{"id":2059,"date":"2003-07-27T23:35:55","date_gmt":"2003-07-28T02:35:55","guid":{"rendered":"http:\/\/avisala1.tempsite.ws\/portal\/?p=2059"},"modified":"2023-03-27T17:03:42","modified_gmt":"2023-03-27T20:03:42","slug":"a-musica-da-crianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/assunto\/reflexoes-do-professor\/a-musica-da-crianca\/","title":{"rendered":"A M\u00fasica da Crian\u00e7a"},"content":{"rendered":"<h5>Importa, prioritariamente, a crian\u00e7a, o sujeito da experi\u00eancia, e n\u00e3o a m\u00fasica em si. A educa\u00e7\u00e3o musical n\u00e3o deve visar \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis m\u00fasicos do amanh\u00e3, mas sim \u00e0 forma\u00e7\u00e3o integral das crian\u00e7as de hoje<\/h5>\n<div id=\"attachment_2061\" style=\"width: 569px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2061\" class=\"size-full wp-image-2061\" title=\"avisala_15_musica4\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica4.jpg\" alt=\"\" width=\"559\" height=\"167\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica4.jpg 559w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica4-300x89.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 559px) 100vw, 559px\" \/><p id=\"caption-attachment-2061\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o extra\u00edda do livro M\u00fasica na Educa\u00e7\u00e3o Infantil \u2013 Teca Alencar de Brito<\/p><\/div>\n<p>Isso \u00e9 o que diz Teca Alencar de Brito, professora de m\u00fasica, consultora da \u00e1rea e pianista de forma\u00e7\u00e3o. Curiosa ouvinte das crian\u00e7as e investigadora de pr\u00e1ticas do ensino de m\u00fasica, Teca efende o direito fundamental da crian\u00e7a apreciar, pensar e produzir sua pr\u00f3pria m\u00fasica. Ela critica a falta de reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o musical infantil.<\/p>\n<p>Nas artes pl\u00e1sticas, por exemplo, a produ\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as \u00e9 muito mais respeitada. As pessoas, de um modo geral, tendem a reconhecer o valor de uma garatuja. Um papel com manchas de cores tem um valor est\u00e9tico.<\/p>\n<p>Considera-se interessante como a crian\u00e7a misturou cores e as texturas resultantes. O que ela fez \u00e9 valorizado, h\u00e1 tamb\u00e9m uma preocupa\u00e7\u00e3o com a exist\u00eancia ou n\u00e3o de inten\u00e7\u00e3o em suas produ\u00e7\u00f5es. Mas esse reconhecimento n\u00e3o acontece com a m\u00fasica produzida pela crian\u00e7a.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nNesta entrevista, a especialista discute o assunto e aborda pr\u00e1ticas de ensino que consideram o modo pr\u00f3prio de a crian\u00e7a compreender a m\u00fasica.<\/p>\n<p><strong>Por que a m\u00fasica deve estar presente desde a educa\u00e7\u00e3o infantil?<\/strong><\/p>\n<p>Para responder a essa pergunta, a gente deve dar um passo atr\u00e1s e perguntar o porqu\u00ea da m\u00fasica no mundo, na cultura, na vida do ser humano.<\/p>\n<p>A m\u00fasica est\u00e1 presente na vida como uma linguagem simb\u00f3lica e uma das formas de representa\u00e7\u00e3o utilizadas pelo homem. Existe desde tempos muito remotos e s\u00e3o muitas as pesquisas e teorias que tentam explicar sua presen\u00e7a na cultura.<\/p>\n<p>O homem tem m\u00fasica, sente a m\u00fasica, toca, canta e, de certa forma, todo mundo reconhece sua import\u00e2ncia para o ser humano. E porque \u00e9 importante na vida dos homens deve estar presente no processo de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A m\u00fasica existe na cultura e a crian\u00e7a deve ter acesso. O acesso ao conhecimento musical \u2013 como o acesso a qualquer outra \u00e1rea de conhecimento \u2013 deveria ser um direito de todas as crian\u00e7as, mesmo para as que n\u00e3o v\u00e3o seguir aprendendo m\u00fasica, para as que n\u00e3o v\u00e3o fazer essa escolha profissional.<\/p>\n<p><strong>Que benef\u00edcios ela pode trazer para a forma\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as?<\/strong><br \/>\nTem gente que diz que a m\u00fasica desenvolve a coordena\u00e7\u00e3o motora, a capacidade de falar, afirmam que \u00e9 bom porque a escuta da can\u00e7\u00e3o pode facilitar o processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Outros dizem que \u00e9 importante porque \u00e9 uma forma de apreens\u00e3o dos conte\u00fados: as crian\u00e7as apreendem melhor aquilo que elas cantam porque acionam um outro tipo de mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m aqueles que dizem que a m\u00fasica acalma, relaxa as crian\u00e7as muito agitadas ou, por outro lado, estimula o movimento, enfim. Tenho um p\u00e9 atr\u00e1s com tudo isso e explico porqu\u00ea. Reconhe\u00e7o que a m\u00fasica ajuda a desenvolver esses aspectos, \u00e9 verdade, mas n\u00e3o acho que ela \u00e9 importante por esses motivos.