502\" class=\"size-full wp-image-2502\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisa18_tempo3.jpg\" alt=\"avisa18_tempo3\" width=\"448\" height=\"198\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisa18_tempo3.jpg 448w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisa18_tempo3-300x132.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 448px) 100vw, 448px\" \/><p id=\"caption-attachment-2502\" class=\"wp-caption-text\">Museu Hist\u00f3rico Nacional<\/p><\/div>\n<p>Tudo come\u00e7ou quando retornamos de f\u00e9rias e rev\u00edamos, em grupo, as lembran\u00e7as de cada um sobre o m\u00eas de julho. Hav\u00edamos preparado uns cadernos de f\u00e9rias, nos quais as crian\u00e7as poderiam anotar ou guardar tudo o que n\u00e3o desejavam esquecer a respeito de suas f\u00e9rias. E eis que, no meio desses cadernos, havia um di\u00e1rio trazido pela Izabel, no qual ela relatava, por meio da escrita de suas primas e de sua m\u00e3e, o que lhe havia acontecido naquele per\u00edodo.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nAquilo remeteu-me a um livro que eu havia lido em julho, o di\u00e1rio de Helena Morley, Minha Vida de Menina, editado pela Companhia das Letras. Contei \u00e0s crian\u00e7as sobre o livro e elas me pediram para traz\u00ea-lo. Selecionei um trecho para ler em nossa pr\u00f3xima roda, e assim tivemos a primeira aproxima\u00e7\u00e3o com essa autora. Como havia imaginado, aquela leitura tinha pertin\u00eancia para o grupo, e a partir da\u00ed o trabalho do semestre foi se delineando.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um intenso trabalho realizado nos semestres anteriores com os contos de fadas e com a literatura de fantasia, proporcionados pelas leituras das F\u00e1bulas Italianas, de \u00cdtalo Calvino, e das hist\u00f3rias do S\u00edtio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato, a aproxima\u00e7\u00e3o e o conhecimento de outro g\u00eanero liter\u00e1rio \u2013 de um texto t\u00e3o diferente quanto o di\u00e1rio \u2013 pareciam interessantes para o grupo e tamb\u00e9m para o trabalho que buscava a diversidade textual.<\/p>\n<p>Garantir um amplo contato com diversos tipos de textos de nosso universo liter\u00e1rio \u00e9 tamb\u00e9m possibilitar \u00e0s crian\u00e7as que se formem enquanto leitores, cidad\u00e3os de nossa cultura letrada. A partir da leitura contextualizada em sua fun\u00e7\u00e3o social, respeitando as caracter\u00edsticas de um determinado texto, sua inser\u00e7\u00e3o em nossa cultura e seu uso, elas estar\u00e3o cada vez mais aptas a se utilizarem significativamente dos textos, conhecendo seus objetivos e incluindo-os como aliados em sua forma\u00e7\u00e3o como leitores.<\/p>\n<p>Concordando com essa vis\u00e3o, o trabalho de leitura na classe manteve, durante todo o ano, a preocupa\u00e7\u00e3o de colocar as crian\u00e7as frente ao nosso universo liter\u00e1rio, apresentando-lhes os textos de acordo com a sua utiliza\u00e7\u00e3o real. Buscava-se, al\u00e9m do conhecimento dos textos, a perspectiva de encantamento, frui\u00e7\u00e3o e gosto pela leitura e pelos livros, objetivos centrais deste trabalho. Foi dessa forma que entraram em cena as narrativas e o di\u00e1rio.<\/p>\n<p>Pude perceber o quanto esses aspectos do encantamento, do gosto e do desejo pela leitura e pelos livros estiveram presentes. O fasc\u00ednio que Helena Morley exerceu sobre as crian\u00e7as fez at\u00e9 com que pedissem a seus pais que adquirissem um exemplar de Minha Vida de Menina, id\u00e9ia instaurada por uma das crian\u00e7as, Camila, e logo seguida por outras da sala como Alice, Izabel e Alex. A curiosidade pelos livros se tornava evidente \u00e0 medida que convers\u00e1vamos sobre outras hist\u00f3rias, biografias e narrativas. Lembro-me, inclusive, de que um dia li para todos um trecho do livro A L\u00edngua Absolvida, em que Elia Canetti rememora sua inf\u00e2ncia.