{"id":19193,"date":"2026-10-14T19:12:35","date_gmt":"2026-10-14T22:12:35","guid":{"rendered":"https:\/\/avisala.org.br\/?p=19193"},"modified":"2026-10-14T19:12:35","modified_gmt":"2026-10-14T22:12:35","slug":"quando-dormir-tambem-faz-parte-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/avisala.org.br\/index.php\/noticias\/quando-dormir-tambem-faz-parte-da-vida\/","title":{"rendered":"Quando dormir tamb\u00e9m faz parte da vida"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: center;\">o sono como experi\u00eancia no cotidiano da Educa\u00e7\u00e3o Infantil<\/h4>\n<p style=\"text-align: right;\">Lucila Silva de Almeida (*)<br \/>\n26\/08\/2026<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-19194 alignleft\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/bebe-225x300.png\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/bebe-225x300.png 225w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/bebe.png 463w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/>Pensar o sono na creche e na escola de Educa\u00e7\u00e3o Infantil talvez seja, antes de tudo, um convite a olhar para aquilo que, por estar t\u00e3o presente no cotidiano, corre o risco de deixar de ser visto. Dormir faz parte da vida dos beb\u00eas e das crian\u00e7as. \u00c9 uma necessidade, uma experi\u00eancia corporal, um tempo de descanso, recupera\u00e7\u00e3o e bem-estar. Mas, embora esteja t\u00e3o presente na rotina institucional, o sono nem sempre ocupa o mesmo lugar quando pensamos nas experi\u00eancias que reconhecemos como educativas. Muitas vezes, aparece como um intervalo necess\u00e1rio entre aquilo que consideramos pedagogicamente importante: depois do almo\u00e7o, dorme-se; depois do sono, retoma-se a rotina. Como se, durante algumas horas, a vida pedag\u00f3gica da crian\u00e7a pudesse ser suspensa.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente essa naturaliza\u00e7\u00e3o que me provoca uma importante reflex\u00e3o: o que acontece quando deixamos de olhar para o sono apenas como uma necessidade que precisa ser atendida e passamos a compreend\u00ea-lo como parte da vida cotidiana dos beb\u00eas e das crian\u00e7as nas institui\u00e7\u00f5es coletivas?<\/p>\n<p>A pergunta n\u00e3o pretende defender que o sono seja transformado em uma atividade pedag\u00f3gica, tampouco que se reduza o tempo de descanso em nome de outras experi\u00eancias. Ao contr\u00e1rio. Trata-se de reconhecer sua import\u00e2ncia e, justamente por isso, perguntar de que maneira podemos acolh\u00ea-lo como uma experi\u00eancia que tamb\u00e9m envolve rela\u00e7\u00f5es, escolhas, sensa\u00e7\u00f5es, autonomia, cuidado, comunica\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dormir \u00e9 verbo. \u00c9 uma a\u00e7\u00e3o que acontece no corpo, que possui diferentes modos de acontecer e que se relaciona com a hist\u00f3ria, os h\u00e1bitos, as necessidades e as singularidades de cada beb\u00ea e crian\u00e7a. Essa quest\u00e3o ganha maior densidade quando colocada em di\u00e1logo com a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o Infantil que orienta o trabalho com beb\u00eas e crian\u00e7as pequenas. Afinal, as inquieta\u00e7\u00f5es em torno do sono n\u00e3o s\u00e3o apenas de ordem organizacional. Elas est\u00e3o profundamente relacionadas \u00e0s concep\u00e7\u00f5es que temos de crian\u00e7a, de educa\u00e7\u00e3o, de cuidado e de aprendizagem.<\/p>\n<p>Dependendo de como compreendemos a crian\u00e7a, organizamos o tempo, o espa\u00e7o e as rela\u00e7\u00f5es de maneiras muito diferentes. Se a vemos como algu\u00e9m que precisa ser conduzido pelo adulto em todos os momentos, o sono tende a ser organizado a partir de uma l\u00f3gica de gest\u00e3o dos corpos: \u00e9 preciso faz\u00ea-los dormir, mant\u00ea-los quietos, acord\u00e1-los e encaminh\u00e1-los para a pr\u00f3xima atividade. Se, ao contr\u00e1rio, reconhecemos beb\u00eas e crian\u00e7as como sujeitos ativos, capazes de participar da pr\u00f3pria experi\u00eancia e de produzir sentidos sobre aquilo que vivem, somos provocados a olhar de outra maneira tamb\u00e9m para o momento de dormir, de acordar e para tudo aquilo que acontece em torno dele.