<\/p>\n<div id=\"attachment_2062\" style=\"width: 331px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2062\" class=\"size-full wp-image-2062\" title=\"avisala_15_musica3\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica3.jpg\" alt=\"\" width=\"321\" height=\"233\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica3.jpg 321w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica3-300x217.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 321px) 100vw, 321px\" \/><p id=\"caption-attachment-2062\" class=\"wp-caption-text\">Preparando a sonoriza\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria \u2013 Teca Oficina de M\u00fasica<\/p><\/div>\n<p>Tem que ter m\u00fasica na educa\u00e7\u00e3o porque ela \u00e9 uma forma de comunica\u00e7\u00e3o e express\u00e3o, uma linguagem da sensibilidade, um dos modos de express\u00e3o art\u00edstica. Porque ela lida com a est\u00e9tica e a criatividade.<\/p>\n<p>A m\u00fasica tem a capacidade de integrar emo\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o. A gente vive numa sociedade que d\u00e1 muita \u00eanfase a um tipo de pensamento que \u00e9 racionalista e dualista, que separa as coisas: emo\u00e7\u00e3o de um lado, raz\u00e3o de outro. Existe o pensar ou o sentir, o corpo ou a mente, ou voc\u00ea faz ou voc\u00ea pensa.<\/p>\n<p>Todo esse dualismo, que ainda \u00e9 muito presente na cultura ocidental e tamb\u00e9m na educa\u00e7\u00e3o, a gente transcende quando faz m\u00fasica porque ela integra o fazer, o sentir e o pensar: o pensamento sens\u00f3rio-motor est\u00e1 presente quando a crian\u00e7a toca, canta, se movimenta, escuta.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, ela pensa, em n\u00edveis de complexidade diferentes quando escuta uma produ\u00e7\u00e3o musical, presta aten\u00e7\u00e3o em diferentes aspectos, relaciona outros etc.<\/p>\n<p>A m\u00fasica \u00e9 um jogo de rela\u00e7\u00f5es entre sons e sil\u00eancio e \u00e9 importante poder perceber, ouvir, analisar e criar essas rela\u00e7\u00f5es. O fazer musical da crian\u00e7a est\u00e1 conectado com seu todo, corpo, imagina\u00e7\u00e3o e intelecto, \u00e9 como ela percebe o mundo, se relaciona com o tempo. Esse \u00e9 o benef\u00edcio maior.<\/p>\n<p><strong>Qual o conceito de m\u00fasica que est\u00e1 na base de todo o seu trabalho?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o entendo m\u00fasica como algo fechado e pronto, limitado por suas pr\u00f3prias regras. M\u00fasica \u00e9 resultado das rela\u00e7\u00f5es que a gente estabelece entre sons e sil\u00eancio. Enquanto for considerada uma linguagem fechada em suas pr\u00f3prias regras, composta de melodia, ritmo, harmonia e s\u00f3, id\u00e9ias equivocadas sobre o ensino de m\u00fasica v\u00e3o continuar aparecendo.<\/p>\n<p>M\u00fasica n\u00e3o \u00e9 isso. A combina\u00e7\u00e3o de melodia, ritmo e harmonia \u00e9 uma das formas de produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 caracter\u00edstica da m\u00fasica tonal do Ocidente que teve s\u00e9culos de hist\u00f3ria para chegar a essa estrutura. Est\u00e1 presente na maioria das produ\u00e7\u00f5es que a gente ouve cotidianamente, na m\u00fasica ocidental do s\u00e9c. XV ao XIX.<\/p>\n<div id=\"attachment_2063\" style=\"width: 188px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2063\" class=\"size-full wp-image-2063\" title=\"avisala_15_musica1\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica1.jpg\" alt=\"\" width=\"178\" height=\"174\" \/><p id=\"caption-attachment-2063\" class=\"wp-caption-text\">Teca construindo materiais sonoros com as crian\u00e7as.<\/p><\/div>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 \u00fanica em todas as \u00e9pocas e culturas porque nem toda m\u00fasica tem ritmo e melodia. Muitas produ\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX, por exemplo, n\u00e3o t\u00eam melodia e s\u00e3o m\u00fasicas. Ritmo tamb\u00e9m. Sempre tem ritmo, mas n\u00e3o necessariamente medido, com um pulso, um compasso. Tem m\u00fasicas que trabalham com outro conceito de tempo.<\/p>\n<p><strong>Mas, ent\u00e3o, o que define o que \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nA primeira coisa que temos que entender \u00e9 que a constru\u00e7\u00e3o musical, n\u00e3o s\u00f3 para a crian\u00e7a mas para todos n\u00f3s, se d\u00e1 principalmente pela escuta. \u00c9 a escuta que faz com que determinado conjunto de sons e sil\u00eancios se torne m\u00fasica.<\/p>\n<p>Jonh Cage, por exemplo, um m\u00fasico americano que teve uma enorme import\u00e2ncia no s\u00e9culo XX, rompeu com v\u00e1rias barreiras nesse sentido: ele disse \u201c\u00e9 m\u00fasica o que eu escuto, se eu escutar como m\u00fasica\u201d. E ele morava em Nova Iorque, numa esquina movimentada de Manhattan e dizia:\u201ctodo mundo diz que esse \u00e9 um lugar muito barulhento, mas pra mim \u00e9 m\u00fasica\u201d.<\/p>\n<p>Ele escutava como m\u00fasica, buscava rela\u00e7\u00f5es entre aquilo, percebia texturas diferentes, etc e tal. Ou seja, a m\u00fasica se d\u00e1 no plano interno. Embora seja feita externamente, por meio do instrumento, da voz, ela s\u00f3 se torna m\u00fasica quando voc\u00ea escuta.