<\/p>\n<div id=\"attachment_2503\" style=\"width: 215px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2503\" class=\"size-full wp-image-2503\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisa18_tempo1.jpg\" alt=\"avisa18_tempo1.jpg\" width=\"205\" height=\"137\" \/><p id=\"caption-attachment-2503\" class=\"wp-caption-text\">\u201cEsse Navio foi do av\u00f4 do M\u00e1, que veio para o Brasil junto com a boneca japonesa\u201d<\/p><\/div>\n<p><strong>Novas leituras<\/strong><br \/>\nMuitas vezes um professor pode se questionar quanto \u00e0 pertin\u00eancia de textos complexos na educa\u00e7\u00e3o infantil, principalmente em se tratando de crian\u00e7as pequenas. \u00c9 claro que n\u00e3o s\u00e3o todos os textos que interessam a elas, assim como acontece com os adultos. No entanto, abrir novas perspectivas de leitura para as crian\u00e7as pode se constituir em um desafio instigante na rela\u00e7\u00e3o com os livros, parceiros significativos em nosso trajeto na escola e na vida.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do prazer da leitura, o contato com o livro Minha Vida de Menina nos trouxe uma discuss\u00e3o e um estudo interessante sobre uma outra \u00e9poca, sobre os h\u00e1bitos passados, sobre as mem\u00f3rias e hist\u00f3rias das fam\u00edlias e dos antepassados das crian\u00e7as da sala. A curiosidade e o interesse delas nas conversas sobre o assunto confirmam isso:<\/p>\n<p>Crian\u00e7a 1: U\u00e9, mas ela, a Helena Morley, j\u00e1 \u00e9 do tempo antigo, como ela fica falando do tempo antigo, ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Prof.: \u00c9 mesmo, n\u00e9 pessoal? Como \u00e9 isso? A Helena j\u00e1 era de antigamente e fica falando que queria ser da \u00e9poca antiga!<\/p>\n<p>Crian\u00e7a 2: Mas, se for da \u00e9poca dos homens-macacos, ent\u00e3o, era mais antigo ainda. E os dinossauros rex, ent\u00e3o, maaaais antigo!<\/p>\n<p>Crian\u00e7a 3: \u00c9 porque era a v\u00f3 dela, n\u00e9? Ent\u00e3o era mais antigo que ela!<\/p>\n<p>Crian\u00e7a 4: E a bisav\u00f3 dela, mais antigo ainda, n\u00e9?<\/p>\n<p>Crian\u00e7a 1: Ent\u00e3o vai ter um dia em que a gente tamb\u00e9m vai ser antigo? No dia em que tivemos essa conversa, t\u00ednhamos acabado de ler um trecho de Minha Vida de Menina, em que a autora nos falava sobre a sua vontade de ser de outra \u00e9poca, de um tempo mais antigo, o de sua av\u00f3, que lhe parecia mais agrad\u00e1vel do que o seu.<\/p>\n<p>Antes da roda de hist\u00f3ria desse dia, j\u00e1 v\u00ednhamos falando, h\u00e1 algum tempo, sobre a vida de Helena Morley, a sua \u00e9poca e tudo aquilo que ela falava sobre antigamente. Acredito que as crian\u00e7as, lan\u00e7adas a esse tipo de estudo e de investiga\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m puderam se questionar e trazer \u00e0 tona os h\u00e1bitos da atualidade, pensando sobre o movimento da vida e da cultura, relativizando o que temos hoje e que muitas vezes nos \u00e9 dado como certo e constante, como aconteceu naquela nossa conversa do dia 21 de agosto, em que uma crian\u00e7a imaginou a possibilidade de um dia sermos antigos, das coisas passarem e mudarem.