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que as contribui\u00e7\u00f5es da Abordagem Pikler ajudam a ampliar a discuss\u00e3o. O princ\u00edpio do movimento livre, associado \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da autonomia, parte de uma imagem de beb\u00ea que n\u00e3o \u00e9 passiva diante do mundo. Na perspectiva pikleriana, a autonomia est\u00e1 relacionada \u00e0 possibilidade de a crian\u00e7a, em condi\u00e7\u00f5es adequadas e no seu pr\u00f3prio tempo, agir por iniciativa pr\u00f3pria, explorar o ambiente e construir rela\u00e7\u00f5es com os objetos e com as pessoas. Essa perspectiva permite formular uma pergunta que ultrapassa o movimento corporal propriamente dito: Que possibilidades de participa\u00e7\u00e3o oferecemos \u00e0 crian\u00e7a tamb\u00e9m nos momentos em que seu corpo precisa descansar?<\/p>\n<p>Respeitar o beb\u00ea, portanto, n\u00e3o significa apenas permitir que ele se movimente livremente quando est\u00e1 acordado. Significa tamb\u00e9m reconhecer seus modos de descansar, observar aquilo que lhe oferece seguran\u00e7a e perceber como participa, dentro de suas possibilidades, dos acontecimentos que envolvem o sono.<\/p>\n<p>Um beb\u00ea pode procurar sua naninha, reconhecer a voz que anuncia o momento de dormir, acompanhar com o olhar os movimentos do adulto, buscar uma determinada posi\u00e7\u00e3o ou precisar de mais tempo para desacelerar. Outro pode despertar lentamente e permanecer por alguns instantes observando o ambiente antes de voltar a se relacionar com ele. H\u00e1 crian\u00e7as que adormecem rapidamente e outras que precisam de mais tempo. H\u00e1 aquelas que despertam tranquilamente e outras que necessitam de um intervalo maior para retomar o contato com o mundo ao redor. Observar essas singularidades \u00e9 tamb\u00e9m conhecer a crian\u00e7a. Cuidar \u00e9 tamb\u00e9m estar atento ao que a crian\u00e7a comunica.<\/p>\n<p>Respeitar os diferentes ritmos n\u00e3o significa imaginar que cada beb\u00ea possa viver uma rotina completamente individual dentro de uma institui\u00e7\u00e3o coletiva. A quest\u00e3o \u00e9 outra: como uma institui\u00e7\u00e3o organiza seus tempos, espa\u00e7os e agrupamentos de modo a n\u00e3o transformar a coletividade em uma experi\u00eancia permanentemente acelerada? \u00c0s vezes, uma mudan\u00e7a aparentemente pequena, como dividir o grupo para a alimenta\u00e7\u00e3o, pode produzir efeitos que ultrapassam aquele momento e alcan\u00e7ar tamb\u00e9m o sono, o descanso e a qualidade das intera\u00e7\u00f5es. Considerar os ritmos dos beb\u00eas \u00e9, portanto, tamb\u00e9m olhar para os ritmos da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o sono se aproxima daquilo que a professora Maria Aparecida Guedes Mon\u00e7\u00e3o problematiza ao discutir as cenas do cotidiano da Educa\u00e7\u00e3o Infantil. Ao investigar os momentos de descanso e alimenta\u00e7\u00e3o, Mon\u00e7\u00e3o evidencia a import\u00e2ncia das rela\u00e7\u00f5es dial\u00f3gicas entre adultos e crian\u00e7as e da integra\u00e7\u00e3o entre cuidado e educa\u00e7\u00e3o para uma Educa\u00e7\u00e3o Infantil de qualidade. Sua pesquisa chama aten\u00e7\u00e3o, ainda, para o fato de que as emo\u00e7\u00f5es expressas pelas crian\u00e7as nesses momentos podem ser desconsideradas e para as contradi\u00e7\u00f5es existentes entre aquilo que os projetos pedag\u00f3gicos afirmam sobre a integra\u00e7\u00e3o entre cuidado e educa\u00e7\u00e3o e aquilo que efetivamente acontece nas pr\u00e1ticas cotidianas.