<\/p>\n<p>Essa id\u00e9ia abre muitas possibilidades: posso organizar sons e sil\u00eancio, dentro ou fora do sistema tonal tradicional. \u00c9 muito importante essa reconceitua\u00e7\u00e3o para que possamos nos aproximar da m\u00fasica da crian\u00e7a, porque elas n\u00e3o produzem dentro de um s\u00f3 padr\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Mas isso implica em uma outra concep\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de m\u00fasica, diferente do modo como vem sendo tradicionalmente trabalhada.<\/strong><\/p>\n<p>Claro, \u00e9 isto. Explicitei essa concep\u00e7\u00e3o no livro que escrevi recentemente<sup>1<\/sup>. Hoje em dia todo mundo fala de uma pedagogia construtivista, buscando apresentar para as crian\u00e7as algo que tenha significado para ela, se dedicando a perceber como pensa o mundo, o que ela j\u00e1 sabe, que hip\u00f3teses ela cria sobre aquilo que percebe e faz em diferentes \u00e1reas, mas com a m\u00fasica isso n\u00e3o acontece.<\/p>\n<p>Ainda se prop\u00f5e, na escola, uma m\u00fasica que n\u00e3o tem sentido para as crian\u00e7as. O adulto, em geral, limita, molda e tolhe o tempo do exerc\u00edcio, da explora\u00e7\u00e3o, do gesto, da pesquisa pela crian\u00e7a, que \u00e9 o caminho para ela chegar, inclusive a um conhecimento convencional e estruturado.<\/p>\n<div id=\"attachment_2064\" style=\"width: 224px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2064\" class=\"size-full wp-image-2064\" title=\"avisala_15_musica6\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica6.jpg\" alt=\"\" width=\"214\" height=\"243\" \/><p id=\"caption-attachment-2064\" class=\"wp-caption-text\">Crian\u00e7a pr\u00e9-escolar construindo um tambor de latas \u2013 Teca Oficina de m\u00fasica<\/p><\/div>\n<p>O que eu vejo, tamb\u00e9m, \u00e9 que as pessoas se ocupam da m\u00fasica sempre em fun\u00e7\u00e3o de outras coisas, quando, na verdade, m\u00fasica \u00e9 m\u00fasica! Tem um valor em si, \u00e9 leg\u00edtima como linguagem, como conte\u00fado.<\/p>\n<p>Uma coisa que me incomoda profundamente \u00e9 perceber como as pessoas n\u00e3o se d\u00e3o conta de que a m\u00fasica tamb\u00e9m \u00e9 uma linguagem cujo conhecimento a crian\u00e7a deveria construir e que os adultos n\u00e3o deixam porque j\u00e1 d\u00e3o tudo pronto.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre o ensino tradicional de m\u00fasica e o que voc\u00ea prop\u00f5e em seu livro? <\/strong><\/p>\n<p>O ensino tradicional de m\u00fasica tende a dissociar o fazer do pensar. O que era aquela aula de m\u00fasica? Conhecer as notas musicais. Na aula de teoria, a crian\u00e7a ficava treinando para ler notas e ritmos, seguia todo um programa, aprendia a usar claves, identificar os compassos. A m\u00fasica era entendida apenas como um sistema de leitura e escrita.<\/p>\n<p>Leitura e escrita musical s\u00e3o partes de um todo, que em geral n\u00e3o era considerado. Primeiro voc\u00ea ia aprender aquela estrutura, para s\u00f3 depois come\u00e7ar a tocar um instrumento. Voc\u00ea aprendia as regras, mas n\u00e3o escutava.<\/p>\n<p>Aprender a ler m\u00fasica, por exemplo, \u00e9, queira ou n\u00e3o, um processo mais complexo, at\u00e9 mais longo, demanda um tempo muito grande, porque ler m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ler bolinhas, \u00e9 ler sons. Implica em um trabalho de integra\u00e7\u00e3o, de percep\u00e7\u00e3o, de escuta, desde o momento em que \u00e9 poss\u00edvel na vida da crian\u00e7a porque h\u00e1 todo um sistema de rela\u00e7\u00f5es, uma s\u00e9rie de esquemas a serem desvendados.<\/p>\n<p>Mesmo na etapa da pr\u00e9-escola as atividades musicais devem estar integradas com a reflex\u00e3o, devem estar sintonizadas com a consci\u00eancia que a crian\u00e7a tem em rela\u00e7\u00e3o ao fazer musical. Assim, aprender m\u00fasica n\u00e3o deve se resumir a escutar ou cantar o que j\u00e1 est\u00e1 pronto.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso abrir um espa\u00e7o para observar o que a crian\u00e7a faz. E isso \u00e9 muito dif\u00edcil quando se trabalha em um esquema em que o professor traz tudo pronto: ensina como cantar, como imitar o bicho, como fazer o gesto certo, como escrever as notas convencionais etc. Mas, para a crian\u00e7a, m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 isso, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Como a crian\u00e7a se relaciona com a m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nEla quer tocar uma m\u00fasica que gosta ou que inventou, que ouviu ou que percebeu como m\u00fasica. A crian\u00e7a j\u00e1 sabe muitas coisas sobre m\u00fasica: sabe que se faz cantando, tocando, que tem instrumentos diferentes, que existem determinados gestos para tocar e observa tudo.