<\/p>\n<p><strong>Objetos que contam hist\u00f3ria<\/strong><br \/>\nProcurando ilustrar a discuss\u00e3o, partimos para uma pesquisa sobre os modos da vida antiga, enfatizando principalmente as diferen\u00e7as do cotidiano do fim do s\u00e9culo passado e in\u00edcio deste, tendo como mote a busca dos objetos antigos das fam\u00edlias que pudessem nos indicar alguns dos h\u00e1bitos do passado. Nesse trabalho, todos se viram envolvidos e sempre tinham algo a notar sobre os objetos, as diferen\u00e7as dos antigos e dos atuais. Contavam tamb\u00e9m hist\u00f3rias passadas, auxiliados pela mem\u00f3ria das fam\u00edlias e muitas vezes pelo pr\u00f3prio objeto trazido para a sala de aula.<\/p>\n<p>Em nossa primeira roda de conversa sobre os objetos antigos, Isabela e Camila tinham muito a dizer sobre o que tinham trazido e, a partir de suas falas, pudemos perceber o quanto os objetos escolhidos remontavam a alguma mem\u00f3ria da fam\u00edlia:<\/p>\n<p>\u2013 Eu trouxe esse livro, mas t\u00e1 velho. \u00c9 de 1845. A minha av\u00f3 lia esse livro. A minha av\u00f3, n\u00e9, quando ela era pequena, ela pegava na rede, n\u00e9, ela ia na rede, pegava um livro que ela gostava e lia, \u2013 disse Isabela.<\/p>\n<p>\u2013 E eu trouxe tamb\u00e9m um colar com pedra, que era do meu pai, que deu para a minha m\u00e3e, e esse brinco foi que minha v\u00f3 deu quando ela tinha treze anos pr\u00e1 minha m\u00e3e, quando ela tinha tamb\u00e9m treze \u2013 nos relatou Camila quando chegou sua vez.<\/p>\n<p>\u2013 Esse vestido foi da minha m\u00e3e, quando ela foi casar. E essa luva, agora, essa luva, ela casou com essa luva, mas depois, agora, t\u00e1 servindo pra pegar melancia.<\/p>\n<p>As conversas continuavam, e cada vez mais as hist\u00f3rias iam aparecendo:<\/p>\n<p>\u2013 Essa toalha \u00e9 de quando a minha m\u00e3e brincava quando era crian\u00e7a, at\u00e9 tem uma foto. Essa faca foi do irm\u00e3o do meu av\u00f4, que era mais velho do que o meu av\u00f4, ele&#8230; da\u00ed, ele sabia que o meu av\u00f4 gostava, eles nem se conheciam, da\u00ed, o meu av\u00f4, o irm\u00e3o do meu av\u00f4 sabia que o meu av\u00f4 gostava, da\u00ed deu para ele, \u2013 contou Alice.<\/p>\n<p>\u2013 Esta m\u00e1quina aqui \u00e9 do papai, esta m\u00e1quina. A mam\u00e3e do papai tirava foto dele, \u00e9 s\u00f3 isso que eu sei desta m\u00e1quina (Martin).<\/p>\n<p>Em certos momentos, a pr\u00f3pria imagem se constitu\u00eda num relato, e dessa maneira o apoio da fotografia se tornava muito importante:<\/p>\n<p>\u2013 Esta foto \u00e9 do meu av\u00f4, ele tem oitenta e quatro anos, ele ainda t\u00e1 vivo e tem oitenta e quatro anos, \u2013 disse Gabriel.<\/p>\n<p>\u2013 Esta foto \u00e9 da minha v\u00f3, a m\u00e3e da minha m\u00e3e. \u00c9 de quando ela estava saindo da escola&#8230; Mas ela j\u00e1 tem oitenta e tr\u00eas anos! \u2013 relatou Luiza.<\/p>\n<p>\u2013 O meu av\u00f4 trouxe no navio esta boneca, no navio, olha que grande que ela \u00e9! \u2013 conta Marcelo, impressionado.<\/p>\n<p>Muitas vezes as hist\u00f3rias se cruzavam, se encontravam, um relato p<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-2504\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisa18_tempo4.jpg\" alt=\"avisa18_tempo4\" width=\"208\" height=\"197\" \/>uxava o outro e as falas se associavam:<\/p>\n<p>\u2013 Os meus bisav\u00f3s escaparam da pris\u00e3o dos alem\u00e3es&#8230; Teve uma guerra com o meu av\u00f4 um dia e da\u00ed a minha av\u00f3 foi junto \u2013 conta Stefano.<\/p>\n<p>\u2013 O meu v\u00f4 falou, n\u00e9, pra mim, que eles para ir na Guerra Mundial; ele foi, ele tinha que cobrir o p\u00e9 com jornal, eles cobriam o p\u00e9 com jornal pra ir na guerra \u2013 lembra Izabel, a partir do relato de Stefano.