<\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o de Mon\u00e7\u00e3o \u00e9 especialmente potente para pensar o sono porque desloca a discuss\u00e3o do campo da organiza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica para o campo das rela\u00e7\u00f5es. N\u00e3o basta garantir que a crian\u00e7a durma. \u00c9 preciso pensar como ela \u00e9 acompanhada at\u00e9 o sono, como \u00e9 cuidada durante o descanso e como \u00e9 recebida quando acorda. O que o adulto percebe? O que a crian\u00e7a comunica? Como o professor reconhece que aquela crian\u00e7a ainda precisa de alguns minutos antes de se lan\u00e7ar novamente \u00e0 vida coletiva?<\/p>\n<p>N\u00f3s, adultos, sabemos que acordar n\u00e3o significa necessariamente estar imediatamente dispon\u00edveis para a pr\u00f3xima a\u00e7\u00e3o. Quando despertamos de um sono profundo ou somos acordados antes do momento que esper\u00e1vamos, muitas vezes precisamos de alguns minutos para reconhecer o espa\u00e7o, reorganizar o corpo e recuperar nossa disposi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um intervalo entre acordar e estar pronto para outra coisa. Por que imaginar que beb\u00eas e crian\u00e7as n\u00e3o precisam desse tempo?<\/p>\n<p>O per\u00edodo que sucede o sono pode ser uma passagem. Algumas crian\u00e7as talvez queiram conversar; outras podem preferir permanecer um pouco quietas; algumas procuram imediatamente os colegas; outras precisam primeiro reencontrar o pr\u00f3prio corpo. Por que n\u00e3o trazer boas quest\u00f5es para nossa observa\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m para as conversas com as crian\u00e7as: Como foi dormir neste espa\u00e7o? Como o corpo est\u00e1 agora? O que a crian\u00e7a procura quando acorda? Mais do que buscar respostas, trata-se de criar condi\u00e7\u00f5es para que o adulto possa perceber que o despertar tamb\u00e9m \u00e9 uma experi\u00eancia.<\/p>\n<p>E \u00e9 justamente nessa aten\u00e7\u00e3o aos pequenos acontecimentos que o cotidiano come\u00e7a a ganhar outra dimens\u00e3o. Quando o cotidiano deixa de ser apenas rotina, passamos a perceber que ele \u00e9 constitu\u00eddo tamb\u00e9m pelos acontecimentos aparentemente pequenos: guardar um objeto, lavar as m\u00e3os, alimentar-se, trocar de roupa, esperar um colega, organizar um espa\u00e7o, adormecer, acordar, dobrar um len\u00e7ol.<\/p>\n<p>Quando esses acontecimentos s\u00e3o vistos apenas como tarefas necess\u00e1rias para que a rotina funcione, perde-se parte de sua pot\u00eancia. Imagine, por exemplo, uma crian\u00e7a de aproximadamente tr\u00eas anos dobrando seu len\u00e7ol junto com um colega. A situa\u00e7\u00e3o pode envolver muito mais do que \u201cguardar a roupa de cama\u201d. As crian\u00e7as precisam combinar como fazer, observar o tamanho do tecido, decidir para que lado dobrar, perceber que uma dobra transforma o tamanho inicial, acompanhar a sobreposi\u00e7\u00e3o das partes e descobrir que, a cada nova dobra, o len\u00e7ol ocupa um espa\u00e7o diferente. H\u00e1 matem\u00e1tica nesse gesto, h\u00e1 linguagem, negocia\u00e7\u00e3o, coopera\u00e7\u00e3o, aten\u00e7\u00e3o ao outro e participa\u00e7\u00e3o na organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o coletivo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio transformar a dobra do len\u00e7ol em uma atividade de matem\u00e1tica. A pot\u00eancia est\u00e1 justamente em permitir que uma situa\u00e7\u00e3o real do cotidiano produza experi\u00eancias, rela\u00e7\u00f5es e perguntas que n\u00e3o foram artificialmente colocadas pelo adulto. A matem\u00e1tica n\u00e3o precisa ser anunciada para acontecer. A linguagem n\u00e3o precisa ser convocada para existir, assim como a coopera\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa estar escrita no planejamento para se fazer presente.