<\/p>\n<p>Ela convive com as duas coisas: com o que ouve e conhece na pr\u00f3pria cultura \u2013 que \u00e9 o que lhe d\u00e1 o referencial do conhecimento musical, de constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria auditiva \u2013 e com o seu modo de produzir. Quando pega um viol\u00e3o, por exemplo, reproduz coisas que j\u00e1 viu, que observou algu\u00e9m fazer.<\/p>\n<p>Quando vai ao piano, explora possibilidades, descobre que pode tocar uma nota de cada vez, uma depois da outra, que tem sons graves, agudos, que pode mudar a for\u00e7a. Est\u00e1 o tempo inteiro, envolvida em um exerc\u00edcio de pesquisa de sons e de produ\u00e7\u00e3o de gestos.<\/p>\n<div id=\"attachment_2066\" style=\"width: 214px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2066\" class=\"size-full wp-image-2066\" title=\"avisala_15_musica10\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica10.jpg\" alt=\"\" width=\"204\" height=\"269\" \/><p id=\"caption-attachment-2066\" class=\"wp-caption-text\">Sementes e materiais diversos utilizados nos tornozelos<\/p><\/div>\n<p>Tem crian\u00e7as, pequenas, aqui na escola, que adoram tocar o tema do Harry Potter, tocam com um s\u00f3 dedo tan, tim, tan &#8230; claro, no est\u00e1gio delas, porque ainda n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de fazer essa m\u00fasica com a t\u00e9cnica tradicional, convencional.<\/p>\n<p>Mas o trabalho \u00e9 completamente outro: essas crian\u00e7as est\u00e3o explorando um monte de coisas, as teclas brancas e pretas do teclado, escutando os saltos da melodia, percebendo toda a constru\u00e7\u00e3o. N\u00e3o importa ainda se ela toca com um dedo s\u00f3, o importante \u00e9 que ela pode tocar porque a\u00ed ter\u00e1 a chance de trabalhar outras coisas, e principalmente, fazendo algo que tem sentido para ela.<\/p>\n<p>Aquela m\u00fasica tem um valor para ela e por isso ela quer tocar, fica matutando, quebrando a cabe\u00e7a, at\u00e9 fazer direito.<\/p>\n<p><strong>O que poderia caracterizar um bom trabalho com a m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nUm trabalho que abra espa\u00e7os para as coisas simples que s\u00e3o compartilhadas, as experi\u00eancias de fazer e pensar junto, saber o porqu\u00ea est\u00e1 fazendo, porque chama assim, o que \u00e9 isso. Um trabalho que permita que as crian\u00e7as cheguem \u00e0s suas conclus\u00f5es, que tenham experi\u00eancias, d\u00eaem opini\u00f5es, que escutem, avaliem.<\/p>\n<p>Hoje buscamos essa integra\u00e7\u00e3o: se n\u00e3o era bom estudar primeiro a teoria para depois de muito tempo chegar \u00e0 pr\u00e1tica, tamb\u00e9m n\u00e3o basta ficar na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Com as crian\u00e7as da pr\u00e9-escola, desde pequenas j\u00e1 a partir dos 3 anos, voc\u00ea deve abrir espa\u00e7o para a constru\u00e7\u00e3o dos conceitos com os quais trabalha, o que n\u00e3o significa, absolutamente, treinar para ler e escrever notas musicais.<\/p>\n<p>Elas podem aprender muitas outras coisas sobre a m\u00fasica, como por exemplo, fazer um arranjo musical, conhecer mecanismos e funcionamentos dos instrumentos musicais, conhecer as qualidades dos sons, produzir suas m\u00fasicas.<\/p>\n<p>Na educa\u00e7\u00e3o infantil, a \u00eanfase tem que ser na viv\u00eancia qualitativa da m\u00fasica e na cria\u00e7\u00e3o. A crian\u00e7a deve aprender a escutar, pensar sobre o que ouviu e mostrar o que sabe fazer com os sons que inventa. \u00c9 dif\u00edcil ter um espa\u00e7o em aula para trabalhar com a inven\u00e7\u00e3o porque o professor n\u00e3o ousa.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-2067\" title=\"avisala_15_musica8\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica8.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"298\" \/><br \/>\n<strong>O melhor s\u00e3o as propostas mais abertas? O que as crian\u00e7as ganham com isso?<\/strong><br \/>\nSim, porque as crian\u00e7as precisam ter a oportunidade de construir conhecimentos em m\u00fasica, porque n\u00e3o est\u00e1 tudo pronto para ser repetido. Elas aprendem e descobrem coisas incr\u00edveis. Posso dar um exemplo: eu tenho o costume de ouvir com elas uma cole\u00e7\u00e3o de CDs com m\u00fasicas de crian\u00e7as de v\u00e1rios pa\u00edses. Um dia as crian\u00e7as de uma turma que eu dava aula<sup>2<\/sup> escolheram ouvir uma m\u00fasica da Alemanha.<\/p>\n<p>Eu contei que conhecia uma vers\u00e3o em portugu\u00eas e mostrei um livro antigo que servia para o professor fazer arranjos da bandinha com as crian\u00e7as: era a mesma m\u00fasica, a partitura e uns sinais para elas marcarem. Vendo aquilo, as crian\u00e7as quiseram experimentar. Fizemos uma leitura daquilo, todo mundo entendeu, organizamos tudo bonitinho como manda o figurino.<\/p>\n<p>Mas, na hora de tocar, o resultado foi outro. Vin\u00edcius, por exemplo, que tinha que fazer pem pem pem mon\u00f3tono, apenas marcando o pulso, fez um pam paranran pam pam &#8230; e deu um banho de ritmo, improvisando, pois o que o arranjo indicava era muito pobre para ele! Isso \u00e9 um exemplo \u00f3timo: se ele estivesse em uma aula, onde tudo \u00e9 pronto e fechado, ele talvez levasse uma bronca porque saiu fora do que era para fazer. Mas como estava aqui, teve a chance de criar, de mostrar, de improvisar, tornando muito mais interessante o trabalho.