<\/p>\n<p>Em outras situa\u00e7\u00f5es, objetos e personagens diferentes do passado chamavam a aten\u00e7\u00e3o de todos:<\/p>\n<p>\u2013 Este bin\u00f3culo era da minha&#8230; tatarav\u00f3&#8230;\u00e9 pra ver de perto os cantores de \u00f3pera. Esta foto \u00e9 da minha.., da minha tetrav\u00f3, ela com roupa de \u00f3pera&#8230; Ela era cantora de \u00f3pera! Era. A\u00ed, a filha dela ia l\u00e1 pra ver \u2013 diz Alex.<\/p>\n<p>Amparados tamb\u00e9m pelos depoimentos de familiares e pela mem\u00f3ria das hist\u00f3rias que nos foram enviadas atrav\u00e9s de fitas gravadas, a leitura de Minha Vida de Menina foi ganhando outros suportes e o di\u00e1rio, texto que se funda e tem como eixo central mem\u00f3rias de vida, p\u00f4de ser redimensionado pelas crian\u00e7as. Elas conheciam sua estrutura, mas tamb\u00e9m pareciam ter clara a sua fun\u00e7\u00e3o social. O campo j\u00e1 estava bem f\u00e9rtil, foi o que pude perceber quando nos propusemos a trabalhar de uma outra forma esse tipo de texto: escrevendo nosso pr\u00f3prio di\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>O di\u00e1rio das crian\u00e7as<\/strong><br \/>\nDesde a elabora\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo, pude notar o quanto as crian\u00e7as j\u00e1 tinham assimilado algumas das caracter\u00edsticas desse g\u00eanero, uma vez que, na discuss\u00e3o que travamos sobre o nome do nosso \u201clivro\u201d, j\u00e1 ficaram evidentes particularidades desse texto, tais como a necessidade de marcar tempo e lugar, por exemplo.<\/p>\n<p>Aqui, transcrevo um trecho de meu registro de classe do dia 4\/10, em que tivemos a seguinte conversa sobre a escolha do t\u00edtulo:<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o come\u00e7ou quando perguntei a eles que t\u00edtulo (j\u00e1 que era uma informa\u00e7\u00e3o de consenso da turma) gostariam que tivesse o nosso di\u00e1rio. Sem pestanejar um segundo, a classe sugeriu&#8230;. Minha vida de menina! J\u00e1 est\u00e1vamos quase prontos para escrev\u00ea-lo quando disse: Mas espera!&#8230; Minha Vida de menina&#8230; Mas s\u00f3 tem menina nesta classe? Os meninos, indignad\u00edssimos, \u00e9 \u00f3bvio, responderam em coro: N\u00e3o!!! At\u00e9 que algu\u00e9m falou: Tem que ser Minha Vida de Menina e de Menino! Tudo bem. Ent\u00e3o, era isso mesmo? Quase isso, porque nesse momento o Alex falou uma coisa bem importante para o grupo: N\u00e3o, t\u00e1 errado! N\u00e3o d\u00e1 para ser assim porque na Minha Vida de Menina a Helena Morley escreveu sobre a vida dela, a casa, a v\u00f3, a m\u00e3e, como era a vida dela, e a gente n\u00e3o vai fazer isso, a gente vai<br \/>\nescrever sobre a vida na escola. E ent\u00e3o, ele continuou: Ent\u00e3o, tem que ser Minha Vida de Escola. Pronto. Ele havia lan\u00e7ado uma discuss\u00e3o<br \/>\nno grupo.<\/p>\n<p>Depois de sua sugest\u00e3o, ainda surgiram outras possibilidades, como: Nossa Vida no Logos. Nossa Vida de Escola. Minha Vida de Crian\u00e7as, logo corrigida: Nossa Vida de Crian\u00e7as. E, finalmente, decidiu-se por: \u201cA Vida das Crian\u00e7as de S\u00e3o Paulo na Escola Logos\u201d. A resolu\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo ficou por conta da afirma\u00e7\u00e3o de que os leitores do di\u00e1rio teriam que saber que aquelas crian\u00e7as eram de S\u00e3o Paulo, uma informa\u00e7\u00e3o importante, porque sen\u00e3o poderiam pensar que elas eram de Diamantina, igual \u00e0 Helena Morley, foi o argumento delas.<\/p>\n<div id=\"attachment_2505\" style=\"width: 356px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2505\" class=\"size-full wp-image-2505\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisala_18_tempo4.jpg\" alt=\"avisala_18_tempo4\" width=\"346\" height=\"306\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisala_18_tempo4.jpg 346w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisala_18_tempo4-300x265.