<\/p>\n<p>A vida cotidiana j\u00e1 produz experi\u00eancias e nosso desafio como adultos \u00e9 aprender a reconhec\u00ea-las.<\/p>\n<p>Para os beb\u00eas, evidentemente, as formas de participa\u00e7\u00e3o ser\u00e3o outras. N\u00e3o se espera deles aquilo que uma crian\u00e7a maior j\u00e1 pode realizar. Um beb\u00ea pode acompanhar com o olhar os movimentos do adulto, tocar o tecido, reconhecer seus objetos, antecipar alguns acontecimentos e participar progressivamente dos cuidados que envolvem o pr\u00f3prio corpo. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 fazer todos realizarem a mesma coisa, mas reconhecer o que cada crian\u00e7a j\u00e1 pode fazer e como pode participar daquele acontecimento.<\/p>\n<p><strong>Sono e brincar: direitos que n\u00e3o precisam disputar lugar<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que a discuss\u00e3o sobre o sono encontra uma quest\u00e3o que atravessa profundamente a organiza\u00e7\u00e3o das<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-19195 alignright\" src=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/pes-215x300.png\" alt=\"\" width=\"215\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/pes-215x300.png 215w, https:\/\/avisala.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/pes.png 468w\" sizes=\"auto, (max-width: 215px) 100vw, 215px\" \/> institui\u00e7\u00f5es de Educa\u00e7\u00e3o Infantil: o brincar. Sono e brincar n\u00e3o s\u00e3o experi\u00eancias que se op\u00f5em. N\u00e3o s\u00e3o tempos que precisam disputar espa\u00e7o na rotina. Ambos constituem direitos das crian\u00e7as e fazem parte de sua vida. A quest\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 escolher entre garantir o descanso ou garantir a brincadeira.<\/p>\n<p>Talvez o problema esteja em pensar esses momentos como tempos separados, que competem entre si: tempo de dormir, tempo de brincar, tempo de comer, tempo de cuidar. A vida da crian\u00e7a n\u00e3o acontece em compartimentos. Ela dorme, acorda, brinca, come, observa, espera, conversa, movimenta-se, se relaciona e cuida de si em uma experi\u00eancia que \u00e9 cont\u00ednua.<\/p>\n<p>Por isso, talvez seja mais potente perguntar: Como organizar a rotina para que sono, cuidado, brincadeira, alimenta\u00e7\u00e3o possam coexistir? Essa mudan\u00e7a de pergunta desloca o olhar da disputa entre tempos para a organiza\u00e7\u00e3o de uma vida cotidiana que acolha diferentes necessidades e diferentes ritmos.<\/p>\n<p>E a sala de refer\u00eancia?<\/p>\n<p>Quando pensamos dessa maneira, a organiza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os tamb\u00e9m precisa entrar na conversa. Em diferentes contextos de Educa\u00e7\u00e3o Infantil, o sono aparece como uma das justificativas para que a sala de refer\u00eancia seja organizada de maneira pouco favor\u00e1vel \u00e0 autonomia e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o. Muitos beb\u00eas precisam dormir; portanto, \u00e9 preciso retirar materiais, restringir espa\u00e7os, modificar a configura\u00e7\u00e3o da sala. O sono passa, ent\u00e3o, a determinar o ambiente inteiro. Mas seria poss\u00edvel fazer a pergunta inversa: Como organizar o espa\u00e7o para que o sono tenha seu lugar sem que ele precise ocupar todo o lugar? Essa talvez seja uma das inquieta\u00e7\u00f5es mais importantes. Como garantir na sala um espa\u00e7o para descanso garantindo o movimento e a brincadeira?<\/p>\n<p>Uma sala que pode ser transformada sem deixar de ser refer\u00eancia. Um ambiente que acolhe o descanso sem precisar apagar tudo aquilo que anuncia a possibilidade de brincar.<\/p>\n<p>Isso exige planejamento e uma observa\u00e7\u00e3o atenta dos usos que as crian\u00e7as fazem do espa\u00e7o. Onde os materiais podem permanecer acess\u00edveis? O que pode ser deslocado? O que precisa permanecer como refer\u00eancia? Como os m\u00f3veis podem favorecer diferentes usos? Que mudan\u00e7as s\u00e3o realmente necess\u00e1rias para que o sono e o brincar aconte\u00e7am?