<\/p>\n<p>No ano passado, aqui na escola, gravamos um CD com as crian\u00e7as<sup>3<\/sup> como resultado de um projeto integrando os alunos e os m\u00fasicos que vieram se apresentar nos Encontros Musicais que realizamos mensalmente. Veio o Ti\u00e3o Carvalho<sup>4<\/sup>, que cantou alguns cacuri\u00e1s<sup>5<\/sup>.<\/p>\n<p>Um grupo de crian\u00e7as de 4 e 5 anos escolheu cantar o cacuri\u00e1 do jacar\u00e9, decidindo gravar, tamb\u00e9m, outra can\u00e7\u00e3o popular sobre jacar\u00e9, velha conhecida de todas. No dia da grava\u00e7\u00e3o as crian\u00e7as, sentaram na frente dos microfones e come\u00e7aram a cantar de um jeito que a gente nunca tinha cantado, improvisando, fazendo um canto falado, de um modo muito expressivo!<\/p>\n<p>E no final ainda perguntaram: mas a gente n\u00e3o vai fazer a m\u00fasica da Banda Paralela<sup>6<\/sup>? A gente quer cantar a Banda Paralela! E, mais uma vez, dando um banho de improvisa\u00e7\u00e3o, fizeram o tema dos Banana Split utilizando muitos recursos com a voz, palmas, sons do corpo.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que o professor deve estar sempre junto, trabalhando, propondo, ampliando o repert\u00f3rio.O retorno vem na produ\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, com muita for\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Um professor n\u00e3o especialista pode realizar um trabalho como esse? O que ele precisa saber?<\/strong><br \/>\nEm primeiro lugar, \u00e9 importante que as pessoas tenham uma aproxima\u00e7\u00e3o maior com a m\u00fasica.Tem que escutar coisas diferentes, se interessar, experimentar e produzir sons, e, at\u00e9, se for o caso, procurar uma assessoria at\u00e9 para se sentir mais seguro porque eu vejo que as pessoas est\u00e3o muito reprimidas com a sua musicalidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tem que ser um grande observador da crian\u00e7a porque o professor tem meios de ver como ela se expressa musicalmente, como reage, como interage com o instrumento, o que fala, o que traz quando tem a possibilidade de criar, inventar, improvisar.<\/p>\n<p>Assim, pode propor coisas interessantes e com sentido. No livro eu dou muitos exemplos, tem uns jogos de improvisa\u00e7\u00e3o que s\u00e3o extremamente elementares.<\/p>\n<p>Uma pessoa que n\u00e3o tem um conhecimento musical espec\u00edfico pode trabalhar com as crian\u00e7as e perceber que existem outras possibilidades de fazer m\u00fasica que n\u00e3o sejam s\u00f3 dentro das regras tradicionais da m\u00fasica tonal.<\/p>\n<div id=\"attachment_2068\" style=\"width: 607px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2068\" class=\"size-full wp-image-2068\" title=\"avisala_15_musica7\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica7.jpg\" alt=\"\" width=\"597\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica7.jpg 597w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica7-300x145.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 597px) 100vw, 597px\" \/><p id=\"caption-attachment-2068\" class=\"wp-caption-text\">Instrumentos musicais e ou objetos sonoros construidos pelas crian\u00e7as da escola teca oficina de m\u00fasica<\/p><\/div>\n<p><strong>Vamos falar de algumas propostas, a come\u00e7ar pelos jogos. Como s\u00e3o os jogos de improvisa\u00e7\u00e3o? <\/strong><br \/>\nH\u00e1 jogos de improvisa\u00e7\u00e3o simples que trabalham conceitos e princ\u00edpios da m\u00fasica, como, por exemplo, o contraste entre som e sil\u00eancio. Brincamos muito de sinal verde e sinal vermelho. Cada crian\u00e7a escolhe um instrumento segundo o papel que assumiu na brincadeira: um carro, uma moto etc. Ao ouvir determinado som, o sinal \u00e9 verde, e todos podem tocar como quiser, at\u00e9 que se fa\u00e7a o sinal vermelho (outro som) para todos pararem.<\/p>\n<p>Minha interven\u00e7\u00e3o, nesse n\u00edvel, \u00e9 feita s\u00f3 se a crian\u00e7a estiver fazendo algo prejudicial para ela ou para o instrumento, se correr risco de se machucar ou de quebrar o instrumento. O espa\u00e7o \u00e9 aberto exatamente para observar como a crian\u00e7a toca, que conhecimentos tem sobre aquilo.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o inicial vai se transformando qualitativamente, transformando tamb\u00e9m o pr\u00f3prio gesto, a crian\u00e7a passa a experimentar, por exemplo, jeitos de produzir um som mais suave, mais forte, controlando a for\u00e7a ou a velocidade. Ent\u00e3o aproveito a oportunidade para conscientizar as crian\u00e7as das possibilidades de produ\u00e7\u00e3o de sons com mais qualidade.