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 346px) 100vw, 346px\" \/><p id=\"caption-attachment-2505\" class=\"wp-caption-text\">Ver objetos antigos possibilitou muita reflex\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>O dia-a-dia nas p\u00e1ginas do di\u00e1rio<\/strong><br \/>\n\u00c0 medida que \u00edamos escrevendo e registrando a nossa vida na escola, as crian\u00e7as demonstravam j\u00e1 ter obtido, a partir das leituras que fizemos ao longo do semestre, elementos suficientes para se situar na elabora\u00e7\u00e3o desse tipo de texto. A forma casual e personalista de escrever, assim como a presen\u00e7a da primeira pessoa, denotavam o conhecimento adquirido acerca da forma de se escrever um di\u00e1rio, como vemos no exemplo do nosso di\u00e1rio:<\/p>\n<p>22 DE OUTUBRO<br \/>\nA GENTE MANDOU UMA CAR<\/p>\n<p>TA PARA A FAM\u00cdLIA DA HELENA MORLEY PORQUE A GENTE QUER SABER MAIS COISAS DA HELENA MORLEY. A GENTE J\u00c1 DESCOBRIU COMO QUE MANDA AS CARTAS DE ANTIGAMENTE: ERA PUXADA COM BURROS OU CAVALOS. AS CARTAS HOJE EM DIA V\u00c3O DE AVI\u00c3O.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de adv\u00e9rbios de tempo tamb\u00e9m encerra uma caracter\u00edstica desse g\u00eanero liter\u00e1rio, como acontece com o exemplo seguinte, em que n\u00f3s encontramos as express\u00f5es \u201choje\u201d e \u201cagora\u201d.<\/p>\n<p>20 DE OUTUBRO<br \/>\nHOJE N\u00d3S ACABAMOS DE CHEGAR NA ESCOLA, BRINCAMOS E CORTAMOS INTERFER\u00caNCIAS<sup>1<\/sup>. AGORA, N\u00d3S ESTAMOS NA RODA ESCREVENDO O DI\u00c1RIO.<\/p>\n<p>Ainda em outros momentos da escrita<sup>2<\/sup> do di\u00e1rio, as crian\u00e7as continuavam dando ind\u00edcios de que dominavam a estrutura desse tipo de texto, como no dia em que hav\u00edamos relatado nossa ida ao Jardim Bot\u00e2nico. Todas tinham muito a lembrar e contar e, dessa forma, ficamos um bom tempo na roda \u00e0s voltas com a sua escrita. Ao final, todos pareciam cansados e, quando percebemos que o melhor seria interromper a nossa atividade daquele dia, uma crian\u00e7a sugeriu:<\/p>\n<p>\u2013 Pode escrever a\u00ed: \u201cN\u00f3s estamos cansados, agora vamos parar e vamos continuar amanh\u00e3\u201d.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o! Amanh\u00e3, n\u00e3o! Segunda, segunda-feira!<br \/>\n\u2013 completou uma colega, lembrando que j\u00e1 est\u00e1vamos na sexta-feira.<\/p>\n<p>Se esse final cabe perfeitamente na escrita de um di\u00e1rio, ele n\u00e3o apareceria em qualquer outro texto \u2013 por exemplo, em um conto ou mesmo em um bilhete \u2013, o que nos sugere um conhecimento espec\u00edfico sobre o modo de se fazer um di\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00f5es<\/strong><br \/>\nEste trabalho n\u00e3o foi planejado como um projeto desde o in\u00edcio. Mas o interesse das crian\u00e7as, a partir da leitura do livro Minha Vida de Menina, transformou uma simples atividade em um projeto de todo um semestre. Os eixos principais foram a leitura de texto liter\u00e1rio e conhecimentos gerais, na medida em que os alunos conheceram um novo tipo de texto, o di\u00e1rio, bem como os h\u00e1bitos da vida cotidiana de \u00e9pocas passadas.<\/p>\n<p>Como suporte para este estudo, consultamos diversos livros de fotografias, de ilustra\u00e7\u00f5es e de hist\u00f3rias do cotidiano da segunda metade do s\u00e9culo XIX, al\u00e9m de estabelecermos uma correspond\u00eancia com uma das filhas de Helena Morley. A aprecia\u00e7\u00e3o das fotos e das ilustra\u00e7\u00f5es, bem como a leitura dos livros de hist\u00f3ria, aconteciam em nossas rodas de conversa e serviam tanto para o conhecimento de uma \u00e9poca passada quanto para compara\u00e7\u00f5es com a atualidade.