<\/p>\n<p>E, antes de reorganizar os m\u00f3veis, talvez valha perguntar: Que experi\u00eancias queremos que essa sala anuncie? Se olharmos para ela apenas a partir da necessidade de acomodar os corpos para dormir, provavelmente construiremos um espa\u00e7o organizado para o sono. Se olharmos apenas para o brincar, o descanso aparecer\u00e1 como um problema. Mas, se olharmos para a sala como espa\u00e7o de vida, poderemos buscar uma organiza\u00e7\u00e3o capaz de acolher diferentes experi\u00eancias. Nosso desafio n\u00e3o \u00e9 fazer caber o sono. \u00c9 fazer caber a vida das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Falar de sono tamb\u00e9m \u00e9 falar das professoras e do lugar que ocupam nesse momento. Sua tarefa \u00e9 fazer todas as crian\u00e7as dormirem, controlar o sil\u00eancio e acord\u00e1-las porque chegou a hora, ou observar, reconhecer diferentes necessidades, organizar condi\u00e7\u00f5es e acompanhar cada crian\u00e7a em sua singularidade? Essa diferen\u00e7a revela concep\u00e7\u00f5es distintas de crian\u00e7a e de doc\u00eancia. Quando o adulto apenas faz a rotina acontecer, o sono se torna mais uma tarefa a cumprir; quando observa e reconhece os diferentes ritmos, o cuidado passa a constituir tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o da doc\u00eancia.<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o importa porque muitas vezes aquilo que aparece como sobrecarga n\u00e3o est\u00e1 necessariamente na exist\u00eancia do sono, da troca, da alimenta\u00e7\u00e3o ou dos cuidados, mas nas condi\u00e7\u00f5es procedimentais, atitudinais e conceituais em que essas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o realizadas.<\/p>\n<p>Quando tudo precisa ser feito rapidamente, quando o cuidado \u00e9 separado do pedag\u00f3gico, quando o espa\u00e7o n\u00e3o favorece a autonomia e quando as crian\u00e7as s\u00e3o compreendidas como aquelas que precisam apenas seguir a sequ\u00eancia determinada pelo adulto, o cotidiano tende a se tornar mais pesado. Ao contr\u00e1rio, quando o ambiente favorece a participa\u00e7\u00e3o, os materiais est\u00e3o acess\u00edveis, os tempos consideram os ritmos das crian\u00e7as e os adultos compartilham uma concep\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a como sujeito, algumas a\u00e7\u00f5es podem deixar de ser tarefas exclusivamente adultas. A pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o do cotidiano pode se tornar mais leve.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que a professora precise fazer menos porque as crian\u00e7as \u201cdar\u00e3o conta\u201d sozinhas. Significa que seu trabalho pode se deslocar: menos condu\u00e7\u00e3o e controle, mais observa\u00e7\u00e3o e acompanhamento; menos organiza\u00e7\u00e3o dos corpos, mais organiza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es para que eles possam participar.<\/p>\n<p>Pensar o sono na Educa\u00e7\u00e3o Infantil, portanto, n\u00e3o significa encontrar mais uma coisa para fazer, nem transformar o descanso em uma nova experi\u00eancia pedag\u00f3gica planejada pelo adulto. Talvez signifique justamente o contr\u00e1rio: diminuir a pressa de transformar tudo em proposta e ampliar a capacidade de perceber o que j\u00e1 acontece. Quando olhamos para o sono como parte da vida cotidiana, sono e brincar deixam de ocupar lugares opostos e passam a compor, junto com o cuidado, o movimento, a alimenta\u00e7\u00e3o, as rela\u00e7\u00f5es e tantas outras experi\u00eancias, uma mesma vida que acontece na institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse cotidiano, feito tamb\u00e9m de pequenos acontecimentos, transi\u00e7\u00f5es, esperas, encontros e diferentes ritmos, que beb\u00eas e crian\u00e7as v\u00e3o construindo modos de estar consigo, com os outros e com o mundo.