<\/p>\n<p>Com as crian\u00e7as pr\u00e9-escolares fazer m\u00fasica \u00e9, muitas vezes, contar uma hist\u00f3ria, representar uma personagem. Um tambor, por exemplo, pode ser um le\u00e3o e no jogo \u00e9 poss\u00edvel trabalhar com diferentes qualidades de toques: como o tambor faz para parecer o le\u00e3o quando est\u00e1 com fome? E quando est\u00e1 com sono? As crian\u00e7as buscam os gestos adequados. Inventando hist\u00f3rias, compreendem e desenvolvem o di\u00e1logo na m\u00fasica, al\u00e9m de vivenciarem o conceito da forma.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m dos jogos e da possibilidade de compor, voc\u00ea defende a confec\u00e7\u00e3o de instrumentos musicais pelas crian\u00e7as? Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>O objetivo desse trabalho para mim n\u00e3o \u00e9 substituir os instrumentos tradicionais pelos de sucata. Aqui na escola, por exemplo, eu tenho muitos instrumentos, n\u00e3o dependo dos constru\u00eddos pelas crian\u00e7as na oficina mas, acho essa experi\u00eancia importante do ponto de vista pedag\u00f3gico.<\/p>\n<p>Ela abre espa\u00e7o de pesquisa, de experimenta\u00e7\u00e3o, onde a crian\u00e7a pode mexer, ver na pr\u00e1tica e entender como os sons s\u00e3o produzidos. Construindo instrumentos, podemos investigar os par\u00e2metros do som \u2013 altura, dura\u00e7\u00e3o, intensidade e timbre.<\/p>\n<p>Ao lidar com o mecanismo e funcionamento dos instrumentos a crian\u00e7a pode pensar sobre as quest\u00f5es da ac\u00fastica, saber porque, por exemplo, um el\u00e1stico esticado sobre uma caixa produz um som mais agudo do que quando est\u00e1 frouxo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o muito simples que tem todos os princ\u00edpios de um instrumento de cordas: uma caixa de resson\u00e2ncia que funciona como um amplificador das cordas esticadas. Foi assim que surgiu a primeira lira.<\/p>\n<p>A confec\u00e7\u00e3o de um simples chocalho permite conscientizar a quest\u00e3o do timbre, que depender\u00e1 do material utilizado. Ao construir um instrumento de sucata a crian\u00e7a refaz, de certa forma, o percurso do ser humano na constru\u00e7\u00e3o de seus meios para a express\u00e3o musical.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as t\u00eam solu\u00e7\u00f5es muito interessantes, \u00e0s vezes at\u00e9 parecidas com as encontradas por outras culturas, em outros tempos. Em todas as culturas, em todos os tempos, existem instrumentos musicais de corda, sopro e percuss\u00e3o, e esses tr\u00eas grupos comportam uma grande variedade e, abrem para elas um importante espa\u00e7o de pesquisa e cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo uma pessoa que n\u00e3o tem uma forma\u00e7\u00e3o musical pode pesquisar um pouquinho e construir instrumentos com as crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea acha do trabalho com a can\u00e7\u00e3o? \u00c9 importante aprender a cantar?<\/strong><br \/>\nA escola quase sempre foca o trabalho de m\u00fasica na can\u00e7\u00e3o. Cantar \u00e9 mesmo superimportante, assim como conhecer um repert\u00f3rio de qualidade, mas o jeito tradicional de a pr\u00e9-escola tratar a atividade, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Em geral, o repert\u00f3rio limita-se aos temas sobre datas comemorativas, sobre os n\u00fameros, ou ent\u00e3o m\u00fasica para lavar a m\u00e3o, para a hora do lanche, para descansar, para isso e para aquilo, mas m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 condicionamento.<\/p>\n<p>Crian\u00e7a n\u00e3o precisa disso, ela \u00e9 suficientemente capaz de entender que precisa lavar a m\u00e3o. Fica mec\u00e2nico, um repert\u00f3rio pobre que passa a ser repetido de forma desinteressada sem valor cultural. A crian\u00e7a at\u00e9 canta, mas n\u00e3o escuta. Muito diferente de voc\u00ea sentar em uma roda para apreciar e cantar uma m\u00fasica interessante. Isso tem outro valor.<\/p>\n<p><strong>E o trabalho com a nota\u00e7\u00e3o musical, como fica?<\/strong><br \/>\n\u00c9 importante lembrar que o sistema de escrita musical, o tradicional, que se convencionou usar, no pentagrama<sup>7<\/sup>, \u00e9 fruto de uma \u00e9poca, de um modo de pensar a m\u00fasica, um modo de estruturar sons. Ainda que seja dominante na nossa cultura e no nosso tempo, n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico. \u00c9 apenas uma das possibilidades de escrita musical. Por isso, se a gente pensa em m\u00fasica, de uma forma mais amplamais aberta, reconhece que nem todas as m\u00fasicas est\u00e3o subordinadas a esse modo de escrita.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje existem culturas que fazem m\u00fasica e n\u00e3o tem um sistema de escrita musical ou outros sistemas de registro. O ensino tradicional se descuidou ao ensinar s\u00f3 isso. Perdeu a possibilidade de trabalhar com a crian\u00e7a, por exemplo, a constru\u00e7\u00e3o do registro dos sons.<\/p>\n<div id=\"attachment_2069\" style=\"width: 473px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2069\" class=\"size-full wp-image-2069\" title=\"avisala_15_musica2\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica2.jpg\" alt=\"\" width=\"463\" height=\"271\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica2.jpg 463w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica2-300x175.