<\/p>\n<p>No fim do semestre, na feira cultural da escola, organizamos uma exposi\u00e7\u00e3o com todos os objetos trazidos pelas crian\u00e7as e as fitas gravadas pelos pais, com depoimentos de hist\u00f3rias familiares. Foi um sucesso para as crian\u00e7as e suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>(Ana Carolina Carvalho, psic\u00f3loga, foi professora da escola Logos em 1998)<\/p>\n<p><sup>1<\/sup> Interfer\u00eancias s\u00e3o recortes de figuras de diferentes proced\u00eancias que, coladas em um suporte, possibilitam que as crian\u00e7as completem as imagens e\/ou desenhem ou pintem a partir delas.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup> A professora atuou como escriba, j\u00e1 que a maioria das crian\u00e7as ainda n\u00e3o escrevia convencionalmente<\/p>\n<div id=\"attachment_2506\" style=\"width: 273px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2506\" class=\"size-full wp-image-2506\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisa18_2.jpg\" alt=\"\u201cS\u00e3o Paulo Capital \u2013 Pais e m\u00e3es, por  avor mandem objetos antigos de volta para a escola, para arrumar s\u00e1bado cultural\u201d [Texto coletivo do bilhete, tendo como escriba a Izabel] \" width=\"263\" height=\"323\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisa18_2.jpg 263w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/avisa18_2-244x300.jpg 244w\" sizes=\"auto, (max-width: 263px) 100vw, 263px\" \/><p id=\"caption-attachment-2506\" class=\"wp-caption-text\">\u201cS\u00e3o Paulo Capital \u2013 Pais e m\u00e3es, por avor mandem objetos antigos de volta para a escola, para arrumar s\u00e1bado cultural\u201d [Texto coletivo do bilhete, tendo como<br \/>escriba a Izabel]<\/p><\/div>\n<h4>Bibliografia<\/h4>\n<ul>\n<li>No Tempo de Dantes. Maria Paes de Barros. Ed. Paz e Terra. Tel.: (11) 3337-8399.<\/li>\n<li>Hist\u00f3ria da vida privada no Brasil &#8211; vol. 2. L. F. Alencastro (org). Companhia das Letras. Tel.: (11) 3707-3501.<\/li>\n<li>F\u00e1bulas Italianas. \u00cdtalo Calvino. Cia. das Letras. Tel.: (11) 3161-7081.<\/li>\n<li>O S\u00edtio do Pica-pau amarelo. Monteiro Lobato. Editora Brasiliense. Tel.: (11) 6198-1488.<\/li>\n<li>Minha vida de Menina. Helena Morley. Editora Cia das Letras. Tel.: (11) 3707-3501.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7a a experi\u00eancia de uma professora e um grupo de crian\u00e7as de 5 anos em busca da mem\u00f3ria e da constru\u00e7\u00e3o de reais leitores. Por Ana Carolina Carvalho<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":3226,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[379,34],"tags":[1105,26,193,21,589,151,339,556],"class_list":{"0":"post-2500","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-revista-avisala-18","8":"category-tempo-didadico","9":"tag-revista-avisa-la-2004","10":"tag-ana-carolina-carvalho","11":"tag-diario","12":"tag-escrita","13":"tag-helena-morley","14":"tag-leitura","15":"tag-memoria","16":"tag-objetos","18":"post-with-thumbnail","19":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2500","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2500"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2500\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3226"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2500"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2500"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2500"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}