<\/p>\n<p>Talvez seja essa a mudan\u00e7a de olhar que precisamos sustentar: n\u00e3o se trata de fazer mais, mas de reconhecer mais. Reconhecer que a crian\u00e7a continua sendo sujeito quando dorme, quando acorda lentamente, quando precisa de alguns minutos para retomar o corpo e quando volta a participar da vida coletiva. Reconhecer tamb\u00e9m que cuidar n\u00e3o est\u00e1 fora da educa\u00e7\u00e3o, assim como descansar n\u00e3o est\u00e1 fora da experi\u00eancia educativa. Se a Educa\u00e7\u00e3o Infantil se ocupa da vida das crian\u00e7as, precisa acolher a vida em sua inteireza, inclusive aquilo que acontece quando aparentemente nada est\u00e1 acontecendo. Dormir n\u00e3o \u00e9 estar fora do cotidiano. Dormir \u00e9 parte dele.<\/p>\n<p>______________________________________<\/p>\n<p>(*) Lucila Silva de Almeida\u00a0 &#8211; Mestre no Programa Educa\u00e7\u00e3o, Pol\u00edtica, Hist\u00f3ria e Sociedade da PUC-SP, pedagoga e p\u00f3s-graduada em Educa\u00e7\u00e3o de Crian\u00e7as de 0 a 3 anos pelo Instituto Singularidades. Atua como formadora de professores e coordenadores pedag\u00f3gicos das redes p\u00fablica e privada desde 2002.<br \/>\nDesenvolve projetos de forma\u00e7\u00e3o pelo Instituto Avisa L\u00e1 e coordena o grupo Tecidos de Aprendizagens.<br \/>\nColaborou com a Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo nos projetos Educa\u00e7\u00e3o 0 a 3 anos e Forma\u00e7\u00e3o da Cidade, assessorou a forma\u00e7\u00e3o da rede municipal de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto e participou da constru\u00e7\u00e3o do Curr\u00edculo de Educa\u00e7\u00e3o Infantil de Mogi Gua\u00e7u. \u00c9 autora do livro Intera\u00e7\u00f5es: Crian\u00e7as, brincadeiras brasileiras e escola (Editora Bl\u00fccher) e coautora de publica\u00e7\u00f5es na \u00e1rea da Educa\u00e7\u00e3o Infantil.<br \/>\nEm 2025, integrou o j\u00fari da Categoria Educa\u00e7\u00e3o Infantil do 2\u00ba Pr\u00eamio Professor Porvir e atuou como coordenadora adjunta no PNLD 2026, pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, na avalia\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica de livros liter\u00e1rios para crian\u00e7as de 0 a 3 anos.<\/p>\n<p>_______________________________________<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n<p>ARDOS, Anna; SZANTO-FEDER, Agn\u00e8s. O que \u00e9 a autonomia na primeira inf\u00e2ncia? In: FALK, Judit (org.). Educar os tr\u00eas primeiros anos: a experi\u00eancia de L\u00f3czy. S\u00e3o Carlos: Pedro &amp; Jo\u00e3o Editores, 2021. p. 45-57.<\/p>\n<p>K\u00c1LL\u00d3, \u00c9va; BALOG, Gy\u00f6rgyi. As origens do brincar livre. S\u00e3o Paulo: Omnisci\u00eancia, 2017.<\/p>\n<p>KELLETER, Rafael Ferreira; CARVALHO, Rodrigo Saballa de. Movimento livre e desenvolvimento da autonomia dos beb\u00eas na creche: contribui\u00e7\u00f5es da Abordagem Pikler. S\u00e9rie-Estudos, Campo Grande, v. 30, n. 68, p. 109-129, 2025.<\/p>\n<p>BARBOSA, Maria Carmen Silveira. Por amor &amp; por for\u00e7a: rotinas na educa\u00e7\u00e3o infantil. Porto Alegre: Artmed, 2006.<\/p>\n<p>MON\u00c7\u00c3O, Maria Aparecida Guedes. Cenas do cotidiano na Educa\u00e7\u00e3o Infantil: desafios da integra\u00e7\u00e3o entre cuidado e educa\u00e7\u00e3o. Educa\u00e7\u00e3o e Pesquisa, S\u00e3o Paulo, v. 43, n. 1, p. 162-176, jan.\/mar. 2017. DOI: 10.1590\/S1517-9702201608147080.<\/p>\n<h6><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>o sono como experi\u00eancia no cotidiano da Educa\u00e7\u00e3o Infantil Lucila Silva de Almeida (*) 26\/08\/2026 Pensar o sono na creche e na escola de Educa\u00e7\u00e3o Infantil talvez seja, antes de tudo, um convite a olhar para aquilo que, por estar t\u00e3o presente no cotidiano, corre o risco de deixar de ser visto. 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