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 463px) 100vw, 463px\" \/><p id=\"caption-attachment-2069\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o extra\u00edda do livro M\u00fasica na Educa\u00e7\u00e3o Infantil \u2013 Teca Alencar de Brito<\/p><\/div>\n<p>Ao escrever uma m\u00fasica, a crian\u00e7a a transp\u00f5e para uma outra dimens\u00e3o, materializa o som por meio de um s\u00edmbolo gr\u00e1fico. Muito melhor entender esse siginificado do que ser treinada para reconhecer notas musicais.<\/p>\n<p>O contr\u00e1rio tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 interessante, a id\u00e9ia de que a crian\u00e7a s\u00f3 faz: vai andar, sentir no corpo o tempo, o pulso, o ritmo, cantar bastante, mexer nos instrumentos tradicionais e aprender a fazer outros e s\u00f3. Esse caminho parece mais l\u00f3gico \u00e0 primeira vista, mas tamb\u00e9m \u00e9 fruto de um pensamento dualista que investe no fazer n\u00e3o acompanhado de uma reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 muito importante para a crian\u00e7a ter a possibilidade de vivenciar isso, de trabalhar o conceito de outras maneiras para entender o c\u00f3digo, o que \u00e9 isso que ela l\u00ea e escreve, respeitando, obviamente, sua maturidade.<\/p>\n<p><strong>Para finalizar,Teca, de tudo o que compartilhou conosco nesta entrevista, o que voc\u00ea considera imprescind\u00edvel na educa\u00e7\u00e3o musical? <\/strong><br \/>\nA escuta. \u00c9 muito importante aprender a escutar. Trabalho com as crian\u00e7as desde o come\u00e7o, a partir de 3 anos, a diferen\u00e7a entre ouvir e escutar. Ouvir \u00e9 um processo fisiol\u00f3gico, caracter\u00edstico do sentido da audi\u00e7\u00e3o. Escutar implica em colocar aten\u00e7\u00e3o, em estabelecer rela\u00e7\u00f5es, em discriminar. A m\u00fasica se realiza pela escuta, ou seja, no plano interno.<\/p>\n<p>A m\u00e3o e o corpo trabalham muito para produzir sons, mas se n\u00e3o escutamos, n\u00e3o fazemos m\u00fasica estamos apenas produzindo sons. A integra\u00e7\u00e3o de pr\u00e1tica e reflex\u00e3o come\u00e7a nesse n\u00edvel e quando entendemos isso, podemos fazer coisas simples e muito importantes para a forma\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Essa aprendizagem \u00e9 fruto de um processo de constru\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a.<\/p>\n<p><sup>1<\/sup> M\u00fasica na Educa\u00e7\u00e3o Infantil. Leia a dica de leitura, nesta mat\u00e9ria.<br \/>\n<sup>2<\/sup> Teca tamb\u00e9m \u00e9 professora em sua pr\u00f3pria escola, Teca Oficina de M\u00fasica.<br \/>\n<sup>3<\/sup> M\u00fasica pra todo lado, \u00e0 venda na Teca Oficina de M\u00fasica.<br \/>\n<sup>4<\/sup> Ti\u00e3o Carvalho \u00e9 m\u00fasico, pesquisador de cultura popular e organizador da Festa do Boi, que acontece no Morro do Querosene no bairro do Butant\u00e3, em S\u00e3o Paulo.<br \/>\n<sup>5<\/sup> Um ritmo maranhense.<br \/>\n<sup>6<\/sup> Banda de instrumentos de sopro.<br \/>\n<sup>7<\/sup> Pauta de cinco linhas onde se registra a m\u00fasica.<\/p>\n<h4>A hist\u00f3ria do ratinho<\/h4>\n<p>A hist\u00f3ria do ratinho, por exemplo, foi uma composi\u00e7\u00e3o que surgiu numa aula em que Constan\u00e7a trouxe um ratinho de corda. Ela participava de um grupo de musicaliza\u00e7\u00e3o com crian\u00e7as com crian\u00e7as de tr\u00eas a quatro anos. Costum\u00e1vamos cantar bastante, improvisar e inventar m\u00fasicas.<\/p>\n<p>Naquele dia, o ratinho fez sucesso: ele corria de um lado para outro, batia nos m\u00f3veis, girava o rabinho, divertindo a todos. Quando, por fim, o ratinho \u201csossegou\u201d, fizemos nosso c\u00edrculo e sentamos no ch\u00e3o, como costumamos fazer, para conversar um pouco, ouvir as novidades, cantar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o perguntei ao grupo se algu\u00e9m sabia cantar alguma can\u00e7\u00e3o que falasse de ratinhos, e Gabriel logo sugeriu que invent\u00e1ssemos uma.<\/p>\n<p>\u201cBoa id\u00e9ia!\u201d, respondi. \u201cMas como?\u201d<\/p>\n<p>Ele, ent\u00e3o, saiu cantando: Era um ratinho que andava, que andava&#8230;<\/p>\n<p>Seu canto fluiu naturalmente, definindo n\u00e3o s\u00f3 a primeira frase, mas o desenho b\u00e1sico da melodia.A partir da\u00ed, todo o grupo se envolveu na constru\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o, que, primeiro, descreveu o brinquedo, com suas propriedades reais, e depois deu asas \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, integrando at\u00e9 mesmo os conhecimentos que as crian\u00e7as j\u00e1 tinham sobre os roedores: onde moravam, o que comiam, a eterna persegui\u00e7\u00e3o do gato etc.<\/p>\n<p>Trabalhamos juntos at\u00e9 a defini\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o, pois, como \u00e9 natural nessa idade, o grupo foi aumentando o caso, incluindo muitas comidas para o ratinho, para o gato e o cachorro&#8230; Chegar a uma forma equilibrada e f\u00e1cil de memorizar por todos foi uma conquistas coletiva, com a minha ajuda. Eu conversava com eles a esse respeito, at\u00e9 que conclu\u00edram que a m\u00fasica estava muito comprida e que n\u00e3o era preciso falar tanta coisa!<\/p>\n<h4>O potencial da voz<\/h4>\n<p>No seu livro, no t\u00f3pico Descobrindo a voz, Teca sugere diferentes atividades usando apenas a voz, veja o resumo:<\/p>\n<p>\u2013 Experimente brincar pesquisando possibilidades de realiza\u00e7\u00e3o vocal.Voc\u00ea pode come\u00e7ar pondo em pr\u00e1tica as sugest\u00f5es acima, mas deve pesquisar tamb\u00e9m seus pr\u00f3prios recursos vocais.<\/p>\n<p>\u2013 Produza tons (sons que t\u00eam afina\u00e7\u00e3o) e tamb\u00e9m ru\u00eddos diversos: procure descobrir quantas esp\u00e9cies de estalos vocais voc\u00ea pode produzir e estimule as crian\u00e7as a fazer isso tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2013 O trotar de cavalos, a voz dos animais, os sons da natureza, sibilar, assobiar de diversas maneiras etc. s\u00e3o sempre \u00f3timos exerc\u00edcios vocais, que ficar\u00e3o ainda mais interessantes se inseridos em contextos expressivos, conforme j\u00e1 apontamos (uma can\u00e7\u00e3o incluindo ru\u00eddos, uma hist\u00f3ria, um di\u00e1logo entre seres de outro planeta que falam uma l\u00edngua estranha ou ent\u00e3o que falam apenas vogais, apenas consoantes, apenas sons agudos graves etc.).<\/p>\n<p>\u2013 Trabalhar com poesias tamb\u00e9m \u00e9 uma \u00f3tima maneira de conscientizar as potencialidades vocais, al\u00e9m de unir m\u00fasica e literatura. Interpretar uma poesia valorizando seu material fon\u00e9tico, bem como o seu conte\u00fado expressivo, gera resultados interessantes que promovem o crescimento das crian\u00e7as.Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel sonoriz\u00e1-las, transformando-as em melodias, usando instrumentos musicais para acompanh\u00e1-las etc.<\/p>\n<p>\u2013 Sempre conscientizar a import\u00e2ncia da sa\u00fade vocal, como enfatizamos.<\/p>\n<h4>Bibliografia<\/h4>\n<ul>\n<li>Koellreutter educador: O humano como objetivo da educa\u00e7\u00e3o musical &#8211; Teca Alencar de Brito. Editora Peir\u00f3polis, Rua Girassol, 128 \u2013 Vila Madalena &#8211; CEP: 05433-000 \u2013 S\u00e3o Paulo &#8211; SP &#8211; Tel.: (11) 3816-0699 Telefax: (11) 3816-6718 E-mail: vendas@editorapeiropolis.com.br Site: www.editorapeiropolis.com.br<\/li>\n<\/ul>\n<div id=\"attachment_2070\" style=\"width: 164px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2070\" class=\"size-full wp-image-2070 \" title=\"avisala_15_musica9\" src=\"http:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/avisala_15_musica9.jpg\" alt=\"\" width=\"154\" height=\"203\" \/><p id=\"caption-attachment-2070\" class=\"wp-caption-text\">Com M\u00fasica na educa\u00e7\u00e3o infantil, valioso comp\u00eandio da experi\u00eancia e da sensibilidade de Teca Alencar de Brito, o educador n\u00e3o estar\u00e1 sozinho na reflex\u00e3o, indispens\u00e1vel para compartilhar com as crian\u00e7as seu conhecimento<br \/>sobre o mundo, sobre o sil\u00eancio e m\u00fasica e, principalmente, sua criatividade, sensibilidade e disponibilidade de desenvolver plenamente seus talentos humanos. Editora Peir\u00f3polis &#8211; Rua Girassol, 128 \u2013 Vila Madalena &#8211; CEP: 05433-000 \u2013 SP &#8211; Tel.: (11) 3816-0699<\/p><\/div>\n<p><strong><br \/>\nCDs<\/strong> \u2013 Canto do povo daqui \/ Cantos de v\u00e1rios cantos \/ M\u00fasica pra todo lado Os CDs est\u00e3o \u00e0 venda na Teca Oficina de M\u00fasica Teca Oficina de M\u00fasica Rua Capote Valente, 423 \u2022 Pinheiros \u2013 SP CEP: 05409-001 \u2022 Tel.: (11) 3064-2853\/3064-2944<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nessa entrevista com a professora de m\u00fasica Teca Alencar de Brito, uma conversa sobre a import\u00e2ncia da m\u00fasica na Educa\u00e7\u00e3o Infantil<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3211,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22,376],"tags":[1104,294,14,538,333,537,536],"class_list":{"0":"post-2059","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-reflexoes-do-professor","8":"category-revista-avisala-15","9":"tag-revista-avisa-la-2003","10":"tag-educacao-infantil-2","11":"tag-entrevista","12":"tag-instrumentos","13":"tag-musica","14":"tag-producao","15":"tag-teca","17":"post-with-thumbnail","18":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2059","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2059"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2059\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3211"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2059"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2059"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2059"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}